SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

20 fevereiro, 2026

RITO DAS ÁGUAS (Cacau Loureiro)

 

O mar como vida pulsante vem colocar

meus pés no chão… no bater das ondas

eu me equilibro em certezas, porque sou

eu que abro do destino as marés.

 

As luzes transpassam as águas como

autoridade que me impulsiona para o alto,

pois o adiante já nos chama logo ali.

 

Mesmo quando vacilo e o medo me visita,

não há amplidão de males que não seja

suplantada pelo poder da natureza das cheias;

somos filhos diletos das divinas fontes.

 

Abramos os chacras para as forças do bem,

sem esquecer que merecedores somos

das benevolências dos horizontes infinitos

que circundam toda essa misteriosa esfera.

 

Nessa caminhada de belos amanheceres,

o sol é fogo que se inicia entre minhas

mãos abertas, em purificação da alma;

respiro profundo da fé que renova sonhos,

erige esperanças, endireita sendeiros

em voz e verso de súbitas inspirações.

 

Como o ciclo de um dia, todos temos

o nosso tempo de consciência…

a dança da vida é presente do sagrado,

sonância em ritmos de libertação.

 

Eu banho o meu corpo nos fluidos que

me retemperam as convicções de que

as lições nos fazem crescer em humildade

e sapiência, elevação da alma em gratidão

aos poderes supremos que fazem a natureza

também me conter, beleza infinita do alto

que maravilha os recantos desta vasta terra,

em sopro deífico...

vazante no rito das generosas águas.

19 fevereiro, 2026

CENTELHA NEGRA (Cacau Loureiro)

 

No meio do caminho havia uma pérola,

havia uma pérola no meio do caminho...


Entre o pousar dos confetes e serpentinas,

no colorido calor do carnaval dos homens

eu vi o sol ardente como sinal.


Entre as cinzas que restaram de um passado

acovardado, reacendo as centelhas de um

futuro que haverá de arder com ousadia;

só os que lutam podem vencer

e tirar da lama os tesouros do asfalto,

os embriões da esperança.


A verdade é como relampejo de consciências

nas sombras dos que não sabem sobre a

revolução das substâncias...

sumo essencial do ser.


Entre as algazarras já silenciadas dos festejos

do corpo, pressenti as alegrias das quididades,

frescor de verão a bronzear-me a pele de arroubos.


E a pérola corria pelas vielas da cidade,

na sinuosidade das esquinas,

desenhando mapas de descanso,

tecendo redes para pousar meus cansaços

em rotas de bons desejos.


Nas ruas de pedra, nas alegorias dos sonhos,

abri as alas.

Pisei na avenida.

Segui tuas batidas.

Hasteei tua bandeira.

Dancei teu carnaval.


E então —


No meio da euforia

havia uma pérola escondida.


Entre cuícas e surdos

aconteceu o inarrável.


Escrevo na tela em neon,

pinto em carro alegórico gigante:


pérola negra,

vem cantar

o meu canto.

08 fevereiro, 2026

LÍQUIDOS AMORES (Cacau Loureiro)


Madrugadas encharcadas...

Olhos estáticos no teto das lamentações
não estancam as músicas que insistem
no aparelho móvel;
expandindo ondas gigantes
de incompreensão.

A luz, semi-dormida, não me desperta
para as longas horas ainda por viver;
como dias de chuva
em que as brumas parecem infindas.

Na intempérie que amadurece os frutos,
a enxurrada pranteia a escassez das almas,
caudal de pensamentos
que se esvai
na sarjeta dos egoísmos estultos.

Não há água suficiente
para lavar os olhos cegos
dos que não querem ver...
Abrir-se à verdade dói
quando o amar é reduzido
a sentimentos líquidos,
num mínimo emocional —
fleuma que mata o outro
gota a gota.

03 fevereiro, 2026

TERRA CORAGEM (Cacau Loureiro)


Chuvas torrenciais remexeram o solo da alma...

O que parecia devastação foi preparo, nada

impede que as flores brotem no chão fértil

das coragens.


Ruidosos, os ventos obrigaram-me ao recolhimento,

refazimento dos simples mortais. Quando a mente

descansa seus circuitos na paz,

no silêncio que amadurece o ser,

só o tempo revela as clarezas.


O sol adentra forte o centro do peito e escancara

os olhos para as verdades incontestáveis.

Caminhos são extensos rios de águas bravias

a desvendar os mistérios dos destinos,

burilando as resistentes pedras.


Pés molhados, cabelos em desalinho, braços abertos

ante a brisa dos renascimentos, cicatrizes transformadas.


Meu riso aberto entoa um hino que ecoa em meus

ouvidos como ritmos de cura. Eu sei: a força que levanta a

aurora nas manhãs em que, em preces, solicito remédio

para as dores também me soerguerá,

como terra de coragem entre rochedos.

01 fevereiro, 2026

FRIO COMPASSO (Cacau Loureiro)

Para os altos voos da alma há
passageiros sem asas, semimortos
de espírito… vampiros em andrajos
de fantasmas passados.
Espreito os olhos perdidos de quem
não me vê… Que me cabe fazer?

Antolhos e muros erguendo distâncias,
dores que não causei — teia
emaranhada de confusão — convidando-me
ao silêncio conjunto, aos nós cegos nas
bridas da não transmutação.

Subo as escadas, convido ao conforto
do convívio — mas manter-se tocado pelos avessos
solidifica ventos frios, enregela os fios tecidos
no esmero dos afetos.

Chamo para a dança da vida — sei:
compassos difíceis são possíveis
quando nos propomos, em verdade, dar as mãos.
O ritmo foi tantas vezes lúdico — mas versou-se.

A música continua a tocar entre
tapumes que um dia colori com todas
as letras vivas de minha poesia — e foi
caprichosa até para quem não a entendeu;
foi asas até para quem não a alcançou.
Há risco na ascensão dos amores imperfeitos…

Caminho pelas avenidas que abri com os braços,
descampei com o peito, sinalizei com o coração —
entroncamento dos néscios.

Veloz, o vento passa por meus cabelos,
faz soar melodias de sol em meus ouvidos —
também me seca os olhos…
Para um morto amor, não há lágrimas.

31 janeiro, 2026

CONSTELAR (Caca Loureiro)

 

Eu vi estrelas descerem como chuva.

O teu sorriso brilhou em meu sideral encanto,

feixes de luzes em mim… depuração dos astros

mais bonitos em meu peito…

Como não me permitir viajar nessa cintilação

que cria globos, erige cosmos como o tocar

de mãos de um grande construtor!


Eu sei que nem todas as rotas serão de mansidão,

mas os soerguimentos nascem de almas tenazes,

aquelas que viram no manancial uma terra prometida

aos fortes, iniciáticos das profundas transformações.


O mundo não facilita deixar boas pegadas, porém eu

finco meus pés na terra dos que acreditam:

a luz se fará sinal e será condutora

nas forças obscuras em turbulência.


Seguem-se os dias; o futuro, acelerando o passado,

virará convicção: nem todos seguirão…


Quando então a dor virar calcário nas costas,

onde as ondas se debatem com toda força —

milhares de anos passarão até mudarem de lugar…


Limpemos o rosto nas águas dos olhos que ainda

querem ver, pois todo gérmen floresce em consciência

quando estrelas comungam em constelações.

29 janeiro, 2026

SAIA DA CAVERNA (Cacau Loureiro)

 

Eu lanço meu olhar de compaixão,

mas diante do reboliço das almas

tementes,

não vejo impulso de transformação.

 

Sofrer e ficar agarrado ao chicote

não me soa como lógica;

gritar,

espernear

não é tentativa de libertação...

 

Entender que cada vez

que fugimos de enxergar a realidade

é o mesmo que, dia a dia,

fabricar os próprios grilhões...

 

Os fantasmas do passado

continuarão arrastando correntes

nas noites solitárias,

visitarão ainda

nossas cabeceiras confusas.

 

Serão as mesmas histórias

narradas por contadores

que continuam a ajustar

as algemas

em nossas mãos.

 

É preciso abrir os olhos.

 

Parar de dormitar

no vazio das cavernas

e só ver as sombras

de uma solidão que

nos queima como fogo:

 

escolher os outros

ao invés de mandar

em nosso próprio coração,

é apertar

nos olhos

as vendas da não

absolvição.

 

Na vida que ainda nos chama

para um estado de consciência

e de clareza,

há espaço para a escolha

de caminhos —

tantos.

 

Lamentar dentro do cercadinho,

na redoma do eu não posso,

é de fato

ter um espírito impúbere...

claramente amordaçado.

 

Engatinhar sobre o próprio choro

é se penitenciar

ante muretas,

quando se pode saltar

sobre obstáculos insignificantes

que nós mesmos colocamos

como montanhas intransponíveis.

 

Para viver,

é preciso se jogar

com coragem,

porque só achamos

as clareiras

em pleno voo.

 

pois o mundo inerte

ainda clama

pelos covardes. 

28 janeiro, 2026

SILÊNCIO É VOZ (Cacau Loureiro)

 

Eu aspiro o ar dos justos, não me foi fácil

chegar a esse caminhar profundo.

Isso não me protege de escolher outras

bifurcações; o caminho é sempre um rio

longo que adentra nossa escuridão.

 

No caos pouco encontrei sinais de paz,

mas a coragem de descobrir-me sempre

me deu as mãos nas travessias dos desertos,

música que eu canto entre muros íngremes.

 

Minha armadura radiante, meu sorriso luzente

me elevam ante espadas de seres emergentes.

Nos chicotes que me lambem a alma,

as feridas cicatrizam; por isso

renasço, sobrevivo, insisto, permaneço.

 

Meus pés no chão, minhas mãos na terra

me lembram que humildade não é rendição

e que o meu silêncio não é dureza,

quiçá desvio — é retidão.

 

Há um guia que me limpa os olhos,                                                       

mesmo nos lamentos, para que eu enxergue

mais longe, para que eu seja forte.

Isso não me coloca acima de ninguém,

apenas me equilibra em mim mesma,

para tecer, no bastidor da vida,

uma existência inteira em dignidade.