SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

14 março, 2024

ESPECIARIA (Cacau Loureiro)

Há uma lenta tarde a macerar as horas,

há um azul que viaja entre as nuvens

espalhando um verde de esperança

de que vou rever teus olhos âmbares...

de que eu irei tocar teu corpo quente.

A vésper morosa se aconchega no meu

peito fazendo-o queixar-se desse entardecer

que arde como febre terçã e que me causa

a tua falta...  horas mortas que se apresenta

ao sol que já vai alto também em meu seio.

Há um meio-dia que me parte ao meio, tira-me

do centro, descentraliza pensamentos, traz-me

sombras que dançam nas cavernas dos meus

sonhos exaustos, tão repletos de ti...

Na rede do tempo balanço as lembranças,

ando a esmo em tuas linhas belas, ilha de

plenos amores, oásis de suores escaldantes,

mar de beijos temperados, tão rara especiaria,

sal da vida!...

29 fevereiro, 2024

ROSA-CHÁ (Cacau Loureiro)

Eu quero a tua poesia nua...

Nuez rosa, chá dos deuses...

Essa venusta nudez em que vive a tua alma,

que ora em vez profana as madrugadas e

transforma a feiticeira dama da noite sob a

luz azul da lua...

Eu quero despir em versos o áster que voa por

sobre minha matéria e intumesce meus mamilos,

eriça todos os meus pelos e tece lúbricas rimas,

deixando-me palavras no corpo.

Eu preciso da tua poesia nua...

Essa mesma nueza que incita meus olhos atônitos,

que ora em vez infringe as leis da física e me põe

ponta-cabeça e me deixa os pés na terra e a

cabeça entre nuvens.

Eu desejo a tua poesia nua...

Essa mesma sem adornos e, no entanto, realeza,

que ora em vez entrelaça fios de ouro em filigrana

de estrofes... e como libélula do crepúsculo cria

matizadas asas e me trama este poema nu de gozo.

28 fevereiro, 2024

LUA NOVA (Cacau Loureiro)


Não morrerei por não falar... só sei que por

ti eu morro todo dia, sempre e um pouco

mais, e além, e tanto, no tanto quanto de

saudade que já não sei mais estar...

Sem ti nada fica no lugar, pois, há uma

dança que me nasce dentro e te põe para

fora em sorrisos que te dou de longe e que

te deixa mais perto. Só sei que te quero...

sempre quero, mas, te quero para ontem

porque o hoje já não me basta...

Há um amanhã de sofreguidão que pulsa

em meus poros e lateja em meu corpo,

em vida latente, neste céu incandescente

de lua cheia prateada em muitas cores.

Meus silêncios falam tanto nas manhãs em

que desperto com os raios do teu sol que

ora arde em meu peito dando-lhe o ritmo

das tardes de manso horizonte, este aceno de

despedida onde coloco minha vontade de estar...

Voo então ao teu amplexo, aquele mesmo que

num dia ameno fez-me nascer em ti, e assim fui

contigo, ali onde ficaste comigo para um até logo

que demorou tanto naquele abraço forte e que

na longa noite fez nascer tua lua nova em mim!...

22 fevereiro, 2024

LUMINOSIDADE (Cacau Loureiro)

Guardei aquele beijo que tu me deste,

aquele que acordou meu espírito e

apascentou minha alma...

Meu pensamento viageiro busca-te

no vento, aragem que desalinha meus

cabelos e alinha meus passos.

Por quanto tempo eu te esperei já

não sei, as dores nos estacionam

entre pedras, mas, sempre que

olhamos para o alto, vislumbramos

o sol, num amplo céu em que podemos

atravessar vestidos de esperança e

revestidos pela fé.

E eu repousei no horizonte meus desejos,

aspirações de quem sempre soube amar

e sonhar com as promessas.

E diante de ti, estou de pé pelo respeito

e apreço aquilo que te fez fortaleza,

entre sombras e claridades que te fizeram

crescer e ir tão longe... em teus lábios eu

bebo o vinho das essências raras, néctar

de profundos aprendizados... deposito

ósculos em tuas mãos pacíficas, pois que,

a paz é desafio para os incautos, lição para

quem só enxergava os próprios pés...

oferto-te minha alegria simples ante teu

sorriso cristalino.

Na poeira espessa do destino a luz se

resguarda para os olhos semicerrados,

e tua vinda, tua chegada em meu caminho

foi como um pasmo de luminosidade!

FASCINAÇÃO (Cacau Loureiro)


A chuva cai abundante... através da vidraça

da janela eu avisto o meu jardim dantes

monocromático... agora, vistoso, alentado.

Lá onde a intempérie recai severa, as floradas

vigorosas levantam-se ao alto, num ato de

solidez e fortificação.

A bátega profusa em meus olhos fecunda

a tua chegada abastada, abrem os meus

canais aquosos para nos fazer ir a frente

e mais além.

Eu sigo os teus caminhos sinuosos das

águas férteis e tranquilas, pois que as

grandes viagens de dentro podem singrar

a alma sem sangrá-la... eu achei as rotas

das gaivotas de voos leves e tenazes em

busca dos lugares seguros onde há fluxos

límpidos, farnel para os famintos, ninho com

o frescor das novas madrugadas...

Houve trevas em meu viver, contudo, o tempo

dos raios solares chegou como lua nova de

iniciações em rituais e feitiços, mãos estendidas

em graça e doação.

Rezas que se elevam por dentre os véus da vênus

que te guia, nesta preamar do vai e vem do mundo,

onde descerro o teu sorriso farto, onde abro as

energias para o etéreo impermisto, votivas velas

nos mares da vida em clamores de gratidão.

Cativou-me, pois, com a tua alma encantada!...

 

20 fevereiro, 2024

MADRIGAIS (Cacau Loureiro)


Eu vejo em tuas pequeninas mãos as sementes de

tudo o que é forte, de tudo o que é bom, de tudo

o que é belo e bonito!

Onde tocas, a vida renasce, a esperança vibra em

novas mudas... sob os toques sutis de quem sabe

plantar o novo com as velhas lições da vida...

Há um poder em tua vontade que derrama néctar

nas flores de canteiros esquecidos, um substrato

singular que fortalece as raízes do que ora sabes

fazer, frutificar para o amanhã.

Há cores e tons quando revolves a terra inabitada

onde outrora se transformou o meu âmago contrito, e

agora tão valente e insinuante que empoderado de si,

ele ergue a primavera em florais do tempo, como um

templo que edificas em mim com odes e louvações

de gratidão... ao ritmo de músicas de cifras novas e

ineditamente belas, onde toco o instante do destino,

porque amar tua apurada beleza, apreciar teu seio farto,

adentrar teus olhos claros, tocar tua pele macia, provar

teu beijo primoroso, é cultivar raros frutos na seara dos

amores mansos, é galgar um futuro bom em novos

campos, é fazer poesia em madrigais de boa sorte...

a música que eu sonho fazer florescer contigo,

delicada, formosa, em canção ternamente fina!...

07 fevereiro, 2024

BEL-PRAZER |(Cacau Loureiro)

Esta semente que cresce e germina em saudade,

é frágil, mas, perante a luz que promana dos teus

olhares férteis, do teu sorriso de águas nítidas,

faz-me fincar as raízes fortes dos sentimentos

puros, cristalinos, longevos.

As roupas envelhecidas, os jeans desbotados

são mudas esquecidas no sótão das lembranças

nebulosas, mas, o presente me é vestido novo

onde trajo o âmbar dos teus olhos profundos...

Corações arfantes, ventrículos consonantes,

respirados em partes que ora são tuas ora são

minhas preces... balbuciantes vendavais onde se

misturam carne e ossos, dentes e músculos...

espíritos em convergência de misteriosos sinais...

Veleiros são teus lábios molhados fazendo-me

singrar os mares dos desejos, ponte para os amores

reais e benfazejos, lá onde nascem os austrais.

Há um verde singular onde floresce tua relva, há um

colorido ímpar onde admiro tuas rosáceas flores,

bárbaras e belas são as tuas lavras, terras do sem fim

onde me acho e também me perco.

Não sei para onde voo e para onde vou, nos confins

do teu corpo quente há a seiva que me volve para a

terra, mas, esquecer-me em ti é bom alvitre, é correr

de tempo bom em minhas veias, é beberagem aquosa

de cura, cônscio bel-prazer onde tudo me lembra você!

06 fevereiro, 2024

FEBO (Cacau Loureiro)


Pra ver o sol brilhar eu acreditei que tu

virias, e assim, eu dei as mãos à solidão

para aprender que muitas vezes estamos

sozinhos acompanhados...

Ouvi a voz dos ventos para perceber que a

vida só é vivida em plenitude quando temos

o despertamento de que somente em espírito

vislumbramos o divino em nós, e dessa forma

acontecem os milagres que esperamos e que

acreditamos merecer.

Ir além de nós mesmos para enxergar o outro

e os olhos poderem ver o astro rei brilhar em

nós como estrela luzente que chameja nos

corações que esperam em afeições e claridades.

E clareou um novo tempo em corpo e alma para

elevar quididades em êxtase de devoção e

respeito, dessa forma a vida plena acontece

sem ilusões, apenas com a certeza de que é

dando que se recebe amor primevo e primeiro

em palavras reais, em comoções profundas.

Para ver este sol brilhar, eu acreditei que tu

virias sem devaneios... para segurar em minhas

mãos e me soprar o amor...