SOBRE ESTE ESPAÇO

"Há palavras que nascem para explicar. Outras, apenas para tocar. Este é um lugar de travessias. Aqui repousam poemas, reflexões e fragmentos de vida escritos ao longo dos anos, preservados no tempo em que surgiram, como quem guarda cartas antigas ou fotografias da alma. Não escrevo para ensinar verdades nem para oferecer respostas prontas. Escrevo para compreender os caminhos, os encontros, as ausências, os recomeços e os silêncios que nos transformam. A poesia é a linguagem que encontrei para dialogar com o invisível, com a memória, com os afetos e com tudo aquilo que insiste em florescer dentro de nós. Seja bem-vindo. Caminhe sem pressa. Algumas palavras são abrigo. Outras são espelho. Talvez alguma delas tenha esperado por você. Claudia Loureiro."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

13 julho, 2026

LÍNGUA NATIVA (Cacau Loureiro)

Teus agudos penetraram meu templo,
órgão dos delírios...
um beijo na rosa acendeu os prazeres
como pão agridoce a fermentar-me
a existência...

E estrelas nasceram em meu ventre,
despertando um sexto sentido
equilibrado entre a terra e o céu.

Lábios e papilas
degustaram o vão do tempo.
Dois corpos sedentos,
apaziguados no deleite
enfim acolhidos
no leito da noite.

Hálito sobre hálito,
erguemos os sussurros das palavras.
Uma viagem desconexa
que iluminou tantos caminhos,
rotas desenhadas sobre o peito,
sobre a pele e o dorso,

na penumbra em que meu contorno
se fez água sobre os teus poros.

Ancas estremecidas,
coxas em confidência,
mãos entrelaçadas,
dedos tecendo laços,
cabelos enlaçando almas,
essências compondo
um perfume único,
aroma de nós.

Cheiro de amor,
vertigem dos ardores,
contentamento dos amplexos
que evaporavam saudades,
enquanto a madrugada
nos reinventava.

Ficaram tuas trilhas
inscritas em meus seios
e nas curvas das costas,
onde tua saliva
inscreveu, silenciosamente,
a gramática dos desejos.

Quero ainda a agitação
de nossas matérias nuas,
quando tua boca sedosa
desatou meus calafrios
e traduziu,
em ondas aquosas,
o idioma dos êxtases.

Assim quero permanecer
decifrando todos os códigos
de tua língua nativa.

22 junho, 2026

ALFORRIA (Cacau Loureiro)


O tempo desce suas asas, sombreia
meus olhos...
Vida embaçada...

Busco no passado os motivos
para a existência do silêncio.
Já não explicarei como se deve amar.

Nada floresce sob as mãos do egoísmo,
olhar estreito dos que atravessam a dor
sem recolher seus ensinamentos,
sem valorizar quem lhes oferece afeto.

Minhas mãos no escuro buscam-te,
noite vazia,
coração pesado...

Ouço uma canção nas frestas da madrugada;
o som arranha as lembranças
como lâminas que ferem minha alma.

Como deixaste escorrer entre os dedos
um amor tão puro,
fronteiras de um espírito acolhedor?

As lágrimas secaram em meus olhos
quando contemplei tua armadura fria,
tuas escolhas incongruentes,
incoerências de quem atravessou a vida
sem compreender a linguagem dos afetos.

Lamento que não soubeste entender
que amar é desarmar-se,
soltar o passado,
olhar adiante sem esmorecer,
construindo os caminhos da lealdade.

Deixo teus sons perderem-se na alvorada.

Pela manhã o sol despontará,
clareando os caminhos.

E já não estarei presa a ti.
Então conhecerei libertação!...

21 junho, 2026

LUMINOSA (Cacau Loureiro)

Passo minhas mãos entre os lençóis...

Senhora das serpentes,
teus movimentos ainda dançam em mim,
sol que invade janelas
e acende teu corpo
em relampejos de saudade.

Tua silhueta balança ante meus olhos,
âmbar inquieto
que invade minha alma
e faz morada
em meus trajetos de fêmea.

Em tua lua, eu sonho acordada.
Boca e pele riscadas de prazer.

Teu calor ainda me percorre.
Teu perfume ainda me habita.
E meus músculos ainda doem
na tua ausência.

Senhora do ventre fértil
e dos excessos,
dos braços fortes
que ritmavam meu pranto e meus sorrisos,

carmim derramado em luz
onde fui inteira
em dádiva e desejo.

Teu arco-íris nasce após as tempestades,
ponte celeste
aos meus tesouros mais fundos.

Lumes serpenteiam minha estrada,
auroras em frutos e flores,
teus prateados cabelos amanhecendo em mim.

E quando a noite recolhe seus silêncios,
ainda encontro teus vestígios
entre os filós da ausência.

E sigo a sonhar tua luminosidade.

 

17 junho, 2026

MANDALAS DOS VENTOS (Cacau Loureiro)

Vento do poente que me traz calor, terral
que sopra em minha alma os ardores e olores
da tua existência singular...

Sol nascente em riso aberto, fortaleza para
quem te enxerga face a face, para quem acordada
sonha com os bafejos cristalinos do teu sorriso,
horizontalização da sorte em prazeres verticais.

Em abraços longos, clarões a envolver meu corpo,
tatuando minha pele de ti em letras e borboletas,
entre os animais de casa, pena a escrever tua
poesia bonita em meu espírito de aedo.

Abundância de águas cálidas, boca
dos desejos a engolir minhas paisagens
em deleites, em prazeres matinais, nas
sombras da parede à meia-luz do teu
quarto de dormires.

Nesses sonhos de ontem eu colei no céu
tuas estrelas, cintilantes como os teus olhos
de langores orientais, como tântrica massagem
em todas as esferas emocionais.

Corpo e copo a derramar rosa-chá em
minha xícara cheia de lembranças...

Refresco do meu peito,
nas vespertinas nuances do teu dorso,
em minhas arrebatadas mandalas.

Ah! Ontem eu lembrei de ti, de norte a
sul do teu nu estonteante, no desatar dos
nós intrínsecos dessa lembrança, misto de
sol e semente...

E insiste como sopro repentino dos quintais
do tempo acariciando o meu rosto,
enxugando essas lágrimas de saudade...

15 junho, 2026

EXALAÇÕES (Cacau Loureiro)


Manhãs Perfumadas...

Abro os meus olhos; a tua alvorada
é quem me chama a viver.

Não haverá futuro venturoso se a tua
presença não me fizer companhia.
Teu sorriso largo e branco como as nuvens
é pouso, é prenda do divino. Por isso te olho
dentro das pupilas; lá me vejo despida
de vaidades, vejo-me com a alma
franqueada, também para te receber.

Bobagens fazem-me pensar em perdas.
Eu, que aprendi que nada é por acaso,
permaneço entre as flores que teu abraço
me concedeu em dias quentes, em dias
frios, no despertar dos teus aromas em mim.

Não tenho medo. A vida lá fora já não
mais me estremece por dentro. Plantei
minhas decisões nas veredas que contigo
aprendi. O mundo grita por confusão, e
eu coloquei minha cabeça na certeza de
que somente os afetos profundos podem
transformar as caminhadas.

Aragem fresca a tocar-me a face, a me
tranquilizar o espírito. Não há montanhas
intransponíveis quando a verdade vai à
frente, quando a transparência é flâmula
e bandeira na marcha da evolução.

Ainda escuto o teu riso, que desencadeia
frisson em meus nervos, pele e alma, e
ando a descortinar teu universo bonito, que
ainda permanece em mim, mesmo ante a
tua partida breve...

Sigo liberta, mas voo contigo.

13 junho, 2026

TERÇOS DE OUTONO (Cacau Loureiro)


Final de outono... sol ameno e vento frio

a me acordar para as lembranças...

Aquela música sempre toca, esteja ou
não o som ligado... e ela vibra em mim
como o teu corpo quente. Então me levanto
da cama porque é preciso viver, também das
memórias, das imagens enevoadas do teu
sorriso brilhante, da tua gargalhada presente,
dos teus cabelos que clarificavam minhas manhãs
de café sobre a mesa e dos banquetes noturnos.

Ainda sinto tuas pernas pesando sobre as minhas
quando eu delineava o teu corpo nu com minhas
mãos aquecidas dos teus sabores intrínsecos,
dos teus espasmos abundantes.

E as imagens dançam em reminiscências,
povoam minha mente como fio que ainda teço,
feito um terço em orações infindáveis.

E a tarde adentra o meu peito,
farto e falto de ti,
friagem a entrar por baixo da porta trancada,
e as janelas emperradas,
e os quereres enclausurados
em nossas naturezas obstinadas...

Ecoam tantas palavras ainda vívidas,
porque não se enterra o verbo repetido à exaustão...

Eu fiz de nossas grandezas recordações,
e mesmo com o nunca mais que me chega pela noite,
ainda sinto, feito febre terçã,
todos aqueles dias memoráveis.

CORPO DE MEMÓRIAS (Cacau Loureiro)


Visto o meu corpo de memórias...

Que ainda nebulosas vão se abrindo ao meu
olhar insistente quando busco o teu sorriso
naquelas noites que pareciam eternas.

Nada é para sempre...
Não sei se meu corpo acredita nisso, porque teu
cheiro ainda habita a minha pele, tecido por
tuas mãos de óleos essenciais.
Por teus sons singulares de promessas, por
teus sussurros de amor sem fim...

Eu sigo por estas novas rotas traçadas no
ímpeto de apagar sensações, mas elas são
tudo o que me resta para continuar por esses
atalhos que escolhi para apagar os teus rastros.

E tampouco sei se fui amada, porque as
desistências nos falam e nos ensinam sobre ser
tudo e ser nada ao mesmo tempo.

Interromper caminhos é como jogar a bússola
fora e adentrar a floresta obscura, feita de pinheiros
e ciprestes, pois a escuridão tem cheiro e corpo
materializados na ausência, como mulher que chora
sobre a inércia do ser amado que já se foi embora.

O passado parece ter sabor e presença, dor e
alívio, névoa fria e claridades, e assim prossigo
adentrando o desconhecido que procuro e sequer
consigo antever, porque a minha natureza é de
descobertas.

12 junho, 2026

RESSONÂNCIA (Cacau Loureiro)


Há vozes que não pertencem ao vento,

embora caminhem com ele.

São sussurros de ternura,
atravessando os véus do tempo
como astros que persistem acesos,
mesmo quando a noite parece profunda.

Escuto-os.

Não com os ouvidos,
mas com a alma sensibilizada,
nesse lugar secreto onde os afetos
se tornam eternidade.

Teu nome habita os silêncios,
e tua presença floresce azulada
entre as horas e os sonhos,
como um jardim invisível
cultivado pelas mãos do destino,

sol adentrando, em furta-cor, a janela.

Nada se perdeu.

O amor não conhece despedidas.
Transforma-se em luz,
em memória transmutada,
em perfume de rosas
que permanece no ar,
mesmo depois que o jardim adormece.

E quando ergo os olhos ao céu,
vejo constelações desenhando signos
sobre a vastidão estrelada,
como se o universo inteiro
escrevesse, em linguagem de símbolos,
a história que une nossas almas.

Então compreendo:

amar é escutar as ressonâncias.

E cada eco traz de volta tuas falas,
não aquilo que se foi — porque estás —
mas aquilo que escolheu permanecer:

de ti em mim... para sempre.