SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

15 junho, 2026

EXALAÇÕES (Cacau Loureiro)


Manhãs Perfumadas...

Abro os meus olhos; a tua alvorada
é quem me chama a viver.

Não haverá futuro venturoso se a tua
presença não me fizer companhia.
Teu sorriso largo e branco como as nuvens
é pouso, é prenda do divino. Por isso te olho
dentro das pupilas; lá me vejo despida
de vaidades, vejo-me com a alma
franqueada, também para te receber.

Bobagens fazem-me pensar em perdas.
Eu, que aprendi que nada é por acaso,
permaneço entre as flores que teu abraço
me concedeu em dias quentes, em dias
frios, no despertar dos teus aromas em mim.

Não tenho medo. A vida lá fora já não
mais me estremece por dentro. Plantei
minhas decisões nas veredas que contigo
aprendi. O mundo grita por confusão, e
eu coloquei minha cabeça na certeza de
que somente os afetos profundos podem
transformar as caminhadas.

Aragem fresca a tocar-me a face, a me
tranquilizar o espírito. Não há montanhas
intransponíveis quando a verdade vai à
frente, quando a transparência é flâmula
e bandeira na marcha da evolução.

Ainda escuto o teu riso, que desencadeia
frisson em meus nervos, pele e alma, e
ando a descortinar teu universo bonito, que
ainda permanece em mim, mesmo ante a
tua partida breve...

Sigo liberta, mas voo contigo.

13 junho, 2026

TERÇOS DE OUTONO (Cacau Loureiro)


Final de outono... sol ameno e vento frio

a me acordar para as lembranças...

Aquela música sempre toca, esteja ou
não o som ligado... e ela vibra em mim
como o teu corpo quente. Então me levanto
da cama porque é preciso viver, também das
memórias, das imagens enevoadas do teu
sorriso brilhante, da tua gargalhada presente,
dos teus cabelos que clarificavam minhas manhãs
de café sobre a mesa e dos banquetes noturnos.

Ainda sinto tuas pernas pesando sobre as minhas
quando eu delineava o teu corpo nu com minhas
mãos aquecidas dos teus sabores intrínsecos,
dos teus espasmos abundantes.

E as imagens dançam em reminiscências,
povoam minha mente como fio que ainda teço,
feito um terço em orações infindáveis.

E a tarde adentra o meu peito,
farto e falto de ti,
friagem a entrar por baixo da porta trancada,
e as janelas emperradas,
e os quereres enclausurados
em nossas naturezas obstinadas...

Ecoam tantas palavras ainda vívidas,
porque não se enterra o verbo repetido à exaustão...

Eu fiz de nossas grandezas recordações,
e mesmo com o nunca mais que me chega pela noite,
ainda sinto, feito febre terçã,
todos aqueles dias memoráveis.

CORPO DE MEMÓRIAS (Cacau Loureiro)


Visto o meu corpo de memórias...

Que ainda nebulosas vão se abrindo ao meu
olhar insistente quando busco o teu sorriso
naquelas noites que pareciam eternas.

Nada é para sempre...
Não sei se meu corpo acredita nisso, porque teu
cheiro ainda habita a minha pele, tecido por
tuas mãos de óleos essenciais.
Por teus sons singulares de promessas, por
teus sussurros de amor sem fim...

Eu sigo por estas novas rotas traçadas no
ímpeto de apagar sensações, mas elas são
tudo o que me resta para continuar por esses
atalhos que escolhi para apagar os teus rastros.

E tampouco sei se fui amada, porque as
desistências nos falam e nos ensinam sobre ser
tudo e ser nada ao mesmo tempo.

Interromper caminhos é como jogar a bússola
fora e adentrar a floresta obscura, feita de pinheiros
e ciprestes, pois a escuridão tem cheiro e corpo
materializados na ausência, como mulher que chora
sobre a inércia do ser amado que já se foi embora.

O passado parece ter sabor e presença, dor e
alívio, névoa fria e claridades, e assim prossigo
adentrando o desconhecido que procuro e sequer
consigo antever, porque a minha natureza é de
descobertas.

12 junho, 2026

RESSONÂNCIA (Cacau Loureiro)


Há vozes que não pertencem ao vento,

embora caminhem com ele.

São sussurros de ternura,
atravessando os véus do tempo
como astros que persistem acesos,
mesmo quando a noite parece profunda.

Escuto-os.

Não com os ouvidos,
mas com a alma sensibilizada,
nesse lugar secreto onde os afetos
se tornam eternidade.

Teu nome habita os silêncios,
e tua presença floresce azulada
entre as horas e os sonhos,
como um jardim invisível
cultivado pelas mãos do destino,

sol adentrando, em furta-cor, a janela.

Nada se perdeu.

O amor não conhece despedidas.
Transforma-se em luz,
em memória transmutada,
em perfume de rosas
que permanece no ar,
mesmo depois que o jardim adormece.

E quando ergo os olhos ao céu,
vejo constelações desenhando signos
sobre a vastidão estrelada,
como se o universo inteiro
escrevesse, em linguagem de símbolos,
a história que une nossas almas.

Então compreendo:

amar é escutar as ressonâncias.

E cada eco traz de volta tuas falas,
não aquilo que se foi — porque estás —
mas aquilo que escolheu permanecer:

de ti em mim... para sempre.

PEREGRINO (Cacau Loureiro)


Chorando, adentramos os céus da Criação...

Anjos caídos diante das maravilhas de um
Criador amoroso, de esplêndido caráter.

Não importam as pedras da travessia:
a força que me ergue é transcendente.
Por isso não há cansaço; eu persisto,
pois sagrada é a centelha que me habita.

Tantos páramos e dimensões atravessei por eras...
Meu escudo imaterial é fortaleza:
coroa de espinhos, sangue derramado na cruz,
perdão ofertado aos deserdados da Terra.

Nas alturas firmo o coração.
Ali abraço manhãs ensolaradas,
de jardins exuberantes e múltiplas cores,
pois, pela fé, retiro os véus
e contemplo este belo Universo
que me chama às arquiteturas da alma.

Aspiro os ares celestiais.
Harmonias sutis restauram minha essência para a jornada.
O dom que me foi dado — viver —
é dádiva e possibilidade inarrável
de participar deste misterioso tecido da existência.

Há cânticos e louvores por toda parte,
e com eles sigo adiante,
no eterno movimento de semear.

Reles mortal neste mundo, eu sei.
E sirvo com humildade e resignação,
pois não há esclarecimento maior
do que saber-me criatura.
Assim honro as flores e os brotos nascentes da senda,
porque também sou caule frágil
diante de minhas próprias mazelas.

Mas sinto o perfume dos lírios brancos
e das rosas amarelas.
Jardim de jasmins perfumados,
Éden onde depositei minhas esperanças.

Uma canção delicada me chama aos despertamentos.
As belas companhias deste mundo são privilégio;
seara onde chuvas e ventos moldam meus passos
e fortalecem a alma para perseverar.

A vida é bela quando olhamos além dos próprios pés.
A vida é enxergar o agora e o além.
É quando teus olhos me convidam
para esta peregrinação de crescimento interior.

08 junho, 2026

COMPASSO DOS ANJOS (Cacau Loureiro)

Arcanjos dançam nos véus da noite...
Não há guerras a travar,
pois o universo já pronunciou a paz.

Florescem estrelas no infinito,
fazendo cintilar as constelações,
e suas luzes derramam-se suaves
sobre minha fronte.

Tantas histórias se desfazem,
tantas outras começam...
e o dom da criação, em nossas mãos,
ergue os alicerces dos recomeços.

Olho adiante e vejo a estrada iluminada,
livre das vaidades e dos atalhos
que tantas vezes nos desviam de nós mesmos.

Quero entre meus dedos
a joia preciosa dos amores acalentados,
pois tracei meus caminhos
com as linhas de um coração franco.

Não há cansaço.
Há apenas entusiasmo
para acolher o que se apresenta
nos planos mais elevados da existência.

Algo imaterial dança ao meu redor,
entoando cânticos silenciosos,
e eu percebo...
eu sinto o compasso dos anjos.

A vida é uma dádiva
que merece ser celebrada com sorrisos,
pois eles abrem portais invisíveis
para os caminhos da alma.

Tua voz e minha voz
ascendem como orações ao infinito,
porque o divino escuta os clamores sinceros
daqueles que semearam a terra
com bondade e ternura.

Sem espadas,
caminho pelos campos abertos.
Não há rastros dos bárbaros,
apenas eflúvios astrais.

Há jasmins perfumando a jornada,
há cores derramadas em arco-íris
sobre as promessas da eternidade.

E eu desejo viver tudo isso
ainda sorrindo,
ainda cantando,
em louvação à criação que vive
e todos os dias nos revela,
com infinita delicadeza,

a verdadeira face do amor.

06 junho, 2026

MARÉS DE MIM (Cacau Loureiro)

A música deste dia aprazível invade a

minha alma, como se fosse um sol

morno de fim de outono a correr pela

minha face num sorriso que espera

pelas coisas alvissareiras.


Felicidade não é porto, é caminho decidido,

é direção tomada, como velas içadas no

mar de um mundo muito perdido e louco.


Tantas histórias escritas num espírito viajante,

versos cantados em dias claros, em noites

escuras de puro breu, onde me achei e

também me perdi, e naveguei...


Mas as águas correm pelos lemes e ficam

para trás; e, se voltam, já chegam mudadas

pelos ventos, pelas intempéries que se renovam

a todo momento, ventos a renovar o rosto,

a purificar os cabelos, a lacrimejar os olhos.


Eu vou junto com as marés, em torrentes

ritmadas pelos desertos que atravessaram

o meu coração... singraram meu peito com

amor e sangue, com tormentas e tempestades,

com chegadas e partidas.


Às terras novas empreendo a minha nau...

Houve cais onde descansei a cabeça, colo quente

onde rascunhei tantos mapas... bússola de mim

mesma esquecida nos porões de imperitos

navegantes, seres perdidos em abstrações...


Mas agora fito as novas linhas do horizonte, aprendidas

nos naufrágios... águas turvas onde nadei e conheci ilhas

desertas para hoje ser timão, popa e proa... e neste mar

aberto, ser capitã de mim mesma!

01 junho, 2026

ANTES FLORESCER (Cacau Loureiro)


O fruto amadureceu nos galhos...

Sob todas as intempéries apresentou-se forte.
Embora travasse batalhas todos os dias para sobreviver,
resistiu às mãos inábeis daqueles que,
diante do verde ainda amargo,
insistiam em interromper seu processo,
matando-o antes da florada.

E mesmo atado ao ramo que o nutria,
revela a robustez de sua essência,
a plenitude de sua graça,
a abundância de suas qualidades.

Nutrir é característica dos bons frutos:
crescer entre folhas, sol, chuvas e pragas,
e ainda assim revelar ao mundo a que vieram.

Assim também é a natureza humana:
persistir diante dos ventos malogrados,
das forças contrárias,
porque nossa substância é suavizar o que nasce torto,
transformar o que nos desafia,
lapidar o bruto até que revele sua forma.

Somos feitos para alimentar.
Quem mata pela fome é o estéril.
O infértil.
Aquele que proclama abundância,
mas não sabe partilhar o pão.

Não permita que nada o faça desistir
quando estiver próximo do oásis.
Pois quem afirma que essa água não é boa
talvez jamais tenha sido capaz
de saciar a própria sede.