SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

15 março, 2026

INFINITO BREU (Cacau Loureiro)


Há um culto a se cumprir neste dia de domingo,

acender lembranças. O sol brilhante faz

uma oração no horizonte azulado,

onde o astro-rei surge em sua realeza

e em infinito amor pelos homens.

 

Na poeira do destino, os passos seguem

ao encontro do entardecer,

onde as estrelas irão iluminar os sonhos

e conduzir as dores à escuridão...

constelações onde adormecerá

tudo aquilo que se deixou de viver.

 

No chão, os pés doridos riscam percursos

que já não possuem placas nem sinais;

chão batido nas canções do tempo

que me fizeram conhecer as distâncias.

 

Acelerado, o peito ainda guarda sensações...

O corpo fala mais que as palavras

silenciadas pelo irascível orgulho dos

que ainda não aprenderam a maturar o que

há de mais belo nos seres.

A guerra interior é capaz

de tornar tudo em terra arrasada.

 

Paisagens passam velozes ante

minhas buscas vãs:

cercas que abraçam alqueires,

montes que limitam sentimentos.

Cavalgadas em missões de salvação

permanecem perdidas

na densa vegetação onde sombra e luz

confundem minha ótica enevoada.

 

Há um culto a se cumprir neste dia de domingo.

Quando a noite chegar, estrelas cintilarão

ainda fechadas em meu coração...

em preces ao eterno breu.

14 março, 2026

HOMEM ESCARPA (Cacau Loureiro)


E subo minhas colinas.

O ar rarefeito

me leva a lugares

que lá embaixo jamais alcançaria.


Só do alto plano eu vejo.

E sinto.

Eu enxergo de verdade.


Somos tão pequenos

e, aqui do alto,

só a minha alma

fica gigante.


Ah! A raça humana nada sabe

sobre os caminhos do coração…

Mas eu tento.

E quanto mais subo,

mais vejo.


Daqui do alto

as estradas são como serpentes.

E as serpentes existem,

estão por todos os lugares.


Mas não as temo,

porque tem poder

o cajado da verdade,

e o tempo

é um fazedor de justiça.


As páginas da história

vão passando

ao vento veloz

dos que respiram revolução.


E eu pergunto:

o que está acontecendo

com homens e mulheres?


Somente as crianças saberão,

pois serão elas —

somente elas —

a salvação.


As janelas abertas com energia

me levam

a tantas caminhadas.


E então subo as escarpas,

abismos

dos que andam rasteiros…


E agora eu vejo.

Só agora vejo:


o homem, nu de si mesmo,

tirou sua capa.


Não é mais o herói.


E eu pergunto:

o que está acontecendo

com a humanidade?

13 março, 2026

LUX (Cacau Loureiro)


Céu luminoso!...

Minha alma canta a confiança.


Estradas marcadas pelo barro grosso não me

sujam as vestes. Translúcida, minha gema segue

os sinais. Nem sempre o último gole é o mais

amargo... Benditos aqueles que nos matam a sede

com as mãos limpas, com a água doce dos afetos.


O poço dos deslumbramentos é profundo, e eu não

temo vir à tona para respirar os contentamentos

humanos, porque meu espírito transborda esperanças.


Cada vez que finco meus pés nos caminhos que a vida

me propõe, aprecio o azul que me recobre a cabeça

e me tonaliza o sorriso — adiante, arco-íris depois

das tempestades...


Tantas músicas para bailar na festa da existência,

e o meu coração balança na melodia suave dos

ritmos honestos, francos. Porque não há amor sem

lealdade, não há partilha sem realmente enxergar

o outro...


Os sons que me invadem o corpo erguem meu

dorso para as plenas edificações, hoje tão raras.


O universo é um cantador e um grande contador

de histórias — em expansão do humano para o

encontro com a divindade, em eternos movimentos

desde os primitivos primatas.


Post tenebras lux...


Porque onde cabe o homem


sempre caberá um Criador...

10 março, 2026

ELEMENTAL (Cacau Loureiro)

Eu sou maré...


O vai e vem das ondas é força

que me arvora.

 

Sou o estrondo do mar que

afasta incautos, areia que

se limpa na água salgada.

 

Cicatrizes curadas pela lua,

brilho na pele tecido pelo sol.

 

Vento forte que afasta

os estagnados

e abre estradas entre montanhas,

descerra caminhos para flechas

lançadas rasgando os céus.

 

Meu braço é lança que se

alça cortando o mal,

e planta os pés feito raiz

para renascer do invisível

feito relâmpago —

clarão que arranca máscaras

e faz tremer a terra.

 

A mãe Gaia me abençoa:

olhos de lince,

ouvidos de mariposa...

fazem-se presentes

espíritos ancestrais.

 

Um chamado me clama,

grito que acorda os adormecidos,

chama ardente que espanta a

noite. Brasa que crepita na beira

do rio, aumenta o lume

e transforma meu coração

em ouro raro, em

fogo consumidor.


CÉU DE AÇO (Cacau Loureiro)


A natureza das coisas é intrínseca.

O meu tempo emprego em observar,

jamais me equilibrar na espada afiada

dos arbítrios.


Apenas seguir pelos caminhos

das reciprocidades, e assim,

é por eles que eu quero ir.


No céu que hoje desaba proceloso,

bebo, aos goles, as luminosidades:

limpidez da alma traduzida em lealdade,

transitando pelas vias daqueles

que ajuízam sobre a jornada

que, a ferro e fogo, engendrei.


Sobre todas as leis cunhei

as letras da verdade,

porque nela selei as asas

das reais oportunidades,

no grande amplexo

das filigranas dos afetos

que tracei.


Já as águas de março que

abundantes vertem

por todos os canais

que a vida em mim sulcou

em prantos... eu a alma lavo,

não as mãos.


Areias e pedras expostas

à natureza dos homens,

mas abertas, francamente,

às belezas dos céus.


Largo é o meu riso: acolhimento,

ritmo de uma verve

que não aprendeu a sussurrar

sobre a vida inteira que me cabe,

têmpera de aço

forjada em entusiasmo.


E sigo inteira,

porque a natureza das coisas

se curva, cedo ou tarde,

diante daqueles

que guardam intacta

a própria claridade.

07 março, 2026

ZÊNITE (Cacau Loureiro)


É sempre o sol que sussurra em meus ouvidos...

As horas estacionadas na luz fala-me de movimento,
porque o descanso dessas tardes ausentes de ti
leva-me aos teus olhos da cor do horizonte que
beija o mar... há um poema entre o entardecer e
à noite, e ele é declamado por teus lábios distantes.

A poesia do teu rosto originou os ventos que
alisam as ondas e as fazem bater nas pedras,
chamando-te para os mergulhos das individualidades
desnudas de orgulho, sem a dureza dos egoísmos.

A música não cessou na vitrola do tempo, a agulha
marca cada nota, o tom alto das belas experiências
na modernidade dos amores faz a tecla sensível
repetir-se continuamente...

As correntes que atravessam as cortinas da janela
arrepiam-me o corpo para o encontro das lembranças,
gêmeas que se compõem no astral das possibilidades
infinitesimais, espaço-tempo onde tudo é eterno.

Saber sobre os universos paralelos dá poder;
só quem entende das passagens tridimensionais
sabe versar sobre a alquimia do físico
para a transcendência das almas.

Os estágios da existência não existem para
quem provou das afeições profundas por
caminhos enviesados dos habitantes do ser,
inconsciência cósmica de quem, em plena
consciência, tocou o gérmen do amor.

01 março, 2026

ESTRELAS RÚSTICAS (Cacau Loureiro)


Não me importa que as chuvas

me isolem na calçada.

A providência refaz picadas por onde os alazões

me levam aos rios.

Não mais mergulharei vestido de cavaleiro,

nem o berrante me acordará

para os aboios repetidos.

 

O trote das virtudes

não sustenta amores rústicos.

 

Avisto montanhas vicejantes,

onde, no alto, plantei flores mais belas,

e das rosas, as mais vermelhas.

 

Hoje abraço os vazios,

vento súbito que dispersou pensamentos,

força indômita

que não salvou nem matou

meus versos, minha voz.

 

Adentro clareiras solitárias

e tento pousar minha cabeça

sobre pedras mal talhadas.

 

Sob o páramo carregado, disfarço lágrimas;

no peito, um peso antigo fala

de histórias soterradas.

 

Porteiras escancaradas ante o céu

denso de estrelas

não me devolvem

a música das violas enluaradas.

26 fevereiro, 2026

ASAS HYBRIS (Cacau Loureiro)


Tal como os pássaros intentamos voar.
Nossas asas de cera querem ir alto,
de encontro ao sol...
e o labirinto lá embaixo
nos espera silencioso,
com suas bocas abertas
na fome de engolir nossos sonhos.

A coragem do voo nos lança desafios;
anilhas e anelos também pesam
quando ousamos o vácuo
do que o mundo nos propõe.
Antes do preparo, é preciso arrojo:
olhar para dentro
e encarar nossos próprios abismos.

Almejar o voo não é arrastar o outro
amarrado aos nossos grilhões.
Liberdade não é planar sobre a dor alheia,
alheios ao fogo que consome
o sobrevoo de nossos pares.

Como abraçar a amplidão
se estamos fechados em grades e correntes
que nos prendem à estupidez,
ao ego inflado dos desconcertados,
dos que se recusam à transformação?

A vida acorda os cegos com surpresa,
derrete as ceráceas penas na forja,
forno que consome teimosias
e nos lança de volta ao chão.

Ali, entre muros, heras e ecos,
somos obrigados a atravessar
nossos próprios labirintos, até
encarar, olhos nos olhos, os violentos
minotauros de nós mesmos,
bestas-feras
guardiães dos portões
da nossa própria libertação.