LÍRICOS OLHARES

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"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




11 de dezembro de 2009

NO DIA DO NOBEL DA PAZ... (Reinaldo Azevedo)

É, minha gente! Tio Rei, que abomina o clichê, não vai resistir desta vez: nada como um dia depois do outro.

Num post de de 18 de novembro, escrevi aqui um texto sobre a visita de Ahmadinejad ao Brasil. Eis um trecho:

Quem defende a paz na conversa com um delinqüente está defendendo a paz dos delinqüentes. Já é comum citar, eu sei, mas vá lá. Quando Chamberlain e Daladier disseram a Hitler que ele poderia ficar com um naco da Checoslováquia desde que, depois, a Europa vivesse em paz, estavam fazendo, sem querer, a opção pela guerra. E com desonra. A “paz” a qualquer custo é coisa de bandidos. Os milhões de mortos da Segunda Guerra não deixam de ser uma magnífica obra do “pacifismo”.

Fui chamado de “tarado pela guerra”, se “sanguinário em potencial”, de defensor da solução de conflitos por meio da “violência”. De, como sempre, “reacionário”, “direitista” e afins.

Ontem, em Oslo, Barack Obama recebeu o Prêmio Nobel da Paz. E disse o seguinte:

“For make no mistake: Evil does exist in the world. A nonviolent movement could not have halted Hitler’s armies. Negotiations cannot convince Al Qaeda’s leaders to lay down their arms.”

Brinquei que Obama havia repetido as minhas palavras — e aqueles seres orelhudos, de pêlos reluzentes, acharam que eu falava a sério. Fazer o quê? Lula pode até tirar o “povo da merda”. Mas não consegue tirar da merda o cérebro dessa gente.

Não vou dizer aqui que o candidato Barack Obama era um pacifista — ou o meu amigo Demétro Magnoli me envia um e-mail me esculhambando: “Que absurdo! Ele nunca foi pacifista!” É, nunca! Foram por ele, e ele permitiu que a imagem prosperasse — afinal e desde sempre, o homem é mesmo um político, o que os americanos já aprenderam a ver. E o tratam agora como tal, sinal de que aquele continua a ser um grande país, e que o declínio, tão esperado por tantos, vai demorar.

Em seu discurso), Obama disse que a guerra surgiu junto com o primeiro homem e que, com o tempo e o concurso de filósofos, religiosos e estadistas, desenvolveu-se o conceito da “guerra justa”, que se dá sob certas condições: se é o último recurso e para se defender, se a força usada é proporcional, se os civis, tanto quanto possível, são preservados da violência. No original:

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, como naquele rock antigo, mas realmente… Nunca antes nestemundo houve um discurso como este de um vencedor do Nobel da Paz. Não por acaso, ele próprio chamou sua premiação de “controversa”. Em seu editorial, o New York Times afirmou que Obama certamente falou o que deveria mesmo falar, mas que os presentes certamente ouviram o que não gostariam de ter ouvido.

Sim, ele tirou uma casquinha de George W. Bush dizendo que proibiu a tortura, que mandou fechar Guantánamo, que reafirmou o compromisso dos EUA com a Convenção de Genebra, coisas que fazem os EUA moralmente superiores aos adversários…

Muito justo. Mas George w. Bush, afinal, não ganhou o Prêmio Nobel da Paz, não é mesmo? E aí está o problema. E notem: o prêmio é obviamente absurdo porque não há ainda paz que Obama tenha promovido. E pode até ser que eu venha a considerá-lo merecedor de tal láurea. Mas, se eu acho, certamente a turma que o indicou não acharia. A expectativa da turma do miolo mole era a de que, com ele, viria o fim das guerras. E não veio. E nós sempre dissemos aqui que não viria.

Afinal, estamos com Obama neste particular, não e? O pacifismo pode ser só o outro nome do morticínio em massa. No dia do Nobel da Paz, Obama fez um belo discurso sobre a guerra.

Mais uma vez, venceu a lógica.
OBS.: A maior parte do dircurso em inglês de Obama citado aqui na íntegra pelo jornalista foi omitida.
(Reinaldo Azevedo é jornalista e colunista da VEJA.COM)

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