SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

16 abril, 2026

MAR DE DENTRO (Cacau Loureiro)


Movimentos de dentro tentam se expor,

é difícil conter o impulso da vida, pois

ela pulsa na direção dos ventos solícitos...

nem todos sabem sobre as gentilezas.

 

Mas eu levanto da cama com a energia

dos que querem mudança, num salto

de entusiasmo para conexões profundas.

O raso não preenche meu espírito de

presenças; é na ausência que aprendo,

e também ensino.

 

Violinos fazem meu coração bater

com a força dos bastões que, no atrito,

tecem os sons mais bonitos

nas cordas de almas encantadas.

 

Histórias não podem ser frustração

para sempre... a poesia salva e liberta.

Por isso prossigo nos caminhos das letras:

elas se expandem como estrelas,

salpicando o céu tenebroso dos hipócritas,

clarões de luz a abrir rotas de colisão,

rompendo, transmutando dimensões

que só o espírito humano alcança.

 

Escancaro as portas: a felicidade

é caminho, é estação, é porto,

estrada para descobrimentos.

 

Há um mar imenso onde mergulho,

braços e pernas em busca da ilha e

do istmo nas ondas temerosas

do indômito que habita o meu corpo.

 

Há um fanal para os perseverantes...

Entre água e céu, ventania que sopra

em meu rosto, inflando as velas que

aprumam meus rumos...

Mar de dentro a encontrar destinos.

15 abril, 2026

BAILE DO CAOS (Cacau Loureiro)


Ouço essa canção bonita

que me alcança a alma…

 

Ela revolve a poeira dos meus porões,

desloca tudo do lugar

e me conduz às dimensões

do que foi belo em minha jornada.

 

Soltei ao vento

as caminhadas mais difíceis.

Não havia como carregar

as estacas do irascível

como mochilas que me travavam

diante das montanhas

das minhas buscas interiores.

 

Quis trazer para perto

aqueles que, como eu,

já haviam sangrado tanto…

porque já não me permitia

sangrar diante dos que

escolheram outros atalhos.

 

Perante os combates brutais,

essa música sempre me visitou…

recolhendo-me ao silêncio

para não revidar

as incongruências.

 

Nos ecos da ira,

sacrifiquei as palavras.

Moinhos a extrair pedras das águas

que, ainda assim,

purificaram meu espírito.

 

A vida é uma dança tão complexa:

cada um sente o ritmo

conforme o preparo do corpo,

seja material ou imaterial.

 

Sentir a música da existência

é rodopiar a alma

na ponta da lâmina dos caminheiros,

lanhos que nos burilam

para o grande baile do caos

e nos fazem peregrinos do eterno.

 

E, entre sedas, cetins e diamantes…

convidar o humano em nós

para esta imperfeita contradança.

IRREVERSO (Cacau Loureiro)

 


Apago as luzes…
e as cortinas pesadas
sussurram diálogos desconexos.

Quantas interrogações deixamos
para depois…
se todas as respostas
já se anunciam em silêncio.

A minha medida
jamais será a do outro.

Caminhei só
por meus próprios caminhos…
e a solidão, em voz alta,
desdiz tantas certezas.

A mente viaja —
território extraordinário
onde sigo ao lado
de um estranho que sou.

Ecoam por dentro
sons que me atravessam,
levando-me de um lado a outro…
e a vida dança,
insistindo em mais.

Passos no infinito do ser,
descompassados
pelas dicotomias da alma.

Semicerro os olhos…
para suavizar a luz
que invade minhas sombras.
Por que, ainda, evito os clarões
que me revelam veredas?

Deixo as bagagens
em seus devidos lugares.
Lanço um último olhar
ao que fui
e sigo.

Jamais retornarei.

Entro no trem da vida…
o agudo apito, a fumaça;
parto para, enfim, ser irreversivelmente
de verdade.

14 abril, 2026

SEIVA E ALMA (Cacau Loureiro)


Entre folhas e frutos,

perfumo minhas mãos...

 

Nos cheiros que me chegam às narinas,

aspirar é também compreender:

há algo que me preenche

e me soergue.

 

Mãos generosas guardam néctares

capazes de reavivar espíritos fatigados.

E eu não sei por que

essa estrada que sigo

tanto me cansa.

 

Ainda assim, planto.

 

Planto sementes

com cheiro de flor,

sementes que darão polpa

a todo fruto bom.

 

Na sombra, descanso

deste mundo

de ruídos confusos

e pessoas distraídas...

 

A natureza,

mãe da mansidão,

nos cura no silêncio.

 

E, em sua abundância,

nos ensina:

a vida não cessa,

apenas continua

a ofertar suas promessas.

 

Então eu paro o tempo,

olhos a contemplar os

mínimos movimentos

de galhos e pistilos.

 

E me faço criança

sob árvores frondosas,

onde a seiva é densa

nesses caminhos invisíveis.

 

Ali, planto meus pés na terra.

Ali, revigoro o meu coração.

 

À beira de um rio caudaloso,

minha alma frutifica;

e aprende

a esperar

com convicção.

 

Porque o tempo

é Senhor

de todas as coisas...

12 abril, 2026

CORAÇÃO MENINO (Cacau Loureiro)

Na simplicidade de viver há

coragem… em fechar as portas

do passado para ver, à frente,

as janelas que se abrem para

dias claros… direcionando-nos

às reais partilhas.

 

Porque a dor não deve nos endurecer,

mas nos abrir à possibilidade de viver

o que nos é diferente e merecido.

 

Acreditar que há um novo tempo, onde

os trajetos, antes pesados e enrijecidos,

sejam sulcados em aprazimento.

 

Deixar as bagagens que nos impuseram

e escolher o próprio destino, sem os pesos

de escolas alheias, pois a nossa própria

missão importa — e importa muito.

 

Olhar os dias como possibilidade real de

ser feliz… porque nada é definitivo, nada

deve nos impor o endurecimento dos sonhos.

 

Fluir em novos ares

e crescer por dentro,

sem dogmatismos.

 

Somente na entrega acendemos

a chama dos apegos sinceros,

edificando o amar bonito.

 

Saber amar é aceitar o desafio

de soltar as amarras que nos

prendem às dores antigas…

 

E pousar o coração na curva de um rio,

aprendendo que jamais nos banharemos

nas mesmas águas.

 

Novas correntes a nos batizar

para escolhas conscientes,

na certeza de que o divino nos

presenteia sempre quando o nosso

coração permanece menino.

10 abril, 2026

FLORES ABERTAS (Cacau Loureiro)

O céu desceu… e me tomou, não de

surpresa, porque o meu coração se

abriu às luminosidades, como

rios que seguem seus caminhos

e se encontram no mar.


Há correntes que me desacorrentam

para viver o que me é merecido,

sorrisos nas expectações de ternuras

substanciais.


Respiro fundo os alívios que me

preenchem os tempos que andavam

vazios… pois teus sons me chegam

nos sopros das novidades,

cadenciando as pulsações

para dias melhores.


Mergulho nos teus olhos

que disfarçam tua alegria bonita…

voz amena que me despertou

de um sono profundo,

no qual eu ainda sonhava…


Manhãs coloridas por tuas letras,

de atenções e liames,

prendendo-me à tua ciranda de flores…

carmim em meu peito…

e, nas mãos,

rosas perfumadas…


flores abertas

em meu âmago diligente.

DESLINDES (Cacau Loureiro)

Havia uma solicitude inquietante naquela noite…

Sozinha, em casa, fazendo minhas orações,

eu não pedi por ninguém.


Pedi por mim.


Pedi aos céus que me arrancassem,

com mãos firmes e ternas,

os últimos vestígios de um sentir

que já não cabia na vida

que eu desejo viver.


Não pedi esquecimento —

pedi libertação.


De laços que não se sustentavam a dois,

de uma presença dividida,

de um silêncio cheio de conflitos

que eu já não queria mais traduzir.


Cansada de assistir às encenações

de um teatro de horrores sutis,

das não escolhas de seres

que preferem não se ver, nem se priorizar.


E, ainda assim,

carregar o mundo nos ombros

como se fosse virtude

se esquecer.


Eu não quis mais essa travessia,

de mãos dadas com abismos alheios.


Pedi por uma vida simples

no que é essencial:

duas presenças inteiras,

sem pesos alheios,

sem excessos que não nos pertencem,

sem amores que se perdem

tentando salvar tudo —

menos a si mesmos.


E naquela noite,

em silêncio,

eu me devolvi a mim.


Se algo ainda restava,

eu entreguei.


Se algo ainda me prendia,

eu soltei.


E hoje eu sei:

não foi sobre ir embora,

ou sobre partidas…

foi sobre o que nunca esteve.


Foi sobre eu, enfim,

não permanecer.


A vida, muitas vezes, não nos responde com pressa,

mas há momentos em que ela nos revela, sem suavizar.


E assim renasci, num domingo em que eu

comemorava a Páscoa.

09 abril, 2026

NOTAS DE LUZ (Cacau Loureiro)


Uma saudade surge com esta música
que me apresentas…
notas suaves como o teu perfume
envolveram meu coração.
E de mansinho os feixes do sol banham
meu corpo, perfumando-o
para receber os dias que me ofertas.

Suave é a voz que pousas em meus ouvidos,
ritmando cifras para que eu dance
nas ondas dos teus cabelos vistosos.
Mergulho no profundo dos teus lumes
esverdeados de esperança,
pois ela nos moverá para o futuro que esperamos.

Levanto ombros e olhos para receber teus
frescores, vento que bateu com força em meu
peito e despertou-me os melhores instintos.

Há flores nos canteiros alegrando as calçadas,
há águas límpidas reluzindo nos bebedouros, voam
beija-flores cromatizando todo o mundo de azul.

Num impulso, ajeito minhas asas;
é bom voar por estes caminhos novatos,
onde curvas, ruas e praças remontam
as peças mais bonitas.

Porque gostar-te assim
é sair do marasmo,
é iluminar dias estranhos,
é subir montes,
é ouvir estrelas,
é vislumbrar outras estradas…
é melhor que ser sozinho.