Os silêncios de hoje me constituem,
não como ausência,
mas como matéria viva
do que ainda preciso compreender.
Os enfrentamentos por justiça,
tantas vezes por mim travados,
esbarraram em escolhas
que nunca foram minhas.
E então percebo:
o mundo que o outro escolheu viver
já não me define;
fala mais sobre ele
do que sobre mim.
Olho as individualidades tristes,
vestidas de autonomia,
mas acorrentadas
a uma pequenez quase mórbida.
Dizem que o homem não vive só,
que é animal social,
mas nos reunimos, muitas das vezes,
na partilha da incivilidade.
Grita-se ódios não transmutados,
afetos não elaborados, frustrações,
sentimentos dilacerados...
índoles que perderam
o calor do que é humano.
Individuar-se virou afastar-se,
olhar para si tornou-se negar o outro,
e o “eu” cresce desmedido
onde o “nós” já não encontra repouso.
Vivemos às margens do querer isolado:
é meu, sou eu, assim eu sou...
sem acordos, sem pontes,
fossos estagnados
sem travessias possíveis.
E as arenas ainda seguem vivas,
reinventadas nos dias atuais,
com leões postados nas portas,
guardando julgamentos ruminantes.
A vida se abre como rito dos rudes,
mas a queda também nos acompanha
desde o primeiro sopro
e poucos se dão conta disso,
nós pobres mortais.
Vejo tantos desejando mudança,
erguendo discursos de transformação
como afiadas espadas,
mas, ao ocuparem o anfiteatro da vida,
hesitam diante da própria verdade.
E quando o outro luta, sangra,
quando ousa permanecer de pé,
quantos ainda abaixam o polegar,
ansiosos pelo golpe final.
Talvez a maior coragem
não seja vencer na arena,
mas recusar-se a ser
quem celebra a queda de
quem ainda não sucumbiu.






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