SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

08 abril, 2026

TEMPO FÉRTIL (Cacau Loureiro)

 

Furta-cor dos verdes profundos, trazidos à

transparência neste mundo nebuloso.

 

Naturais tonalidades de quem vem no vento

das bem-aventuranças… pousa paz, presenteia

sossego, germina esperança.

 

Não há como envelhecer nesses ares, onde

tuas nuances vêm renovar minha pele,

meus músculos, tecidos finos entrelaçados

nos singelos afetos para os reinícios

das cores matizadas pelas novidades.

 

Pinto este quadro nos tons quentes que

me aquecem o espírito outrora solitário.

 

Sentimento moço em dias novatos de ti,

rebentos de um outono de flores amarelas,

cravos brancos, jardim perfumado pelos teus

aromas e buquês.

 

Quero beber em teus olhos a liquidez

do teu brilho que alimenta, revigora,

intumesce e promete tempo fértil…

 

Nas mãos trago jasmins, apertados entre os dedos,

para perfumar teus cabelos... soltos na alegria

do teu lindo sorriso.

FLOR DE OUTONO (Cacau Loureiro)

 

Sinos e pianos te compõem

nesse som de dias bonitos…

 

O outono é uma estação de tanta

beleza… os frutos estão à espera

dos colhimentos inteiros.

 

Há uma emoção a voar como as

folhas nos alísios que alisam minha

pele eriçada de sentidos.

 

Eu aspiro profundamente as tuas tardes

de silêncios e de sons; não há ruídos

quando a alma descerra caminhos limpos.

 

Há um clarão chamando-me para as

jornadas das afeições tranquilas, feitas

de verdades e de franquezas — por que

não seguir por esses caminhos de sol

que revigoraram meu íntimo

e me movimentam pelas estações

onde não há despedidas…

 

A viola dedilha meus nervos em contentamento,

sabe tocar a música das estrelas — lua alta

a dançar no tempo que se fez fruto e flor,

para que eu cante a vida.

07 abril, 2026

TRILHOS DE SANGUE (Cacau Loureiro)

Passageiros...


Somente os purgados de coração saberão

para onde vão.


Estações de lágrimas escorrem pelos

trilhos, sem saber ao certo seus destinos…

Guerra, ódio, dissensões.


Os barulhos das engrenagens nos deixaram

surdos ante os gritos dos degredados

das terras das emoções — solo vazio de

corpos ocos.


Encarcerados em suas cavernas, as sombras

lhes desenham ilusões — quem ousará olhar

para trás ou vislumbrar saídas?


O fogo lançou a humanidade ao futuro,

mas nossos corações, primitivos, tateiam

paredes de barro e pedra, esquecendo o

essencial à construção de espíritos aprumados.


Quando nos levantaremos da lama que,

em vez de curar nossas cegueiras,

nos tornou obtusos às boas intenções?


Passageiros a arrastar bagagens de aflições,

deixando pelos caminhos rastros de almas

inanes, enrustidas na fome de poder absoluto.


No calvário humano, o estandarte

das têmperas covardes fez-se lança venenosa

e, como flechas mortíferas lançadas ao alto,

transpassou, em sangue, os próprios corações.


Passageiros das eras, somos todos

catapultas da destruição.

PELE EM LUZ (Cacau Loureiro)

Teus olhos ainda me são mistérios…

E agora tento descobrir tuas cores nesse

relampejo que por instantes cegou os meus.


Tua silhueta, em retratos e lembranças,

desenhou apenas tuas sensuais curvas 

e eu agora te rascunho com minhas mãos,

nos movimentos dos ventos

que já me trazem teu cheiro…


As belezas dos teus músculos contornam

tuas pernas — macias, vigorosas —

derramando-se em benesses

sobre meu corpo dormente de desejos.


E eu te bebo nas águas do mar,

em espuma que me embriaga o espírito

sequioso, matando em mim sede antiga

em dias longos e saborosos,

deitados no teu sorriso poente,

tentando adivinhar tuas sílabas.


E eu te tomo no sumo das surpresas,

nas ondulações dos teus cabelos claros,

embebidos de sol, salpicos de ouro

que rebrilham em teu corpo luzente.


Repouso então os meus quereres

nos fios de um céu translúcido

que me teceu um oliva novo.


E eu te busco nos balbucios,

silêncios das promessas,

orações lançadas ao universo

num sussurro de futuro multicor.


Há uma cor a mais neste arco-íris

que me invadiu as artérias

e me pintou as asas

para os maiores voos,

agora, em tua direção…

como velas acesas em aromas e matizes

deslizando nas ondas dessa

incontida emoção.

06 abril, 2026

RITO DOS RUDES (Cacau Loureiro)

Os silêncios de hoje me constituem,

não como ausência,

mas como matéria viva

do que ainda preciso compreender.


Os enfrentamentos por justiça,

tantas vezes por mim travados,

esbarraram em escolhas

que nunca foram minhas.


E então percebo:

o mundo que o outro escolheu viver

já não me define;

fala mais sobre ele

do que sobre mim.


Olho as individualidades tristes,

vestidas de autonomia,

mas acorrentadas

a uma pequenez quase mórbida.


Dizem que o homem não vive só,

que é animal social,

mas nos reunimos, muitas das vezes,

na partilha da incivilidade.


Grita-se ódios não transmutados,

afetos não elaborados, frustrações,

sentimentos dilacerados...

índoles que perderam

o calor do que é humano.


Individuar-se virou afastar-se,

olhar para si tornou-se negar o outro,

e o “eu” cresce desmedido

onde o “nós” já não encontra repouso.


Vivemos às margens do querer isolado:

é meu, sou eu, assim eu sou...

sem acordos, sem pontes,

fossos estagnados

sem travessias possíveis.


E as arenas ainda seguem vivas,

reinventadas nos dias atuais,

com leões postados nas portas,

guardando julgamentos ruminantes.


A vida se abre como rito dos rudes,

mas a queda também nos acompanha

desde o primeiro sopro

e poucos se dão conta disso,

nós pobres mortais.


Vejo tantos desejando mudança,

erguendo discursos de transformação

como afiadas espadas,

mas, ao ocuparem o anfiteatro da vida,

hesitam diante da própria verdade.


E quando o outro luta, sangra,

quando ousa permanecer de pé,

quantos ainda abaixam o polegar,

ansiosos pelo golpe final.


Talvez a maior coragem

não seja vencer na arena,

mas recusar-se a ser

quem celebra a queda de

quem ainda não sucumbiu.

MENESTREL DO TEMPO (Cacau Loureiro)

 

Hoje saí às ruas… coloquei meu tênis antigo,

fui ver as paisagens inspiradoras das manhãs…

O velho gritava em meu âmago, mas amarrei os

cadarços, prendi-os às pegadas do que já não

me serve nem me move.


Vencer mais um dia para mim já não é

desafio… pessoas, sim, me desafiam,

são como palmilhas do que beira o risível.

Mas eu sempre recomeço, assim como o sol,

sejam dias claros ou sombrios.


Marquei em meu calendário os segundos.

Ando com pressa, mas com os olhos atentos

ao que se passa em derredor;

meu coração aedo insiste ainda em fazer rimas,

intentando esmaecer os absurdos.


Há um tempo para todas as coisas, embora

o meu lapso se estenda para além desse solo

que piso, dessas nuvens que passam.


Olho meu rosto no espelho e vejo a criança

célere a correr pelos quintais da existência.

E há algo tão bonito nisso que me espelha...


Não sei por que as músicas me invadem o plexo

e me impulsionam a escrever sobre letras mortas,

num exercício contínuo de reavivá-las:

é o meu próprio renascimento como ser.


Nas minhas andanças, meu peito se abre

aos toques do que é incorpóreo, sutilezas

do etéreo. Assim percebo que o menestrel

da vida é o tempo-presente.

É ele que nos devolve a humanidade.

04 abril, 2026

CORPO MARESIA (Cacau Loureiro)

Seu sorriso me chegou por sobre os ombros,

luz da manhã em meus dias renascidos...

como velas soltas a correr ao infinito...

 

Música interior a mover tuas elegâncias

nas devoções sinceras dos amores

a brincarem no embalar de colos quentes,

pátria-mãe a abraçar recém-vindos.

 

Nos castanhos escuros dos teus olhos,

desnudo-te em alma e corpo:

o mais bonito dos bonitos...

teus olhos de misteriosos castanhos,

mar a deitar na areia dos castelos

erguidos em sol e sal nutritivos.

 

Esvoaçantes, teus cabelos...

nesta tarde que arde em maresia,

teu cheiro a adentrar narinas e poros...

por esses dias de paz e sossego,

Astro-Rei em descanso colorido.

 

Um canto à beira-mar, dedilhado ao violão

também dedilha tuas morenas curvas,

acompanha o vai e vem das alegres ondas,

a movimentar o furta-cor de dias bem vividos.

 

Estrofes sussurradas ao pé do ouvido,

texturas e ritmos adentram meu peito largo;

braços fortes a mover-nos nos ventos dos

belos litorais do destino.

31 março, 2026

SAPIENCIAL (Cacau Loureiro)


Sempre do alto descem as luzes.

E como recusá-las,

se são elas que rasgam a noite da alma

e me mantêm de pé,

em paz;

único sustento nas eiras revoltas

da humanidade?


Sigo.

Por vias sinuosas, sim,

mas com o sol coroando minha cabeça

e um sopro antigo aceso no peito,

esse impulso que me impele

a desbravar-me.


A vida…

não é senão filosofia encarnada

no coração que se curva...

onde a guerra já não encontra morada,

e só o que brota de dentro

tem força de verdade.


Porque o divino insiste em mim.

Sempre.

Tanto.

Com tamanha intensidade

que a poesia me transborda:

escorre dos dedos,

inunda os olhos.


E é essa vida que escolho,

a que me alcança em luz,

nas palavras que me foram sopradas

ainda menina,

pelos mestres primeiros,

que ensinaram com afeto

e a severa doçura

de suas missões sagradas.


Por minhas mãos, eles retornam:

ganham corpo, gesto, presença e

atravessam-me como telas vivas.


E a eles, eu rezo.


Porque formar a juventude

é tocar o invisível como ofício

é ser, ainda que por instantes,

ungida

por espíritos sapienciais,

através das claridades do céu.