LÍRICOS OLHARES
Poesia, Palavra, Pensamento, Maktub
SOBRE ESTE ESPAÇO
REFLEXÃO
19 março, 2026
PERFUME ARÁBICA (Cacau Loureiro)
18 março, 2026
CARTOGRAFIA (Cacau Loureiro)
À beira do cais,
uma dama na noite,
à espera de um milagre...
As luzes da cidade
penetram seus olhos
como chuva que deságua na alma
em canções de espera.
O eco dos passos
acorda a aurora,
para que a esperança desperte
e sobreviva
ao sol escaldante dos exílios...
que não sacia a sede
da tua companhia copiosa,
feroz correnteza
que redesenhou destinos.
E então eu sou mar...
retemperando
os mergulhos profundos
de quem não compreende
as distâncias,
onde os portos
apagaram seus faróis
para sermos
náufragos de nós mesmos.
Sigo cega
nas noites abissais,
oceanos sombrios
feitos de tempestades e medo...
Águas altas, revoltas,
prontas a invadir o convés
dos sonhos,
engendrados como bússolas
de caminhos incertos,
de cartas à deriva
de uma cartografia extraviada.
Mas ancoro
na paisagem perplexa
dos silêncios,
e os rumores da noite
não me trazem sentido,
soam-me desconexos,
como vagas encobrindo a quilha,
golpeando o casco,
desestabilizando o lastro:
empuxos
que me afogam
em solidão.
15 março, 2026
INFINITO BREU (Cacau Loureiro)
Há um culto a se cumprir neste dia de domingo,
acender lembranças. O sol brilhante faz
uma oração no horizonte azulado,
onde o astro-rei surge em sua realeza
e em infinito amor pelos homens.
Na poeira do destino, os passos seguem
ao encontro do entardecer,
onde as estrelas irão iluminar os sonhos
e conduzir as dores à escuridão...
constelações onde adormecerá
tudo aquilo que se deixou de viver.
No chão, os pés doridos riscam percursos
que já não possuem placas nem sinais;
chão batido nas canções do tempo
que me fizeram conhecer as distâncias.
Acelerado, o peito ainda guarda sensações...
O corpo fala mais que as palavras
silenciadas pelo irascível orgulho dos
que ainda não aprenderam a maturar o que
há de mais belo nos seres.
A guerra interior é capaz
de tornar tudo em terra arrasada.
Paisagens passam velozes ante
minhas buscas vãs:
cercas que abraçam alqueires,
montes que limitam sentimentos.
Cavalgadas em missões de salvação
permanecem perdidas
na densa vegetação onde sombra e luz
confundem minha ótica enevoada.
Há um culto a se cumprir neste dia de domingo.
Quando a noite chegar, estrelas cintilarão
ainda fechadas em meu coração...
em preces ao eterno breu.
14 março, 2026
HOMEM ESCARPA (Cacau Loureiro)
E subo minhas colinas.
O ar rarefeito
me leva a lugares
que lá embaixo jamais alcançaria.
Só do alto plano eu vejo.
E sinto.
Eu enxergo de verdade.
Somos tão pequenos
e, aqui do alto,
só a minha alma
fica gigante.
Ah! A raça humana nada sabe
sobre os caminhos do coração…
Mas eu tento.
E quanto mais subo,
mais vejo.
Daqui do alto
as estradas são como serpentes.
E as serpentes existem,
estão por todos os lugares.
Mas não as temo,
porque tem poder
o cajado da verdade,
e o tempo
é um fazedor de justiça.
As páginas da história
vão passando
ao vento veloz
dos que respiram revolução.
E eu pergunto:
o que está acontecendo
com homens e mulheres?
Somente as crianças saberão,
pois serão elas —
somente elas —
a salvação.
As janelas abertas com energia
me levam
a tantas caminhadas.
E então subo as escarpas,
abismos
dos que andam rasteiros…
E agora eu vejo.
Só agora vejo:
o homem, nu de si mesmo,
tirou sua capa.
Não é mais o herói.
E eu pergunto:
o que está acontecendo
com a humanidade?
13 março, 2026
LUX (Cacau Loureiro)
Céu luminoso!...
Minha alma canta a confiança.
Estradas marcadas pelo barro grosso não me
sujam as vestes. Translúcida, minha gema segue
os sinais. Nem sempre o último gole é o mais
amargo... Benditos aqueles que nos matam a sede
com as mãos limpas, com a água doce dos afetos.
O poço dos deslumbramentos é profundo, e eu não
temo vir à tona para respirar os contentamentos
humanos, porque meu espírito transborda esperanças.
Cada vez que finco meus pés nos caminhos que a vida
me propõe, aprecio o azul que me recobre a cabeça
e me tonaliza o sorriso — adiante, arco-íris depois
das tempestades...
Tantas músicas para bailar na festa da existência,
e o meu coração balança na melodia suave dos
ritmos honestos, francos. Porque não há amor sem
lealdade, não há partilha sem realmente enxergar
o outro...
Os sons que me invadem o corpo erguem meu
dorso para as plenas edificações, hoje tão raras.
O universo é um cantador e um grande contador
de histórias — em expansão do humano para o
encontro com a divindade, em eternos movimentos
desde os primitivos primatas.
Post tenebras lux...
Porque onde cabe o homem
sempre caberá um Criador...
10 março, 2026
ELEMENTAL (Cacau Loureiro)
Eu sou maré...
O vai e vem das ondas é força
que me arvora.
Sou o estrondo do mar que
afasta incautos, areia que
se limpa na água salgada.
Cicatrizes curadas pela lua,
brilho na pele tecido pelo sol.
Vento forte que afasta
os estagnados
e abre estradas entre montanhas,
descerra caminhos para flechas
lançadas rasgando os céus.
Meu braço é lança que se
alça cortando o mal,
e planta os pés feito raiz
para renascer do invisível
feito relâmpago —
clarão que arranca máscaras
e faz tremer a terra.
A mãe Gaia me abençoa:
olhos de lince,
ouvidos de mariposa...
fazem-se presentes
espíritos ancestrais.
Um chamado me clama,
grito que acorda os adormecidos,
chama ardente que espanta a
noite. Brasa que crepita na beira
do rio, aumenta o lume
e transforma meu coração
em ouro raro, em
fogo consumidor.
CÉU DE AÇO (Cacau Loureiro)
A natureza das coisas é intrínseca.
O meu tempo emprego em observar,
jamais me equilibrar na espada afiada
dos arbítrios.
Apenas seguir pelos caminhos
das reciprocidades, e assim,
é por eles que eu quero ir.
No céu que hoje desaba proceloso,
bebo, aos goles, as luminosidades:
limpidez da alma traduzida em lealdade,
transitando pelas vias daqueles
que ajuízam sobre a jornada
que, a ferro e fogo, engendrei.
Sobre todas as leis cunhei
as letras da verdade,
porque nela selei as asas
das reais oportunidades,
no grande amplexo
das filigranas dos afetos
que tracei.
Já as águas de março que
abundantes vertem
por todos os canais
que a vida em mim sulcou
em prantos... eu a alma lavo,
não as mãos.
Areias e pedras expostas
à natureza dos homens,
mas abertas, francamente,
às belezas dos céus.
Largo é o meu riso: acolhimento,
ritmo de uma verve
que não aprendeu a sussurrar
sobre a vida inteira que me cabe,
têmpera de aço
forjada em entusiasmo.
E sigo inteira,
porque a natureza das coisas
se curva, cedo ou tarde,
diante daqueles
que guardam intacta
a própria claridade.
07 março, 2026
ZÊNITE (Cacau Loureiro)
É sempre o sol que sussurra em meus ouvidos...







