SOBRE ESTE ESPAÇO

❦ LÍRICOS OLHARES ❦

Este é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Este olhar é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.


Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira.

— Claudia Loureiro

14 setembro, 2026

DOS POENTES (Cacau Loureiro)

Levanto os olhos...

O sol sem ti me segue em sombra,
pois só ela me acompanha na solidão
das calçadas trabalhadas em pedras.

E segue o vento ao horizonte, onde
o poente se deitou em meus cílios
molhados, de pálpebras lacrimosas,
quando o mar se deixa à brisa das
tardes em que meu peito se aperta
em saudade.

E tudo silencia na amplidão para
que eu escute teus sons, cetins
dobrados na noite, fazendo ruídos
dos amores das estrelas, pés e mãos
entrelaçados nos átrios do meu
coração, que já não vive mais em vão.

Luz das manhãs que tentam buscar
teu rosto, lá onde sal e areia escrevem
teu nome em plânctons luminosos
que suspenderam os astros para
iluminar meus dias...

Praia, sol, horizonte, céu da cidade,
claridade que habitou minha alma e me
levou aos campos de flores das singelas
uniões, canção nascida com os trovadores da
terra, onde a relva são as mãos do instrumento
a afinar os meus dias, esses dias de bem...

não mais só, porque no sol que se levantou em meu
peito, eu hoje sou você!




 

ENQUANTO NÃO VENS (Cacau Loureiro)


Dias há que a falta consome as horas...
feito fogo aceso na fogueira insana dos desejos...
água de beber para quem morre de sede.

Mergulho em lembranças para arrancar
as dores que povoam os vazios, tão presentes
como essa chuva que alaga meu quintal e minha alma,
nessas águas abundantes que criam torrentes
e não desatam as correntes que me juntaram a ti...
palavras encadeadas nos afetos,
como rimas dessa poesia que se compõe
na tua distância.

Palmo a palmo, teu corpo na penumbra,
sussurros de um tempo que não vem, mas
se incorpora em tuas esferas, que permanecem
a despertar meus instintos todos. E eu te ouço
como música a pairar sobre a cama, onde vejo
tua face, esses olhos de dizeres, essa boca
de volúpia, versos que entoam cânticos
e preces para um coração desassossegado.

Mas ainda permaneço na energia que vibra
entre nós, nos esparsos encontros de nossas
presenças cálidas, espasmos de um tempo bom,
feito de letras, poesia de um futuro promissor.

Ainda o carro na estrada, tuas rotas que,
por hora, não me chegam... e eu fico a te esperar
sem pressa, enquanto a saudade percorre
os caminhos de nós.


26 agosto, 2026

REENTRÂNCIAS (Cacau Loureiro)


Eu quero ser triste com a tua ausência,

mas me encontro em ti, mesmo na lonjura

da saudade... sorriso aberto... Porque

pensar em ti é alegria que se vê.

Vou às ruas e ando a esmo, talvez para

não pensar em não te ter. A vida segue

quando te sigo, pois se move em meu âmago

a tua música, povoando meus sonhos

e pensamentos... em dobras de memória.

 

Todos os dias, a tua companhia, que já não

mais se esconde em mim... e eu sussurro

teu nome ao vento dessas tardes em que

meu corpo te chama.

Tua pele alva, aurora novedia, traz-me

o brilho do teu riso — sol que se levanta

com a vida que ainda se move em ti para

comigo.

 

Teu ser tatuado em meus poros, curvas

e estradas onde meu destino se perdeu

e, também, encontrou morada.

Arcanjos me contaram o segredo

da fonte da juventude: crescer no amor

que amo em ti, sempre contigo.

 

Ainda o teu sorriso me espreita nas longas

madrugadas em que te desenho nas paredes

do meu quarto... Furta-cor a

adentrar meus olhos e reentrâncias,

teu cálice a matar minha sede,

teu vinho doce a me entontecer.

 

E os teus pelos em minhas mãos são como

sedas orientais, vestindo a minha nudez

que, em teus braços, se fez de eternos

momentos em dossel de paixões.

 

Águas de março a se moverem nos alísios

mornos de um novembro inesquecível...

E eu, entre o desejo e o desamparo,

ainda encontro em ti

o lugar onde o meu coração

não aprendeu a partir.


04 agosto, 2026

ENTRE LOUROS E ADAGAS (Cacau Loureiro)

A noite caminha em meu peito, entre silêncios,
a passos largos rumo à falta que me fazes.
As palavras emudeceram ante a distância;
agora resta apenas um caminho sem volta.

A covardia destrói as pontes, e não há
amor que resista à morte da confiança.
Assim prossigo, olhando para a frente,
deixando pedaços do passado para trás,
como carne lançada aos falcões.

Então volto os olhos ao espelho do tempo,
passo as mãos pelos ramos verdes
que ainda emergem
da terra seca das lutas vãs,
onde, aos poucos, teus traços
se apagam de minha memória;
o alívio pousa sobre
minha máscara de ferro.

Restam apenas cabeças cortadas.
É chegada a hora das decisões.

Meus braços descem ao longo
do corpo que sempre esteve em alerta,
quando os pensamentos corriam de um lado
ao outro, perdidos em porquês que
jamais encontraram sua linha de chegada,
pois toda travessia terminava sempre
diante do fosso vazio das fortalezas.

Então parto dessas arenas de lutas inglórias:
leões,
areia,
sangue invisível
ante os padecimentos
daqueles que almejaram ser heróis.

Olho ao derredor desse picadeiro dos bobos,
onde tudo sucumbiu sob o fio da adaga
para que eu ostentasse os louros da vitória
na fronte...
e todo esse vazio
nas mãos.

02 agosto, 2026

CANTOS DA CASA (Cacau Loureiro)

Há um sorriso neste domingo a se
esconder pelos cantos da casa...

Incenso a entrar por minhas narinas,
nos suspiros que a saudade toma
de meus pulmões.

Eu bebo, aos goles, o café quente
que aprendi a partilhar contigo,
com gosto de manhã ensolarada,
céu azul que se abre em mim
em luminosidades.

Luzes... é o que relampeja
em meus olhos.
Ritmos... é o que prorrompe
em meu corpo,
dança de almas na noite
que permanece quando o astro maior
se levanta no horizonte
para brindar sua permanência
nestas terras de ninguém.

Quando me permites o teu
solo fértil,
que se espraia por meus
jardins e canteiros,
flores plantadas
a quatro mãos...

E o teu riso solto pula
em meu colo,
como surpresa dos deuses
para aplacar minhas dores,
para secar minhas lágrimas,
para fazer sorrir
meus olhos negros,
feitos de madrugadas insones...

O vento balouça as folhas
e traz as pétalas
no assoviar desse canto
bonito,
dessa música que a ti pertence
e ocupou todos os cantos
da casa.

01 agosto, 2026

ISTMO (Cacau Loureiro)

Eu te velejei por esses mares de
ondas brancas, gigantes...

E navego... sempre para o teu horizonte,
onde as linhas juntam céu e mar.

Águas de cristas douradas que me
teceram um colar precioso,
ornando o meu coração
com o brilho das paixões.

Correntes temperadas pelo sal
dos teus lábios,
gosto dos gostos da tua alma rara,
ilha dos amores...
istmo de ti.

Mergulho profundo, regido pelo canto
das sereias,
sete mares em poesia,
braçadas nos redemoinhos do teu dorso,
traçando as rotas subterrâneas
dos mistérios abissais.

Corpos molhados, amalgamados
como no encontro entre rios e mares,
nascentes dos desejos a
derramarem singulares paisagens...

Refluxo e reflexo das marés,
onde os verões alteiam o sol
para que a lua desponte
inteira no teu sorriso.

30 julho, 2026

VOZES DO TEMPO (Cacau Loureiro)

Ouço as vozes do tempo, elas
rimam a poesia da jornada...
Versos cravados no peito,
como inscrições na casca
das árvores, onde sonhos e
paixões deslizam como a brisa
da manhã em meus cabelos.

Sopro aos ventos, levanto as
cinzas que me fazem aspirar
as histórias... fogueira que
ainda hoje arde em mim.

Vesti meu vestido colorido,
laço de fita na criança que
ainda cresce e vive... sorri
ao enfrentar as intempéries,
brinca na chuva, corre pelos
quintais entre as flores rosadas
das paineiras, tronco forte a
se erigir ao céu, azul estonteante
das lembranças.

Colher os frutos maduros e
alimentar o espírito das coisas
fecundas, sementes a se espraiarem
com a força indômita da natureza
que persiste, resiste e floresce...

À sombra das memórias, rebusco
o que agora sou e canto aquelas
canções que embalaram sonhos,
a vida, rede dos profundos afetos.

Viajo como os pássaros,
olhando do alto o cume que
galguei em lições, e hoje me
assento na escola dos belos
ensinamentos, aprendiz na
travessia das vivências.

Rio caudaloso molha meus pés;
corre forte. Sorrindo, eu sigo
lavando o rosto e a alma, e enfim
me reconheço no espelho d'água,
a refletir o sol que sempre brilhou
em meu caminho.

27 julho, 2026

DEMOLIÇÕES (Cacau Loureiro)


Memórias são enterradas, não há luto
para aquilo que terminou sem palavras...

Silêncio também é covardia, para quem
não sabe escolher, não aprendeu sobre
valorizar as companhias leais.

Caminhar junto é olhar na mesma direção,
é despojar o coração para as coisas eternas.

Apago o quadro das lições quando os
ensinamentos foram em vão.

Rebusco tempos, as mãos que tentaram
construir o que era conveniente, porque
o orgulho também mata relações e lembranças.

A música continua a tocar nos aparelhos
desligados das eutanásias sentimentais...

De todas as necessidades, partir seria o
melhor caminho?!...

Eu danço o solo dos que assimilaram que a
dança da vida pode prosseguir nos espetáculos
onde cocriei felicidade.

Eu continuo na alegria das construções
saudáveis: casa, casulo, morada, onde o amor
é feito de sedas e barro, edificação para um
futuro bom.

Somos mais do que revestimentos que embelezam;
devemos ser alicerces onde dedicamos forças e
erigimos nossos próprios espíritos para os altos
voos da alma!...