SOBRE ESTE ESPAÇO

LÍRICOS OLHARES

LÍRICOS OLHARES é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Líricos Olhares é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira."

Claudia Loureiro

27 julho, 2026

DEMOLIÇÕES (Cacau Loureiro)


Memórias são enterradas, não há luto
para aquilo que terminou sem palavras...

Silêncio também é covardia, para quem
não sabe escolher, não aprendeu sobre
valorizar as companhias leais.

Caminhar junto é olhar na mesma direção,
é despojar o coração para as coisas eternas.

Apago o quadro das lições quando os
ensinamentos foram em vão.

Rebusco tempos, as mãos que tentaram
construir o que era conveniente, porque
o orgulho também mata relações e lembranças.

A música continua a tocar nos aparelhos
desligados das eutanásias sentimentais...

De todas as necessidades, partir seria o
melhor caminho?!...

Eu danço o solo dos que assimilaram que a
dança da vida pode prosseguir nos espetáculos
onde cocriei felicidade.

Eu continuo na alegria das construções
saudáveis: casa, casulo, morada, onde o amor
é feito de sedas e barro, edificação para um
futuro bom.

Somos mais do que revestimentos que embelezam;
devemos ser alicerces onde dedicamos forças e
erigimos nossos próprios espíritos para os altos
voos da alma!...

20 julho, 2026

VÉRTICES (Cacau Loureiro)


Seguro as rédeas daquilo que em mim
é intrínseco... sob bridas de cuidado...
origem e essência
que se derramam
nos vértices da minha alma,
em geometria
de um mundo incongruente.

Soltei as amarras nos campos abertos.
Corro por entre os canteiros
do meu espaço interior...
Somente eu, o vento e as flores,
a sussurrar preces de gratidão.

E então,
no espelho do mundo me vejo,
reconheço-me, em arestas e faces,
porque vestir-se de si mesmo
é descoberta:
surpresa do que no humano
ainda há de mais bonito.

Lá no horizonte,
o sol se ergue,
citrino,
iluminando estradas,
despertares para o renovo,
luz que dissolve as sombras
e cintila nos olhos,
abrindo visões.

Nas nuvens moram os anjos.
Tocam harpas,
sorriem no azul,
fundem céu e mar,
e deitam seus cílios compridos
nos braços dos homens
como cifras,
compondo músicas
para a eternidade.

O sol é moreno,
porque é beleza derramada
na pele dos que abrem
os braços e os corações
para as afeições profundas...
O sal é remédio,
porque em cada sabor
depositou as estrelas
que desceram de Selene.

Olhos de safiras
que na noite platinam a penumbra,
descerram todos os véus,
encurtam a madrugada
e trazem esta nova manhã,
onde me olhas
com encanto descomunal,
descortinando
a própria grandeza.


18 julho, 2026

DOS TRAJETOS (Cacau Loureiro)

Tuas rotas chegam a mim...
mas há silêncios
onde minhas mãos não alcançam.

As palavras já não bastam
para reacender
o que fomos.
Hoje restam apenas
as lembranças,
na mente  confusa
e no corpo dormente.

Enquanto teus caminhos seguem,
eu permaneço
a sonhar a maciez da tua pele,
o teu sorriso,
único em sua beleza singela.

E o meu coração,
paralisado diante das contradições
de quem falou de amor...
de encontro...
de predestinação.

O universo
não se moverá
para atender às vontades
de quem sofreu vida afora
e hoje perpetua
o eco da própria dor.

Sigo vivendo,
porque a vida nos convoca
ao movimento.

E os dias passam
como teu rosto
entre nuvens esparsas.

O tempo é Senhor:
implacável, mas transformador.

Ainda assim,
seguir é preciso.

Nesta manhã,
o vento frio
entrou pela janela.

Meus lábios,
também frios,
sentiram a falta
do alimento
dos alvoreceres
ao teu lado.

Oferta-me tua mesa farta,
onde a ausência
não encontre lugar.

Desata os nós
que o tempo fez.

Desfaz os caminhos contrários.

Marca em teu relógio
a hora
do nosso precioso tempo.

Dos prazeres
que nos despertavam
no meio da noite,
traz de volta
tua alma encantada.

Que tuas rotas,
enfim,
cheguem a mim.

Vem.

Abraça-me
uma vez mais.

 

13 julho, 2026

LÍNGUA NATIVA (Cacau Loureiro)

Teus agudos penetraram meu templo,
órgão dos delírios...
um beijo na rosa acendeu os prazeres
como pão agridoce a fermentar-me
a existência...

E estrelas nasceram em meu ventre,
despertando um sexto sentido
equilibrado entre a terra e o céu.

Lábios e papilas
degustaram o vão do tempo.
Dois corpos sedentos,
apaziguados no deleite
enfim acolhidos
no leito da noite.

Hálito sobre hálito,
erguemos os sussurros das palavras.
Uma viagem desconexa
que iluminou tantos caminhos,
rotas desenhadas sobre o peito,
sobre a pele e o dorso,

na penumbra em que meu contorno
se fez água sobre os teus poros.

Ancas estremecidas,
coxas em confidência,
mãos entrelaçadas,
dedos tecendo laços,
cabelos enlaçando almas,
essências compondo
um perfume único,
aroma de nós.

Cheiro de amor,
vertigem dos ardores,
contentamento dos amplexos
que evaporavam saudades,
enquanto a madrugada
nos reinventava.

Ficaram tuas trilhas
inscritas em meus seios
e nas curvas das costas,
onde tua saliva
inscreveu, silenciosamente,
a gramática dos desejos.

Quero ainda a agitação
de nossas matérias nuas,
quando tua boca sedosa
desatou meus calafrios
e traduziu,
em ondas aquosas,
o idioma dos êxtases.

Assim quero permanecer
decifrando todos os códigos
de tua língua nativa.

22 junho, 2026

ALFORRIA (Cacau Loureiro)


O tempo desce suas asas, sombreia
meus olhos...
Vida embaçada...

Busco no passado os motivos
para a existência do silêncio.
Já não explicarei como se deve amar.

Nada floresce sob as mãos do egoísmo,
olhar estreito dos que atravessam a dor
sem recolher seus ensinamentos,
sem valorizar quem lhes oferece afeto.

Minhas mãos no escuro buscam-te,
noite vazia,
coração pesado...

Ouço uma canção nas frestas da madrugada;
o som arranha as lembranças
como lâminas que ferem minha alma.

Como deixaste escorrer entre os dedos
um amor tão puro,
fronteiras de um espírito acolhedor?

As lágrimas secaram em meus olhos
quando contemplei tua armadura fria,
tuas escolhas incongruentes,
incoerências de quem atravessou a vida
sem compreender a linguagem dos afetos.

Lamento que não soubeste entender
que amar é desarmar-se,
soltar o passado,
olhar adiante sem esmorecer,
construindo os caminhos da lealdade.

Deixo teus sons perderem-se na alvorada.

Pela manhã o sol despontará,
clareando os caminhos.

E já não estarei presa a ti.
Então conhecerei libertação!...

21 junho, 2026

LUMINOSA (Cacau Loureiro)

Passo minhas mãos entre os lençóis...

Senhora das serpentes,
teus movimentos ainda dançam em mim,
sol que invade janelas
e acende teu corpo
em relampejos de saudade.

Tua silhueta balança ante meus olhos,
âmbar inquieto
que invade minha alma
e faz morada
em meus trajetos de fêmea.

Em tua lua, eu sonho acordada.
Boca e pele riscadas de prazer.

Teu calor ainda me percorre.
Teu perfume ainda me habita.
E meus músculos ainda doem
na tua ausência.

Senhora do ventre fértil
e dos excessos,
dos braços fortes
que ritmavam meu pranto e meus sorrisos,

carmim derramado em luz
onde fui inteira
em dádiva e desejo.

Teu arco-íris nasce após as tempestades,
ponte celeste
aos meus tesouros mais fundos.

Lumes serpenteiam minha estrada,
auroras em frutos e flores,
teus prateados cabelos amanhecendo em mim.

E quando a noite recolhe seus silêncios,
ainda encontro teus vestígios
entre os filós da ausência.

E sigo a sonhar tua luminosidade.

 

17 junho, 2026

MANDALAS DOS VENTOS (Cacau Loureiro)

Vento do poente que me traz calor, terral
que sopra em minha alma os ardores e olores
da tua existência singular...

Sol nascente em riso aberto, fortaleza para
quem te enxerga face a face, para quem acordada
sonha com os bafejos cristalinos do teu sorriso,
horizontalização da sorte em prazeres verticais.

Em abraços longos, clarões a envolver meu corpo,
tatuando minha pele de ti em letras e borboletas,
entre os animais de casa, pena a escrever tua
poesia bonita em meu espírito de aedo.

Abundância de águas cálidas, boca
dos desejos a engolir minhas paisagens
em deleites, em prazeres matinais, nas
sombras da parede à meia-luz do teu
quarto de dormires.

Nesses sonhos de ontem eu colei no céu
tuas estrelas, cintilantes como os teus olhos
de langores orientais, como tântrica massagem
em todas as esferas emocionais.

Corpo e copo a derramar rosa-chá em
minha xícara cheia de lembranças...

Refresco do meu peito,
nas vespertinas nuances do teu dorso,
em minhas arrebatadas mandalas.

Ah! Ontem eu lembrei de ti, de norte a
sul do teu nu estonteante, no desatar dos
nós intrínsecos dessa lembrança, misto de
sol e semente...

E insiste como sopro repentino dos quintais
do tempo acariciando o meu rosto,
enxugando essas lágrimas de saudade...

15 junho, 2026

EXALAÇÕES (Cacau Loureiro)


Manhãs Perfumadas...

Abro os meus olhos; a tua alvorada
é quem me chama a viver.

Não haverá futuro venturoso se a tua
presença não me fizer companhia.
Teu sorriso largo e branco como as nuvens
é pouso, é prenda do divino. Por isso te olho
dentro das pupilas; lá me vejo despida
de vaidades, vejo-me com a alma
franqueada, também para te receber.

Bobagens fazem-me pensar em perdas.
Eu, que aprendi que nada é por acaso,
permaneço entre as flores que teu abraço
me concedeu em dias quentes, em dias
frios, no despertar dos teus aromas em mim.

Não tenho medo. A vida lá fora já não
mais me estremece por dentro. Plantei
minhas decisões nas veredas que contigo
aprendi. O mundo grita por confusão, e
eu coloquei minha cabeça na certeza de
que somente os afetos profundos podem
transformar as caminhadas.

Aragem fresca a tocar-me a face, a me
tranquilizar o espírito. Não há montanhas
intransponíveis quando a verdade vai à
frente, quando a transparência é flâmula
e bandeira na marcha da evolução.

Ainda escuto o teu riso, que desencadeia
frisson em meus nervos, pele e alma, e
ando a descortinar teu universo bonito, que
ainda permanece em mim, mesmo ante a
tua partida breve...

Sigo liberta, mas voo contigo.

13 junho, 2026

TERÇOS DE OUTONO (Cacau Loureiro)


Final de outono... sol ameno e vento frio

a me acordar para as lembranças...

Aquela música sempre toca, esteja ou
não o som ligado... e ela vibra em mim
como o teu corpo quente. Então me levanto
da cama porque é preciso viver, também das
memórias, das imagens enevoadas do teu
sorriso brilhante, da tua gargalhada presente,
dos teus cabelos que clarificavam minhas manhãs
de café sobre a mesa e dos banquetes noturnos.

Ainda sinto tuas pernas pesando sobre as minhas
quando eu delineava o teu corpo nu com minhas
mãos aquecidas dos teus sabores intrínsecos,
dos teus espasmos abundantes.

E as imagens dançam em reminiscências,
povoam minha mente como fio que ainda teço,
feito um terço em orações infindáveis.

E a tarde adentra o meu peito,
farto e falto de ti,
friagem a entrar por baixo da porta trancada,
e as janelas emperradas,
e os quereres enclausurados
em nossas naturezas obstinadas...

Ecoam tantas palavras ainda vívidas,
porque não se enterra o verbo repetido à exaustão...

Eu fiz de nossas grandezas recordações,
e mesmo com o nunca mais que me chega pela noite,
ainda sinto, feito febre terçã,
todos aqueles dias memoráveis.

CORPO DE MEMÓRIAS (Cacau Loureiro)


Visto o meu corpo de memórias...

Que ainda nebulosas vão se abrindo ao meu
olhar insistente quando busco o teu sorriso
naquelas noites que pareciam eternas.

Nada é para sempre...
Não sei se meu corpo acredita nisso, porque teu
cheiro ainda habita a minha pele, tecido por
tuas mãos de óleos essenciais.
Por teus sons singulares de promessas, por
teus sussurros de amor sem fim...

Eu sigo por estas novas rotas traçadas no
ímpeto de apagar sensações, mas elas são
tudo o que me resta para continuar por esses
atalhos que escolhi para apagar os teus rastros.

E tampouco sei se fui amada, porque as
desistências nos falam e nos ensinam sobre ser
tudo e ser nada ao mesmo tempo.

Interromper caminhos é como jogar a bússola
fora e adentrar a floresta obscura, feita de pinheiros
e ciprestes, pois a escuridão tem cheiro e corpo
materializados na ausência, como mulher que chora
sobre a inércia do ser amado que já se foi embora.

O passado parece ter sabor e presença, dor e
alívio, névoa fria e claridades, e assim prossigo
adentrando o desconhecido que procuro e sequer
consigo antever, porque a minha natureza é de
descobertas.

12 junho, 2026

RESSONÂNCIA (Cacau Loureiro)


Há vozes que não pertencem ao vento,

embora caminhem com ele.

São sussurros de ternura,
atravessando os véus do tempo
como astros que persistem acesos,
mesmo quando a noite parece profunda.

Escuto-os.

Não com os ouvidos,
mas com a alma sensibilizada,
nesse lugar secreto onde os afetos
se tornam eternidade.

Teu nome habita os silêncios,
e tua presença floresce azulada
entre as horas e os sonhos,
como um jardim invisível
cultivado pelas mãos do destino,

sol adentrando, em furta-cor, a janela.

Nada se perdeu.

O amor não conhece despedidas.
Transforma-se em luz,
em memória transmutada,
em perfume de rosas
que permanece no ar,
mesmo depois que o jardim adormece.

E quando ergo os olhos ao céu,
vejo constelações desenhando signos
sobre a vastidão estrelada,
como se o universo inteiro
escrevesse, em linguagem de símbolos,
a história que une nossas almas.

Então compreendo:

amar é escutar as ressonâncias.

E cada eco traz de volta tuas falas,
não aquilo que se foi — porque estás —
mas aquilo que escolheu permanecer:

de ti em mim... para sempre.

PEREGRINO (Cacau Loureiro)


Chorando, adentramos os céus da Criação...

Anjos caídos diante das maravilhas de um
Criador amoroso, de esplêndido caráter.

Não importam as pedras da travessia:
a força que me ergue é transcendente.
Por isso não há cansaço; eu persisto,
pois sagrada é a centelha que me habita.

Tantos páramos e dimensões atravessei por eras...
Meu escudo imaterial é fortaleza:
coroa de espinhos, sangue derramado na cruz,
perdão ofertado aos deserdados da Terra.

Nas alturas firmo o coração.
Ali abraço manhãs ensolaradas,
de jardins exuberantes e múltiplas cores,
pois, pela fé, retiro os véus
e contemplo este belo Universo
que me chama às arquiteturas da alma.

Aspiro os ares celestiais.
Harmonias sutis restauram minha essência para a jornada.
O dom que me foi dado — viver —
é dádiva e possibilidade inarrável
de participar deste misterioso tecido da existência.

Há cânticos e louvores por toda parte,
e com eles sigo adiante,
no eterno movimento de semear.

Reles mortal neste mundo, eu sei.
E sirvo com humildade e resignação,
pois não há esclarecimento maior
do que saber-me criatura.
Assim honro as flores e os brotos nascentes da senda,
porque também sou caule frágil
diante de minhas próprias mazelas.

Mas sinto o perfume dos lírios brancos
e das rosas amarelas.
Jardim de jasmins perfumados,
Éden onde depositei minhas esperanças.

Uma canção delicada me chama aos despertamentos.
As belas companhias deste mundo são privilégio;
seara onde chuvas e ventos moldam meus passos
e fortalecem a alma para perseverar.

A vida é bela quando olhamos além dos próprios pés.
A vida é enxergar o agora e o além.
É quando teus olhos me convidam
para esta peregrinação de crescimento interior.

08 junho, 2026

COMPASSO DOS ANJOS (Cacau Loureiro)

Arcanjos dançam nos véus da noite...
Não há guerras a travar,
pois o universo já pronunciou a paz.

Florescem estrelas no infinito,
fazendo cintilar as constelações,
e suas luzes derramam-se suaves
sobre minha fronte.

Tantas histórias se desfazem,
tantas outras começam...
e o dom da criação, em nossas mãos,
ergue os alicerces dos recomeços.

Olho adiante e vejo a estrada iluminada,
livre das vaidades e dos atalhos
que tantas vezes nos desviam de nós mesmos.

Quero entre meus dedos
a joia preciosa dos amores acalentados,
pois tracei meus caminhos
com as linhas de um coração franco.

Não há cansaço.
Há apenas entusiasmo
para acolher o que se apresenta
nos planos mais elevados da existência.

Algo imaterial dança ao meu redor,
entoando cânticos silenciosos,
e eu percebo...
eu sinto o compasso dos anjos.

A vida é uma dádiva
que merece ser celebrada com sorrisos,
pois eles abrem portais invisíveis
para os caminhos da alma.

Tua voz e minha voz
ascendem como orações ao infinito,
porque o divino escuta os clamores sinceros
daqueles que semearam a terra
com bondade e ternura.

Sem espadas,
caminho pelos campos abertos.
Não há rastros dos bárbaros,
apenas eflúvios astrais.

Há jasmins perfumando a jornada,
há cores derramadas em arco-íris
sobre as promessas da eternidade.

E eu desejo viver tudo isso
ainda sorrindo,
ainda cantando,
em louvação à criação que vive
e todos os dias nos revela,
com infinita delicadeza,

a verdadeira face do amor.

06 junho, 2026

MARÉS DE MIM (Cacau Loureiro)

A música deste dia aprazível invade a

minha alma, como se fosse um sol

morno de fim de outono a correr pela

minha face num sorriso que espera

pelas coisas alvissareiras.


Felicidade não é porto, é caminho decidido,

é direção tomada, como velas içadas no

mar de um mundo muito perdido e louco.


Tantas histórias escritas num espírito viajante,

versos cantados em dias claros, em noites

escuras de puro breu, onde me achei e

também me perdi, e naveguei...


Mas as águas correm pelos lemes e ficam

para trás; e, se voltam, já chegam mudadas

pelos ventos, pelas intempéries que se renovam

a todo momento, ventos a renovar o rosto,

a purificar os cabelos, a lacrimejar os olhos.


Eu vou junto com as marés, em torrentes

ritmadas pelos desertos que atravessaram

o meu coração... singraram meu peito com

amor e sangue, com tormentas e tempestades,

com chegadas e partidas.


Às terras novas empreendo a minha nau...

Houve cais onde descansei a cabeça, colo quente

onde rascunhei tantos mapas... bússola de mim

mesma esquecida nos porões de imperitos

navegantes, seres perdidos em abstrações...


Mas agora fito as novas linhas do horizonte, aprendidas

nos naufrágios... águas turvas onde nadei e conheci ilhas

desertas para hoje ser timão, popa e proa... e neste mar

aberto, ser capitã de mim mesma!

01 junho, 2026

ANTES FLORESCER (Cacau Loureiro)


O fruto amadureceu nos galhos...

Sob todas as intempéries apresentou-se forte.
Embora travasse batalhas todos os dias para sobreviver,
resistiu às mãos inábeis daqueles que,
diante do verde ainda amargo,
insistiam em interromper seu processo,
matando-o antes da florada.

E mesmo atado ao ramo que o nutria,
revela a robustez de sua essência,
a plenitude de sua graça,
a abundância de suas qualidades.

Nutrir é característica dos bons frutos:
crescer entre folhas, sol, chuvas e pragas,
e ainda assim revelar ao mundo a que vieram.

Assim também é a natureza humana:
persistir diante dos ventos malogrados,
das forças contrárias,
porque nossa substância é suavizar o que nasce torto,
transformar o que nos desafia,
lapidar o bruto até que revele sua forma.

Somos feitos para alimentar.
Quem mata pela fome é o estéril.
O infértil.
Aquele que proclama abundância,
mas não sabe partilhar o pão.

Não permita que nada o faça desistir
quando estiver próximo do oásis.
Pois quem afirma que essa água não é boa
talvez jamais tenha sido capaz
de saciar a própria sede.

29 maio, 2026

NOITES ETERNAS (Cacau Loureiro)

Crivos de chuva adentram minha pele,

como se o céu viesse em gotas de cura

habitar meu corpo... Quando chegaste

havia o glacial frio embaçando meus olhos...

 

Noites solitárias em matéria inabitada;

medonhos eram sons que ao longe se

ouviam, o ranger das tábuas desenhava

caminhos para os montes sombrios onde

escondi meu coração entre espinhos e farpas.


As manhãs nunca chegavam...

na noite eterna, janelas emperradas

eram espelho das águas ruidosas e

torrenciais que não dissipavam a solidão.

 

Mãos fechadas não descerram a lucidez,

não liberam sementes para o plantio

dos tempos fecundos; deixei de lado as

roupas pesadas. O baú do passado já

não contém mais meus ossos; minha alma

fugiu pelas frestas onde pousou tua

cortesia reluzente.

 

E me vieram belas canções nos ventos

dos morros uivantes, porque a vida é

cantata bela, honesta, nascida nos espíritos

pulsantes; é música plena de existência

que nas noites mais friorentas se faz

presença quando o teu sorriso bate à

minha porta.


 

26 maio, 2026

DEPOIS DE VER O MAR (Cacau Loureiro)

 

Te percebi por trás das folhagens,
talvez num dia qualquer desse mundo
corrido eu nem te percebesse...
Por baixo daquele chapéu de fita
alaranjada teu rosto se escondia,
seria disfarce para não ser encontrada
quem sabe pelas dores, quem sabe
pelos gozos, mas a tua natureza bonita
me fez espanto naquela tarde ensolarada.

Teus gestos no silêncio me gritaram por
dentro, acordaram-me para a tua cútis
sedosa, teu gestual charmoso, teus olhos
abrasivos a me queimarem o seio, a me
despertarem sentidos... âmbares a atiçar todas
as fogueiras de uma alma desencantada.

E o tempo andou depressa, e o mar nos
veio, vento refrescante da manhã que se
tornou inesquecível, teus longos cílios a
me olharem de cima embaixo, beijos e
púbis em ritual de corpos suados, olhares
lânguidos, e esse teu singular abraço do
qual não me esqueço jamais, acolhida
em tuas intrínsecas histórias...

Quantas vezes noites adentro despertamos
nossos corpos ante a transcendência desses
beijos que nos levaram a lugares que nem
queríamos mais deixar... como estrelas lúcidas.

Mas labirintos viraram caravanas e foram
consumidos pelas tempestades de uma
realidade à qual tu te agarraste feito raiz a
invadir solo degradado e ao medo de amar
de peito aberto.

Sinto muito se,
depois de ver o mar, tu não viste no imenso
horizonte... quantos caminhos!...

RECITAR-TE (Cacau Loureiro)

Quero ler os teus versos da madrugada...

E versejar em minha tez a estrofe que me

seja tua inspiração, pois tenho olhos na

ponta dos dedos e os meus lábios tecerão

todas as escritas dos quereres em teu corpo,

recônditos eriçados em pele e pelos.


Dorme comigo para despertar em minha

alma alegre, que sorri entre filós e cetins,

tingindo de carmim os teus seios entre

minhas mãos aquecidas em teu colo.


Acorda meus instintos em teu frêmito

generoso como orvalho que corre entre

pétalas... acolhedoras ante minhas ternuras

derramadas em tessituras de desejos e

sôfregos prazeres.


Deixa-me dormitar meus cílios molhados

em tuas costas nuas, macias... donde eu

possa avistar todas as tuas curvas e linhas

e perpetuar tua geometria secreta em minhas

ancas e dorso inteiros.


Permita-me sussurrar em teu regaço febril,

encaixar-me em teus braços e pernas...

desaguar rios inteiros em teu pescoço e

ventre, em tuas coxas tenras entreabertas.


Afastarei teus perfumados cabelos, derramarei                

os meus olhos nos teus e recitarei em tua boca

vermelha todos os versos que nesta hora...

 nossas carnes frementes nos deram.


Quero ainda ler os teus versos na madrugada...

25 maio, 2026

ÍRIS FÉRTIL (Cacau Loureiro)

Anseio teus ares inéditos; como seria bom
sentir a umidade dos teus lábios férteis,
gôndolas a me conduzirem por teus canais,
singrar sobre teu leito de brandura, pousar
em tua ponte dos suspiros.

Ontem choveu tanto... Mas a madrugada
preencheu meu peito de tuas nuances,
aquarela imersa em tuas águas cálidas.
Porque aonde teus pés forem, eu estarei...
colorindo em íris e âmbar a tua estrada.

Vi tua silhueta em minha porta; as luzes
avessas trouxeram teu corpo aos meus
olhos em aguardo, no resguardo de
florações graciosas.

Eu vejo tanto e tudo o que rebrilha em ti;
não há temores em voar por teu céu risonho.
Minhas asas são leves em tua companhia,
abrindo selvas e fronteiras, desvendando
tuas trilhas densas em calor e alegria.

Eu me desprendo da terra para tocar teu céu
aberto; os ventos em meus ouvidos fazem tua
bela sonata soar em meus poros. Eu, frente ao
destino... aspiro e pairo.

Quero o imprevisto de ti nesta paisagem que
me abriu os olhos para as alquimias do sentir...
Em estonteante páramo de benesses, eu me
faço ninfa alada.


24 maio, 2026

OLIVA LUMES (Cacau Loureiro)

Teus sons no vento me embalam

em encanto... meu tempo é estrada e

rumo, águas torrenciais que deságuam

enfim neste imenso mar dos desejos.


Longitude onde te busco com os

beijos da saudade... Quero te ver...

sentada no bistrô fresco destas

tardes em que dormito contigo, e

nas mãos a xícara repleta de florais

aromatizados, onde sorvo teus

lábios desenhados pelos anjos.


Prendo-me ao teu sorriso bonito,

termo que nada diz sobre esta

viagem que faço a brincar nos teus

olhos de oliva, luminosos.


Sem cessar os versos brotam, pois

a voz do universo cantou teu nome

em meus ouvidos... teus anelos me

enlaçaram no balanço adornado

pelas tranças do seu tempo langoroso.


E o sol, como mãos abertas, te oferece

feixes de flores e luzes, porque teu

riso iluminou-me as frestas obscuras e

deu ritmo aos meus tons destoantes.


Brindou-me com estes escritos atraentes

que falam da tua face e dos teus cabelos,

pois um rio inteiro agora se faz em rimas para ti!...

CONJUNÇÕES (Cacau Loureiro)


E o silêncio agora virou palavras...
Esverdeado espectro a constituir
um arco-íris ímpar neste céu
consumido de auras esfumaçadas.

As letras invadem o simbólico do
indizível... canção bonita nos teus
lumes que vislumbram combinações
astrais... vento sul a correr pressuroso
pelo curto tempo, pela alma ampla que
se abre a novas conjunções.

Não mais escrito nas estrelas, o céu
vem descendo devagar sobre meus
olhos que contemplam tua história
ainda não contada. Mas há um conto
de fadas complexo no teu olhar atento,
folhas a balançar como pétalas aos
alísios pacíficos, ultramar onde me
lanço, destemida, aos descobrimentos.

Há uma marcação nos teus sons que                             
parecem tranquilos... inquietações de
quem procura abrigo... presença...
poesia e verso... estes signos que te dou
são a minha ousadia te propondo todo
o meu aconchego, café quente nos
recantos das bonitas estradas que
contemplo nestes dias claros de sol.

Lavo meu rosto para te enxergar face a
face, e as marés de plutão banham meu corpo
em ritual tão sagrado: águas, flores, frutos,
aromas; velas acesas por estes caminhos
já de ti perfumados, nos quais vislumbro,
tão presente, teu singular clarão!...

21 maio, 2026

DOS SORRISOS (Cacau Loureiro)


Há na face da terra sorrisos que são

inesquecíveis... Feitos de palavras tecidas

nos ventos da saudade e que fazem a

poesia do presente.


Céu azul, vento fresco a alisar essências

angustiadas, toques do inefável a reconstruir

tantas estradas, sonhos, esperanças...

Visões para além do hoje.


Há um som que vem das serranias

para nos fazer evoluir em humanidade,

cheiro de café vindo da cozinha do tempo

passando para nos lembrar que houve

trilhas bonitas, flores na janela a colorir

dias chuvosos, fazendo um sol quentinho

florescer no peito das lembranças.


Mãos espalmadas no espelho fazem-me

reconhecer que sobre nossas cabeças

existem acenos de ternura, antepassados

que ainda vivem em nossos passos, em

nossos laços, em nossos punhos que

ainda insistem em lutar por dias pacíficos.


Caminhos nos quintais da eternidade a nos

fazer sorrir pelas dádivas que tivemos... temos,

pela alegria de compartilhar certas companhias,

crescer em respeito e gratidão.


Sim, há um sorriso nesses dias frios e

nebulosos que nos fazem suplantar todas

as travessias difíceis, todos os seres

perdidos no inverno de suas almas sofridas.


E, eu oro por aqueles que insistem em sorrir sem

desculpas, que estendem as mãos sem medos,

que abraçam com o calor de irmão, e sustentam

um sorriso no rosto, pois compreendem que a vida

passa, e os afetos são os fios que permanecem

sustentando as luzes que ainda incubam a vida.

16 maio, 2026

SIMBIÓTICOS DO CAOS (Cacau Loureiro)

A brisa fresca secou meus olhos,

as lágrimas são rios que correm

em silêncio, nos rumos dos intensos

as pedras são detalhes na jornada.


Não há curvas para quem decidiu

viver em transparência quando as

pessoas são feitas de poeira e asfalto

nos rumos das estradas de ventanias.


Os olhares que lançamos sobre nós

mesmos são envelhecidos, há um

espelho que distorce nossas verdades e

assim contamos as histórias que nunca

foram nossas...


Queria muito ver gente,

mas, nessas arenas virtuais somos

gladiadores robóticos, simbióticos

do caos, personagens de Dante.


Metal nas doces palavras que não se

comprometem, onde os sonhos

envelhecem na correria dinâmica

dos que não se importam e dormem

com máquinas nas mãos.


Incoerências de quem vê em si mesmo

o cognoscível, mas ainda tateando

seus ecos ininteligíveis... conhecimento

apreendido em recortes factuais.


Em meio

à poluição que desce sobre todos

os nossos dias, chamas a consumir

o humano em nós, atos falhos a

entupir os acessos sensíveis,

viagem do irascível, aço, aço,

asco, daqueles que se chamam

homens a matar-nos por dentro

toda a humanidade que já nos

foi perceptível.