LÍRICOS OLHARES

LÍRICOS OLHARES

PENSAMENTO DO DIA

"À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo" (Dom Quixote)

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REFLEXÃO

“Seja qual for o país, capitalista ou socialista, o homem foi em todo o lado arrasado pela tecnologia, alienado do seu próprio trabalho, feito prisioneiro, forçado a um estado de estupidez.” (Simone de Beauvoir)





30 de setembro de 2018

CANTARIA (Cacau Loureiro)




















Os ventos alvissareiros da primavera ferem-me o rosto... 
não prometem para o meu riso preso nas garras da
desesperança, a absolvição.
Prisioneira das incertezas eu singro o mar ignorado
pelo roto submundo dos homens.
Sinto pesar dos que navegam em seus próprios rumos
presunçosos em discurso para um ser só.
Pertenço a lugar algum e consome-me a angústia
de saber que terei de escolher para onde irei.
Deixo-me viver pelo instante que morrerei...
Movo-me nos meus velozes pensamentos cujas
lembranças não germinam vivazes no sol morno
destas manhãs onde setembro finaliza.
Toco as areias do tempo... enquanto a poeira resseca
meus olhos, meus lábios já não tecem mais os caminhos
molhados dos nossos corpos.
Há as estradas, há os trilhos, há as trilhas... os descaminhos
de nós para entoar o canto triste das músicas que já não
compomos mais.
A certeza, não existe o medo, não existe... nem do futuro e
nem da solidão.
O silêncio já não inocente que desmistifica sentimentos,
a fuga ao diálogo que não promove saídas, a certeza do
intransponível muro de quem não comove um coração oco,
e nem desperta um cérebro de pedra.

20 de maio de 2018

AZORRAGUE (Cacau Loureiro)

















Calarei minhas inquirições, pois ante a
sua inquisição queimarei as cinzas que
nos restam...
Banho as feridas no sal do passado, a dor
faz tremer minhas entranhas porque
a cura depende de simbioses, da
transmudação da água em vinho.
Correm-me suor pelas mãos e meus
olhos não querem mais acreditar no
que vem de ti.
Gélida e oca eu sinto a minha alma,
deverá haver um bálsamo, um apanágio
para a distorção dos seres, para as confusões
do espírito e para o paradoxo dos torpes.
Eu quero como um nômade sedento ter visões
de oásis, de ilhas redentoras, sentir na pele
os ventos refrescantes.
Quadros que pintei... arco-íris, libações poéticas,
 a natureza morta da indiferença que me
mancha os sonhos e me escarnece o corpo
doem-me como os sacrifícios que elevei a ti.
Arranquei as vestes, entrego o sagrado que
cultivei na têmpera da coragem em nudez
aos açoites de seus conceitos arraigados
em bases idiossincráticas vazias.


5 de março de 2017

DESIDÉRIO (Cacau Loureiro)















Na penumbra dos conceitos desconcertados deste
novo mundo louco, eu me escondo sob a sombra
da poesia enroscada e emaranhada nos passos do
desiderato violento humano.
Temo pelo destino que nos espera quando nossa
esfera tão minuciosamente criada através dos
milênios reage compulsivamente ao nosso cruel
descaso e desengano.
Ante o inferno de Dante que nos espera...
O sulco da terra chora o nosso ostracismo,
lamenta a nossa paralisia, condena a nossa
covardia, omissão dos éticos valores.
Choraremos por muitas eras nas heras sobrepostas 
em nossos túmulos irrelevantes... 
Pois que nós humanos estamos longe de sermos
o mimo da criação. Porque presunçosos pensamos
que somos os eleitos quando abandonamos nos leitos
e ao relento as verves dos nossos gérmens, pais e mães...
Não somos dignos deste mundo, nós é que somos
vãos ante as dores de nossos irmãos, ante a crença
fanática àqueles que abraçam os podres poderes.
Matamo-nos em sede e molhamos nossos dedos
em águas que não deveriam nos deixar cair em
tentação, mas não nos livram do mal que causamos.
Nestes andares do tempo erectus que traçamos,
na evolução humana que nos mostra levantando
vejo as mentes habilis decaindo. Meu Deus! ...
Constato o homem monstro inescrupuloso que
nos tornamos...
A arte bela que hoje ainda envolve nossas bestiais feras
seria o prenúncio da salvação desta escatológica era! ...

15 de janeiro de 2017

CAMINHO (Cacau Loureiro)
















Como posso manter em minhas mãos as lembranças?!...
Não há como mantê-las sob controle porque o coração
vai ao ritmo das marés... A nau do tempo segue adiante
pois que os portos da vida mudam de lugar.
Os lenços das alegrias e das tristezas acenaram em
muitos litorais, singraram desconhecidas terras,
abriram fendas nas almas navegantes.
Mil verões transpassaram meu peito no calor
insuportável das distâncias...
Mil trilhas marcaram os meus
pés na lacuna inconcebível dos corações amantes.
Por que as histórias dos homens são cultivadas sob lágrimas? ...
Por que o enredo dos amores são germinados por saudades? ...
Como posso manter em meu âmago as lembranças?!
Não há como mantê-las sob controle porque o espírito
vai ao ritmo do austral. A rosa dos ventos roda sem rumo
ante os sonhos impossíveis dos homens.
Os cânticos das tristezas e alegrias foram ouvidos para
além-mar, mudaram rotas, criaram raízes, fecundaram florestas...
Moveram montanhas... trouxeram-me caminhos...
Você!


25 de novembro de 2016

FLOR DO SOL (Cacau Loureiro)


Se só me enxergas através dos outros nunca
seremos nós...
O teu universo fascinante abarcou muitas
dimensões, e já não temos mais como nos
olharmos em face do microcosmo que sustenta
tantas esferas.
Lembranças... as músicas, as frases, os poemas,
nos exercícios diários de manter o sentimento...
São reminiscências...
Ainda cultivo o achado da paixão, ainda vivo
a descoberta do amor... Pois que suas nascentes
realmente vivem em mim! ...
Constato que podemos desejar tudo de melhor
aos outros, mas, se não o desejamos a nós mesmos
a vida torna-se vazia... tornamo-nos evasivos.
E desatentos à vida morremos vagarosamente,
e destemidos ante a morte, de fato não vivemos.
Se não tememos as perdas nos transformamos
em robôs resignados aos comandos do mundo.
Eu preciso da envergadura dos girassóis em que
o único lugar a que se dirigem forçosamente
é para o sol! ... 

30 de junho de 2016

BASTA!? (Cacau Loureiro)


 
Nem sempre o que aspiramos na vida

quando aparece a nossa frente, e não é

a melhor hora para decidir, nós nos

defrontamos... Por que nós não topamos

a parada?!

Pois que decidir o tanto, o quanto, o tudo que

queremos (na hora que diria, seria a errada)

é "feito" para as têmperas corajosas.

Nossos conceitos tão arraigados, esfacelam-se

ante as incertezas, e nós melindrados pelas

dúvidas recuamos, queremos a dilação do

tempo que não espera; e o bonito, a poesia que

deveria ser consonância para a transformação

do nós, vira dissonância, pois que se perdeu

a época e a hora.

Não creio no Homem ante suas próprias mazelas! ...

Ele se acovarda para continuar no marasmo que

já conhece porque o desconhecido lhe apavora.

Sair-se de dentro de si, é um ato de abandono,

mas também de reencontro consigo mesmo, e

isto é para as intrépidas almas.

Temos que estar amarrados como quando

Primitivos como o cachorro à linguiça?!

Prisioneiros de nós mesmos não nos deixamos florir,

nem para a vida, nem para o outro e nem para si.

Nem mesmo para a palavra que liberta que

seja a do não ou do sim.

Não queira agradecer-se por não ter se

empenhado em nada, nem no fio do bigode

e nem no fio da navalha.

A vida ela não apenas deve ser bonita, mas deve

me convencer de que o mundo para uma jornada

só, não basta!? ...