SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

22 março, 2026

MERIDIANO (Cacau Loueiro)

Fim de tarde... o sol desceu em camadas

alaranjadas... misturou-se às ondas brancas,

exuberantes — seio farto nos deleites da vida.

 

Aspirei os bons ares dos livres passos,

espaço onde eu mesma caibo inteira.

 

Marolas lavando os pés das pressas

desnecessárias — Cronos é o mestre

no ritmo humano das aspirações errantes.

 

Beijo o sal em minhas mãos,

purifico a aura... ensinamentos esquecidos

nos tempos que nos correm ante os olhos,

deixando marcas no corpo.

 

O horizonte faz a escrita das estrelas,

relampeja histórias entre nuvens escurecidas...

 

Enquanto a melancolia marca a areia,

o mar apaga as pegadas das dilações passadas

 

A brisa marítima esvoaça pensamentos

que transpassam a linha do infinito aparente

e se deixam descansar nas águas.

 

Singro a vida no embalo desse entardecer luminoso,

respingos frios na face, cabelos em desalinho

selvagem ante o poder da natureza misturam-se

nas rotas dos sonhos, coração em longitudes...

anoiteceu...

                                                         

19 março, 2026

PERFUME ARÁBICA (Cacau Loureiro)


Há um perfume no ar...
Nessa madrugada eu vi seus olhos na
janela, e o teu sorriso iluminou o quarto
no escuro amargo das lembranças...

Ouvi tua gargalhada ante minhas atitudes
infantis, o jogo de dados foi lançado na  
mesa do tempo e o meu peito arfou.

Percebo que no filtro das minhas
vivências, tu nunca me enxergaste,
embora este sentir fosse constante em
dias radiantes de palavras aromatizadas.

Despi-me das roupas velhas para aquele
primeiro encontro, o espresso denso e o
vento audacioso a nos tocar o rosto,
o sorriso tímido que brotou dos seus
lábios tensos, e não havia motivos.

Toquei em seu braço, caminho para
o beijo em suas mãos pequeninas, mas
com a pele de complexas vivências.

Meu respeito ali se fez presente porque
entendi que os caminhos do amor não
lhe foram propensos.

Repito, despi-me do velho para te encontrar
de novo... mãos depuradas das dores de quem
sempre viveu de coração aberto, pois, coragem
sempre foi minha linguagem e verdade meu
idioma predileto.

Hoje, pela manhã mascaro as ilusões...

Sobre a mesa o café quente à espera do gole
profundo, intensidade que eu escolhi viver.
É o trago forte que me acorda para a vida...
o morno não mais me mobiliza a alma para
as beberagens do corpo.

18 março, 2026

CARTOGRAFIA (Cacau Loureiro)


À beira do cais,

uma dama na noite,

à espera de um milagre...


As luzes da cidade

penetram seus olhos

como chuva que deságua na alma

em canções de espera.


O eco dos passos

acorda a aurora,

para que a esperança desperte

e sobreviva

ao sol escaldante dos exílios...


que não sacia a sede

da tua companhia copiosa,

feroz correnteza

que redesenhou destinos.


E então eu sou mar...


retemperando

os mergulhos profundos

de quem não compreende

as distâncias,


onde os portos

apagaram seus faróis

para sermos

náufragos de nós mesmos.


Sigo cega

nas noites abissais,

oceanos sombrios

feitos de tempestades e medo...


Águas altas, revoltas,

prontas a invadir o convés

dos sonhos,


engendrados como bússolas

de caminhos incertos,


de cartas à deriva

de uma cartografia extraviada.


Mas ancoro

na paisagem perplexa

dos silêncios,


e os rumores da noite

não me trazem sentido,

soam-me desconexos,


como vagas encobrindo a quilha,

golpeando o casco,

desestabilizando o lastro:


empuxos

que me afogam

em solidão.

15 março, 2026

INFINITO BREU (Cacau Loureiro)


Há um culto a se cumprir neste dia de domingo,

acender lembranças. O sol brilhante faz

uma oração no horizonte azulado,

onde o astro-rei surge em sua realeza

e em infinito amor pelos homens.

 

Na poeira do destino, os passos seguem

ao encontro do entardecer,

onde as estrelas irão iluminar os sonhos

e conduzir as dores à escuridão...

constelações onde adormecerá

tudo aquilo que se deixou de viver.

 

No chão, os pés doridos riscam percursos

que já não possuem placas nem sinais;

chão batido nas canções do tempo

que me fizeram conhecer as distâncias.

 

Acelerado, o peito ainda guarda sensações...

O corpo fala mais que as palavras

silenciadas pelo irascível orgulho dos

que ainda não aprenderam a maturar o que

há de mais belo nos seres.

A guerra interior é capaz

de tornar tudo em terra arrasada.

 

Paisagens passam velozes ante

minhas buscas vãs:

cercas que abraçam alqueires,

montes que limitam sentimentos.

Cavalgadas em missões de salvação

permanecem perdidas

na densa vegetação onde sombra e luz

confundem minha ótica enevoada.

 

Há um culto a se cumprir neste dia de domingo.

Quando a noite chegar, estrelas cintilarão

ainda fechadas em meu coração...

em preces ao eterno breu.

14 março, 2026

HOMEM ESCARPA (Cacau Loureiro)


E subo minhas colinas.

O ar rarefeito

me leva a lugares

que lá embaixo jamais alcançaria.


Só do alto plano eu vejo.

E sinto.

Eu enxergo de verdade.


Somos tão pequenos

e, aqui do alto,

só a minha alma

fica gigante.


Ah! A raça humana nada sabe

sobre os caminhos do coração…

Mas eu tento.

E quanto mais subo,

mais vejo.


Daqui do alto

as estradas são como serpentes.

E as serpentes existem,

estão por todos os lugares.


Mas não as temo,

porque tem poder

o cajado da verdade,

e o tempo

é um fazedor de justiça.


As páginas da história

vão passando

ao vento veloz

dos que respiram revolução.


E eu pergunto:

o que está acontecendo

com homens e mulheres?


Somente as crianças saberão,

pois serão elas —

somente elas —

a salvação.


As janelas abertas com energia

me levam

a tantas caminhadas.


E então subo as escarpas,

abismos

dos que andam rasteiros…


E agora eu vejo.

Só agora vejo:


o homem, nu de si mesmo,

tirou sua capa.


Não é mais o herói.


E eu pergunto:

o que está acontecendo

com a humanidade?

13 março, 2026

LUX (Cacau Loureiro)


Céu luminoso!...

Minha alma canta a confiança.


Estradas marcadas pelo barro grosso não me

sujam as vestes. Translúcida, minha gema segue

os sinais. Nem sempre o último gole é o mais

amargo... Benditos aqueles que nos matam a sede

com as mãos limpas, com a água doce dos afetos.


O poço dos deslumbramentos é profundo, e eu não

temo vir à tona para respirar os contentamentos

humanos, porque meu espírito transborda esperanças.


Cada vez que finco meus pés nos caminhos que a vida

me propõe, aprecio o azul que me recobre a cabeça

e me tonaliza o sorriso — adiante, arco-íris depois

das tempestades...


Tantas músicas para bailar na festa da existência,

e o meu coração balança na melodia suave dos

ritmos honestos, francos. Porque não há amor sem

lealdade, não há partilha sem realmente enxergar

o outro...


Os sons que me invadem o corpo erguem meu

dorso para as plenas edificações, hoje tão raras.


O universo é um cantador e um grande contador

de histórias — em expansão do humano para o

encontro com a divindade, em eternos movimentos

desde os primitivos primatas.


Post tenebras lux...


Porque onde cabe o homem


sempre caberá um Criador...

10 março, 2026

ELEMENTAL (Cacau Loureiro)

Eu sou maré...


O vai e vem das ondas é força

que me arvora.

 

Sou o estrondo do mar que

afasta incautos, areia que

se limpa na água salgada.

 

Cicatrizes curadas pela lua,

brilho na pele tecido pelo sol.

 

Vento forte que afasta

os estagnados

e abre estradas entre montanhas,

descerra caminhos para flechas

lançadas rasgando os céus.

 

Meu braço é lança que se

alça cortando o mal,

e planta os pés feito raiz

para renascer do invisível

feito relâmpago —

clarão que arranca máscaras

e faz tremer a terra.

 

A mãe Gaia me abençoa:

olhos de lince,

ouvidos de mariposa...

fazem-se presentes

espíritos ancestrais.

 

Um chamado me clama,

grito que acorda os adormecidos,

chama ardente que espanta a

noite. Brasa que crepita na beira

do rio, aumenta o lume

e transforma meu coração

em ouro raro, em

fogo consumidor.


CÉU DE AÇO (Cacau Loureiro)


A natureza das coisas é intrínseca.

O meu tempo emprego em observar,

jamais me equilibrar na espada afiada

dos arbítrios.


Apenas seguir pelos caminhos

das reciprocidades, e assim,

é por eles que eu quero ir.


No céu que hoje desaba proceloso,

bebo, aos goles, as luminosidades:

limpidez da alma traduzida em lealdade,

transitando pelas vias daqueles

que ajuízam sobre a jornada

que, a ferro e fogo, engendrei.


Sobre todas as leis cunhei

as letras da verdade,

porque nela selei as asas

das reais oportunidades,

no grande amplexo

das filigranas dos afetos

que tracei.


Já as águas de março que

abundantes vertem

por todos os canais

que a vida em mim sulcou

em prantos... eu a alma lavo,

não as mãos.


Areias e pedras expostas

à natureza dos homens,

mas abertas, francamente,

às belezas dos céus.


Largo é o meu riso: acolhimento,

ritmo de uma verve

que não aprendeu a sussurrar

sobre a vida inteira que me cabe,

têmpera de aço

forjada em entusiasmo.


E sigo inteira,

porque a natureza das coisas

se curva, cedo ou tarde,

diante daqueles

que guardam intacta

a própria claridade.