SOBRE ESTE ESPAÇO

❦ LÍRICOS OLHARES ❦

Este é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Este olhar é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.


Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira.

— Claudia Loureiro

26 agosto, 2026

REENTRÂNCIAS (Cacau Loureiro)


Eu quero ser triste com a tua ausência,

mas me encontro em ti, mesmo na lonjura

da saudade... sorriso aberto... Porque

pensar em ti é alegria que se vê.

Vou às ruas e ando a esmo, talvez para

não pensar em não te ter. A vida segue

quando te sigo, pois se move em meu âmago

a tua música, povoando meus sonhos

e pensamentos... em dobras de memória.

 

Todos os dias, a tua companhia, que já não

mais se esconde em mim... e eu sussurro

teu nome ao vento dessas tardes em que

meu corpo te chama.

Tua pele alva, aurora novedia, traz-me

o brilho do teu riso — sol que se levanta

com a vida que ainda se move em ti para

comigo.

 

Teu ser tatuado em meus poros, curvas

e estradas onde meu destino se perdeu

e, também, encontrou morada.

Arcanjos me contaram o segredo

da fonte da juventude: crescer no amor

que amo em ti, sempre contigo.

 

Ainda o teu sorriso me espreita nas longas

madrugadas em que te desenho nas paredes

do meu quarto... Furta-cor a

adentrar meus olhos e reentrâncias,

teu cálice a matar minha sede,

teu vinho doce a me entontecer.

 

E os teus pelos em minhas mãos são como

sedas orientais, vestindo a minha nudez

que, em teus braços, se fez de eternos

momentos em dossel de paixões.

 

Águas de março a se moverem nos alísios

mornos de um novembro inesquecível...

E eu, entre o desejo e o desamparo,

ainda encontro em ti

o lugar onde o meu coração

não aprendeu a partir.


04 agosto, 2026

ENTRE LOUROS E ADAGAS (Cacau Loureiro)

A noite caminha em meu peito, entre silêncios,
a passos largos rumo à falta que me fazes.
As palavras emudeceram ante a distância;
agora resta apenas um caminho sem volta.

A covardia destrói as pontes, e não há
amor que resista à morte da confiança.
Assim prossigo, olhando para a frente,
deixando pedaços do passado para trás,
como carne lançada aos falcões.

Então volto os olhos ao espelho do tempo,
passo as mãos pelos ramos verdes
que ainda emergem
da terra seca das lutas vãs,
onde, aos poucos, teus traços
se apagam de minha memória;
o alívio pousa sobre
minha máscara de ferro.

Restam apenas cabeças cortadas.
É chegada a hora das decisões.

Meus braços descem ao longo
do corpo que sempre esteve em alerta,
quando os pensamentos corriam de um lado
ao outro, perdidos em porquês que
jamais encontraram sua linha de chegada,
pois toda travessia terminava sempre
diante do fosso vazio das fortalezas.

Então parto dessas arenas de lutas inglórias:
leões,
areia,
sangue invisível
ante os padecimentos
daqueles que almejaram ser heróis.

Olho ao derredor desse picadeiro dos bobos,
onde tudo sucumbiu sob o fio da adaga
para que eu ostentasse os louros da vitória
na fronte...
e todo esse vazio
nas mãos.

02 agosto, 2026

CANTOS DA CASA (Cacau Loureiro)

Há um sorriso neste domingo a se
esconder pelos cantos da casa...

Incenso a entrar por minhas narinas,
nos suspiros que a saudade toma
de meus pulmões.

Eu bebo, aos goles, o café quente
que aprendi a partilhar contigo,
com gosto de manhã ensolarada,
céu azul que se abre em mim
em luminosidades.

Luzes... é o que relampeja
em meus olhos.
Ritmos... é o que prorrompe
em meu corpo,
dança de almas na noite
que permanece quando o astro maior
se levanta no horizonte
para brindar sua permanência
nestas terras de ninguém.

Quando me permites o teu
solo fértil,
que se espraia por meus
jardins e canteiros,
flores plantadas
a quatro mãos...

E o teu riso solto pula
em meu colo,
como surpresa dos deuses
para aplacar minhas dores,
para secar minhas lágrimas,
para fazer sorrir
meus olhos negros,
feitos de madrugadas insones...

O vento balouça as folhas
e traz as pétalas
no assoviar desse canto
bonito,
dessa música que a ti pertence
e ocupou todos os cantos
da casa.

01 agosto, 2026

ISTMO (Cacau Loureiro)

Eu te velejei por esses mares de
ondas brancas, gigantes...

E navego... sempre para o teu horizonte,
onde as linhas juntam céu e mar.

Águas de cristas douradas que me
teceram um colar precioso,
ornando o meu coração
com o brilho das paixões.

Correntes temperadas pelo sal
dos teus lábios,
gosto dos gostos da tua alma rara,
ilha dos amores...
istmo de ti.

Mergulho profundo, regido pelo canto
das sereias,
sete mares em poesia,
braçadas nos redemoinhos do teu dorso,
traçando as rotas subterrâneas
dos mistérios abissais.

Corpos molhados, amalgamados
como no encontro entre rios e mares,
nascentes dos desejos a
derramarem singulares paisagens...

Refluxo e reflexo das marés,
onde os verões alteiam o sol
para que a lua desponte
inteira no teu sorriso.

30 julho, 2026

VOZES DO TEMPO (Cacau Loureiro)

Ouço as vozes do tempo, elas
rimam a poesia da jornada...
Versos cravados no peito,
como inscrições na casca
das árvores, onde sonhos e
paixões deslizam como a brisa
da manhã em meus cabelos.

Sopro aos ventos, levanto as
cinzas que me fazem aspirar
as histórias... fogueira que
ainda hoje arde em mim.

Vesti meu vestido colorido,
laço de fita na criança que
ainda cresce e vive... sorri
ao enfrentar as intempéries,
brinca na chuva, corre pelos
quintais entre as flores rosadas
das paineiras, tronco forte a
se erigir ao céu, azul estonteante
das lembranças.

Colher os frutos maduros e
alimentar o espírito das coisas
fecundas, sementes a se espraiarem
com a força indômita da natureza
que persiste, resiste e floresce...

À sombra das memórias, rebusco
o que agora sou e canto aquelas
canções que embalaram sonhos,
a vida, rede dos profundos afetos.

Viajo como os pássaros,
olhando do alto o cume que
galguei em lições, e hoje me
assento na escola dos belos
ensinamentos, aprendiz na
travessia das vivências.

Rio caudaloso molha meus pés;
corre forte. Sorrindo, eu sigo
lavando o rosto e a alma, e enfim
me reconheço no espelho d'água,
a refletir o sol que sempre brilhou
em meu caminho.

27 julho, 2026

DEMOLIÇÕES (Cacau Loureiro)


Memórias são enterradas, não há luto
para aquilo que terminou sem palavras...

Silêncio também é covardia, para quem
não sabe escolher, não aprendeu sobre
valorizar as companhias leais.

Caminhar junto é olhar na mesma direção,
é despojar o coração para as coisas eternas.

Apago o quadro das lições quando os
ensinamentos foram em vão.

Rebusco tempos, as mãos que tentaram
construir o que era conveniente, porque
o orgulho também mata relações e lembranças.

A música continua a tocar nos aparelhos
desligados das eutanásias sentimentais...

De todas as necessidades, partir seria o
melhor caminho?!...

Eu danço o solo dos que assimilaram que a
dança da vida pode prosseguir nos espetáculos
onde cocriei felicidade.

Eu continuo na alegria das construções
saudáveis: casa, casulo, morada, onde o amor
é feito de sedas e barro, edificação para um
futuro bom.

Somos mais do que revestimentos que embelezam;
devemos ser alicerces onde dedicamos forças e
erigimos nossos próprios espíritos para os altos
voos da alma!...

20 julho, 2026

VÉRTICES (Cacau Loureiro)


Seguro as rédeas daquilo que em mim
é intrínseco... sob bridas de cuidado...
origem e essência
que se derramam
nos vértices da minha alma,
em geometria
de um mundo incongruente.

Soltei as amarras nos campos abertos.
Corro por entre os canteiros
do meu espaço interior...
Somente eu, o vento e as flores,
a sussurrar preces de gratidão.

E então,
no espelho do mundo me vejo,
reconheço-me, em arestas e faces,
porque vestir-se de si mesmo
é descoberta:
surpresa do que no humano
ainda há de mais bonito.

Lá no horizonte,
o sol se ergue,
citrino,
iluminando estradas,
despertares para o renovo,
luz que dissolve as sombras
e cintila nos olhos,
abrindo visões.

Nas nuvens moram os anjos.
Tocam harpas,
sorriem no azul,
fundem céu e mar,
e deitam seus cílios compridos
nos braços dos homens
como cifras,
compondo músicas
para a eternidade.

O sol é moreno,
porque é beleza derramada
na pele dos que abrem
os braços e os corações
para as afeições profundas...
O sal é remédio,
porque em cada sabor
depositou as estrelas
que desceram de Selene.

Olhos de safiras
que na noite platinam a penumbra,
descerram todos os véus,
encurtam a madrugada
e trazem esta nova manhã,
onde me olhas
com encanto descomunal,
descortinando
a própria grandeza.


18 julho, 2026

DOS TRAJETOS (Cacau Loureiro)

Tuas rotas chegam a mim...
mas há silêncios
onde minhas mãos não alcançam.

As palavras já não bastam
para reacender
o que fomos.
Hoje restam apenas
as lembranças,
na mente  confusa
e no corpo dormente.

Enquanto teus caminhos seguem,
eu permaneço
a sonhar a maciez da tua pele,
o teu sorriso,
único em sua beleza singela.

E o meu coração,
paralisado diante das contradições
de quem falou de amor...
de encontro...
de predestinação.

O universo
não se moverá
para atender às vontades
de quem sofreu vida afora
e hoje perpetua
o eco da própria dor.

Sigo vivendo,
porque a vida nos convoca
ao movimento.

E os dias passam
como teu rosto
entre nuvens esparsas.

O tempo é Senhor:
implacável, mas transformador.

Ainda assim,
seguir é preciso.

Nesta manhã,
o vento frio
entrou pela janela.

Meus lábios,
também frios,
sentiram a falta
do alimento
dos alvoreceres
ao teu lado.

Oferta-me tua mesa farta,
onde a ausência
não encontre lugar.

Desata os nós
que o tempo fez.

Desfaz os caminhos contrários.

Marca em teu relógio
a hora
do nosso precioso tempo.

Dos prazeres
que nos despertavam
no meio da noite,
traz de volta
tua alma encantada.

Que tuas rotas,
enfim,
cheguem a mim.

Vem.

Abraça-me
uma vez mais.

 

13 julho, 2026

LÍNGUA NATIVA (Cacau Loureiro)

Teus agudos penetraram meu templo,
órgão dos delírios...
um beijo na rosa acendeu os prazeres
como pão agridoce a fermentar-me
a existência...

E estrelas nasceram em meu ventre,
despertando um sexto sentido
equilibrado entre a terra e o céu.

Lábios e papilas
degustaram o vão do tempo.
Dois corpos sedentos,
apaziguados no deleite
enfim acolhidos
no leito da noite.

Hálito sobre hálito,
erguemos os sussurros das palavras.
Uma viagem desconexa
que iluminou tantos caminhos,
rotas desenhadas sobre o peito,
sobre a pele e o dorso,

na penumbra em que meu contorno
se fez água sobre os teus poros.

Ancas estremecidas,
coxas em confidência,
mãos entrelaçadas,
dedos tecendo laços,
cabelos enlaçando almas,
essências compondo
um perfume único,
aroma de nós.

Cheiro de amor,
vertigem dos ardores,
contentamento dos amplexos
que evaporavam saudades,
enquanto a madrugada
nos reinventava.

Ficaram tuas trilhas
inscritas em meus seios
e nas curvas das costas,
onde tua saliva
inscreveu, silenciosamente,
a gramática dos desejos.

Quero ainda a agitação
de nossas matérias nuas,
quando tua boca sedosa
desatou meus calafrios
e traduziu,
em ondas aquosas,
o idioma dos êxtases.

Assim quero permanecer
decifrando todos os códigos
de tua língua nativa.

22 junho, 2026

ALFORRIA (Cacau Loureiro)


O tempo desce suas asas, sombreia
meus olhos...
Vida embaçada...

Busco no passado os motivos
para a existência do silêncio.
Já não explicarei como se deve amar.

Nada floresce sob as mãos do egoísmo,
olhar estreito dos que atravessam a dor
sem recolher seus ensinamentos,
sem valorizar quem lhes oferece afeto.

Minhas mãos no escuro buscam-te,
noite vazia,
coração pesado...

Ouço uma canção nas frestas da madrugada;
o som arranha as lembranças
como lâminas que ferem minha alma.

Como deixaste escorrer entre os dedos
um amor tão puro,
fronteiras de um espírito acolhedor?

As lágrimas secaram em meus olhos
quando contemplei tua armadura fria,
tuas escolhas incongruentes,
incoerências de quem atravessou a vida
sem compreender a linguagem dos afetos.

Lamento que não soubeste entender
que amar é desarmar-se,
soltar o passado,
olhar adiante sem esmorecer,
construindo os caminhos da lealdade.

Deixo teus sons perderem-se na alvorada.

Pela manhã o sol despontará,
clareando os caminhos.

E já não estarei presa a ti.
Então conhecerei libertação!...

21 junho, 2026

LUMINOSA (Cacau Loureiro)

Passo minhas mãos entre os lençóis...

Senhora das serpentes,
teus movimentos ainda dançam em mim,
sol que invade janelas
e acende teu corpo
em relampejos de saudade.

Tua silhueta balança ante meus olhos,
âmbar inquieto
que invade minha alma
e faz morada
em meus trajetos de fêmea.

Em tua lua, eu sonho acordada.
Boca e pele riscadas de prazer.

Teu calor ainda me percorre.
Teu perfume ainda me habita.
E meus músculos ainda doem
na tua ausência.

Senhora do ventre fértil
e dos excessos,
dos braços fortes
que ritmavam meu pranto e meus sorrisos,

carmim derramado em luz
onde fui inteira
em dádiva e desejo.

Teu arco-íris nasce após as tempestades,
ponte celeste
aos meus tesouros mais fundos.

Lumes serpenteiam minha estrada,
auroras em frutos e flores,
teus prateados cabelos amanhecendo em mim.

E quando a noite recolhe seus silêncios,
ainda encontro teus vestígios
entre os filós da ausência.

E sigo a sonhar tua luminosidade.

 

17 junho, 2026

MANDALAS DOS VENTOS (Cacau Loureiro)

Vento do poente que me traz calor, terral
que sopra em minha alma os ardores e olores
da tua existência singular...

Sol nascente em riso aberto, fortaleza para
quem te enxerga face a face, para quem acordada
sonha com os bafejos cristalinos do teu sorriso,
horizontalização da sorte em prazeres verticais.

Em abraços longos, clarões a envolver meu corpo,
tatuando minha pele de ti em letras e borboletas,
entre os animais de casa, pena a escrever tua
poesia bonita em meu espírito de aedo.

Abundância de águas cálidas, boca
dos desejos a engolir minhas paisagens
em deleites, em prazeres matinais, nas
sombras da parede à meia-luz do teu
quarto de dormires.

Nesses sonhos de ontem eu colei no céu
tuas estrelas, cintilantes como os teus olhos
de langores orientais, como tântrica massagem
em todas as esferas emocionais.

Corpo e copo a derramar rosa-chá em
minha xícara cheia de lembranças...

Refresco do meu peito,
nas vespertinas nuances do teu dorso,
em minhas arrebatadas mandalas.

Ah! Ontem eu lembrei de ti, de norte a
sul do teu nu estonteante, no desatar dos
nós intrínsecos dessa lembrança, misto de
sol e semente...

E insiste como sopro repentino dos quintais
do tempo acariciando o meu rosto,
enxugando essas lágrimas de saudade...

15 junho, 2026

EXALAÇÕES (Cacau Loureiro)


Manhãs Perfumadas...

Abro os meus olhos; a tua alvorada
é quem me chama a viver.

Não haverá futuro venturoso se a tua
presença não me fizer companhia.
Teu sorriso largo e branco como as nuvens
é pouso, é prenda do divino. Por isso te olho
dentro das pupilas; lá me vejo despida
de vaidades, vejo-me com a alma
franqueada, também para te receber.

Bobagens fazem-me pensar em perdas.
Eu, que aprendi que nada é por acaso,
permaneço entre as flores que teu abraço
me concedeu em dias quentes, em dias
frios, no despertar dos teus aromas em mim.

Não tenho medo. A vida lá fora já não
mais me estremece por dentro. Plantei
minhas decisões nas veredas que contigo
aprendi. O mundo grita por confusão, e
eu coloquei minha cabeça na certeza de
que somente os afetos profundos podem
transformar as caminhadas.

Aragem fresca a tocar-me a face, a me
tranquilizar o espírito. Não há montanhas
intransponíveis quando a verdade vai à
frente, quando a transparência é flâmula
e bandeira na marcha da evolução.

Ainda escuto o teu riso, que desencadeia
frisson em meus nervos, pele e alma, e
ando a descortinar teu universo bonito, que
ainda permanece em mim, mesmo ante a
tua partida breve...

Sigo liberta, mas voo contigo.

13 junho, 2026

TERÇOS DE OUTONO (Cacau Loureiro)


Final de outono... sol ameno e vento frio

a me acordar para as lembranças...

Aquela música sempre toca, esteja ou
não o som ligado... e ela vibra em mim
como o teu corpo quente. Então me levanto
da cama porque é preciso viver, também das
memórias, das imagens enevoadas do teu
sorriso brilhante, da tua gargalhada presente,
dos teus cabelos que clarificavam minhas manhãs
de café sobre a mesa e dos banquetes noturnos.

Ainda sinto tuas pernas pesando sobre as minhas
quando eu delineava o teu corpo nu com minhas
mãos aquecidas dos teus sabores intrínsecos,
dos teus espasmos abundantes.

E as imagens dançam em reminiscências,
povoam minha mente como fio que ainda teço,
feito um terço em orações infindáveis.

E a tarde adentra o meu peito,
farto e falto de ti,
friagem a entrar por baixo da porta trancada,
e as janelas emperradas,
e os quereres enclausurados
em nossas naturezas obstinadas...

Ecoam tantas palavras ainda vívidas,
porque não se enterra o verbo repetido à exaustão...

Eu fiz de nossas grandezas recordações,
e mesmo com o nunca mais que me chega pela noite,
ainda sinto, feito febre terçã,
todos aqueles dias memoráveis.

CORPO DE MEMÓRIAS (Cacau Loureiro)


Visto o meu corpo de memórias...

Que ainda nebulosas vão se abrindo ao meu
olhar insistente quando busco o teu sorriso
naquelas noites que pareciam eternas.

Nada é para sempre...
Não sei se meu corpo acredita nisso, porque teu
cheiro ainda habita a minha pele, tecido por
tuas mãos de óleos essenciais.
Por teus sons singulares de promessas, por
teus sussurros de amor sem fim...

Eu sigo por estas novas rotas traçadas no
ímpeto de apagar sensações, mas elas são
tudo o que me resta para continuar por esses
atalhos que escolhi para apagar os teus rastros.

E tampouco sei se fui amada, porque as
desistências nos falam e nos ensinam sobre ser
tudo e ser nada ao mesmo tempo.

Interromper caminhos é como jogar a bússola
fora e adentrar a floresta obscura, feita de pinheiros
e ciprestes, pois a escuridão tem cheiro e corpo
materializados na ausência, como mulher que chora
sobre a inércia do ser amado que já se foi embora.

O passado parece ter sabor e presença, dor e
alívio, névoa fria e claridades, e assim prossigo
adentrando o desconhecido que procuro e sequer
consigo antever, porque a minha natureza é de
descobertas.

12 junho, 2026

RESSONÂNCIA (Cacau Loureiro)


Há vozes que não pertencem ao vento,

embora caminhem com ele.

São sussurros de ternura,
atravessando os véus do tempo
como astros que persistem acesos,
mesmo quando a noite parece profunda.

Escuto-os.

Não com os ouvidos,
mas com a alma sensibilizada,
nesse lugar secreto onde os afetos
se tornam eternidade.

Teu nome habita os silêncios,
e tua presença floresce azulada
entre as horas e os sonhos,
como um jardim invisível
cultivado pelas mãos do destino,

sol adentrando, em furta-cor, a janela.

Nada se perdeu.

O amor não conhece despedidas.
Transforma-se em luz,
em memória transmutada,
em perfume de rosas
que permanece no ar,
mesmo depois que o jardim adormece.

E quando ergo os olhos ao céu,
vejo constelações desenhando signos
sobre a vastidão estrelada,
como se o universo inteiro
escrevesse, em linguagem de símbolos,
a história que une nossas almas.

Então compreendo:

amar é escutar as ressonâncias.

E cada eco traz de volta tuas falas,
não aquilo que se foi — porque estás —
mas aquilo que escolheu permanecer:

de ti em mim... para sempre.

PEREGRINO (Cacau Loureiro)


Chorando, adentramos os céus da Criação...

Anjos caídos diante das maravilhas de um
Criador amoroso, de esplêndido caráter.

Não importam as pedras da travessia:
a força que me ergue é transcendente.
Por isso não há cansaço; eu persisto,
pois sagrada é a centelha que me habita.

Tantos páramos e dimensões atravessei por eras...
Meu escudo imaterial é fortaleza:
coroa de espinhos, sangue derramado na cruz,
perdão ofertado aos deserdados da Terra.

Nas alturas firmo o coração.
Ali abraço manhãs ensolaradas,
de jardins exuberantes e múltiplas cores,
pois, pela fé, retiro os véus
e contemplo este belo Universo
que me chama às arquiteturas da alma.

Aspiro os ares celestiais.
Harmonias sutis restauram minha essência para a jornada.
O dom que me foi dado — viver —
é dádiva e possibilidade inarrável
de participar deste misterioso tecido da existência.

Há cânticos e louvores por toda parte,
e com eles sigo adiante,
no eterno movimento de semear.

Reles mortal neste mundo, eu sei.
E sirvo com humildade e resignação,
pois não há esclarecimento maior
do que saber-me criatura.
Assim honro as flores e os brotos nascentes da senda,
porque também sou caule frágil
diante de minhas próprias mazelas.

Mas sinto o perfume dos lírios brancos
e das rosas amarelas.
Jardim de jasmins perfumados,
Éden onde depositei minhas esperanças.

Uma canção delicada me chama aos despertamentos.
As belas companhias deste mundo são privilégio;
seara onde chuvas e ventos moldam meus passos
e fortalecem a alma para perseverar.

A vida é bela quando olhamos além dos próprios pés.
A vida é enxergar o agora e o além.
É quando teus olhos me convidam
para esta peregrinação de crescimento interior.

08 junho, 2026

COMPASSO DOS ANJOS (Cacau Loureiro)

Arcanjos dançam nos véus da noite...
Não há guerras a travar,
pois o universo já pronunciou a paz.

Florescem estrelas no infinito,
fazendo cintilar as constelações,
e suas luzes derramam-se suaves
sobre minha fronte.

Tantas histórias se desfazem,
tantas outras começam...
e o dom da criação, em nossas mãos,
ergue os alicerces dos recomeços.

Olho adiante e vejo a estrada iluminada,
livre das vaidades e dos atalhos
que tantas vezes nos desviam de nós mesmos.

Quero entre meus dedos
a joia preciosa dos amores acalentados,
pois tracei meus caminhos
com as linhas de um coração franco.

Não há cansaço.
Há apenas entusiasmo
para acolher o que se apresenta
nos planos mais elevados da existência.

Algo imaterial dança ao meu redor,
entoando cânticos silenciosos,
e eu percebo...
eu sinto o compasso dos anjos.

A vida é uma dádiva
que merece ser celebrada com sorrisos,
pois eles abrem portais invisíveis
para os caminhos da alma.

Tua voz e minha voz
ascendem como orações ao infinito,
porque o divino escuta os clamores sinceros
daqueles que semearam a terra
com bondade e ternura.

Sem espadas,
caminho pelos campos abertos.
Não há rastros dos bárbaros,
apenas eflúvios astrais.

Há jasmins perfumando a jornada,
há cores derramadas em arco-íris
sobre as promessas da eternidade.

E eu desejo viver tudo isso
ainda sorrindo,
ainda cantando,
em louvação à criação que vive
e todos os dias nos revela,
com infinita delicadeza,

a verdadeira face do amor.

06 junho, 2026

MARÉS DE MIM (Cacau Loureiro)

A música deste dia aprazível invade a

minha alma, como se fosse um sol

morno de fim de outono a correr pela

minha face num sorriso que espera

pelas coisas alvissareiras.


Felicidade não é porto, é caminho decidido,

é direção tomada, como velas içadas no

mar de um mundo muito perdido e louco.


Tantas histórias escritas num espírito viajante,

versos cantados em dias claros, em noites

escuras de puro breu, onde me achei e

também me perdi, e naveguei...


Mas as águas correm pelos lemes e ficam

para trás; e, se voltam, já chegam mudadas

pelos ventos, pelas intempéries que se renovam

a todo momento, ventos a renovar o rosto,

a purificar os cabelos, a lacrimejar os olhos.


Eu vou junto com as marés, em torrentes

ritmadas pelos desertos que atravessaram

o meu coração... singraram meu peito com

amor e sangue, com tormentas e tempestades,

com chegadas e partidas.


Às terras novas empreendo a minha nau...

Houve cais onde descansei a cabeça, colo quente

onde rascunhei tantos mapas... bússola de mim

mesma esquecida nos porões de imperitos

navegantes, seres perdidos em abstrações...


Mas agora fito as novas linhas do horizonte, aprendidas

nos naufrágios... águas turvas onde nadei e conheci ilhas

desertas para hoje ser timão, popa e proa... e neste mar

aberto, ser capitã de mim mesma!

01 junho, 2026

ANTES FLORESCER (Cacau Loureiro)


O fruto amadureceu nos galhos...

Sob todas as intempéries apresentou-se forte.
Embora travasse batalhas todos os dias para sobreviver,
resistiu às mãos inábeis daqueles que,
diante do verde ainda amargo,
insistiam em interromper seu processo,
matando-o antes da florada.

E mesmo atado ao ramo que o nutria,
revela a robustez de sua essência,
a plenitude de sua graça,
a abundância de suas qualidades.

Nutrir é característica dos bons frutos:
crescer entre folhas, sol, chuvas e pragas,
e ainda assim revelar ao mundo a que vieram.

Assim também é a natureza humana:
persistir diante dos ventos malogrados,
das forças contrárias,
porque nossa substância é suavizar o que nasce torto,
transformar o que nos desafia,
lapidar o bruto até que revele sua forma.

Somos feitos para alimentar.
Quem mata pela fome é o estéril.
O infértil.
Aquele que proclama abundância,
mas não sabe partilhar o pão.

Não permita que nada o faça desistir
quando estiver próximo do oásis.
Pois quem afirma que essa água não é boa
talvez jamais tenha sido capaz
de saciar a própria sede.

29 maio, 2026

NOITES ETERNAS (Cacau Loureiro)

Crivos de chuva adentram minha pele,

como se o céu viesse em gotas de cura

habitar meu corpo... Quando chegaste

havia o glacial frio embaçando meus olhos...

 

Noites solitárias em matéria inabitada;

medonhos eram sons que ao longe se

ouviam, o ranger das tábuas desenhava

caminhos para os montes sombrios onde

escondi meu coração entre espinhos e farpas.


As manhãs nunca chegavam...

na noite eterna, janelas emperradas

eram espelho das águas ruidosas e

torrenciais que não dissipavam a solidão.

 

Mãos fechadas não descerram a lucidez,

não liberam sementes para o plantio

dos tempos fecundos; deixei de lado as

roupas pesadas. O baú do passado já

não contém mais meus ossos; minha alma

fugiu pelas frestas onde pousou tua

cortesia reluzente.

 

E me vieram belas canções nos ventos

dos morros uivantes, porque a vida é

cantata bela, honesta, nascida nos espíritos

pulsantes; é música plena de existência

que nas noites mais friorentas se faz

presença quando o teu sorriso bate à

minha porta.


 

26 maio, 2026

DEPOIS DE VER O MAR (Cacau Loureiro)

 

Te percebi por trás das folhagens,
talvez num dia qualquer desse mundo
corrido eu nem te percebesse...
Por baixo daquele chapéu de fita
alaranjada teu rosto se escondia,
seria disfarce para não ser encontrada
quem sabe pelas dores, quem sabe
pelos gozos, mas a tua natureza bonita
me fez espanto naquela tarde ensolarada.

Teus gestos no silêncio me gritaram por
dentro, acordaram-me para a tua cútis
sedosa, teu gestual charmoso, teus olhos
abrasivos a me queimarem o seio, a me
despertarem sentidos... âmbares a atiçar todas
as fogueiras de uma alma desencantada.

E o tempo andou depressa, e o mar nos
veio, vento refrescante da manhã que se
tornou inesquecível, teus longos cílios a
me olharem de cima embaixo, beijos e
púbis em ritual de corpos suados, olhares
lânguidos, e esse teu singular abraço do
qual não me esqueço jamais, acolhida
em tuas intrínsecas histórias...

Quantas vezes noites adentro despertamos
nossos corpos ante a transcendência desses
beijos que nos levaram a lugares que nem
queríamos mais deixar... como estrelas lúcidas.

Mas labirintos viraram caravanas e foram
consumidos pelas tempestades de uma
realidade à qual tu te agarraste feito raiz a
invadir solo degradado e ao medo de amar
de peito aberto.

Sinto muito se,
depois de ver o mar, tu não viste no imenso
horizonte... quantos caminhos!...

RECITAR-TE (Cacau Loureiro)

Quero ler os teus versos da madrugada...

E versejar em minha tez a estrofe que me

seja tua inspiração, pois tenho olhos na

ponta dos dedos e os meus lábios tecerão

todas as escritas dos quereres em teu corpo,

recônditos eriçados em pele e pelos.


Dorme comigo para despertar em minha

alma alegre, que sorri entre filós e cetins,

tingindo de carmim os teus seios entre

minhas mãos aquecidas em teu colo.


Acorda meus instintos em teu frêmito

generoso como orvalho que corre entre

pétalas... acolhedoras ante minhas ternuras

derramadas em tessituras de desejos e

sôfregos prazeres.


Deixa-me dormitar meus cílios molhados

em tuas costas nuas, macias... donde eu

possa avistar todas as tuas curvas e linhas

e perpetuar tua geometria secreta em minhas

ancas e dorso inteiros.


Permita-me sussurrar em teu regaço febril,

encaixar-me em teus braços e pernas...

desaguar rios inteiros em teu pescoço e

ventre, em tuas coxas tenras entreabertas.


Afastarei teus perfumados cabelos, derramarei                

os meus olhos nos teus e recitarei em tua boca

vermelha todos os versos que nesta hora...

 nossas carnes frementes nos deram.


Quero ainda ler os teus versos na madrugada...