LÍRICOS OLHARES
Poesia, Palavra, Pensamento, Maktub
SOBRE ESTE ESPAÇO
REFLEXÃO
09 abril, 2026
NOTAS DE LUZ (Cacau Loureiro)
08 abril, 2026
TEMPO FÉRTIL (Cacau Loureiro)
Furta-cor dos verdes profundos, trazidos à
transparência neste mundo nebuloso.
Naturais tonalidades de quem vem no vento
das bem-aventuranças… pousa paz, presenteia
sossego, germina esperança.
Não há como envelhecer nesses ares, onde
tuas nuances vêm renovar minha pele,
meus músculos, tecidos finos entrelaçados
nos singelos afetos para os reinícios
das cores matizadas pelas novidades.
Pinto este quadro nos tons quentes que
me aquecem o espírito outrora solitário.
Sentimento moço em dias novatos de ti,
rebentos de um outono de flores amarelas,
cravos brancos, jardim perfumado pelos teus
aromas e buquês.
Quero beber em teus olhos a liquidez
do teu brilho que alimenta, revigora,
intumesce e promete tempo fértil…
Nas mãos trago jasmins, apertados entre os dedos,
para perfumar teus cabelos... soltos na alegria
do teu lindo sorriso.
FLOR DE OUTONO (Cacau Loureiro)
Sinos e pianos te compõem
nesse som de dias bonitos…
O outono é uma estação de tanta
beleza… os frutos estão à espera
dos colhimentos inteiros.
Há uma emoção a voar como as
folhas nos alísios que alisam minha
pele eriçada de sentidos.
Eu aspiro profundamente as tuas tardes
de silêncios e de sons; não há ruídos
quando a alma descerra caminhos limpos.
Há um clarão chamando-me para as
jornadas das afeições tranquilas, feitas
de verdades e de franquezas — por que
não seguir por esses caminhos de sol
que revigoraram meu íntimo
e me movimentam pelas estações
onde não há despedidas…
A viola dedilha meus nervos em contentamento,
sabe tocar a música das estrelas — lua alta
a dançar no tempo que se fez fruto e flor,
para que eu cante a vida.
07 abril, 2026
TRILHOS DE SANGUE (Cacau Loureiro)
Passageiros...
Somente os purgados de coração saberão
para onde vão.
Estações de lágrimas escorrem pelos
trilhos, sem saber ao certo seus destinos…
Guerra, ódio, dissensões.
Os barulhos das engrenagens nos deixaram
surdos ante os gritos dos degredados
das terras das emoções — solo vazio de
corpos ocos.
Encarcerados em suas cavernas, as sombras
lhes desenham ilusões — quem ousará olhar
para trás ou vislumbrar saídas?
O fogo lançou a humanidade ao futuro,
mas nossos corações, primitivos, tateiam
paredes de barro e pedra, esquecendo o
essencial à construção de espíritos aprumados.
Quando nos levantaremos da lama que,
em vez de curar nossas cegueiras,
nos tornou obtusos às boas intenções?
Passageiros a arrastar bagagens de aflições,
deixando pelos caminhos rastros de almas
inanes, enrustidas na fome de poder absoluto.
No calvário humano, o estandarte
das têmperas covardes fez-se lança venenosa
e, como flechas mortíferas lançadas ao alto,
transpassou, em sangue, os próprios corações.
Passageiros das eras, somos todos
catapultas da destruição.
PELE EM LUZ (Cacau Loureiro)
Teus olhos ainda me são mistérios…
E agora tento descobrir tuas cores nesse
relampejo que por instantes cegou os meus.
Tua silhueta, em retratos e lembranças,
desenhou apenas tuas sensuais curvas
e eu agora te rascunho com minhas mãos,
nos movimentos dos ventos
que já me trazem teu cheiro…
As belezas dos teus músculos contornam
tuas pernas — macias, vigorosas —
derramando-se em benesses
sobre meu corpo dormente de desejos.
E eu te bebo nas águas do mar,
em espuma que me embriaga o espírito
sequioso, matando em mim sede antiga
em dias longos e saborosos,
deitados no teu sorriso poente,
tentando adivinhar tuas sílabas.
E eu te tomo no sumo das surpresas,
nas ondulações dos teus cabelos claros,
embebidos de sol, salpicos de ouro
que rebrilham em teu corpo luzente.
Repouso então os meus quereres
nos fios de um céu translúcido
que me teceu um oliva novo.
E eu te busco nos balbucios,
silêncios das promessas,
orações lançadas ao universo
num sussurro de futuro multicor.
Há uma cor a mais neste arco-íris
que me invadiu as artérias
e me pintou as asas
para os maiores voos,
agora, em tua direção…
como velas acesas em aromas e matizes
deslizando nas ondas dessa
incontida emoção.
06 abril, 2026
RITO DOS RUDES (Cacau Loureiro)
Os silêncios de hoje me constituem,
não como ausência,
mas como matéria viva
do que ainda preciso compreender.
Os enfrentamentos por justiça,
tantas vezes por mim travados,
esbarraram em escolhas
que nunca foram minhas.
E então percebo:
o mundo que o outro escolheu viver
já não me define;
fala mais sobre ele
do que sobre mim.
Olho as individualidades tristes,
vestidas de autonomia,
mas acorrentadas
a uma pequenez quase mórbida.
Dizem que o homem não vive só,
que é animal social,
mas nos reunimos, muitas das vezes,
na partilha da incivilidade.
Grita-se ódios não transmutados,
afetos não elaborados, frustrações,
sentimentos dilacerados...
índoles que perderam
o calor do que é humano.
Individuar-se virou afastar-se,
olhar para si tornou-se negar o outro,
e o “eu” cresce desmedido
onde o “nós” já não encontra repouso.
Vivemos às margens do querer isolado:
é meu, sou eu, assim eu sou...
sem acordos, sem pontes,
fossos estagnados
sem travessias possíveis.
E as arenas ainda seguem vivas,
reinventadas nos dias atuais,
com leões postados nas portas,
guardando julgamentos ruminantes.
A vida se abre como rito dos rudes,
mas a queda também nos acompanha
desde o primeiro sopro
e poucos se dão conta disso,
nós pobres mortais.
Vejo tantos desejando mudança,
erguendo discursos de transformação
como afiadas espadas,
mas, ao ocuparem o anfiteatro da vida,
hesitam diante da própria verdade.
E quando o outro luta, sangra,
quando ousa permanecer de pé,
quantos ainda abaixam o polegar,
ansiosos pelo golpe final.
Talvez a maior coragem
não seja vencer na arena,
mas recusar-se a ser
quem celebra a queda de
quem ainda não sucumbiu.
MENESTREL DO TEMPO (Cacau Loureiro)
Hoje saí às ruas… coloquei meus tênis antigos,
fui ver as paisagens inspiradoras das manhãs…
O velho gritava em meu âmago, mas amarrei os
cadarços, prendi-os às pegadas do que já não
me serve nem me move.
Vencer mais um dia para mim já não é
desafio… pessoas, sim, me desafiam,
são como palmilhas do que beira o risível.
Mas eu sempre recomeço, assim como o sol,
sejam dias claros ou sombrios.
Marquei em meu calendário os segundos.
Ando com pressa, mas com os olhos atentos
ao que se passa em derredor;
meu coração aedo insiste ainda em fazer rimas,
intentando esmaecer os absurdos.
Há um tempo para todas as coisas, embora
o meu lapso se estenda para além desse solo
que piso, dessas nuvens que passam.
Olho meu rosto no espelho e vejo a criança
célere a correr pelos quintais da existência.
E há algo tão bonito nisso que me espelha...
Não sei por que as músicas me invadem o plexo
e me impulsionam a escrever sobre letras mortas,
num exercício contínuo de reavivá-las:
é o meu próprio renascimento como ser.
Nas minhas andanças, meu peito se abre
aos toques do que é incorpóreo, sutilezas
do etéreo. Assim percebo que o menestrel
da vida é o tempo-presente.
É ele que nos devolve a humanidade.
04 abril, 2026
CORPO MARESIA (Cacau Loureiro)
Seu sorriso me chegou por sobre os ombros,
luz da manhã em meus dias renascidos...
como velas soltas a correr ao infinito...
Música interior a mover tuas elegâncias
nas devoções sinceras dos amores
a brincarem no embalar de colos quentes,
pátria-mãe a abraçar recém-vindos.
No havana escuro dos teus olhos,
desnudo-te em alma e corpo:
o mais bonito dos bonitos...
teus olhos de misteriosos castanhos,
mar a deitar na areia dos castelos
erguidos em sol e sal nutritivos.
Esvoaçantes, teus cabelos...
nesta tarde que arde em maresia,
teu cheiro a adentrar narinas e poros...
por esses dias de paz e sossego,
Astro-Rei em descanso colorido.
Um canto à beira-mar, dedilhado ao violão
também dedilha tuas morenas curvas,
acompanha o vai e vem das alegres ondas,
a movimentar o furta-cor de dias bem vividos.
Estrofes sussurradas ao pé do ouvido,
texturas e ritmos adentram meu peito largo;
braços fortes nos ventos dos litorais do destino.






