SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

24 abril, 2026

INDIVIDUAÇÃO (Cacau Loureiro)

Canções rejuvenescem a alma,

prossigo nas melodias suaves

da vida, com passos a destemperar

minha têmpera de aço.

 

Em meio a tantos laços, respiro

minha essência; ser e me reconhecer

frente ao espelho revela-me humana.

 

Meus olhos aquosos enriquecem

o espírito em buscas profundas,

itinerário de quem descobriu as

belas afinidades, enquanto aquilo

que não vibra comigo segue sua

própria empreitada.

 

Rimo alegrias e prantos, pois crescer

é perceber as nuances dos caminhos;

a existência é permanente busca de

preciosas joias, raridades dos encontros.

 

Nem sempre as trilhas serão breves,

mas seremos alquimistas de nossos

próprios percursos… em compassos

interiores, em sintonia consigo,

adentrando as cifras que comporão as

canções que darão sons e ritos,

tornando-nos viajores em busca

da nossa própria evolução.

22 abril, 2026

PRECES AO MAR (Cacau Loureiro)


As esquinas correm ante meus olhos,
busca insana que faço para me encontrar,
onde ficou o que deixei pelo caminho?

Ante as imagens que correm, eu agora
sigo devagar, mas minha verve intranquila
ainda busca as estradas; ainda conta as
estrelas que me seguem do alto, no vão
do tempo que deixei para trás.

Todas as músicas a moverem meus olhos
e músculos, em cinestesia, que me faz sentir
mais fundo, faz-me querer ir mais alto
e meu espírito vai além.

Vozes fazem as cantorias em meus sonhos,
cantares, louvações para a vida que há de
vir, embalando o sol em meus dias luzidios.

Sim, porque me seguem os feixes de luz
que me tecem as palavras, onde o meu
corpo anda em poesia, onde meus lábios,
em preces, abrem caminhos — minha alma
mergulha nessas águas batismais.

Vou ao mar, respiros das forças naturais,
minhas plantas na areia; oferendas do céu vêm
e vão… lavam meus pés, refrigeram meu
espírito — assim levo o vento em minhas mãos…
No seio farto da natureza, eu fico a pensar…

Há um Deus que é mulher.

21 abril, 2026

BENDITO VINHO (Cacau Loureiro)


Há batidas de alegria em minha porta,

a brisa sussurra bendita música

em minhas horas mortas e eu colho

o cheiro dos teus cabelos...

 

Minha alma dança...

no ritmo das coisas simples e bonitas que

em ti transbordam, em perfumes e notas.

 

Em teu charme debruçado na janela,

teu sorriso me convida, e sigo

nos movimentos dos teus braços,

marcados em minhas lembranças

de tantas noites belas,

 

porque és também amanhecer translúcido

nos dias que me foram nublados, e agora

ressurjo em lampejos coloridos.

 

Tua chuva abundante

escorre em meus lábios e pernas,

beijo exigente que me toma após

tudo que tocaste em mim e deixaste

gravado em minhas mandalas.

 

Teu nome vem das estrelas,

acende constelações em meu peito,

viagem que faço de olhos vendados,

 

pois mergulhar às cegas é preciso

para não saber

o quão fundo posso chegar

nessa rosácea embriaguez.

 

Sem armadura, coração destemido,

eu posso sangrar entre aromas e buquês

do teu corpo seleto.

 

Porque somente sangria e vinho

me permitem sentir

o real sabor da vida

que ora habita em mim.

20 abril, 2026

SEM DOBRAS (Cacau Loureiro)

Não nasci para caber.


Sinto com intensidade.

Não é escolha.

É natureza.


Amei com presença,

fiquei onde já não havia permanência,

sustentei silêncios que não eram meus.


Não por falta de lucidez,

mas por excesso de sentimento.


Hoje, não me basta sentir.

Preciso reconhecer.


Não me abandono mais

para que algo exista.


Não deixei de amar.

Deixei de insistir onde não há encontro.


Menos urgência.

Mais verdade.


Menos ilusão.

Mais presença.


Porque não me dobro.


Se vier, que venha com verdade.

Se ficar, que seja por escolha.


E se for amor,

que me encontre inteira.

18 abril, 2026

EQUINOCIAL (Cacau Loureiro)

Esse outono que agora vive em mim

é música interminável…


A poesia me beijou os lábios

e fez nascer os versos mais bonitos,

porque o amor é nascente e não tem fim —

rede a balançar nos ventos da paz,

gosto de fruto saboroso a ser colhido no pé.


Pensamentos que me fazem completa

no que ora sou, pois abracei as rimas

que nasceram do teu sorriso precioso,

pérola buscada em mergulho profundo

no mar do que me foi desengano.


Carvão e cinzas a me transformar

no melhor que hoje reconheço,

porque, cantando o movimento humano,

vou descortinando rios, mares,

semente e flor naquilo que em mim

tu despertas.


Mãos do invisível a aliviar dores antigas,

a endireitar caminhos opacos,

a me presentear com teus olhos luminosos,

abrindo atalhos em florestas densas,

antes temerosas.


Sendas, clareiras, estradas — eu abro,

como um rio que segue seu fluxo

para o mar imenso, arrastando tudo,

a correr sobre folhas secas

que se foram na ventania do passado,

tornando fértil o que me foi infecundo.


E fez subir esse sol ameno

de um equinócio inesquecível,

fazendo-me nascer os sonhos

em vento morno que aqueceu meu peito

e varreu para o oceano minhas amarguras.

16 abril, 2026

MAR DE DENTRO (Cacau Loureiro)


Movimentos de dentro tentam se expor,

é difícil conter o impulso da vida, pois

ela pulsa na direção dos ventos solícitos...

nem todos sabem sobre as gentilezas.

 

Mas eu levanto da cama com a energia

dos que querem mudança, num salto

de entusiasmo para conexões profundas.

O raso não preenche meu espírito de

presenças; é na ausência que aprendo,

e também ensino.

 

Violinos fazem meu coração bater

com a força dos bastões que, no atrito,

tecem os sons mais bonitos

nas cordas de almas encantadas.

 

Histórias não podem ser frustração

para sempre... a poesia salva e liberta.

Por isso prossigo nos caminhos das letras:

elas se expandem como estrelas,

salpicando o céu tenebroso dos hipócritas,

clarões de luz a abrir rotas de colisão,

rompendo, transmutando dimensões

que só o espírito humano alcança.

 

Escancaro as portas: a felicidade

é caminho, é estação, é porto,

estrada para descobrimentos.

 

Há um mar imenso onde mergulho,

braços e pernas em busca da ilha e

do istmo nas ondas temerosas

do indômito que habita o meu corpo.

 

Há um fanal para os perseverantes...

Entre água e céu, ventania que sopra

em meu rosto, inflando as velas que

aprumam meus rumos...

Mar de dentro a encontrar destinos.

15 abril, 2026

BAILE DO CAOS (Cacau Loureiro)


Ouço essa canção bonita

que me alcança a alma…

 

Ela revolve a poeira dos meus porões,

desloca tudo do lugar

e me conduz às dimensões

do que foi belo em minha jornada.

 

Soltei ao vento

as caminhadas mais difíceis.

Não havia como carregar

as estacas dos coléricos

como mochilas que me travavam

diante das montanhas

das minhas buscas interiores.

 

Quis trazer para perto

aqueles que, como eu,

já haviam sangrado tanto…

porque já não me permitia

sangrar diante dos que

escolheram outros atalhos.

 

Perante os combates brutais,

essa música sempre me visitou…

recolhendo-me ao silêncio

para não revidar

as incongruências.

 

Nos ecos da ira,

sacrifiquei as palavras.

Moinhos a extrair pedras das águas

que, ainda assim,

purificaram meu espírito.

 

A vida é uma dança tão complexa:

cada um sente o ritmo

conforme o preparo do corpo,

seja material ou imaterial.

 

Sentir a música da existência

é rodopiar a alma

na ponta da lâmina dos caminheiros,

lanhos que nos burilam

para o grande baile do caos

e nos fazem peregrinos do eterno.

 

E, entre sedas, cetins e diamantes…

Misteriosas personas...

convidar o humano em nós

para esta imperfeita contradança.

IRREVERSO (Cacau Loureiro)

 


Apago as luzes…
e as cortinas pesadas
sussurram diálogos desconexos.

Quantas interrogações deixamos
para depois…
se todas as respostas
já se anunciam em silêncio.

A minha medida
jamais será a do outro.

Caminhei só
por meus próprios caminhos…
e a solidão, em voz alta,
desdiz tantas certezas.

A mente viaja —
território extraordinário
onde sigo ao lado
de um estranho que sou.

Ecoam por dentro
sons que me atravessam,
levando-me de um lado a outro…
e a vida dança,
insistindo em mais.

Passos no infinito do ser,
descompassados
pelas dicotomias da alma.

Semicerro os olhos…
para suavizar a luz
que invade minhas sombras.
Por que, ainda, evito os clarões
que me revelam veredas?

Deixo as bagagens
em seus devidos lugares.
Lanço um último olhar
ao que fui
e sigo.

Jamais retornarei.

Entro no trem da vida…
o agudo apito, a fumaça;
parto para, enfim, ser irreversivelmente
de verdade.

14 abril, 2026

SEIVA E ALMA (Cacau Loureiro)


Entre folhas e frutos,

perfumo minhas mãos...

 

Nos cheiros que me chegam às narinas,

aspirar é também compreender:

há algo que me preenche

e me soergue.

 

Mãos generosas guardam néctares

capazes de reavivar espíritos fatigados.

E eu não sei por que

essa estrada que sigo

tanto me cansa.

 

Ainda assim, planto.

 

Planto sementes

com cheiro de flor,

sementes que darão polpa

a todo fruto bom.

 

Na sombra, descanso

deste mundo

de ruídos confusos

e pessoas distraídas...

 

A natureza,

mãe da mansidão,

nos cura no silêncio.

 

E, em sua abundância,

nos ensina:

a vida não cessa,

apenas continua

a ofertar suas promessas.

 

Então eu paro o tempo,

olhos a contemplar os

mínimos movimentos

de galhos e pistilos.

 

E me faço criança

sob árvores frondosas,

onde a seiva é densa

nesses caminhos invisíveis.

 

Ali, planto meus pés na terra.

Ali, revigoro o meu coração.

 

À beira de um rio caudaloso,

minha alma frutifica;

e aprende

a esperar

com convicção.

 

Porque o tempo

é Senhor

de todas as coisas...

12 abril, 2026

CORAÇÃO MENINO (Cacau Loureiro)

Na simplicidade de viver há

coragem… em fechar as portas

do passado para ver, à frente,

as janelas que se abrem para

dias claros… direcionando-nos

às reais partilhas.

 

Porque a dor não deve nos endurecer,

mas nos abrir à possibilidade de viver

o que nos é diferente e merecido.

 

Acreditar que há um novo tempo, onde

os trajetos, antes pesados e enrijecidos,

sejam sulcados em aprazimento.

 

Deixar as bagagens que nos impuseram

e escolher o próprio destino, sem os pesos

de escolas alheias, pois a nossa própria

missão importa — e importa muito.

 

Olhar os dias como possibilidade real de

ser feliz… porque nada é definitivo, nada

deve nos impor o endurecimento dos sonhos.

 

Fluir em novos ares

e crescer por dentro,

sem dogmatismos.

 

Somente na entrega acendemos

a chama dos apegos sinceros,

edificando o amar bonito.

 

Saber amar é aceitar o desafio

de soltar as amarras que nos

prendem às dores antigas…

 

E pousar o coração na curva de um rio,

aprendendo que jamais nos banharemos

nas mesmas águas.

 

Novas correntes a nos batizar

para escolhas conscientes,

na certeza de que o divino nos

presenteia sempre quando o nosso

coração permanece menino.

10 abril, 2026

FLORES ABERTAS (Cacau Loureiro)

O céu desceu… e me tomou, não de

surpresa, porque o meu coração se

abriu às luminosidades, como

rios que seguem seus caminhos

e se encontram no mar.


Há correntes que me desacorrentam

para viver o que me é merecido,

sorrisos nas expectações de ternuras

substanciais.


Respiro fundo os alívios que me

preenchem os tempos que andavam

vazios… pois teus sons me chegam

nos sopros das novidades,

cadenciando as pulsações

para dias melhores.


Mergulho nos teus olhos

que disfarçam tua alegria bonita…

voz amena que me despertou

de um sono profundo,

no qual eu ainda sonhava…


Manhãs coloridas por tuas letras,

de atenções e liames,

prendendo-me à tua ciranda de flores…

carmim em meu peito…

e, nas mãos,

rosas perfumadas…


flores abertas

em meu âmago diligente.

DESLINDES (Cacau Loureiro)

Havia uma solicitude inquietante naquela noite…

Sozinha, em casa, fazendo minhas orações,

eu não pedi por ninguém.


Pedi por mim.


Pedi aos céus que me arrancassem,

com mãos firmes e ternas,

os últimos vestígios de um sentir

que já não cabia na vida

que eu desejo viver.


Não pedi esquecimento —

pedi libertação.


De laços que não se sustentavam a dois,

de uma presença dividida,

de um silêncio cheio de conflitos

que eu já não queria mais traduzir.


Cansada de assistir às encenações

de um teatro de horrores sutis,

das não escolhas de seres

que preferem não se ver, nem se priorizar.


E, ainda assim,

carregar o mundo nos ombros

como se fosse virtude

se esquecer.


Eu não quis mais essa travessia,

de mãos dadas com abismos alheios.


Pedi por uma vida simples

no que é essencial:

duas presenças inteiras,

sem pesos alheios,

sem excessos que não nos pertencem,

sem amores que se perdem

tentando salvar tudo —

menos a si mesmos.


E naquela noite,

em silêncio,

eu me devolvi a mim.


Se algo ainda restava,

eu entreguei.


Se algo ainda me prendia,

eu soltei.


E hoje eu sei:

não foi sobre ir embora,

ou sobre partidas…

foi sobre o que nunca esteve.


Foi sobre eu, enfim,

não permanecer.


A vida, muitas vezes, não nos responde com pressa,

mas há momentos em que ela nos revela, sem suavizar.


E assim renasci, num domingo em que eu

comemorava a Páscoa.

09 abril, 2026

NOTAS DE LUZ (Cacau Loureiro)


Uma saudade surge com esta música
que me apresentas…
notas suaves como o teu perfume
envolveram meu coração.
E de mansinho os feixes do sol banham
meu corpo, perfumando-o
para receber os dias que me ofertas.

Suave é a voz que pousas em meus ouvidos,
ritmando cifras para que eu dance
nas ondas dos teus cabelos vistosos.
Mergulho no profundo dos teus lumes
esverdeados de esperança,
pois ela nos moverá para o futuro que esperamos.

Levanto ombros e olhos para receber teus
frescores, vento que bateu com força em meu
peito e despertou-me os melhores instintos.

Há flores nos canteiros alegrando as calçadas,
há águas límpidas reluzindo nos bebedouros, voam
beija-flores cromatizando todo o mundo de azul.

Num impulso, ajeito minhas asas;
é bom voar por estes caminhos novatos,
onde curvas, ruas e praças remontam
as peças mais bonitas.

Porque gostar-te assim
é sair do marasmo,
é iluminar dias estranhos,
é subir montes,
é ouvir estrelas,
é vislumbrar outras estradas…
é melhor que ser sozinho.

08 abril, 2026

TEMPO FÉRTIL (Cacau Loureiro)

 

Furta-cor dos verdes profundos, trazidos à

transparência neste mundo nebuloso.

 

Naturais tonalidades de quem vem no vento

das bem-aventuranças… pousa paz, presenteia

sossego, germina esperança.

 

Não há como envelhecer nesses ares, onde

tuas nuances vêm renovar minha pele,

meus músculos, tecidos finos entrelaçados

nos singelos afetos para os reinícios

das cores matizadas pelas novidades.

 

Pinto este quadro nos tons quentes que

me aquecem o espírito outrora solitário.

 

Sentimento moço em dias novatos de ti,

rebentos de um outono de flores amarelas,

cravos brancos, jardim perfumado pelos teus

aromas e buquês.

 

Quero beber em teus olhos a liquidez

do teu brilho que alimenta, revigora,

intumesce e promete tempo fértil…

 

Nas mãos trago jasmins, apertados entre os dedos,

para perfumar teus cabelos... soltos na alegria

do teu lindo sorriso.

FLOR DE OUTONO (Cacau Loureiro)

 

Sinos e pianos te compõem

nesse som de dias bonitos…

 

O outono é uma estação de tanta

beleza… os frutos estão à espera

dos colhimentos inteiros.

 

Há uma emoção a voar como as

folhas nos alísios que alisam minha

pele eriçada de sentidos.

 

Eu aspiro profundamente as tuas tardes

de silêncios e de sons; não há ruídos

quando a alma descerra caminhos limpos.

 

Há um clarão chamando-me para as

jornadas das afeições tranquilas, feitas

de verdades e de franquezas — por que

não seguir por esses caminhos de sol

que revigoraram meu íntimo

e me movimentam pelas estações

onde não há despedidas…

 

A viola dedilha meus nervos em contentamento,

sabe tocar a música das estrelas — lua alta

a dançar no tempo que se fez fruto e flor,

para que eu cante a vida.

07 abril, 2026

TRILHOS DE SANGUE (Cacau Loureiro)

Passageiros...


Somente os purgados de coração saberão

para onde vão.


Estações de lágrimas escorrem pelos

trilhos, sem saber ao certo seus destinos…

Guerra, ódio, dissensões.


Os barulhos das engrenagens nos deixaram

surdos ante os gritos dos degredados

das terras das emoções — solo vazio de

corpos ocos.


Encarcerados em suas cavernas, as sombras

lhes desenham ilusões — quem ousará olhar

para trás ou vislumbrar saídas?


O fogo lançou a humanidade ao futuro,

mas nossos corações, primitivos, tateiam

paredes de barro e pedra, esquecendo o

essencial à construção de espíritos aprumados.


Quando nos levantaremos da lama que,

em vez de curar nossas cegueiras,

nos tornou obtusos às boas intenções?


Passageiros a arrastar bagagens de aflições,

deixando pelos caminhos rastros de almas

inanes, enrustidas na fome de poder absoluto.


No calvário humano, o estandarte

das têmperas covardes fez-se lança venenosa

e, como flechas mortíferas lançadas ao alto,

transpassou, em sangue, os próprios corações.


Passageiros das eras, somos todos

catapultas da destruição.