LÍRICOS OLHARES

LÍRICOS OLHARES

PENSAMENTO DO DIA

"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

Seguidores

REFLEXÃO

"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




24 de dezembro de 2010

O REFLEXO DA IMAGEM (Cacau Loureiro)

O Homem em sua caminhada terrena tem sido o
reflexo de escândalos e atrocidades.
Em seu livre arbítrio acha-se no direito de desencadear
guerras e devastar a natureza em nome do progresso
e esquece-se que é apenas um tijolo nesta grande obra
do Criador.
O que nos dá o direito de subjugarmos nossos irmãos,
de não aplicarmos a Lei Maior que é a Lei do Amor?!
Onde nossa prepotência e vã filosofia nos levarão?!
Há desgraça e destruição por todos os lados, focos
de tolerância e de solidariedade ainda são escassos.
Ainda enviamos aqueles que nos escandalizam para
os leprosários modernos, ditamos para o outro as regras
que egoisticamente criamos. Oprimimos o fraco e
pensamos que temos todo o poder e em nossa covardia
alardeamos que estamos salvos como se a Divindade
não fosse justa e austera.
Aderimos religiões e esquecemos que a salvação
virá por nossas obras em nome do Salvador.
Recusamo-nos em cada ato diário ao caminho, à
verdade e à vida.
Por que nos escondemos da Santidade e não olhamos
em seu espelho?
Quando olhamos o retrato do mundo como está pintada
a nossa face?
Quais são os pilares que no mundo edificamos?
Quem de vós nesta caminhada terrestre tem sido
verdadeiramente o espelho da imagem do Criador?!

21 de dezembro de 2010

PODEROSO AMOR (Cacau Loureiro)

Há uma melodia que ressoa no universo
desde os primórdios do tempo, ouçamos
a voz que nos fala no íntimo e que nos
recusamos ouvir...
Para onde nossos olhos direcionam-se, para
onde nossas mãos dirigem-se, para onde
estão seguindo nossos pés?
Há riquezas infindas neste caminho por
poucos percorrido e por vezes os espinhos
as escondem, há que se ter coragem para
descortinar este mundo ainda novo para os
homens primatas, para os neófitos de espírito.
O dia que olharmos para o que realmente somos,
nossos corações serão flores abrindo-se ao Sol
do eterno, aos cânticos celestiais.
E seremos rubros como um amor poderoso,
porque traremos nossos corações nas mãos,
ofertando-os como dádivas, em graça e paz.
Não nos fechemos ao estribilho das estrelas,
visto que elas cantam silenciosamente as
canções da eternidade.
As odes que criamos num coração que ama
é bálsamo, é poderoso remédio, é SALVAÇÃO.

20 de dezembro de 2010

QUE BRILHE A VOSSA LUZ (Cacau Loureiro)

O amor de Deus rebrilha sobre todos, como
cintilantes raios renovando-nos o espírito eterno.
A vida é dádiva preciosa, gérmen da inocência e
da humildade, portanto, lapidemos este tesouro
como se fosse filigrana de refinados traços, com a
qual presentearemos o Criador.
Teremos sido luz no caminho de nossos caminhantes,
ou nossos discursos são apenas palavras ao vento?!
Há um fanal para os que têm olhos de ver e ouvidos
de ouvir, lá onde reluz a divindade há um sol perene a
arder, calcinando as dores e purificando a felicidade.
Joguem as sementes, há tantos jardins esquecidos,
abandonados, flores do desprezo esperando as
mãos férteis dos homens consagrados.
Abramos nossos corações à iluminação frutífera, à
claridade que provém do alto, larguemos a sombra
da escravidão que nos impede o crescimento interior,
façamos o aperfeiçoamento do verdadeiro “ser” que o
Grande Pai há muito plantou na Terra.
Qual tem sido o universo que vivemos?!
Qual tem sido a vida que promovemos?!
Qual tem sido o amor que propagamos?!
Sejam tuas mãos lanternas para os oprimidos,
Sejam teus olhos lâmpadas para os cegos,
Seja o teu coração fogueira para os perdidos,
Seja o teu abraço conforto para os aflitos,
Sejam tuas palavras esperança para os descrentes.
Faça neste mundo agora, hoje e sempre brilhar a Vossa Luz!

10 de dezembro de 2010

ALQUIME (Cacau Loureiro)


Há um sinal luminoso para quem sabe amar,
uma D’alva luzidia que guia e conduz...
Como não aceitar as flores e o perfume
deixados em minhas mãos como dádivas
neste mundo de desencontros?!
E eu teço o meu caminho em tua direção,
pois que é em ti que encontro aquietação e
conforto.
Não há donadio maior do que amar e ser amado,
porquanto, dou-te o meu amor sem restrições
de mente , sem limites de espírito, sem óbices
de físico.
Sou contigo alquimia que transcende projeções
físico-químicas, pois que não há fórmulas para
o inarrável que há em mim.
A química que nos une é completa e complexa,
e no entanto tão simples de definir, é panacéia
que trabalha a cura com as cores do arco-íris e
que transforma o que te tenho em ouro límpido,
em diamante raro, em pedra filosofal de todas
as épocas, amor!...

7 de dezembro de 2010

DÍSPAR (Cacau Loureiro)

Primavera e crepúsculo invadem minha janela...
Há flores que renascem em qualquer estação e como
um monumento à vida elas cingem o caminho de cores
como cânticos ao Criador.
Há no ar da tarde que inspiro o cheiro das pétalas tenras
de tua madura mocidade, porque jovial são teus braços
que me acolhem em manhãs morenas, como teus lábios
adocicados que me amenizam a pele em chamas...
Queria te dar tudo o que tu mesmo em mim proliferas,
porque adentras em minha alma sem restrições, assim
como pistilos ao vento dos litorais mais bonitos.
Há no âmago esta vontade que não cessa e irriga-me
todos os poros, todas as minhas sutis vielas, sensações
e pensamentos.
Há um ir e vir de tudo que há em ti e que corre como
criança sem controle dentro de mim... É como viver no
outro, intrínseco, sutilmente amalgamado e no entanto,
tão díspar.
Ah! Eu desejo o teu fértil jardim em que plantas belas
flores aromáticas, éden abissal dos teus encantos...
Eu anseio o rio caudaloso imerso de ti que já vive em mim
sem meandros.
Por hora, recebo esta tarde que morre lentamente em meu
peito, saudade que não passa, desejo do contínuo deleite
das horas vespertinas que só pertencem a ti...

DEVORA-ME (Cacau Loureiro)

Ah! Esta saudade devora-me e
implora-te a toda hora.
Ouvir-te sorrir tão longe é cruel,
mas, saber-te feliz é minha doce
alegria... então sorrio, sorrias.
Esta dor singular, saudade terna,
leva-te o beijo leve que te dou.

Abro-te o meu coração... quero
ir mais além do que pegar em
tuas mãos. Roçar em ti, deixar
meus lábios colarem nos teus...
Calor, carinho, encostar teu
peito nu no meu.

Minha alma, meu coração na
brisa ao teu encontro vão...
Paixão, devoção... ânsia, desejo,
tesão, total união.
Em meu caminho tu és luz, és clarão.

Na penumbra em que vivo a ti
vislumbro, quero sim, quero ir
ao teu encontro, pois que és
encanto nesta contenda, nesta
bravura que é te possuir.

Busco esta fresta, feixe de luzes
em ti, pois que em mim abro esta
brecha... Nada te peço, mas, não me
impeças a sedução.

Entrego-te toda a vontade, força
indômita, flor, flerte, deleite, tal
castidade... todo o meu ser, toda
a fúria, o meu próprio coração.
Devora-me!!!

23 de novembro de 2010

ALADO (Cacau Loureiro)

Há um sol lá fora que segue elevado que ao mesmo
tempo que arde sobre os homens, também arde
dentro de mim...
Ah!...Estes meus humanos rumos vividos em divina
essência no simples fato de tu existires...
Como voar em teu páramo azulado, impermisto,
irretocável em amor?!
Eu traço meu voo cego sabendo onde chegarei, eu levanto
minhas arrojadas asas conhecendo o que saberei...
Nesta história encantada, nada encanta mais que o teu
fado lírico, que a tua alma alada.
Laços profícuos que tomaram meus sentidos todos,
que povoaram meus pensamentos muitos, que afloraram
deleites em minha pele e flores em meu caminho...
Dá-me teu meigo olhar como preciosa joia, tua rara beleza
neste mundo insano para me curar, tua destra forte
neste globo parco em afeto para me maturar.
Teus campos vastos são premissas de um futuro bom que
virá, e eu prometo em tua várzea fértil ser embrião frutífero
a te alimentar em sumo amor, em excelso amar...

21 de novembro de 2010

LIS (Cacau Loureiro)

Eu avisto os lírios do campo, mas ainda não
encontro repouso... flor-de-lis onde deposito
saudade... lágrimas...
Minha aura exposta aos açoites do mundo,
meu coração aberto ao maior sentimento da Terra,
é o que me move, é o que me impulsiona e alenta-me.
O campo que vislumbro a minha frente é vasto,
tão amplo quanto esta esfera injusta, hipócrita da
desumana humanidade.
Contudo, o mundo ainda não me venceu, posto que
todos os dias eu edifico dentro do meu peito o meu mais
íntimo desejo, pois que não há limites para a liberdade
que proclamo em minha verve, o voar livre que intenta
a minha alma, e este grito que não cessa o meu suspiro,
que só faz ardente as aspirações que em mim se infundem...
Sobejam e retemperam-me.
Sobre humana sou quando pouso o meu cansaço em
teu abraço, quando reescrevo a poesia tantas vezes
alquebrada pelos ínvios caminhos dos homens.
Ainda impera a tua doce rima em meus lábios, como
um cântico agridoce que me edifica para o ser, para o ir,
resistir além de todos, além de tudo.
Despeço-me todos os dias da tristeza, porque busco
em cada tarde a doce espera que me convoca a
seguir adiante, e seguir irei.
Sobre pontes, areias, estradas eu suplanto os muros
do egoísmo, o falso amor que envenena o sangue
de toda esta raça de seres...
Em minha autenticidade eu sigo só, pois sós são os que
abrem o peito, e sangram de verdade; e eu esvaio-me
vida afora pelo puro êxtase de viver um amor poderoso.
E quererei sempre a verdade luminosa como o sol que
me levanta todos os dias para o teu despertar profícuo.
E neste amor que me aclama heroína, e nesta dor que me
declara mártir, neste reinado que me intitula rainha
inglória, eu sei que a vida me ofertará os verdes louros,
os verdes louros da vitória, amor!...

17 de novembro de 2010

DISPARATE (Cacau Loureiro)

Muitos alçam seus próprios voos, um voo solo, e na amplidão
celeste suas visões ficam mais curtas, e mais micros e diminutas
as suas sensibilidades.
No macro que abarca a existência, há de se ter olhos de águia
para planar e avistar o mundo que aspiramos, o mundo ideal.
No expresso da vida, há a pressa dos presos, escravos do
dia-a-dia, há as correntes do mundo com gosto de sal da Terra.
E nesta viagem solitária, solitários estão, apreensivos
pensam que estão convictos de seus planos e rotas.
Ah! Como somos soberbos, irmãos da invigilância, amigos
somos das serpentes enfeitadas, do que reluz e não é ouro.
Espreitamos do alto as vidas alheias, os recônditos desconhecidos
dos anônimos da vida e com o dedo em riste apontamos soluções.
Indicamos aqueles que precisam do resgate urgente, da pseudo
salvação e não nos preparamos para nossas próprias tempestades,
não sabemos secar prantos, não sabemos plantar esperanças,
não sabemos colher amor.
Pensamos que em nosso plainar estamos isentos, estamos
a salvo das intempéries, não estamos sujeitos as aflições do
mundo, tampouco aos espinhos das rosas.
À medida que engolimos distâncias, distantes ficamos do
que nos é valioso, do que nos nutre o espírito, do que
nos investe de força e de coragem para o contínuo voo
da dignidade em nós, das reais vozes da liberdade.
Meu trem ainda não passou, minhas metas ainda as teço
com esmero, pois que meus sonhos ainda não morreram,
e o meu âmago, embora contrito, desconheça frustração.


12 de novembro de 2010

AFEITA (Cacau Loureiro)

Tenho provado todas as bebidas...
Tenho inalado todos os perfumes...
Mas, só o que de ti ficou reanima-me
para a continuidade da vida, vivifica-me
para todos os sabores do mundo.
Nas noites insones a cortina da lembrança
é-me bálsamo para o coração inquieto.
Meus olhos pela manhã abrem-se ao sol
que outrora brilhou em meu caminho
permitindo-me o teu calor deífico, porque
em ti eu vislumbrei um arco-íris de belezas
tantas, de caminhos coloridos... saudades...
Não há como nominar os dias sem ti, sem o
teu remanso... esperanças...
Não há como admitir meus lábios sem os teus,
naquele terno abraço que nos reconstruía...
Angústias...
Não há como permitir-me ao prazer sem o teu
prazer, onde nossos corpos entendiam-se...
Solidão...
Sonhos amarrados em meu peito atrofiam-me
as asas, limitam-me o horizonte.
Eu quero as montanhas verdejantes do teu leito,
a liberdade para voar em tua vida...
Amor...

9 de novembro de 2010

ASCENDENTE (Cacau Loureiro)

O meu sol põe-se diariamente em teu
horizonte perpétuo, bonito... Intrigante
senti-lo em minha alma ainda ardente.
Em teu hemisfério abastado, radioso
eu percorro tuas cores de arco-íris e
intuo o teu aroma agradável de jasmim.
Em tuas asas morenas faço interestelar
viagem... Em tua admirável morada a tua
D’alva é quem me guia, assim eu
percorro o teu planeta flamante feito
rebento em um mundo novo, encantado.
Em teu celeste corpo, belo, prazeroso
eu levito feito criança e brinco em
teu transcendente jardim de sonhos!
...

6 de novembro de 2010

IMANENTE (Cacau Loureiro)

O páramo que sobrevoo em tua
morada é de azul sem par, infinito,
transcendental....
Tuas estrelas resplandecentes
mostram-me caminho contemporâneo.
Não temo a tua rota, porque o teu
rumo eu vou tomando como nau...
Não posso parafrasear tal sortilégio.
Teu sol brilhante a reviver-me o
espírito inculto, minha vida tosca.
Neste domínio que a mim se apresenta
indecifrável, eu pressinto-te, eu
escuto-te nos mais silentes recônditos.
Na minha mente absorta, na minha
alma errática, no meu coração vagueante...
A tua imagem fixa!...

4 de novembro de 2010

LIBERTADOR (Cacau Loureiro)


Acredito que ainda existam seres iluminados,
em algum beco do mundo, em alguma viela
da cidade...
Porque nada neste mundo pertence-me...
Então, despojo-me dos andrajos do mundo,
limpo-me dos medíocres da terra.
Tenho subido aos montes, tenho descido ao
inferno das míseras almas, mas o meu cajado
foi firmado no solo dos que olham adiante e
veem que há uma promessa a ser cumprida.
E eu preparo o meu coração para a semente
que irrompe destemida, porque a liberdade
da justiça ninguém estanca, na escolha do
Altíssimo ninguém esbarra.
Depositei minha alma no sacrário dos que
almejam a salvação, mas sou apenas um
pobre peregrino neste planeta de desmandos
humanos.
Por isto, eu abro o meu peito à batalha, abro os
meus olhos ao sol da eternidade e aguardo a
chuva que regenerará os que buscam o prado
do Pai nesta seara do mundo iníquo que vivemos.
E sei que os meus olhos testemunharão a grande
mudança e o meu coração encontrará repouso.
Tenho batalhado nas arenas dos torpes e o meu
aprendizado tem sido pela espada que sangra e
que também cicatriza. Mas, eu espero no Senhor,
Deus de toda honra e glória imortais, pois que
o seu fogo eterno livra, cura e liberta, amém.

31 de outubro de 2010

PELO CAMINHO... (Cacau Loureiro)

Eu vi pelo caminho um jovem chorando...
E o meu coração contrito viajou pelo etéreo do
tempo, aquele que não cala em nós
O vento levantava violentamente a poeira, mas
a chuva da purificação preparava os campos para
nova jornada;
Onde esconderam a seara dos bons?!
O dia a dia é forja para aqueles que enfrentam o
aço mendaz dos egoístas ignaros, mas o meu trajeto
eu cortei na estrada, eu sulquei com a têmpera
dos que querem a transformação.
Eu vi pelo caminho um jovem chorando...
Atordoado pelos longos e altos muros de pedras,
ensandecido pela dor da desesperança que
habita a terra. E eu lembrei das crianças descalças
nas ruas, pedi por todos aqueles que dormem nas
calçadas.
Eu tarjei em meu peito o relicário dos sonhos,
entoei em meu coração a música das estrelas,
porque só as luzes do alto iluminam a solidão das almas.
Eu vi pelo caminho um jovem chorando, constatei
que por nossa ignorância não compreendemos a vida
e não apreendemos a existência, e não percebemos
o outro.
Eu vi pelo caminho um jovem chorando e reconheci-me
nele nas horas de tristezas, nas perdas sem volta que tive,
nos atalhos das incompreensões humanas que vivo.
Eu vi pelo caminho um jovem chorando e li em suas
lágrimas uma mensagem de PAZ...

29 de outubro de 2010

ABISMAL (Cacau Loureiro)

Eu calo-me, mas não há silêncio em uma alma
conturbada, ela move-se, conduz-me ao amargor,
ao fervor, ao furor... agita me.
Detenho-me em minhas mãos aflitas; há silêncios
que me inquietam o espírito, suscitam minhas
recordações, dinamizam meus princípios há muito
coibidos.
Meu coração silencia, contudo, permanece o mesmo
romântico confesso; as palavras na ponta dos dedos,
meus anseios na ponta dos lábios e o fel na ponta da língua.
Assim repouso em tuas mãos meus ósculos já
cansados, mas, contagiados de desejo; assim, sinto-te
assim, tenho-te no próprio refrear do meu apego.
Esta distância, ponte quebrada afetiva, obriga me a alçar
voos maiores, pois que minha alma alada leva-me
ligeiramente a ti.
Neste lapso que nos separa, neste recôndito que tu te
escondes, já muito sorri, chorei também... não tenho
recato em dizer... pois vim à vida para viver!
Por isso desgarrado amigo, a canção que a minha
alma canta, ainda fala de amor e de esperança,
porque foi assim que até hoje vivi.
Há silêncios que estancam pensamentos e
desencadeiam mágoas, que reprimem qualquer
coração entusiasta.
Há silêncios que parecem o fechar de portas,
que são convites ao esquecimento.
Não há silêncio entre minha tristeza, o papel
e a caneta, há sim, o protesto insolente nas
minhas letras, nas minhas palavras.
Este é o meu grito... o que fazer?!
Não sou perfeita!
Os meus ais são como uma espada afiada que
transpassa o teu coração frio, calculista e
descrente, só assim te sangro sutilmente...
Entre a doçura do que sinto e a amargura do
que escrevo, existe um paradoxo abismal:
dois lábios que não se encontram, duas mentes
que não se entendem, duas cabeças que não
se compreendem, dois corações que não se reconhecem,
entretanto, duas almas que não se separam.

28 de outubro de 2010

SILENCIO (Cacau Loureiro)


Não ouço mais as vozes do meu coração,
calado e cansado segue devagar, num
novo ritmo que faça brotar novas emoções.
Não ouço mais as canções do meu coração,
batido e abatido segue sem fazer alarde,
junto aos novos sons do mundo.
Tento extrair poesia em meio a todo o seu
massacre... na verdade, não sinto exasperar-me
a dor, não sinto desesperar-me a ausência.
Em meio ao caos, aos vendavais da saudade,
minhas asas alçam voos maiores, enquanto
o meu coração se satisfaz com as emoções
menores.
Sigo os meus rumos, anversos aos que já
teci, talvez, horizontes abertos para a vida
que não vivi.
Portanto, as feridas abertas instigam-me à
luta, inspiram-me as letras.
Intrépida, ateio fogo nos monumentos de
cera que criei, vou lavando as aquarelas
que pintei das pessoas frias e fingidas;
melhor viver com a nua e crua realidade
dos seres...
Tenho visto muitas coisas, mas escolho
enxergar as que me são preciosas aos
olhos e ao espírito.
Ainda somos os mesmos animais de outrora,
sucumbindo ante os nossos mesquinhos
caprichos, ao nosso cruel egocentrismo.
Entretanto, sigo adiante, na esperança de
reconhecer que coisa inútil me dói...!

23 de outubro de 2010

VIA LÁCTEA (Cacau Loureiro)


Em meu planeta enigmático
surges como luminoso cometa.
Nenhuma previsão humanóide
poderia ser tão enfática e perfeita.
A minha sinuosa órbita fez-me
colidir com espaciais coincidências.
Viagem dentro de nós emblemática
e perfeita!...
Como posso em visionário sortilégio
deter-me nesta aventura admirável e
fantástica?!
Eu adentro o teu universo paralelo,
sem medos, sem bússolas, mapas ou
rotas.
Em espaçonave singular desbravo o
teu estelar alumbramento, conheço
extragaláxia.
Mistérios abissais permeiam esta
empreitada cibernética.
Sigo a tua luz interestelar, miríade
cintilante que me guia à tua Via Láctea.

20 de outubro de 2010

UTOPISTA (Cacau Loureiro)

Nem todo poeta sabe a poesia, nem toda poesia sabe o poeta...
Infeliz é o que não se traduz e não alcança a minúcia da Vida,
a preciosidade do Mundo.
Conheci pseudo poetas, conheci pseudo-humanos...
Impressionante a riqueza da natureza e a pobreza da alma
Humana, como ambos habitam este mundo comodamente.
A comunicação decerto está além das letras, o homem não se
comunica em alma, não se faz ler em espírito.
O poeta sabe ler as entrelinhas, sabe extrair a essência desta
lacuna chamada sentimento.
O poeta nunca será humano de fato, é preciso que ele esteja
transitando entre os mundos paralelos, não podendo pisar com
ambos os pés a crosta terrestre e nem habitar de vez o plano
astral.
O verdadeiro poeta sente dor sim, a dor do mundo, num parto
diário de si mesmo.
Cansei deste mundo caduco dos pseudo filósofos, cansei desta
vida futura que não vem, que não veio, que não virá, “estou presa
a vida” em que a poesia consome-me, mas há muito transcendi
a morte pela palavra que liberta, pela rima que crucifica, pelo verso que degola.
Ser poeta é ser visionário, é ser descobridor de si mesmo.

18 de outubro de 2010

EVOCARE (Cacau Loureiro)


As tuas asas imensas seguem para as montanhas do
tempo distante, para o passado morto nas ferragens
dos homens de aço, lá onde minhas mãos não mais
tocarão...
Mas, as sementes florescem onde as semeamos, porque
as raízes fortes não sofrem com as intempéries, mas
resistem custe o que custar.
Quando voltares, ainda haverá as flores, as quais não
tivemos a chance de vislumbrar.
Quando voltares, ainda cairão as chuvas que na pertinácia
ficaram retidas...
Quando voltares, ainda haverá o sol a impelir-me
para a interior iluminação.
O gérmen do futuro amor jamais perecerá, porque
o relicário maior dos homens ficará para a eternidade,
e nem as mãos dos seres que tecem a discórdia e
que propagam o egoísmo destruirão.
Este decurso extasiou-me o corpo, cultivou-me
o espírito na dor e no sofrimento, fez-me melhor.
Ah! Um dia eu fiz canções que minhas mãos não
poderiam compor, que o meu coração não poderia cantar.
Com a alma dos fortes, com o sentimento dos simples,
renascerei das cinzas, como fênix fabulosa em sua
ardente transformação!...

17 de outubro de 2010

DESDÉM (Cacau Loureiro)

O sol lá fora vai alto a esquentar a marcha dos
homens, a provocar seus corações frios...
A natureza vibrante da vida tem que nos
habitar, nada de fora nos preparará para nossa
própria revolução, para a transformação que
nos impulsionará adiante.
Tolos são aqueles que esperam a grande mudança
do mundo para iniciarem a sua própria.
Há pelos caminhos os estropiados de sentimentos,
há os cegos que só se enxergam, e sós estão...
Há os filósofos dos “conjecturismos” e os que
edificam sobre as areias seus alicerces egoísticos.
O sol haverá de nascer nos recônditos de nossos
âmagos, há de ser luz guiando-nos nesta empreitada
da vida, há de ser mestre a tirar-nos da ignorância.
Aos frouxos, covardes e omissos, o desprezo!...

6 de outubro de 2010

MOTRIZ (Cacau Loureiro)

As flores perfumadas do meu jardim estavam
estáticas no processo estagnado dos meus
ácidos sentimentos, verdade é que o mundo
não para, também as flores não... e elas
floresceram apesar dos espinhos, apesar dos
estacionados homens, contudo, não há pesares,
pois que os pesados fardos ficaram nas estações
já passadas...
A força do sol paira mais adiante, e eu espero, mas
não me contamino com a dureza dos seres, com
a fraqueza das almas, com a fleuma dos covardes.
Ah! Quisera alguns tivessem a força que me move,
o destemor que me conclama a seguir, que faz nascer
este ânimo visceral que ninguém estorva.
Quisera eu mover-me como as flores... que em seus
silêncios amam as palavras e despertam as almas.

27 de setembro de 2010

O MEU PARTIDO É UM CORAÇÃO PARTIDO (Cacau Loureiro)

Sem empunhar armas, bandeiras ou militar em partidos eu sigo a minha trajetória pacífica, mas não antropofágico-cristã a ponto de deixar-me devorar pelos leões da ignorância e passividade nas arenas da política brasileira. Porque não acredito na transformação por estatutos, eu tenho fé na revolução interior que virá pouco a pouco do âmago de cada um de nós que assiste a este espetáculo dantesco.
Não creio em sindicatos e ong’s como estruturadores de caracteres, ponho fé na vontade indômita de mudar este estado de coisas através da ética, pela comunhão do espírito com o mundo e o seu criador, pelo compromisso de deixarmos algo melhor para a posteridade da raça humana.
Num país em que alguns subnutridos do proletariado sobressaem-se e angariam medalhas e recebem telegramas paradoxais do nosso chefe maior com congratulações, quando o governo só investe naquilo que dá voto como retorno, eu ainda confio que o dogma maior a seguir é o “persistir, é o lutar, tenazmente pela mudança em cada pequeno gesto de respeito e preocupação com o próximo”.
Difícil e indigesto e ouvir e ver pessoas de ação nas comunidades discursarem sobre suas verdades e percepções individuais, insanamente ideológicas e irreais tentando dirigir e direcionar os que supostamente não têm direção, quando eles mesmos dirigem-se para lugar algum neste antro de urubus que atacam, corroem e carcomem nossas esperanças de um país melhor para se viver.
O que me deixa atônita é que o povo cansado e indignado com a política vá descansar na praia cego, surdo, mudo e alheio para os noticiários de corrupção e impunidades. Assim a população dorme em seu berço esplêndido com balas a sobrevoar suas cabeças, pouco se importando com os lobos que nos devorarão dia a dia através de nosso sistema de saúde precário, de nossas escolas falidas, com futuro de nossos filhos e netos já comprometidos por décadas.
Neste mundo nada mais me assusta, só me indigna, quando todos nós voltamos nossos olhos para nossos próprios umbigos sem perceber as necessidades alheias, a necessidade real de mudarmos de postura, de atitude diante dos políticos que nos representam.
Nesta terra de loucos e bêbados pelo poder, nós somos equilibristas na corda bamba da política hipócrita, elitista, alicerçada em nepotismos, ameaças veladas, cpi’s e mensalões que são um espetáculo circense da mais baixa qualidade.
Estamos prisioneiros no labirinto das instituições estilizadas e travestidas de “ação social” que só visam lucros e projeção político partidária que transformam com suas caras-de-pau os nossos sonhos em cera e que na verdade deveriam ter como objetivo principal e diretriz o esforço mútuo de grupos para alterar este estado de coisas.
Companheiros, fazendo aqui analogia quixotesca ao chavão de nosso presidente, aquele que nunca vê, nunca toma partido, que não assume, que não se mexe, que não se manifesta e que não pára no país para ver o que realmente vivemos. Neste chão em que se plantando tudo dá, não nascem pessoas honestas, comprometidas com o que prometem, somente fanfarrões?!
O governo quer fazer cortesia com o chapéu alheio, assim diz um amigo referindo-se aos impostos pesados que recaem sobre nós.
Possuímos sim uma tropa de elite, manipulando bodes expiatórios e exterminando qualquer tentativa de progresso legislativo. Lobos maus escondidos atrás das cortinas dos teatros de Brasília, na espreita para devorar a dignidade de nossos idosos, seja nas filas dos bancos, nas roletas dos ônibus, nas emergências dos hospitais, lobos disfarçados de benfeitores das famílias, com suas bolsas, tíquetes e restaurantes que nos enchem de miséria humana, doados como cala boca a uma gente faminta não só de pão, mas de educação e dignidade.
Aos sem partidos, assim exorta um amigo jornalista, eu vos convoco à mudança pela indignação pacífica, mas ativa, sem partidos ou bandeiras, porque “o meu partido hoje é um coração partido”, pois, “os meus inimigos estão no poder...”

20 de setembro de 2010

GAIA (Cacau Loureiro)

Fugidios traços na escuridão escoam
por entre os dedos do tempo, por meio
das sarjetas da distância, em meio ao mar
das humanas tolices...
Se conseguisses olhar-me como um
dia eu te olhei, as vertentes do destino
teriam convergido para o centro das
almas elevadas, para o cerne do amor
sem fronteiras...
Mas para alguns é preciso que haja os
dedos que apontam a direção para seus pés,
como cegos no castelo da vida, como mortos
no cemitério dos homens.
Eu escolhi a luz que jorra sobre a cabeça dos
que acreditam na existência transformada,
que diz não aos indiferentes teleguiados, que
dá um basta aos estáticos de espírito.
O meu caminho é um rio longo, eu sei, doravante
só desaguo no mar das essências generosas...

9 de setembro de 2010

MARCIAL (Cacau Loureiro)

Deslizo minhas mãos sobre as águas
do passado, nelas eu sei, já não mais
posso abrir caminhos.
Eu vi as ondas do destino traçarem
seu percurso, propagando pelos ventos
partículas da partida, diluindo pelo
tempo o pó da história que jamais
será reescrita.
A página amarelada de minha poesia
não tem lábios ou voz, seu rosto é uma
penumbra semimorta, no entanto, as
reminiscências evocam-me a seguir em
frente, obriga-me a prosseguir como
lei marcial resoluta as minhas escolhas.
Eu sigo sim minha própria jornada, pois
há ainda os que sentem a vida vociferar-lhes
nas veias, cortar-lhes o espírito culto como
espada afiada, outros há que há muito
venderam suas almas baratas...

31 de agosto de 2010

FLORES NA JANELA (Cacau Loureiro)

Enquanto colocava minhas flores na janela,
lembrei-me de que um dia disseram-me algo assim:
“que as pessoas que passam por nós não vão sós,
deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”
Nessa melancólica recordação reavivo tantos
pedaços, muitos laços que ainda não desatei,
tantos lapsos do que vivi. Amargas lembranças?!
Não, ainda não sei, ainda não me desfiz das
coisas com as quais me encantei.
Amarguei despedidas, vontades tolhidas,
misturei o fel e o mel, gosto peculiar das coisas
que eu não provei.
Vociferei meus versos audazes em papeis rosas
de amor. Silenciei versos fugazes em rimas doídas.
Palavras... palavras... todas, tolas, dardos tantos
de dor.
E assim me refugiei em Bandeira, evadi-me em
Clarice, mas, sou alma, sou corpo e sou pele,
somente na sonhadora Meireles.
O que serão meus versos... verdades?! Tolices?!
O meu suposto perfil minha alma desmente,
sou profusa no todo que escrevo... sou autêntica
naquilo que quero. Meu sonho itinerante, romântico,
é réu confesso.
Vou voando em firmamentos múltiplos, lenços muitos,
nenhum documento, valsas lindas de despedidas dos
portos que jamais me retirei... Se sofri? Não, ainda não
sei...! Ainda acredito na lenda do final do arco-íris, no
mito da caixa de Pandora, no nascer de novas auroras...
Cinderelas, príncipes e reis...
Fui mulher, menina, perdida; fui melhor um dia, talvez...
Aguardo o final desta guerra, pois ninguém sabe dos
embates que já travei, das batalhas as quais sobrevivi,
das lutas que perdi, das lutas que ganhei; e que ninguém
duvide, dos inimigos que não matei.
De tudo nesta vida, do amargo ao doce eu provei; vou
singrando os mares da alma, emergindo dos pantanais;
meus males, amigo, ainda infindos, como os versos que
rimei. O pranto deu gosto aos meus dias e o sal desta
terra eu provei... minhas mágoas irrigaram-me o espírito,
deram-me versos que jamais tecerei...
Nos espinhos eu vislumbrei as flores, tantas flores...
Flores tantas, de cores que jamais me deparei...
Dou-te as flores da esperança, colhidas por mãos de
criança, nos campos por onde te esperei...

26 de agosto de 2010

SALMO VIGÉSIMO SEXTO (Cacau Loureiro)

Clamemos ao Deus vivo, porque só o sangue
de seu cordeiro é transformador.
Por isto deito a minha alma em seu sangue redentor
para purificar meu coração desapontado.
Não há refúgio mais seguro do que nos altos
montes do Senhor, não há dossel mais quente
do que nas tendas do Senhor.
O homem que é surdo e cego aos ensinamentos
do Pai, torna suas próprias mãos injustas, o seu
peito abatido, suas palavras venenosas e a sua
alma insensata.
Nas paragens do Senhor eu irrigo minha esperança
e colho minha fé como fruto saboroso jamais na
terra cultivado, porque acima do Eterno, ninguém!
Cresçamos diante do inimigo com a arma poderosa
da pureza, pois que justiça e a paz tornam o homem
laborioso e devotado, porque para o justo não existe
infinda noite nem sofrimento eterno.
Não foge do baraço do Portentoso o que causa malefício
ao probo, porque o homem legitimado perante os céus
é feixe luminoso na luz eterna da verdade.
O que labora na boa seara não cruza os braços diante
da pesada charrua, rasga a leiva sob cânticos de alegria.
O Grande Justo convida-nos à Sua mesa, e por Ele será
saciado em pão e azeite, porque o amor não deverá ser
retido como água estagnada.
No coração de cada filho ele pôs um pequeníssimo grão
de mostarda que nalgum dia romperá com toda força
do Divino. O filho amado, o mestre e irmão quebrará
todas as correntes que aprisionam seus filhos pródigos,
rasgará os livros da humana escravidão, queimará as redes
onde nos tocaiam os inimigos, silenciará das praças as
querelas mentirosas, trará a justiça como uma erupção.
Aguardo com paciência no Senhor, por que somente a Ele
eu prometi o meu destino.
Confio Naquele que aponta do mais alto cume da Terra
as pastagens das ovelhas desgarradas e nos promete a
Sua eterna Salvação. Assim seja!

23 de agosto de 2010

ERRÁTICO (Cacau Loureiro)

O silêncio das palavras permanece nos lábios,
como um grito selado pela ausência...
Não há retorno para os caminhos ultrapassados,
nem saída para os becos onde vivem os encolhidos
de alma.
É preciso expandir o coração para o universo
incomensurável do divino e não apenas abrir
os olhos para o mundo dos homens restritos.
O meu voo dá-me mais que dois olhos aguçados,
há um arco-íris que brota do meu peito que ainda
acredita num amanhã de flores perfumadas.
Eu vi no espelho do mundo horrendas imagens,
e eu olhei para mim mesma com o ímpeto da
transformação que liberta.
Toda mudança é lento e doloroso processo, porém,
não mais do que para aqueles que a assiste.
Sou reles mortal neste absurdo mundo, mas, para
os que não edificaram em minha vida, eu vou
rompendo os laços, eu vou deixando ao léu, eu
esqueço à beira do caminho...

19 de agosto de 2010

VATE (Cacau Loureiro)


Busco em tua imagem distante
a inspiração nestes dias de mim
tão ausente.
A tarde é morna e nebulosa;
a tarde é longa e exasperante...
Intrigante é aspirar teus ares,
voar em tuas asas de aedo.
Em meu imenso azul és solitário
pássaro a planar sob as nuvens
de minha alma itinerante.
Calada, permaneço, quando minha
verve é distintamente loquaz,
entusiasta, versada.
Não sei sobre tudo, mas, ora sei
que não me bastam as palavras.
Quero permitir-me em tuas mãos,
revigorar-me em teus lábios
ardentes, aquecer-te com minha
pele calorosa, tocar-te agudamente
o espírito persistente, onisciente.
Há urgência em meu corpo...
O meu instinto ariano grita combativo,
contundente.
Conto amargamente o tempo lento,
irritante.
Sim, eu quero... deitar-me calma em
teu leito e repartir singularmente o
que sobeja em meu sequioso peito.

15 de agosto de 2010

FILIGRANA (Cacau Loureiro)

PARA CLÁUDIO
Tarjei meu amor no
tempo, no espaço,
como nos versos que
deveras escrevo.
Em minhas mãos,
em nossas vidas,
a efígie do afeto,
determinismo, destino.
Unidos como peças de
encaixe, alcançamos os
mais precioso desejos.
Em nossas mãos, em
nossas almas, a mais
delicada obra, o mais
refinado timbre,
filigrana feita de
amor e paz.

14 de agosto de 2010

VELHA INFÂNCIA (Cacau Loureiro)

Quando eu era ainda pequenina,
quando as meninas dos meus olhos
sonhadoras, fitavam o céu e o mar
como promessa, eu sentia a vida
tão vertente no cheiro das flores
das paineiras que acarpetavam o
meu quintal todo de rosa, colorindo
a minha alma fantasiosa nas manhãs
de aragem fresca de outono.
Hoje, ainda fito da janela a mesma
paisagem que outrora desvendei...
A serra distante, neblinada descaindo
em ondas verdes sobre as casas,
cromatizando ainda de certa forma
a minha alma hoje desfigurada.
Criança... na franqueza clara do
teu riso eu louvo a vida, porque
vida eu vejo em ti, nos teus olhos
eu vejo a esperança aclamar a
liberdade do ser, do viver para
germinar, do sonhar com um porvir
colorido, muito mais multicor do
que os desenhos que pintei...
E ainda constato, como ontem que
é preciso caminhar de encontro à
velha infância, do que fomos e somos,
que é preciso acreditar no cheiro
das flores, na inocência dos homens,
na sorte das crianças, e na coragem
que nos incentiva a caminhar, apesar
de tudo, de encontro ao futuro!

6 de agosto de 2010

SALMO VIGÉSIMO QUINTO (Cacau Loureiro)


Senhor, aparta-nos da amargura, limpa
os nossos olhos, esgota-nos o fel.
Traz-nos bálsamo com a tua bondosa
santidade, pois temos andado à beira do
caminho e não mais avistamos os teus
verdes pastos.
Sinaliza-nos com o teu cajado para que
reconheçamos a renovadora esperança.
Pai, toca nossos corações para que a nossa
sensibilidade não esmoreça ante os ímpios.
Mostra-nos o caminho das tuas águas tranqüilas,
espraia a tua divina luz sobre as sombras em
que se fecharam nossos corações insurretos.
Esmaga com as tuas mãos poderosas a dureza
deste mundo aflito e afeito as coisas vãs.
Derrama a esperança sobre os perdidos e
mansuetude sobre os amargos desta terra.
Dá-nos de beber o teu leite farto de benesses;
Oh Eterno, tem misericórdia de nós!
Amansa oh Excelso, os nossos corações
selvagens com tua real e soberana gentileza!
Oh, Mestre, oferta-nos as tuas consolações,
porque caminhamos com sede de justiça.
Mostra-nos a tua libertadora verdade com
o teu manso olhar, com o teu maior amor
que nos é convencimento e entusiasmo.
Estanca nossos prantos que há milênios
abrem sulcos em tuas terras infindas e
feridas fétidas em nossos peitos duros.
Temos suplicado pela confraternização
e pela concórdia entre os homens, contudo
somos rebeldes para com as tuas eternas
palavras, avessos ás tuas verdades perpétuas.
Sacode-nos oh Pai, desperta-nos, oh Pai, para
a fé no futuro, acorda-nos para o trabalho para
o qual Tu nos chama hoje para o profícuo

enriquecimento de Tua seara de paz!...

5 de agosto de 2010

FACE A FACE (Cacau Loureiro)

Talvez eu viva de arrependimentos, não
de remorsos, pois na seara dos bons a
dor é polimento, é remédio, é cura.
Mas, a vida não se integra nos fracos,
apesar do jugo leve, a coragem para
viver não é para qualquer um, mas ainda
há que se guardar a ternura.
Meus olhos veem, meus ouvidos ouvem
e a trava hoje não está mais na visão de quem
olha, está no peito de quem não sente e não vê
com os olhos do espírito...
A pedra é dura... e eu sei que as águas gastam
as pedras, embora elas mudem de lugar, o limo
ainda as encrosta de soberba, de orgulho.
Pior do que travar a luta e omitir-se aos fatos,
pior do que tomar partido é ser partidarista.
Mas, o coração dos limpos é campo de batalha
e de vitórias, não há como soçobrar-lhe.
Ainda que eu falasse a língua dos homens
ainda assim eu seria um estrangeiro.
Este mundo em que eu vivo está longe do
mundo que almejo, e muito aquém do mundo
que eu sonho!...

2 de agosto de 2010

INUMANO (Cacau Loureiro)

Cerro meus olhos para o passado,
lembranças são facas que ferem...
Há sonhos dilacerados pela distância,
há os corações inertes e vazios...
Há cílios molhados.
Em fio fino equilibra-se o amor dos
superficiais, e nem sempre o maior
sentimento é o bastante para agüentar
as agruras da ingratidão.
A sombra da desilusão vem de mansinho,
não faz alarde, e assim corrompe todos
os sentidos, deforma a esperança, faz
florescer o egoísmo; transfigura rosas
em espinhos, converte dádiva em maldição.
As águas sob os moinhos envelhecem,
estagnadas pelo falso amor, pelas
dissimulações, pelo desinteresse,
pela face mascarada dos insensíveis.
Pois que caiam as máscaras!...
Arrebentar os laços só dói para aquele
que os edificou.
Um dia as águas gastarão as pedras,
um dia os homens entenderão além
do tempo presente.
Um dia os homens tornar-se-ão humanos...
Ou passarão... mas eu, passarinho.

30 de julho de 2010

FACE BELA (Cacau Loureiro)

Quando deparo com o teu singelo sorriso,
o mundo fica sossegado e mais bonito.
Com tua bela face a povoar meus instantes
eu retomo as sendas do sol... e descanso na
sombra amena das tuas mainas palavras.
Riacho doce a banhar-me em brandas águas,
a purificar minh’alma desvairada...
Ao teu lado, pacífico transforma-se o meu
caminho de pedras... as minhas lágrimas revoltas.
E eu persigo a pérola invulgar nas tuas profundezas
como um escafandrista extasiado ao vislumbrar
a tuas realeza... e eu bordejo em teu desmedido
mar de amor... em teu continente que eu pensara
perdido.
Participar deste mundo onírico é benesse, sortilégio,
donadio, e eu tenho tudo isto contigo!...
Meu amado, meu amante, minha lousa rara,
“Que o nosso amor pra sempre viva, minha dádiva.”

29 de julho de 2010

ALBATROZ (Cacau Loureiro)


Tentei achar palavras, construí-las em
meu mundo destrutivo, desvalido.
As implosões que me consomem a
alma, tornam-me explosiva, impulsiva,
temperamental...
Neste mundo onde o edificar seria o
natural.
Mas, a intolerância queda os seres,

inverte seus valores, prega a violência,
abjura a decência, origina horrores.
Observo o mundo em sua correria,
aí está a origem de toda a minha
rebeldia.
Movo em meus versos a terra, o céu
que habita os seres, o mundo que
mora em nós, o meu próprio coração.
Queria... em palavras construtivas,
compor uma canção, falar de alegrias,
acalmar os prantos do submundo,
adoçar tantas bocas já amargadas,
libertar tantos sentimentos tolhidos...
Abraço o tempo, rolo pelo espaço,
quero ter noção de quantos eu abraço.
Globos longínquos nesta imensidão
do universo latejam em meu pulso,
esclarecem o meu espírito tão obscuro.
Busco a aurora dos novos tempos, que
trará a luz da libertação interior, da
doação sem limites, do amor. Não
tenho medo nem receios em me expor.
Toco os meus centros vitais, busco o
equilíbrio que jamais tive... jamais.
Deixei um dia que roubassem a minha
paz, mas, na minha mente, ainda a meta,
firme e forte, não me deixa, não se desfaz.
Podem pensar que fui vencida, sub-rogada,
subjugada... mas, ainda está liberto o meu
espírito, que vibra, está vivo, latente, vital...
que o sinto tão rijo, tão forte que transpasso
os limites siderais.
Não mais cairei em negros abismos, pois
que hoje a minha alma se ergue e prossegue,
sublime, celestial...
Nos caminhos da vida, nos rumos dos mares,
não mais verei Leviatã, porque a força que me
move agora, é corajosa,é sã.
Deixarei o passado nas cinzas, onde a brisa o
levará ao sol, onde o orvalho o beberá com a lua.
Não sinto mais amargor em minha língua, tampouco,
azedume em meu peito, sou e estou refeita,

pronta para a luta.
Não edificarei mais sonhos vãos...
Que venham as flechas, que me sangrem os
braços, que me calem a voz, que me ofertem
a dor... pois, sou aço, sou fogo, sou laço forte,
vou rumo ao sul buscando o amor.

28 de julho de 2010

INSANA ORDEM (Cacau Loureiro)

À beira de trilhos sem fim, anjos caídos
seguem para lugar algum...
Por que olhamos e não os vemos?!
Apressados passamos ante a desesperança
que também nos habita.
Homens teus, oh Pai que seguem sem rumo,
abandonados pela pseudo ordem urbana social.
Jovens, quase crianças vivendo uma guerra onde
não sabem o que combatem, não reconhecem
sequer os seus iguais.
A fumaça a enegrecer seus olhos e suas sortes,
não há luz no fim da estrada... quiçá pensaremos
em futuro.
O pequeno fogo que consome tudo, tragando
toda felicidade e também o direito de florescerem.
Onde estarão os homens sãos que ora cegos não
divisam as estações perdidas, os becos onde se
enterram as almas vivas?!
Hoje os semimortos gritam mais que os insanos,
vejo zumbis como mecenas da humana miséria.
Homens tantos ao léu, não há céu para os viciados
da tristeza que sobressaltados permanecem nos
lúgubres recantos da cidade alerta.
Haverá céu para os investidores das desgraças,
para os investidos de poder, para os necessitados
de justiça?
Ah! Meninos, jamais saberão maturidade...
Ah! Meninas, jamais entenderão maternidade...
Existências suspensas como cavaletes eleitorais
representam a moderna crucificação dos mártires
pois, parede negra é a política brasileira, a carta
magna dos boçais.
Lealdade, segurança... Tateamos, nada achamos,
quando levantaremos os mortos que ocultamos?!
Sigamos como à dois mil anos, cegos, surdos,
absortos o calvário da omissão que nos assola.
Vielas, viadutos, barracos, esta é a tela morta
que pintamos.
Na animalidade em que vivemos, onde houver
túnel fechado, haverá mães chorando, corrupção
ativa e vidas expostas, suprimidas. Mas, ainda
velozes passamos, e lá bem ao fundo da poluição
visual que nos tornamos, eu leio:
“Amor, palavra que liberta!...”

22 de julho de 2010

VIRTUAL (Cacau Loureiro)


No silêncio as teclas gritam...
Não mais que o meu coração.
Fechar na tela do mundo o “xis”
da questão, não impede que a marcha
virtual dos homens prossiga.
Morrer?... Dormir?... Despertar!...
Dilacero botões descoloridos,
afasto-me das janelas, pois que
a banda já passou ao largo.
Nas praças as flores renascem
seguindo sempre a canção.
O mundo pulsa, a madrugada ferve
e o homem fenece em enredos irreais.
À noite nos labirintos da cidade a
carne sangra e os indiferentes sempre
estarão no lugar mais quente do inferno.
O universo paralelo vai impondo aos seres
a cinética superficial das humanas relações.
Ainda o meu espírito repousa na rede da
Via Láctea, pois é lá que se revigora dos
frios passantes da Terra.
Em minha esfera poética, onírica não há
lugar para os inertes, para os insensíveis.
Um cerne que não reage ao toque da vida,
ao chamamento legítimo da criação não
inspira, não palpita, não lapida e não percebe
que somente as preciosas almas movem
corajosamente o mundo real.

20 de julho de 2010

ASCA ( Cacau Loureiro)

Com a alma em prantos eu vou revendo a História...
Esqueléticos homens diante de espíritos incultos
curvam suas frontes, arquejam seus ombros
avançam para os campos sem volta.
Quem mais lavará as mãos?!
Na extensão da arena seguem a implorar pais,
amigos, mães, irmãos... até quando?!
Fumaça, cheiros, gemidos, a verdadeira bomba “H”
explodiu mais que terras, quarteis, estradas, ela
explodiu corações.
A humanidade segue incontinente como símbolo
da destruição e o seu tempo parou nas valas das
transformações inglórias, nas minas que não lhe
erguem tesouros, nas trincheiras que lhes rebaixaram
soldados, nas balas que lhes silenciaram os rebentos.
Quando o homem fará sua própria ressurreição,
emergirá dos escombros de sua podre ambição!?
Imagens passam velozes no vórtice do tempo,
homem caos, cães ferozes, algozes das etnias,
ases suicidas indomáveis, camicazes da mutilação.
Adeptos da falsa moeda, judas e vendilhões nos
templos ensanguentados do solo das religiões.
Mortíferos vagões instituindo com covardia a
nova ordem mundial das nações.
Cartas que nunca chegaram, outras tantas que
jamais foram lidas; castas, classes, segregação
levantadas como estandartes, insígnias de poder
e maldição.
Diferentes homens de indiferentes olhares, oh
Pai, o que será libertação?!
Corpos sobrepostos... bandeiras, rações, partidos,
morada de lobos guardiões, cova eterna dos lamentos.

Às águas passam sob moinhos, ainda há a chuva ácida
que não me lava o rosto, mas que me deforma a alma.
Toda noite abro o livro... que História contarei para
os meus filhos?!...
Gazes mortais, aviões, tanques, fogo de calcinações...
Dante, Dante, o teu inferno há muito está sob os céus!...

14 de julho de 2010

SENTENÇA (Cacau Loureiro)


Gostaria de dizer algo diferente
agora, mas, a saudade, a sede
da demora, fazem-me escrever
sobre o mesmo tema, a mesma
história...
Teço em vermelho meus versos,
pois são ardentes, abrasivos.
Escrevo em negro em meu livro,
pois estanque está a alegria,
ferido está meu coração.
Perigo! É o aviso que não leio,
posto que prefiro escrever com
os olhos da alma, com as mãos
do espírito. Eis a minha sentença...
Flagelo meus sentimentos e sei
que tolhê-los é preciso.
Bastou-me te ouvir, não me basta
te conhecer, porque quero amigo,
do fundo do meu peito, sentir-te.

12 de julho de 2010

PHOENIX (Cacau Loureiro)

Aprendi que nem sempre teremos o
amor que damos, e que mesmo assim
não desaprendemos o amar.
Só se comunica no amor aqueles
que aprenderam o que são os laços
dos afetos, pois quando o amor não
se infunde e não se sente na alma
como bálsamo regenerador, não há
como se abrir ao aprendizado do ser,
do estar para o outro.
A caminhada solo do amor já é maravilhosa,
belíssima canção transforma-se quando em
duo podemos caminhar.
Galgamos as altas esferas do sentimento
maior quando sabemos do sacrifício e do
despojamento que ele requer e não o tememos.
Estás preparado, armado, sagrado para a
batalha em que a alma e o corpo deverão ser
égide e broquel?
O coração de quem ama é uma águia, porque
plana altaneiro, porque mais longe vê, porque
mais a vida plena em amor lhe renova.
Recolho-me como fênix no mais alto cume,
entre poucas flores, entre muitas pedras,
pois descobri em meus longos voos que
um amor qualquer nunca me fez melhor...

9 de julho de 2010

VIRA-MUNDO (Cacau Loureiro)

O meu amor forte foi ferro e fogo,
inferno e céu foi a duetar na dança
da vida em meio aos lobos...
O meu brado ecoou como rara
sinfonia que nunca temeu a morte,
onde a tenacidade da minha verve nunca
imergiu no lago dos esquecimentos humanos...
Florescer em alegria ante as dores
do mundo, é ter genes de gigante,
é ser Davi a empunhar única arma
para vencer o inimigo, é estar sempre sozinho.
Feroz eu fui a defender-me, a defender-te
ante as muralhas dos preconceitos, ante os
teus muros de egoísmo...
Mas, o amor não veio para os frágeis, no
entanto, veio para os simples, pois que
para os sencientes somando-se um e um nunca
foi dois, porque para o amor só há um único caminho.
A adaga da verdade divide os rumos, levanta
os muros, apresenta os heróis da resistência e
patenteia ao mundo a lei de que não se pode viver
de insensatez, que não pode haver a pequenez de
sentimentos.
Um seio miúdo não comporta a grandeza do
amor pleno, não suporta a forja em que são
temperadas as índoles dos cunhados a ouro
para o maior laureamento, amar...
Coroa e espada eu trago em punho, em
meu manto acolho e guardo os meus raros
diamantes... num mundo escasso de cavalheiros
eu sou revel, obstinado, um vira-mundo errante!....

7 de julho de 2010

QUIXOTESCO (Cacau Loureiro)

Expor visceralmente o amor é para os fortes.
Ah! Estes modernos Quixotes!...
Mas, ainda há aqueles que sabem e fingem
não saber.
A ferida aberta, o seio que clama... como estes
sinais não reconhecer?!
A ignorância da alma torna-nos bárbaros,
cavaleiros andantes da inoperância.
No espelho em que nos olhamos mentimo-nos,
matamos sonhos, estagnamos esperanças.
Moucos para o grito diário de nosso âmago,
próximos sempre da invigilância.
Esconder-se da vida é covardia, sufocar o
amor que flui do outro, insanidade.
Há os seres que dormitam para a existência e
jamais saberão felicidade!...

5 de julho de 2010

RESSURREIÇÃO (Cacau Loureiro)

Minha obliterada essência almeja a ressurreição!...
Há lágrimas em meu rosto sulcando-o em
pranto universal... avisto paragens distantes
entre a cortina nevoenta que se encerra em meu caminho.
Vãs foram muitas das minhas lutas... infames batalhas.
Séquitos escabrosos estagnaram os meus passos,
estancaram meu voo libertário em vaidades e
narcisismos hediondos.
Meu espírito ainda combalido busca a cura
para as feridas sangrentas que me rasgam
as esperanças em mil pedaços.
A vingança acena em minha fronte, assinala
a vil inclemência de um peito agudamente ferido.
Afogo as palavras ensandecidas e ferinas para
que elas não tomem minha alma delirante.
Os meus dias são duros ensinamentos e
transcorrem devagar no afã de coisas mortas e
fugidias. Vãos caminhos que se vão pelas sendas da
memória... pelos trilhos das estações intermináveis e
intermitentes... eu vibro em rebeldia entre dentes.
Meus olhos não mais querem ver, meus ouvidos
não mais querem ouvir... não há princípios nem ditames.
É o fim! São os cânticos que reverberam em minha cabeça!
Ando a esmo por entre os escombros humanos,
tentando resgatar almas semimortas, semi-inteiras.
O cansaço é açoite, pesado fardo a curvar-me o cerne
irascível, empedernido... a dor lacera a minha têmpera
corajosa e justiceira.
Minhas mãos doem ... é aguda a flecha que penetra
minha carne quente, conturbada.
Ponho-me de joelhos ao léu, sou tudo e nada diante
do excelso Criador: perdoe por favor reles criatura
cambiante, desesperada!...
A chuva cai abundante em campo árido, o horizonte
relampeja em novas bênçãos... oro aos céus humildemente,
dou-me em corpo e alma ao divino eterno e imortal.
É doce a canção que vem no vento da equidade,
soprando em minha boca toda virtude,
penetra-me quinta-essência de santidade.
O perdão brota como semente sã e de benignidade,
minha gema em santificadas mãos se revigora.
Em teu manto, oh Supremo de amor e bondade!...
Sou recomeço, renascente luz em tua imensurável piedade!

30 de junho de 2010

OUTONO MORTO (Cacau Loureiro)


Nestas horas que alongo os meus dias frios
eu aqueço o esquecimento...
O vento passa gélido e veloz através das
folhagens de um outono morto num beijo de

morte em futuro fruto maturado em vão.
As mórbidas estações fendem o destino das almas,
alteram as rotas das marés e os rumos dos trilhos.
O sol que sempre brilhara no fim da estrada,
apagou-se; não há apogeu para sentimentos parcos,

para os frágeis laços tecidos em indiferença.
Vestígios de belos gestos dissolveram-se na areia
movediça das insanidades, sucumbiram ante as
águas fartas dos extraviados amores.
Faltou dizer, faltou fazer, faltou sentir, faltou saber,
faltou olhar e perceber que um seio egoísta adoece e

morre...
Há partículas de homens suspensas no vento, num
tempo que lhes despiu do amor em um mundo perdido
em outono morto!...

22 de junho de 2010

SALMO VIGÉSIMO QUARTO (Cacau Loureiro)


Grandioso Pai, Senhor construtor deste maravilhoso
universo, corrige-nos nossos corações magoados,
aviltados pela miséria do espírito humano.
Que Tu possas trabalhar em nossos âmagos a tolerância,
mas, jamais nos permita a omissão e livre-nos da avareza
dos afetos.
Que em Teu nome poderoso, Tu possas direcionar-nos para
o caminho do bem, para a confraternização com nossos
irmãos de jornada, filhos teus, no solo do entusiasmo incessante.
Que o teu amor possa achar morada em nosso íntimo, e que amar
seja a verdadeira guerra a travarmos.
Dirijo a Ti, oh Pai, a minha prece porque só em Ti a minha
confiança. Somos errantes neste mundo, mais das vezes mal
agradecidos, pois nosso entendimento está aquém de tuas
eternas leis. Contudo, rogo-te que diante das dificuldades
e angústias possamos crescer em aprendizado.
O teu sopro Amantíssimo, quando te abrimos os nossos
corações em sinceridade é como bálsamo a cicatrizar nossas
feridas crônicas, pois que a raça humana fere e transgride.
Agradecemos-te oh Eterno, pelos missionários teus neste
mundo de horrores, porquanto, testemunhando-os reedificamos
a esperança.
Oferecemos-te Digníssimo, os nossos espíritos alquebrados
para que neles possa edificar a fé que redime e que consola.
Em tuas mãos nossas dores cessam, ante tuas leis os homens
passam, não tememos os bípedes embrutecidos, tampouco as bestas
humanas, porque antes de pisarmos neste mundo vão conhecemos
a tua verdade, e só a tua verdade liberta-nos. Assim seja.

16 de junho de 2010

OUTONAL (Cacau Loureiro)


Num monumento
vislumbro a liberdade,
as asas que sequer
sonho em voar; o
cetim plúmbeo que
encobre a aurora
nova será breve,
como breves serão
nossas tristezas.
Perdidos estamos
em sonhos tantos...
estradas...
Por estes caminhos
que não possuem
sequer sinais, já é
outono... e por estes
lamaçais da vida, ainda
há flores brotando.