LÍRICOS OLHARES

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"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




7 de dezembro de 2009

POR QUE AINDA NOS MANTEMOS TÃO MEDÍOCRES (Maria Angela Mirault)

Nunca pareceu tão atual como agora a reflexão proposta pelo ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger(1), a respeito da mediocridade. O autor localiza sua abordagem na realidade alemã, mas, o talhe, que lhe dá, caberia a qualquer lugar do planeta, vestindo com rigor nossa própria e medíocre realidade. Reconheço a constatação universal, Com atenção, alinho-me à lógica do autor. Vivemos mesmo um mundo e uma realidade medíocres. Contudo, proponho um diálogo com seu pensamento, neste quase concordar, discordando. Creio que a mediocridade que assinala o espírito da época e invade nosso cotidiano, não nos é simplesmente imposta. Existe, ainda, para alguns de nós, um fator de decisão: a escolha.

Seja por indiferença e acomodação, no atacado, a mediocridade é mesmo nosso credo e nosso desejo. Contudo, ela significa, também, nosso próprio flagelo e nossa própria morte social. É ela quem traveste um certo tipo de gente e a transforma em utilitário de determinado – ou quase todos - tipo de sistema.

Valendo-se de uma citação de mais de duzentos anos atribuída a Helder (1767: 141), Enzensberger indaga, logo de início, qual seria a importância dos gênios. Muito mais importantes (para o mundo, para subsistência, para a sobrevivência e para própria vida de varejo) nos são os homens úteis, pois, destes são, apenas, exigida "uma feliz combinação de dons e habilidades, uma certa mediocridade que não se eleva até os gênios e pensadores". O autor citado por Enzensberger, já registrara, que, para ser medíocre, basta que se cuide em não se deixar afundar até a condição de pobre-diabo, ou seja, que se atente em alcançar uma grandeza média de forma a atingir o ponto de utilidade que se deseja e que a coletividade precisa. A origem de toda mediocridade, diz o autor, vem do fato de que não esperamos muito de nós mesmos, acostumando-nos ao auto-desprezo. O medíocre precisa manter-se, nem mais nem menos, insossamente, na média. Mas será que, ao optarmos pela submissão á mediocridade, já não optamos também por viver na condição de pobres-diabos?

De certo, que, a submissão à mediocridade é opcional. Fomos nós quem, por algum motivo, preferimos assumir o personagem-sapo da psicanálise, mantendo o personagem-príncipe inacessível. Criados como galinhas, preferimos ocultar a águia que, verdadeiramente habita em nós, subsumidos aos costumes do galinheiro. Sem tomarmos consciência de que, somos, por natureza e identidade, príncipes e águias, deixamo-nos enfear e domesticar, limitando-nos por viver essa utilidade medíocre que nos consome.

Estar (e não ser) medíocre é nosso escudo, nossa complacência, nossa cumplicidade com o mundo, com as coisas, com os outros. Ser e parecer medíocre é mais fácil, mais confortável e muito mais prudente. Sob o império de uma mediocracia consolidada, trabalhamos, nos divertimos, criamos nossos filhos, vamos aos shoppings e vemos tevê. Travestidos em sapos e galinhas, deslocamo-nos cotidianamente de nossas casas, dirigimos nossos carros, ocupamos coletivos, guardamos nossa vez em filas absurdas de aeroportos. Imobilizados, pela condição de utilitário, mascateamos nosso capital intelectual, nossa força de trabalho, às instituições, e, nos submetemos a chefias, medíocres. Dentro de nossos carros, é como medíocres que nos transformamos em "assassino autoproclamado, sem nos importarmos com os danos (...)", aponta-nos Enzensberger. Menos que isso, diz o alemão: deixamos de nos importar "com os fundamentos elementares da vida, como a tranqüilidade, o clima, a vegetação, o ar e a paisagem".

Para subsistir é prudente que se aceite subsumir a utilidade que o mundo quer, a docilidade indiferente que o mundo determina para que possamos sobreviver. Somos números insignificantes de uma massa - essa concepção teórica tão antiga e tão atualizada. Enzensberger constata que nós, quando medíocres, integramos parte de uma massa que, manipuladas por forças sinistras, nos deixamos transformar num bando de idiotas consumista. Diz ele, que, apática como é, a maioria silenciosa (...) simplesmente não quer acreditar que "se transformou em zumbis, marionetes ou fantasmas, e nem mesmo lhes ocorre a possibilidade de confundir sua realidade com uma "simulação"(p.145).

Ao nos alertar sobre o perigo da resistência a tal flagelo, nos alerta: "(...) o médio não é apenas um postulado de lazer, mas a medida de todas as coisas e a chave do sucesso. A existência econômica e psíquica da maioria é garantida pela mediocridade, e qualquer um que acredite poder ignorá-lo incorre num perigoso erro". Por se apresentar cada vez mais segmentada, cada vez mais especializada, cada vez mais introjetada, "lidamos com uma mediocridade altamente qualificada". Não ser medíocre, ou não parecer medíocre e resistir ao espírito de época que nos sufoca é quase assumir uma personalidade psicótica, tornar-se um diferente, um criador de casos, um relegado, um exilado do seu próprio espaço, de sua própria pátria.

Contudo, é fácil reconhecer, distinguir e assinalar um ser que abjeta se categorizar e se regozijar na mediocridade. Este espécime é claramente identificável, pois não consegue esconder-se, metamorfosear-se, ou sucumbir. Ciente de sua origem e natureza, identificado com seu lugar e papel no mundo, ele é um inconformado. Diante da farsa e do domínio do medíocre e do império da mediocridade, ele é um indignado. Estertora em seu viver, mas sobrevive. Acende fachos, aqui e ali, onde as trevas até já se instalaram, deixando rastros e sinais irremovíveis. Na sua diferença, não se submete. Ai de quem já se deparou com um desses seres mutantes. Mesmo que um medíocre o vença na queda de braços, não lhe pode negar e reconhecer a identidade de sua força. Mesmo que, momentaneamente ferido, aparente sucumbir, sobrevive.

A luta entre medíocres e mutantes será grande e árdua. Haverá momentos em que parecerá quase perdida, mas, serão eles, os medíocres, quem perderão, mesmo que, jogando sujo, aparentem vencer as pequenas e cruéis batalhas do aqui e agora. A lei de Darwin está sendo devidamente compreendida. Não será o adaptável quem sobreviverá. Serão eles, os mutantes, os que, se reconhecendo príncipes e águias, agem como tal. Eles salgarão (e já salgam) a Terra com suas esquisitices.

Que se somem, então. Que se reconheçam e lutem bravamente por uma única bandeira. Pois, cada ato de resistência que pratiquem, cada violação que cometam provará que, por mais que as evidências e aparências demonstrem, não serão os medíocres que herdarão a Terra.

(1)ENZENSBERGER, Hans Magnus. Mediocridade e loucura. São Paulo: Editora Ática, 1995)

(ARTIGO DE MARIA ANGELA COELHO MIRAULT PINTO é Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Didática do Ensino Superior pela Universidade Católica Dom Bosco e Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, pelas Faculdades Integradas de Comunicação e Turismo Hélio Alonso, no Rio de Janeiro).

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