LÍRICOS OLHARES
Poesia, Palavra, Pensamento, Maktub
SOBRE ESTE ESPAÇO
REFLEXÃO
26 fevereiro, 2026
ASAS HYBRIS (Cacau Loureiro)
25 fevereiro, 2026
PROVISÃO (Cacau Loureiro)
Portões fechados… Mas… ainda
há um céu azul sobre minha cabeça,
onde nuvens se ajuntam para dar.
Há abundância nos recolhimentos,
onde os incômodos sublimam as
máscaras das ostentações, que eu sei,
são passageiras.
Enquadro os muros que me cercam,
foram pintados com capricho no intento
de deixar-me imune ao caos de algumas
almas superficiais que adentraram, outrora,
em minha tenda com permissão.
No meu jardim, as lágrimas de chuva
intumesceram os frutos que haverão
de ser colhidos com intenção. Porque
não mais serão hissopo de azedo vinho.
Nem sempre a colheita vem no tempo
que se espera; dentre as sementes
há sempre as que não prosperam e,
teimosas, apenas preenchem espaço,
despendem um tempo precioso…
Não amadureceram: foram súbita fartura
nas tempestades desérticas de quem
passou em caravanas.
Mas que tudo seja bom cultivo, para
que a mesa se ponha em abundância —
nem toda prodigalidade aplaca a fome,
nem toda água é capaz de matar a sede
de quem cavou na aridez o próprio oásis.
23 fevereiro, 2026
TÚNEIS E ASAS (Cacau Loureiro)
Dentro dos túneis passamos velozes,
não haverá tempo... Após a
travessia, a
luz me espanta os olhos; ainda
há estradas
à frente. Os desertos são cansativos,
mas necessários.
O tempo escoa entre os dedos: não lava
as mãos, não arranca lembranças...
enche os olhos de areia
e faz dos calcanhares tacanhas pegadas.
A passos lentos jamais se alonga o tempo.
É preciso o movimento do espírito,
é necessária a ação dos pés;
forçoso é molhar os lábios
com o doce da esperança
nos manás do desabitado.
O ego trava as tristes trajetórias: toda
desistência é covarde, todo orgulho
é veste barata nos brechós das esquinas,
onde as almas se despem — despedem-se.
Despojo-me dos mantos que me encobrem
a face. Não há máscara que caiba em minhas
verdades. Tolos seguem trilhos
de conduções superficiais; bagagens
amarradas ao pescoço impedem
as aspirações de um futuro próspero.
A dor deveria libertar —
até porque eu criei asas...
Anelos, eu sei,
hão de me fazer voar...
20 fevereiro, 2026
CICLO DAS CHEIAS (Cacau Loureiro)
O mar como vida pulsante vem colocar
meus pés no chão… no bater das ondas
eu me equilibro em certezas, porque sou
eu que abro do destino as marés.
As luzes transpassam as águas como
autoridade que me impulsiona para o alto,
pois o adiante já nos chama logo ali.
Mesmo quando vacilo e o medo me visita,
não há amplidão de males que não seja
suplantada pelo poder da natureza das cheias;
somos filhos diletos das divinas fontes.
Abramos os chacras para as forças do bem,
sem esquecer que merecedores somos
das benevolências dos horizontes infinitos
que circundam toda essa misteriosa esfera.
Nessa caminhada de belos amanheceres,
o sol é fogo que se inicia entre minhas
mãos abertas, em purificação da alma;
respiro profundo da fé que renova sonhos,
erige esperanças, endireita sendeiros
em voz e verso de súbitas inspirações.
Como o ciclo de um dia, todos temos
o nosso tempo de consciência…
a dança da vida é presente do sagrado,
sonância em ritmos de libertação.
Eu banho o meu corpo nos fluidos que
me retemperam as convicções de que
as lições nos fazem crescer em humildade
e sapiência, elevação da alma em gratidão
aos poderes supremos que fazem a natureza
também me conter, beleza infinita do alto
que maravilha os recantos desta vasta terra,
em sopro deífico...
vazante no rito das generosas águas.
19 fevereiro, 2026
CENTELHA NEGRA (Cacau Loureiro)
No meio do caminho havia uma pérola,
havia uma pérola no meio do caminho...
Entre o pousar dos confetes e serpentinas,
no colorido calor do carnaval dos homens
eu vi o sol ardente como sinal.
Entre as cinzas que restaram de um passado
acovardado, reacendo as centelhas de um
futuro que haverá de arder com ousadia;
só os que lutam podem vencer
e tirar da lama os tesouros do asfalto,
os embriões da esperança.
A verdade é como relampejo de consciências
nas sombras dos que não sabem sobre a
revolução das substâncias...
sumo essencial do ser.
Entre as algazarras já silenciadas dos festejos
do corpo, pressenti as alegrias das quididades,
frescor de verão a bronzear-me a pele de arroubos.
E a pérola corria pelas vielas da cidade,
na sinuosidade das esquinas,
desenhando mapas de descanso,
tecendo redes para pousar meus cansaços
em rotas de bons desejos.
Nas ruas de pedra, nas alegorias dos sonhos,
abri as alas.
Pisei na avenida.
Segui tuas batidas.
Hasteei tua bandeira.
Dancei teu carnaval.
E então —
No meio da euforia
havia uma pérola escondida.
Entre cuícas e surdos
aconteceu o inarrável.
Escrevo na tela em neon,
pinto em carro alegórico gigante:
pérola negra,
vem cantar
o meu canto.
08 fevereiro, 2026
LÍQUIDOS AMORES (Cacau Loureiro)
Madrugadas encharcadas...
Olhos estáticos no teto das
lamentações
não estancam as músicas que insistem
no aparelho móvel;
expandindo ondas gigantes
de incompreensão.
A
luz, semi-dormida, não me desperta
para as longas horas ainda por viver;
como dias de chuva
em que as brumas parecem infindas.
Na
intempérie que amadurece os frutos,
a enxurrada pranteia a escassez das almas,
caudal de pensamentos
que se esvai
na sarjeta dos egoísmos estultos.
Não
há água suficiente
para lavar os olhos cegos
dos que não querem ver...
Abrir-se à verdade dói
quando o amar é reduzido
a sentimentos líquidos,
num mínimo emocional —
fleuma que mata o outro
gota a gota.
03 fevereiro, 2026
TERRA CORAGEM (Cacau Loureiro)
Chuvas torrenciais remexeram o solo da alma...
O que parecia devastação foi preparo, nada
impede que as flores brotem no chão fértil
das coragens.
Ruidosos, os ventos obrigaram-me ao recolhimento,
refazimento dos simples mortais. Quando a mente
descansa seus circuitos na paz,
no silêncio que amadurece o ser,
só o tempo revela as clarezas.
O sol adentra forte o centro do peito e escancara
os olhos para as verdades incontestáveis.
Caminhos são extensos rios de águas bravias
a desvendar os mistérios dos destinos,
burilando as resistentes pedras.
Pés molhados, cabelos em desalinho, braços abertos
ante a brisa dos renascimentos, cicatrizes transformadas.
Meu riso aberto entoa um hino que ecoa em meus
ouvidos como ritmos de cura. Eu sei: a força que levanta a
aurora nas manhãs em que, em preces, solicito remédio
para as dores também me soerguerá,
como terra de coragem entre rochedos.






