LÍRICOS OLHARES

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"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

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"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




8 de novembro de 2009

QUE REI SOU EU?! (Cacau Loureiro)


De súbito o portal abriu-se feito um clarão
e o insight guardado na arca do tempo
surgiu em minha memória tal qual trovão.
De repente todo o imaginário desejou ser realidade...
Adentrei o paralelo mundo e vislumbrei o encanto,
o contentamento supra-humano de um corpo
essencialmente mortal.
Nas vastas glebas, sementes perfumadas confiei nas
mãos de tirano carrasco vestido em seda colorida.
Depositei singular tesouro em castelo soberano,
mas, não há solo fértil para mãos envenenadas!...
Oráculos seculares na roda da vida ditaram a
minha história.
Meu espírito antigo no vórtice do tempo viajou
para encontrar várzeas floridas.
Há descaminho na trajetória de um ente que
recebeu divino sopro?!
Ouvi um eco no buraco do tempo:
És andrajo, és louco!!!
No espaço-tempo eu não previ a escassez
humana, o tão pouco.
Como guerreiro eu entreguei a minha adaga na
confiança da palavra dada, na suposta nobreza
das humanas índoles.
No entanto nas searas por onde andei mil
vozes gritavam-me: batalha, batalha!!
Onde existirão os nobres reis, as diáfanas donzelas,
pois que meu coração foi jogado aos leões ávidos.
Nas arenas onde travei tantos embates a besta fera
permaneceu no anfiteatro da espera.
Sangue e areia, carne exposta ao abutres testemunhei.
Nos aplausos que escutei... Será? Talvez?...
Cadê os príncipes, cadê os reis, damas da corte,
cavalheiros gentis?
Tragicomédia, burlesca fábula em que eu piamente
acreditei!...
Na seiva nobre derramada deste plebeu o golpe sujo
muito doeu.
Não tive exércitos, não tive méritos, não fui julgado
honestamente ante os tribunos à luz da lei.
Não tive cetro, não tive manto...
Minha coroa jogada aos cantos cunhada em ouro
e diamantes foi meu broquel, foi minha espada,
foi o meu pranto, foi a minha força, foi o meu
lamento, foi o meu código, foi a minha honra,
também minha sentença máxima e profana.
Que rei sou eu?!

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