SOBRE ESTE ESPAÇO

❦ LÍRICOS OLHARES ❦

Este é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Este olhar é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.


Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira.

— Claudia Loureiro

12 outubro, 2026

CENÁRIO (Cacau Loureiro)


Paisagem na janela...

Sol à frente, cortinas abertas e uma vida
inteira por viver. E o céu azul vem como singular
primavera colorindo meus olhos para as bonanças
do futuro, cheiro doce a invadir-me as narinas.

Há um sorriso a repousar na soleira da porta,
vento fresco de outono a passar por meus cílios
espessos num acordar para as coisas bonitas...

Cheiro de café a despertar sementes nesse
jardim de terra úmida que nutre, das folhas
que tremulam e dizem para a existência um sim.

Uma música vem de longe e insiste em movimentar
tantas vidas, não é hora de estagnar os passos.
O espírito se aquece nesse correr tranquilo de dias
pacíficos, de alma serena, porque o coração
radiante, em prece, dá graças a Deus,
porque o divino em mim nunca esteve morto.

Amar é reavivamento nesse mundo de tantos
zumbis, onde máscaras caem nesse teatro
dos horrores, monólogos de palavras malditas.

Enquanto por mim passam borboletas e lavadeiras,
fazendo a dança dos renascimentos...
e giram em torno dos pensamentos que já não cabem
mais dentro da cabeça.

Flores pequeninas nascem entre as pedras,
falam-me de persistência, porque a resistência
sempre me nasceu do lado esquerdo do peito.

Ainda as camélias rubras que enfeitam os teus cabelos
lançam-me as luzes da esperança, clarificam-me os olhos,
dizendo-me que nunca será tarde...

11 outubro, 2026

ÁGUA-VIVA (Cacau Loureiro)


Olho o horizonte imenso...

Tuas mãos vêm a mim como ondas salgadas
que movimentam o Pacífico de minha vida.
Oferenda de flores que jogo nas correntes
da mãe das águas para impregnar em meus
poros as bênçãos que vêm nas gotículas
que o vento traz para encharcar minha alma,
deixando esse perfume que a natureza prepara
todos os dias e permanece em meu colo como
um colar de pérolas raras.

Dá-me tuas mãos,
e vem ver quantos oceanos há...
olhar este jardim
que se move sob as transparências misteriosas,
onde o sol penetra vagaroso,
vislumbrando as profundezas.

E, cigana, espalmo tuas mãos, onde pouso
meus lábios para ler o teu destino e ver,
nesta cor bonita dos teus olhos,
onde queimam todas as fogueiras,
tochas que venho tentando manter acesas
por estes caminhos sombrios,
sinuosidades das escolhas.

Retiro o véu de tua cabeça
para te olhar com a mesma intensidade
com que o sol brilha no poente aberto
do teu corpo sedutor...

Lua a prantear nos prazeres dessas noites
inteiras e intermináveis,
onde a tua pele recita minha poesia,
tecida nos sussurros do teu gozo,
onde minhas rimas cantam
todos os ritmos teus...
águas vivas em minhas águas outrora mortas.

Dá-me tuas mãos,
mergulhemos uma vez mais nesse mar,
orla caprichosa onde as estrelas vieram deitar-se
na areia para verem tuas mandalas brilharem.


27 setembro, 2026

QUATRO CANTOS, QUATRO MÃOS (Cacau Loureiro)

Abri as cortinas...

Tuas mãos tocaram meu ombro, despertando
esta manhã em meu peito, antes mesmo que
eu avistasse o sol brilhando lá fora.

E o meu coração a cantarolar essa música bonita
que o perfume do teu banho espalhou pela casa;
quatro cantos, quatro mãos, um amor.

Eu bebo em tua companhia o néctar que me faz
sobreviver a este mundo louco e apressado.
E sorvo aos goles todo o bom gosto que emergiu
para eu viver esta vida... entusiasmo, contentamento,
seja o que for que me abriu esta fresta na existência,
para que eu vibre para viver esta grande devoção.

Avisto os trilhos, viagem que faço nesses vagões
de todas as minhas histórias. Ver paisagens é muito
mais que conhecer outros lugares: é encontrar a nós
mesmos nas visões que nos chamam aos aprendizados.

Olhos e ouvidos atentos, mas os grandes ensinamentos
nos chegam no silêncio, no escuro do quarto, nas penumbras
do lar, na poeira fina dos móveis que temos que limpar;
arrumar a cama, bater travesseiros, trocar as toalhas, porque
todo amor, para sobreviver, tem que ser arrumado no capricho
dos olhares intensos, no vigor das palavras honestas.

Porque poesia é metáfora, rima e pranto,
mas também verdades disfarçadas.

E minha clareza está exposta, vento a invadir
através da porta, a levantar os papéis, páginas
escritas, hora de saudades, hora de sorrisos...

Todo grande amor descansa dentro de nós,
como pó que todas as manhãs temos que
deslocar com as flanelas coloridas em mãos...

Porque todo sentimento maior repousa nas taças,
nos tapetes, sobre a mesa das conversas intermináveis,
do café, dos longos olhares, dos profundos
suspiros, ali quando nos perguntamos:

o que faremos hoje?...

24 setembro, 2026

O BUDA SENTADO (Cacau Loureiro)

Há dias em que o amor
quer resposta imediata,
explicação, presença,
um sinal de fumaça
a cada silêncio.

Há dias em que alguém
conta os minutos,
interpreta ausências,
inventa intenções
e chama de cuidado
aquilo que o medo sussurra.

Então eu me sento.

Não para fugir,
nem para punir o mundo
com o meu silêncio.

Apenas me sento.

Porque nem todo silêncio
é abandono.
Nem toda ausência
é desamor.
Nem toda demora
esconde uma intenção.

Às vezes,
a pessoa apenas chegou em casa,
tem uma vida para viver,
uma aula para assistir,
um alimento para comer
e alguns pensamentos
que precisam ficar longe do telefone.

E o Buda sentado
não corre para explicar.

Ele sabe
que há coisas que precisam
de espaço para existir
antes de receberem um nome.

Não pergunta
por que você não respondeu.
Não inventa uma vingança
onde havia apenas cansaço.

Não transforma algumas horas
numa sentença sobre o amor.

Ele permanece.

Sentado.

Enquanto o mundo
quer decidir tudo depressa.

E talvez amar seja também isso:

não preencher todos os silêncios,
não moldar o outro
à forma da nossa ansiedade,
não exigir que duas almas
tenham o mesmo relógio.

Porque há quem tenha pressa
de construir a casa
antes mesmo de conhecer
o tamanho das janelas.

E há quem prefira
sentar no chão,
olhar as paredes,
escutar o próprio silêncio
e perguntar:

— É aqui que quero morar?

O Buda continua sentado.

Imóvel.

Sereno?

Nem tanto.

Porque até Buda,
de vez em quando,
deve pensar:

foda-se, foda-se, foda-se.

E voltar a respirar.

Não porque tenha encontrado
o equilíbrio absoluto.
Mas porque descobriu
que não precisa estar em equilíbrio
para não sair correndo
atrás de respostas.

Há coisas que o tempo explica.

Há outras que ele apenas revela.

E há aquelas
que precisam permanecer
por algum tempo
sem explicação.

O Buda sentado sabe.

Eu também.

Só não prometo
ficar sentada para sempre.


23 setembro, 2026

ESCRITAS DE CHUVA (Cacau Loureiro)

A precipitação desce fina e atravessa minha

pele. A saudade pontiaguda fere, mas

jamais há de matar minha coerência sob

quaisquer nuvens pesadas.


Quanto mais corro, mais as águas me

transpassam as roupas e encharcam-me

a alma desses dias de sol como lágrimas...

temporal a te rascunhar em minha janela.


E eu bebo teus sabores como um café da

manhã quente que me nutre o espírito das

grandes verdades: saber amar é altruísmo.


Ébano e marfim compõem músicas

inesquecíveis, dessas noites de sílabas

que transformam claves em alvoradas de

dias belíssimos. E essas melodias sempre

reverberam em minha mente e por todo o

meu corpo, numa dança de essências cruas.


Tua silhueta ainda se projeta como um

holograma de singular beleza, olhos de

diamante a reluzir em meu colo, pedra

preciosa a refulgir para caminhos futuros,

âmbar-gris a se fazer poente em minhas

tardes tranquilas... e como queima!...


Então, meus olhos abraçam o horizonte onde as

grandes pedras repousam seus milênios, banhando

a saudade nesse imenso mar de águas sagradas...

E eu permaneço em pranto e pena, a te escrever

como chuva doce a beijar teus lábios de promessas.



17 setembro, 2026

LENÇÓIS DO TEMPO (Cacau Loureiro)

Roupas no varal... e a paz de dias nublados.

Vento frio a passar pelo meu corpo, calafrios de
saudade... Há um branco a se refletir em minhas
pupilas que vivem longe, e se estendem no imenso
azul das belas passagens.

Dia a dia as estações do tempo perpassam
por dentro das entranhas, acordando-me
para a pressa de viver. A memória nos enche
de venturas, pensamentos que voam velozes
através do espaço para acalmar urgências.

Passo as mãos pelo invisível e ele toma forma
quando o meu mundo se fecha em teu rosto;
há sempre uma música a me acompanhar
quando o teu sorriso tira sons dos meus lábios
silenciosos... orações ininteligíveis para quem
balbucia ausências, ainda quero perpetuar
teus traços em minhas mãos tão vazias...

Somente o perfume das flores que deixaste
em meus caminhos dá aos meus respiros a
vivacidade de que em algum lugar continuas
existindo; onde teus olhos de oriente moldam os
sons das cítaras que reverberam em meu peito.

Os pregadores das roupagens nos pregam peças,
e o tempo-será das crianças no quintal...

O sopro das sensações toldadas dá vida às
vestimentas desfraldadas das melancolias.

Recolho os andrajos da solidão, volto-me
aos afazeres domésticos... e o sol dos teus
dias ainda brilha lá fora.

14 setembro, 2026

DOS POENTES (Cacau Loureiro)

Levanto os olhos...

O sol sem ti me segue em sombra,
pois só ela me acompanha na solidão
das calçadas trabalhadas em pedras.

E segue o vento ao horizonte, onde
o poente se deitou em meus cílios
molhados, de pálpebras lacrimosas,
quando o mar se deixa à brisa das
tardes em que meu peito se aperta
em saudade.

E tudo silencia na amplidão para
que eu escute teus sons, cetins
dobrados na noite, fazendo ruídos
dos amores das estrelas, pés e mãos
entrelaçados nos átrios do meu
coração, que já não vive mais em vão.

Luz das manhãs que tentam buscar
teu rosto, lá onde sal e areia escrevem
teu nome em plânctons luminosos
que suspenderam os astros para
iluminar meus dias...

Praia, sol, horizonte, céu da cidade,
claridade que habitou minha alma e me
levou aos campos de flores das singelas
uniões, canção nascida com os trovadores da
terra, onde a relva são as mãos do instrumento
a afinar os meus dias, esses dias de bem...

não mais só, porque no sol que se levantou em meu
peito, eu hoje sou você!




 

ENQUANTO NÃO VENS (Cacau Loureiro)


Dias há que a falta consome as horas...
feito fogo aceso na fogueira insana dos desejos...
água de beber para quem morre de sede.

Mergulho em lembranças para arrancar
as dores que povoam os vazios, tão presentes
como essa chuva que alaga meu quintal e minha alma,
nessas águas abundantes que criam torrentes
e não desatam as correntes que me juntaram a ti...
palavras encadeadas nos afetos,
como rimas dessa poesia que se compõe
na tua distância.

Palmo a palmo, teu corpo na penumbra,
sussurros de um tempo que não vem, mas
se incorpora em tuas esferas, que permanecem
a despertar meus instintos todos. E eu te ouço
como música a pairar sobre a cama, onde vejo
tua face, esses olhos de dizeres, essa boca
de volúpia, versos que entoam cânticos
e preces para um coração desassossegado.

Mas ainda permaneço na energia que vibra
entre nós, nos esparsos encontros de nossas
presenças cálidas, espasmos de um tempo bom,
feito de letras, poesia de um futuro promissor.

Ainda o carro na estrada, tuas rotas que,
por hora, não me chegam... e eu fico a te esperar
sem pressa, enquanto a saudade percorre
os caminhos de nós.