SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

01 maio, 2026

TEMPORAL (Cacau Loureiro)

Deixe-me beijar as lembranças...

Pois é no teu corpo que elas se

comprazem noite adentro, e elas

revolvem meus pensamentos

para que eu possa aquecer

minha pele seca na textura

inesquecível do teu colo quente,

sempre nu em liberdade rubra...

carmim... cores exatas dos desejos.

 

E agora, por minhas mãos, correm

as lágrimas, sal do teu corpo feito

líquidos para matar-me a sede de

agora, para lavar-me o seio de

saudade que me chega como lua

baixa sobre meus ombros.

 

Jogo-me na cama, dossel dos teus

carinhos, olhares profundos a invadir

minha alma extasiada, encanto a

luzir em meus olhos tristonhos ante

suas pérolas de âmbar ardentes.

 

Trago de volta o meu pertencimento...

não posso deixar que me leves

para onde vais, já que deixaste aqui

o meu coração endurecido no abraço

que não vem, na ausência que não

dorme... avança pela madrugada.

 

E sigo teus passos desenhados na areia

de um tempo que não morre mais em

mim, criando dunas que se lançam para

além dos horizontes de amores perdidos.

 

E todos os dias o sol nasce e se põe

lá no alto, move nuvens e faz crescer

no céu azulíssimo a tua luminosa imagem,

quando tuas escaldantes águas desabam

sobre mim... Temporal.

 

OBLÍQUOS (Cacau Loureiro)

O chão amanheceu molhado...

Chuva densa que me acordou por
noites inteiras, e plantou-me os pés...
Mas, as claridades insistem em
penetrar os meus olhos para que
melhor eles enxerguem os dias
que estão por vir.

Não há mais motivos para lágrimas,
o chão fértil reflete o céu onde as
nuvens são curativos para as almas
rasgadas... Ninguém manterá o direito
de me apunhalar pelas costas porque
hoje vejo o quão muitos estão perdidos
em seus trajetos oblíquos.

Deixa-me andar pelas sendas que eu
mesma abro com minhas mãos, seguir
pegadas alheias e truncadas é se perder
pelo caminho e empunhar sozinha a
flâmula e a espada.

Escolho abrir as asas, vertiginosamente,
mirar o céu que me é alívio e clareza, e
assim sobrevoo o mar dos desprezos
como quem agora só vê as profundidades.

Limpei as mãos, levantei-me do solo dos
cegamente permissíveis para crescer em
escolhas coerentes; já não abrigo egotistas.

Sacudo a poeira que me atou os passos,
lama e chuva agora levantam muros, e
labirintos eu edifico com coragem para
manter os insensatos bem longe dos
diamantes que eu poli para enriquecer
minha estrada que haverá de ser bonita.

30 abril, 2026

VIDA EM GRAÇA (Cacau Loureiro)


Ante a vida, devemos estar dispostos...

Como recusar os encontros,

se a vida é sopro

e o vento a leva

num instante?


Abro os braços

às correntes benéficas dos alísios

que retemperam a alma,

transmutam sentimentos,

enquanto o divino em nós

sussurra sossegos.


Há uma música

a embalar as alegrias:

dias de sol,

folhagens exuberantes

alimentando a esperança.


Viver é saber:

há um Criador

bom e generoso.


E estar nesse estado

é viver em graça,

em gratidão 

propenso às boas coisas do caminho.


Entre burburinhos e silêncios,

esse som me move.


Não há retorno

quando a jornada

é crescimento.


Empurrei janelas

para tocar claridades,

abri portas

para mergulhar no mundo

que já reconheço.


Minhas mãos, em poesia,

escrevem minha história,

feita de aço,

de corações frios...

ainda assim, prossigo.


Porque minhas águas de afeto

são termais,

aquecidas na minha gema

pelas mãos da terra,

pelos dedos incansáveis

de um Deus

tão bonito.

28 abril, 2026

VÉU E VINHO (Cacau Loureiro)

 

Cerrou-se um véu sobre minha juventude...

Não mais olharei para trás com os mesmos

olhos; nas teias do passado envelhecido

apanho conceitos arcaicos, retorcidos como

raízes em seu estágio terminal, para queimar

na fogueira.

 

Há uma fênix escondida nos vinhedos, onde

o vinho ainda está em broto verde no tanino

das colinas... pedregosos caminhos que dão

sabor aos mananciais da alma: pleno voo de

coragem.

 

Entre montanhas, a fumaça que consumiu lapsos,

chama ardente que calcinou tudo, mas não se

extinguiu nem em cera, nem em pavio.

 

O vento sopra mudanças, rascante é a verdade;

estopim é a caminhada que vai deixando sinais,

cinzelando carne, ossos e músculos.

 

Sob tênue luz eu preparo recomeços, lagar em

que macero frutos sob os pés, sangue novo

a dar sabor à vida.

 

Os raios da manhã acordam minhas órbitas,

não preciso ir tão longe para saber algumas

sendas; a rajada forte puxou meus cabelos,

revolvi memórias... delibo a vida, pois essas

paisagens do agora me serão eternas...

FITA AMARELA (Cacau Loureiro)


Ganhei uma fita amarela, 

amarrei-a no pulso para dar sorte... 


Deposito fé na energia 

que me ofertas... 

Até o intocável 

pode ser promessa. 


Quero ir à praça 

para ver teu sorriso, 

comer pipoca, tomar guaraná, 

ver as crianças brincando na rua, 

os gatos correndo para os becos, 

pombos querendo partilhar companhia. 


Porque a vida é sol 

aquecendo o peito esperançoso 

de amores bonitos, 

de companhias suaves, 

de palavras sinceras. 


Lealdade é viver em compromisso... 

Ser feliz na alegria de partilhar o simples, 

como bola de gude para almas crianças, 

como pipa nos altos sopros do destino. 


Porque este, sim, deve ser colorido: 

longas rabiolas serpentando o infinito, 

aquele que teus olhos fitam, 

estes teus olhos que eu flerto 

no dia dos namorados, 

nos fogos que explodem no céu 

trazendo mais um auspicioso ano. 


Onde te abraço e fico, 

onde te olho e permaneço 

nesse desejo catito, 

pois nesse dia magnífico, 


eu só quero te namorar.


24 abril, 2026

INDIVIDUAÇÃO (Cacau Loureiro)

Canções rejuvenescem a alma,

prossigo nas melodias suaves

da vida, com passos a destemperar

minha têmpera de aço.

 

Em meio a tantos laços, respiro

minha essência; ser e me reconhecer

frente ao espelho revela-me humana.

 

Meus olhos aquosos enriquecem

o espírito em buscas profundas,

itinerário de quem descobriu as

belas afinidades, enquanto aquilo

que não vibra comigo segue sua

própria empreitada.

 

Rimo alegrias e prantos, pois crescer

é perceber as nuances dos caminhos;

a existência é permanente busca de

preciosas joias, raridades dos encontros.

 

Nem sempre as trilhas serão breves,

mas seremos alquimistas de nossos

próprios percursos… em compassos

interiores, em sintonia consigo,

adentrando as cifras que comporão as

canções que darão sons e ritos,

tornando-nos viajores em busca

da nossa própria evolução.

22 abril, 2026

PRECES AO MAR (Cacau Loureiro)


As esquinas correm ante meus olhos,
busca insana que faço para me encontrar,
onde ficou o que deixei pelo caminho?

Ante as imagens que correm, eu agora
sigo devagar, mas minha verve intranquila
ainda busca as estradas; ainda conta as
estrelas que me seguem do alto, no vão
do tempo que deixei para trás.

Todas as músicas a moverem meus olhos
e músculos, em cinestesia, que me faz sentir
mais fundo, faz-me querer ir mais alto
e meu espírito vai além.

Vozes fazem as cantorias em meus sonhos,
cantares, louvações para a vida que há de
vir, embalando o sol em meus dias luzidios.

Sim, porque me seguem os feixes de luz
que me tecem as palavras, onde o meu
corpo anda em poesia, onde meus lábios,
em preces, abrem caminhos — minha alma
mergulha nessas águas batismais.

Vou ao mar, respiros das forças naturais,
minhas plantas na areia; oferendas do céu vêm
e vão… lavam meus pés, refrigeram meu
espírito — assim levo o vento em minhas mãos…
No seio farto da natureza, eu fico a pensar…

Há um Deus que é mulher.

21 abril, 2026

BENDITO VINHO (Cacau Loureiro)


Há batidas de alegria em minha porta,

a brisa sussurra bendita música

em minhas horas mortas e eu colho

o cheiro dos teus cabelos...

 

Minha alma dança...

no ritmo das coisas simples e bonitas que

em ti transbordam, em perfumes e notas.

 

Em teu charme debruçado na janela,

teu sorriso me convida, e sigo

nos movimentos dos teus braços,

marcados em minhas lembranças

de tantas noites belas,

 

porque és também amanhecer translúcido

nos dias que me foram nublados, e agora

ressurjo em lampejos coloridos.

 

Tua chuva abundante

escorre em meus lábios e pernas,

beijo exigente que me toma após

tudo que tocaste em mim e deixaste

gravado em minhas mandalas.

 

Teu nome vem das estrelas,

acende constelações em meu peito,

viagem que faço de olhos vendados,

 

pois mergulhar às cegas é preciso

para não saber

o quão fundo posso chegar

nessa rosácea embriaguez.

 

Sem armadura, coração destemido,

eu posso sangrar entre aromas e buquês

do teu corpo seleto.

 

Porque somente sangria e vinho

me permitem sentir

o real sabor da vida

que ora habita em mim.