SOBRE ESTE ESPAÇO

"Há palavras que nascem para explicar. Outras, apenas para tocar. Este é um lugar de travessias. Aqui repousam poemas, reflexões e fragmentos de vida escritos ao longo dos anos, preservados no tempo em que surgiram, como quem guarda cartas antigas ou fotografias da alma. Não escrevo para ensinar verdades nem para oferecer respostas prontas. Escrevo para compreender os caminhos, os encontros, as ausências, os recomeços e os silêncios que nos transformam. A poesia é a linguagem que encontrei para dialogar com o invisível, com a memória, com os afetos e com tudo aquilo que insiste em florescer dentro de nós. Seja bem-vindo. Caminhe sem pressa. Algumas palavras são abrigo. Outras são espelho. Talvez alguma delas tenha esperado por você. Claudia Loureiro."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

03 janeiro, 2026

NAUFRÁGIO (Cacau Loureiro)


Ele dizia que eu era profunda.

E às vezes confessava — quase em sussurro —
que isso o assustava;
que temia não estar à altura,
como quem olha o mar aberto
e calcula o próprio fôlego.

Demorei a compreender
que o medo não nascia da minha profundidade,
mas do ponto em que eu já estava pronta para descer
e ele ainda precisava da superfície.

Não era abismo o que eu oferecia.
Era presença inteira.

Mas nem todo amor
sabe habitar o fundo.

O fanal que acendi
nunca foi um chamado
para que alguém viesse.

Não era promessa de porto,
nem convite à travessia.

Era um sinal silencioso
para que eu não me perdesse de mim
enquanto o mar se erguia.

Houve amor, sim.
Houve travessia.
Houve mar alto
e noites longas.

Mas quando percebi
que a luz precisava ser diminuída
para que o outro não se ferisse,
entendi:
já não era encontro —
era naufrágio.

Então, permaneci.

E permanecer não foi ficar.

Foi sustentar a luz acesa
sem correr atrás de barcos.

Foi aceitar
que nem todo afogamento pede resgate,
e que algumas lanternas existem apenas
para lembrar
que ainda há terra firme
em quem ilumina.

Ao permanecer, iluminei.

Não para salvar,
não para provar,
não para ser menos.

Iluminei
para seguir inteira.

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