LÍRICOS OLHARES

LÍRICOS OLHARES

PENSAMENTO DO DIA

"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

Seguidores

REFLEXÃO

"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




15 de dezembro de 2009

SOBRE A COVARDIA (Cleber Resende)

Se a humanidade continuar a evoluir do jeito que vai indo, as guerras no futuro não terão muitas mortes: bastará algum dos lados em conflito raptar uma criancinha do lado inimigo e dar um ultimato: “rendam-se ou mato esta criancinha”. E teremos nações inteiras de joelhos para salvarem a vida de uma criancinha. Não é bonito isso?

Antigamente era diferente. Conta-se que Agamenon sacrificou a própria filha, Ifigênia, para que os deuses liberassem seus navios lotados de guerreiros, na direção de Tróia. Abraão teria se disposto a sacrificar o filho único para agradar a Javeh, e se não chegou a consumar este ato horrendo, temos pelo menos o caso de Jefté que o fez (Jefté está no livro dos Juízes).

Sacrifícios na Antiguidade eram muito comuns, alguns para agradar aos deuses, como o da citada Ifigênia, outros espontâneos, de pessoas que acreditavam estar a promover um bem maior para a sua comunidade ou o seu povo, como o belo exemplo do rei Leônidas, de Esparta, e seus 300 guerreiros, e também um grande número de mártires cristãos, quase todos merecidamente canonizados.

Eu creio que nesses tempos antigos, como a morte antes dos trinta anos era o caso mais comum (estima-se a expectativa de vida na época do império romano em 28 anos), o sentimento de finitude da vida era muito mais intenso, e portanto as pessoas eram menos apegadas a ela.

Esses atos extremos tornaram-se mais raros, mas não acabaram. Tivemos recentemente, o exemplo dos kamikazes japoneses na Segunda Guerra Mundial, ou o dos guerrilheiros da Al-Kaeda no ataque aos Estados Unidos em 2001, e tome homem-bomba nos israelenses – isso é que é radicalismo. No início do novo filme da série Star Trek (2009), o pai do capitão Kirk sacrifica a própria vida para salvar a dos seus passageiros e tripulantes. Nesse caso foi considerado um belo sacrifício. Hoje um sacrifício ou martírio a nosso favor chama-se heroísmo e um contra nós chama-se fanatismo. Mas só consegue enxergar isto quem está do lado de fora da guerra.

E de um modo geral sacrifícios são considerados coisas antigas, de um tempo em que a coragem era das maiores virtudes mais apreciadas. Hoje é a covardia.
Naquele tempo o sentimento da tribo, o engajamento na defesa dos companheiros, era dos mais fortes. Epopéias primordiais como a Ilíada até hoje encantam os leitores. Esses atos heróicos ainda subsistem nos filmes, graças aos nossos primitivos instintos guerreiros, que ainda não se extinguiram. A defesa contra os inimigos era prioridade. Hoje, não sei porquê, deixou de ser, como se não tivéssemos mais inimigos.

Será necessário definir isto: inimigos são aqueles que ameaçam tirar as nossas vidas – refiro-me ao ato doloso, praticado com armas, tais como revólveres, espingardas, ou facas. Um motorista bêbado, um farmacêutico que vende remédios falsificados, ou até mesmo um comerciante de drogas, têm lá seus pontos fracos, reconheço, mas não me incomodam tanto quanto aqueles que gratuitamente nos ameaçam (e matam) com armas. Provavelmente eu seja um homem primitivo demais para a época em que vivo.

Bons tempos aqueles em que se acreditava que compensa morrer por um princípio. Qualquer sociedade está repleta de histórias de pessoas que deram a própria vida para defender seus companheiros. Tiradentes foi um desses bravos. Soldados que sobreviviam a uma bela matança recebiam todos suas medalhas por bravura. Na verdade as sociedades sempre usaram a natural agressividade humana em seu favor. Se é inevitável que morra gente, então que morram os nossos inimigos.

Os hinos nacionais de muitos países ainda falam dessa sanha guerreira. Desde a “tuba canora e belicosa” do Camões, chegamos ao nosso “de um povo heróico o brado retumbante”, e “conseguimos conquistar com o braço forte”, e tome “verás que um filho teu não foge à luta / nem teme, quem te adora, a própria morte” etc. – e tem até aquele démodé “ou deixar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil”, do nosso Hino da Independência. Os deputados poderiam propor leis substituindo essas letras por outras mais atualizadas: “fujam, rendam-se, não resistam, etc.”

Vá lá que não somos mais tão guerreiros, mas um genuíno ato de coragem não precisa ser tão heróico. Basta que se disponha a sofrer um ligeiro incômodo por alguma pequena causa. Testemunhar um crime, por exemplo, ou socorrer uma vítima de atropelamento. Nem isso mais fazemos.

Como as coisas mudaram! Parece que a bravura ficou restrita ao mundo muçulmano e no mundo ocidental, pelo contrário, a covardia tornou-se lugar comum. Entre nós o sentimento tribal, pois é impossível acabar com um instinto, ficou restrito às torcidas de futebol. Querem, é claro, proibir.

As palavras mais usadas acabam tendo seu sentido deturpado, e o povo costuma entender coisa diferente por covardia. Para que fique claro, precisamos defini-la também: covardia é a fuga da responsabilidade em situação que implique em algum prejuízo ou algum perigo. Um covarde pode ver um ato de crueldade ser praticado bem à sua frente e fingir ignorar. "Não é da minha conta", diz para si – ou para os outros, se tiver alguém por perto.

Hoje tem-se o costume – muito covarde, aliás – de fugir ao enfrentamento de um problema mudando-se o seu nome. Não gosta de negros? Chame-os de “afro-descendentes” e ninguém vai perceber o seu racismo.

Com o tempo pessoas acostumam-se à novas denominações e geralmente passam a dar-lhes um significado novo. Assim é que hoje ninguém chama mais um covarde de “covarde". Isto não é politicamente correto.

Pessoas covardes comumente se consideram “cautelosos” ou "responsáveis". "Tenho família", "tenho filhos" etc. – são desculpas comumente usadas por eles. Esses conceitos também mudaram. Na Antiguidade, quando o rei Leônidas selecionou seus 300 guerreiros para acompanhá-lo até a morte, escolheu os casados, e não os solteiros, pois estes ainda não tinham produzido descendentes. Um covarde daquele tempo provavelmente diria, para se justificar, ao contrário dos de hoje: “não tenho filhos”.

Um covarde peca por omissão, e isso já é meio caminho para o perdão. Temos até a tendência a sentir pena dos covardes, e geralmente deles se diz "coitado..." num tom carregado de piedade. Mas se eu fosse dizer qual é o pecado que provoca maior dano hoje no mundo, eu diria que é a covardia. Assim como o débil mental pode praticar grandes maldades sem ter consciência do que está fazendo, o covarde pode praticar omissões de grande prejuízo para a sociedade.

O covarde não tem a menor dificuldade em alinhar-se com as opiniões predominantes em cada época e em cada lugar. Por isso passam por civilizados, cordatos, gentis. Eles não têm coragem de contestar o que os outros dizem – pelo menos diante dos seus opositores. Pois ninguém deixa de ter a própria opinião, e assim eles são, de certo modo, traidores.

Hoje é comum dizer que uma qualidade fundamental numa empresa é a visão crítica. Verdade? Ai de quem ousar! Um chefe covarde adora subordinados covardes. Em certas empresas, essa combinação gera unanimidades apressadas, que levam às justificativas prolíficas: “era óbvio que se devia fazer assim, pois todos concordaram...”.

Pusilânimes, os covardes esperam todos darem a sua opinião para só então expressarem a própria – que será uma mescla das opiniões precedentes.
Eu creio que um grande passo para o avanço da covardia no mundo foi dado com o fim da União Soviética. Aqueles velhos marxistas não eram muito entendidos em Economia, mas coragem não lhes faltava. Quem prega revoluções não é covarde. Covardes são os que aceitam passivamente as verdades oficiais.

Não sabemos qual é o povo mais covarde do mundo, mas o brasileiro sem dúvida está muito bem classificado. Nosso povo tem um genuíno medo de autoridades, principalmente de policiais e juízes, e daí sua indecisão em testemunhar um crime, ou ligar para a polícia diante de um desastre, ou até mesmo socorrer o nosso paradigmático atropelado. Há países hoje em que, em caso de seqüestro, a Justiça manda bloquear as contas bancárias dos familiares do seqüestrado, para que o resgate não possa ser pago. Em outros, a Justiça manda desbloquear o que está bloqueado, para que o resgate possa ser pago, e assim salvar uma vida. Peço ao leitor que identifique em qual dos casos há coragem, e em qual há covardia.

Torna-se cada dia mais difícil criticar a covardia. Um defeito fica invisível quando todos o praticam. O costume cria justificativas. Os covardes sempre se dão bem ao final porque, sendo a maioria covarde, seu comportamento é "compreendido" e até defendido. Assim, é muito fácil ser covarde, como é facil ser preguiçoso. Talvez por isso todos estejam se tornando. Porque a covardia é uma espécie de preguiça moral.

Os bandidos adoram os covardes. Na verdade a sua vida seria muito difícil se eles fossem em menor número. E para sua alegria, todas as autoridades também parecem apreciar a covardia, pois vivem repetindo os chavões que proponho aqui, sejam colocados no Hino Nacional: “Não resistam”, “rendam-se” etc. Uma galinha cacarejando no fundo seria perfeito. Talvez uma cuíca consiga imitar.

Cleber Resende é autor do romance "A Nossa Cor - Um Retrato do Racismo no Brasil" e do ensaio "Massificação Cultural e Religião" - além de uma antiga introdução à Informática "O Cômputo do Computador" (Record, 1991, esgotado).

Nenhum comentário: