SOBRE ESTE ESPAÇO

❦ LÍRICOS OLHARES ❦

Este é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Este olhar é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.


Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira.

— Claudia Loureiro

01 agosto, 2026

ISTMO (Cacau Loureiro)

Eu te velejei por esses mares de
ondas brancas, gigantes...

E navego... sempre para o teu horizonte,
onde as linhas juntam céu e mar.

Águas de cristas douradas que me
teceram um colar precioso,
ornando o meu coração
com o brilho das paixões.

Correntes temperadas pelo sal
dos teus lábios,
gosto dos gostos da tua alma rara,
ilha dos amores...
istmo de ti.

Mergulho profundo, regido pelo canto
das sereias,
sete mares em poesia,
braçadas nos redemoinhos do teu dorso,
traçando as rotas subterrâneas
dos mistérios abissais.

Corpos molhados, amalgamados
como no encontro entre rios e mares,
nascentes dos desejos a
derramarem singulares paisagens...

Refluxo e reflexo das marés,
onde os verões alteiam o sol
para que a lua desponte
inteira no teu sorriso.

30 julho, 2026

VOZES DO TEMPO (Cacau Loureiro)

Ouço as vozes do tempo, elas
rimam a poesia da jornada...
Versos cravados no peito,
como inscrições na casca
das árvores, onde sonhos e
paixões deslizam como a brisa
da manhã em meus cabelos.

Sopro aos ventos, levanto as
cinzas que me fazem aspirar
as histórias... fogueira que
ainda hoje arde em mim.

Vesti meu vestido colorido,
laço de fita na criança que
ainda cresce e vive... sorri
ao enfrentar as intempéries,
brinca na chuva, corre pelos
quintais entre as flores rosadas
das paineiras, tronco forte a
se erigir ao céu, azul estonteante
das lembranças.

Colher os frutos maduros e
alimentar o espírito das coisas
fecundas, sementes a se espraiarem
com a força indômita da natureza
que persiste, resiste e floresce...

À sombra das memórias, rebusco
o que agora sou e canto aquelas
canções que embalaram sonhos,
a vida, rede dos profundos afetos.

Viajo como os pássaros,
olhando do alto o cume que
galguei em lições, e hoje me
assento na escola dos belos
ensinamentos, aprendiz na
travessia das vivências.

Rio caudaloso molha meus pés;
corre forte. Sorrindo, eu sigo
lavando o rosto e a alma, e enfim
me reconheço no espelho d'água,
a refletir o sol que sempre brilhou
em meu caminho.

27 julho, 2026

DEMOLIÇÕES (Cacau Loureiro)


Memórias são enterradas, não há luto
para aquilo que terminou sem palavras...

Silêncio também é covardia, para quem
não sabe escolher, não aprendeu sobre
valorizar as companhias leais.

Caminhar junto é olhar na mesma direção,
é despojar o coração para as coisas eternas.

Apago o quadro das lições quando os
ensinamentos foram em vão.

Rebusco tempos, as mãos que tentaram
construir o que era conveniente, porque
o orgulho também mata relações e lembranças.

A música continua a tocar nos aparelhos
desligados das eutanásias sentimentais...

De todas as necessidades, partir seria o
melhor caminho?!...

Eu danço o solo dos que assimilaram que a
dança da vida pode prosseguir nos espetáculos
onde cocriei felicidade.

Eu continuo na alegria das construções
saudáveis: casa, casulo, morada, onde o amor
é feito de sedas e barro, edificação para um
futuro bom.

Somos mais do que revestimentos que embelezam;
devemos ser alicerces onde dedicamos forças e
erigimos nossos próprios espíritos para os altos
voos da alma!...

20 julho, 2026

VÉRTICES (Cacau Loureiro)


Seguro as rédeas daquilo que em mim
é intrínseco... sob bridas de cuidado...
origem e essência
que se derramam
nos vértices da minha alma,
em geometria
de um mundo incongruente.

Soltei as amarras nos campos abertos.
Corro por entre os canteiros
do meu espaço interior...
Somente eu, o vento e as flores,
a sussurrar preces de gratidão.

E então,
no espelho do mundo me vejo,
reconheço-me, em arestas e faces,
porque vestir-se de si mesmo
é descoberta:
surpresa do que no humano
ainda há de mais bonito.

Lá no horizonte,
o sol se ergue,
citrino,
iluminando estradas,
despertares para o renovo,
luz que dissolve as sombras
e cintila nos olhos,
abrindo visões.

Nas nuvens moram os anjos.
Tocam harpas,
sorriem no azul,
fundem céu e mar,
e deitam seus cílios compridos
nos braços dos homens
como cifras,
compondo músicas
para a eternidade.

O sol é moreno,
porque é beleza derramada
na pele dos que abrem
os braços e os corações
para as afeições profundas...
O sal é remédio,
porque em cada sabor
depositou as estrelas
que desceram de Selene.

Olhos de safiras
que na noite platinam a penumbra,
descerram todos os véus,
encurtam a madrugada
e trazem esta nova manhã,
onde me olhas
com encanto descomunal,
descortinando
a própria grandeza.


18 julho, 2026

DOS TRAJETOS (Cacau Loureiro)

Tuas rotas chegam a mim...
mas há silêncios
onde minhas mãos não alcançam.

As palavras já não bastam
para reacender
o que fomos.
Hoje restam apenas
as lembranças,
na mente  confusa
e no corpo dormente.

Enquanto teus caminhos seguem,
eu permaneço
a sonhar a maciez da tua pele,
o teu sorriso,
único em sua beleza singela.

E o meu coração,
paralisado diante das contradições
de quem falou de amor...
de encontro...
de predestinação.

O universo
não se moverá
para atender às vontades
de quem sofreu vida afora
e hoje perpetua
o eco da própria dor.

Sigo vivendo,
porque a vida nos convoca
ao movimento.

E os dias passam
como teu rosto
entre nuvens esparsas.

O tempo é Senhor:
implacável, mas transformador.

Ainda assim,
seguir é preciso.

Nesta manhã,
o vento frio
entrou pela janela.

Meus lábios,
também frios,
sentiram a falta
do alimento
dos alvoreceres
ao teu lado.

Oferta-me tua mesa farta,
onde a ausência
não encontre lugar.

Desata os nós
que o tempo fez.

Desfaz os caminhos contrários.

Marca em teu relógio
a hora
do nosso precioso tempo.

Dos prazeres
que nos despertavam
no meio da noite,
traz de volta
tua alma encantada.

Que tuas rotas,
enfim,
cheguem a mim.

Vem.

Abraça-me
uma vez mais.

 

13 julho, 2026

LÍNGUA NATIVA (Cacau Loureiro)

Teus agudos penetraram meu templo,
órgão dos delírios...
um beijo na rosa acendeu os prazeres
como pão agridoce a fermentar-me
a existência...

E estrelas nasceram em meu ventre,
despertando um sexto sentido
equilibrado entre a terra e o céu.

Lábios e papilas
degustaram o vão do tempo.
Dois corpos sedentos,
apaziguados no deleite
enfim acolhidos
no leito da noite.

Hálito sobre hálito,
erguemos os sussurros das palavras.
Uma viagem desconexa
que iluminou tantos caminhos,
rotas desenhadas sobre o peito,
sobre a pele e o dorso,

na penumbra em que meu contorno
se fez água sobre os teus poros.

Ancas estremecidas,
coxas em confidência,
mãos entrelaçadas,
dedos tecendo laços,
cabelos enlaçando almas,
essências compondo
um perfume único,
aroma de nós.

Cheiro de amor,
vertigem dos ardores,
contentamento dos amplexos
que evaporavam saudades,
enquanto a madrugada
nos reinventava.

Ficaram tuas trilhas
inscritas em meus seios
e nas curvas das costas,
onde tua saliva
inscreveu, silenciosamente,
a gramática dos desejos.

Quero ainda a agitação
de nossas matérias nuas,
quando tua boca sedosa
desatou meus calafrios
e traduziu,
em ondas aquosas,
o idioma dos êxtases.

Assim quero permanecer
decifrando todos os códigos
de tua língua nativa.

22 junho, 2026

ALFORRIA (Cacau Loureiro)


O tempo desce suas asas, sombreia
meus olhos...
Vida embaçada...

Busco no passado os motivos
para a existência do silêncio.
Já não explicarei como se deve amar.

Nada floresce sob as mãos do egoísmo,
olhar estreito dos que atravessam a dor
sem recolher seus ensinamentos,
sem valorizar quem lhes oferece afeto.

Minhas mãos no escuro buscam-te,
noite vazia,
coração pesado...

Ouço uma canção nas frestas da madrugada;
o som arranha as lembranças
como lâminas que ferem minha alma.

Como deixaste escorrer entre os dedos
um amor tão puro,
fronteiras de um espírito acolhedor?

As lágrimas secaram em meus olhos
quando contemplei tua armadura fria,
tuas escolhas incongruentes,
incoerências de quem atravessou a vida
sem compreender a linguagem dos afetos.

Lamento que não soubeste entender
que amar é desarmar-se,
soltar o passado,
olhar adiante sem esmorecer,
construindo os caminhos da lealdade.

Deixo teus sons perderem-se na alvorada.

Pela manhã o sol despontará,
clareando os caminhos.

E já não estarei presa a ti.
Então conhecerei libertação!...

21 junho, 2026

LUMINOSA (Cacau Loureiro)

Passo minhas mãos entre os lençóis...

Senhora das serpentes,
teus movimentos ainda dançam em mim,
sol que invade janelas
e acende teu corpo
em relampejos de saudade.

Tua silhueta balança ante meus olhos,
âmbar inquieto
que invade minha alma
e faz morada
em meus trajetos de fêmea.

Em tua lua, eu sonho acordada.
Boca e pele riscadas de prazer.

Teu calor ainda me percorre.
Teu perfume ainda me habita.
E meus músculos ainda doem
na tua ausência.

Senhora do ventre fértil
e dos excessos,
dos braços fortes
que ritmavam meu pranto e meus sorrisos,

carmim derramado em luz
onde fui inteira
em dádiva e desejo.

Teu arco-íris nasce após as tempestades,
ponte celeste
aos meus tesouros mais fundos.

Lumes serpenteiam minha estrada,
auroras em frutos e flores,
teus prateados cabelos amanhecendo em mim.

E quando a noite recolhe seus silêncios,
ainda encontro teus vestígios
entre os filós da ausência.

E sigo a sonhar tua luminosidade.