SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

12 junho, 2026

RESSONÂNCIA (Cacau Loureiro)


Há vozes que não pertencem ao vento,

embora caminhem com ele.

São sussurros de ternura,
atravessando os véus do tempo
como astros que persistem acesos,
mesmo quando a noite parece profunda.

Escuto-os.

Não com os ouvidos,
mas com a alma sensibilizada,
nesse lugar secreto onde os afetos
se tornam eternidade.

Teu nome habita os silêncios,
e tua presença floresce azulada
entre as horas e os sonhos,
como um jardim invisível
cultivado pelas mãos do destino,

sol adentrando, em furta-cor, a janela.

Nada se perdeu.

O amor não conhece despedidas.
Transforma-se em luz,
em memória transmutada,
em perfume de rosas
que permanece no ar,
mesmo depois que o jardim adormece.

E quando ergo os olhos ao céu,
vejo constelações desenhando signos
sobre a vastidão estrelada,
como se o universo inteiro
escrevesse, em linguagem de símbolos,
a história que une nossas almas.

Então compreendo:

amar é escutar as ressonâncias.

E cada eco traz de volta tuas falas,
não aquilo que se foi — porque estás —
mas aquilo que escolheu permanecer:

de ti em mim... para sempre.

PEREGRINO (Cacau Loureiro)


Chorando, adentramos os céus da Criação...

Anjos caídos diante das maravilhas de um
Criador amoroso, de esplêndido caráter.

Não importam as pedras da travessia:
a força que me ergue é transcendente.
Por isso não há cansaço; eu persisto,
pois sagrada é a centelha que me habita.

Tantos páramos e dimensões atravessei por eras...
Meu escudo imaterial é fortaleza:
coroa de espinhos, sangue derramado na cruz,
perdão ofertado aos deserdados da Terra.

Nas alturas firmo o coração.
Ali abraço manhãs ensolaradas,
de jardins exuberantes e múltiplas cores,
pois, pela fé, retiro os véus
e contemplo este belo Universo
que me chama às arquiteturas da alma.

Aspiro os ares celestiais.
Harmonias sutis restauram minha essência para a jornada.
O dom que me foi dado — viver —
é dádiva e possibilidade inarrável
de participar deste misterioso tecido da existência.

Há cânticos e louvores por toda parte,
e com eles sigo adiante,
no eterno movimento de semear.

Reles mortal neste mundo, eu sei.
E sirvo com humildade e resignação,
pois não há esclarecimento maior
do que saber-me criatura.
Assim honro as flores e os brotos nascentes da senda,
porque também sou caule frágil
diante de minhas próprias mazelas.

Mas sinto o perfume dos lírios brancos
e das rosas amarelas.
Jardim de jasmins perfumados,
Éden onde depositei minhas esperanças.

Uma canção delicada me chama aos despertamentos.
As belas companhias deste mundo são privilégio;
seara onde chuvas e ventos moldam meus passos
e fortalecem a alma para perseverar.

A vida é bela quando olhamos além dos próprios pés.
A vida é enxergar o agora e o além.
É quando teus olhos me convidam
para esta peregrinação de crescimento interior.

08 junho, 2026

COMPASSO DOS ANJOS (Cacau Loureiro)

Arcanjos dançam nos véus da noite...
Não há guerras a travar,
pois o universo já pronunciou a paz.

Florescem estrelas no infinito,
fazendo cintilar as constelações,
e suas luzes derramam-se suaves
sobre minha fronte.

Tantas histórias se desfazem,
tantas outras começam...
e o dom da criação, em nossas mãos,
ergue os alicerces dos recomeços.

Olho adiante e vejo a estrada iluminada,
livre das vaidades e dos atalhos
que tantas vezes nos desviam de nós mesmos.

Quero entre meus dedos
a joia preciosa dos amores acalentados,
pois tracei meus caminhos
com as linhas de um coração franco.

Não há cansaço.
Há apenas entusiasmo
para acolher o que se apresenta
nos planos mais elevados da existência.

Algo imaterial dança ao meu redor,
entoando cânticos silenciosos,
e eu percebo...
eu sinto o compasso dos anjos.

A vida é uma dádiva
que merece ser celebrada com sorrisos,
pois eles abrem portais invisíveis
para os caminhos da alma.

Tua voz e minha voz
ascendem como orações ao infinito,
porque o divino escuta os clamores sinceros
daqueles que semearam a terra
com bondade e ternura.

Sem espadas,
caminho pelos campos abertos.
Não há rastros dos bárbaros,
apenas eflúvios astrais.

Há jasmins perfumando a jornada,
há cores derramadas em arco-íris
sobre as promessas da eternidade.

E eu desejo viver tudo isso
ainda sorrindo,
ainda cantando,
em louvação à criação que vive
e todos os dias nos revela,
com infinita delicadeza,

a verdadeira face do amor.

06 junho, 2026

MARÉS DE MIM (Cacau Loureiro)

A música deste dia aprazível invade a

minha alma, como se fosse um sol

morno de fim de outono a correr pela

minha face num sorriso que espera

pelas coisas alvissareiras.


Felicidade não é porto, é caminho decidido,

é direção tomada, como velas içadas no

mar de um mundo muito perdido e louco.


Tantas histórias escritas num espírito viajante,

versos cantados em dias claros, em noites

escuras de puro breu, onde me achei e

também me perdi, e naveguei...


Mas as águas correm pelos lemes e ficam

para trás; e, se voltam, já chegam mudadas

pelos ventos, pelas intempéries que se renovam

a todo momento, ventos a renovar o rosto,

a purificar os cabelos, a lacrimejar os olhos.


Eu vou junto com as marés, em torrentes

ritmadas pelos desertos que atravessaram

o meu coração... singraram meu peito com

amor e sangue, com tormentas e tempestades,

com chegadas e partidas.


Às terras novas empreendo a minha nau...

Houve cais onde descansei a cabeça, colo quente

onde rascunhei tantos mapas... bússola de mim

mesma esquecida nos porões de imperitos

navegantes, seres perdidos em abstrações...


Mas agora fito as novas linhas do horizonte, aprendidas

nos naufrágios... águas turvas onde nadei e conheci ilhas

desertas para hoje ser timão, popa e proa... e neste mar

aberto, ser capitã de mim mesma!

01 junho, 2026

ANTES FLORESCER (Cacau Loureiro)


O fruto amadureceu nos galhos...

Sob todas as intempéries apresentou-se forte.
Embora travasse batalhas todos os dias para sobreviver,
resistiu às mãos inábeis daqueles que,
diante do verde ainda amargo,
insistiam em interromper seu processo,
matando-o antes da florada.

E mesmo atado ao ramo que o nutria,
revela a robustez de sua essência,
a plenitude de sua graça,
a abundância de suas qualidades.

Nutrir é característica dos bons frutos:
crescer entre folhas, sol, chuvas e pragas,
e ainda assim revelar ao mundo a que vieram.

Assim também é a natureza humana:
persistir diante dos ventos malogrados,
das forças contrárias,
porque nossa substância é suavizar o que nasce torto,
transformar o que nos desafia,
lapidar o bruto até que revele sua forma.

Somos feitos para alimentar.
Quem mata pela fome é o estéril.
O infértil.
Aquele que proclama abundância,
mas não sabe partilhar o pão.

Não permita que nada o faça desistir
quando estiver próximo do oásis.
Pois quem afirma que essa água não é boa
talvez jamais tenha sido capaz
de saciar a própria sede.

29 maio, 2026

NOITES ETERNAS (Cacau Loureiro)

Crivos de chuva adentram minha pele,

como se o céu viesse em gotas de cura

habitar meu corpo... Quando chegaste

havia o glacial frio embaçando meus olhos...

 

Noites solitárias em matéria inabitada;

medonhos eram sons que ao longe se

ouviam, o ranger das tábuas desenhava

caminhos para os montes sombrios onde

escondi meu coração entre espinhos e farpas.


As manhãs nunca chegavam...

na noite eterna, janelas emperradas

eram espelho das águas ruidosas e

torrenciais que não dissipavam a solidão.

 

Mãos fechadas não descerram a lucidez,

não liberam sementes para o plantio

dos tempos fecundos; deixei de lado as

roupas pesadas. O baú do passado já

não contém mais meus ossos; minha alma

fugiu pelas frestas onde pousou tua

cortesia reluzente.

 

E me vieram belas canções nos ventos

dos morros uivantes, porque a vida é

cantata bela, honesta, nascida nos espíritos

pulsantes; é música plena de existência

que nas noites mais friorentas se faz

presença quando o teu sorriso bate à

minha porta.


 

26 maio, 2026

DEPOIS DE VER O MAR (Cacau Loureiro)

 

Te percebi por trás das folhagens,
talvez num dia qualquer desse mundo
corrido eu nem te percebesse...
Por baixo daquele chapéu de fita
alaranjada teu rosto se escondia,
seria disfarce para não ser encontrada
quem sabe pelas dores, quem sabe
pelos gozos, mas a tua natureza bonita
me fez espanto naquela tarde ensolarada.

Teus gestos no silêncio me gritaram por
dentro, acordaram-me para a tua cútis
sedosa, teu gestual charmoso, teus olhos
abrasivos a me queimarem o seio, a me
despertarem sentidos... âmbares a atiçar todas
as fogueiras de uma alma desencantada.

E o tempo andou depressa, e o mar nos
veio, vento refrescante da manhã que se
tornou inesquecível, teus longos cílios a
me olharem de cima embaixo, beijos e
púbis em ritual de corpos suados, olhares
lânguidos, e esse teu singular abraço do
qual não me esqueço jamais, acolhida
em tuas intrínsecas histórias...

Quantas vezes noites adentro despertamos
nossos corpos ante a transcendência desses
beijos que nos levaram a lugares que nem
queríamos mais deixar... como estrelas lúcidas.

Mas labirintos viraram caravanas e foram
consumidos pelas tempestades de uma
realidade à qual tu te agarraste feito raiz a
invadir solo degradado e ao medo de amar
de peito aberto.

Sinto muito se,
depois de ver o mar, tu não viste no imenso
horizonte... quantos caminhos!...

RECITAR-TE (Cacau Loureiro)

Quero ler os teus versos da madrugada...

E versejar em minha tez a estrofe que me

seja tua inspiração, pois tenho olhos na

ponta dos dedos e os meus lábios tecerão

todas as escritas dos quereres em teu corpo,

recônditos eriçados em pele e pelos.


Dorme comigo para despertar em minha

alma alegre, que sorri entre filós e cetins,

tingindo de carmim os teus seios entre

minhas mãos aquecidas em teu colo.


Acorda meus instintos em teu frêmito

generoso como orvalho que corre entre

pétalas... acolhedoras ante minhas ternuras

derramadas em tessituras de desejos e

sôfregos prazeres.


Deixa-me dormitar meus cílios molhados

em tuas costas nuas, macias... donde eu

possa avistar todas as tuas curvas e linhas

e perpetuar tua geometria secreta em minhas

ancas e dorso inteiros.


Permita-me sussurrar em teu regaço febril,

encaixar-me em teus braços e pernas...

desaguar rios inteiros em teu pescoço e

ventre, em tuas coxas tenras entreabertas.


Afastarei teus perfumados cabelos, derramarei                

os meus olhos nos teus e recitarei em tua boca

vermelha todos os versos que nesta hora...

 nossas carnes frementes nos deram.


Quero ainda ler os teus versos na madrugada...