SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

29 janeiro, 2026

SAIA DA CAVERNA (Cacau Loureiro)

 

Eu lanço meu olhar de compaixão,

mas diante do reboliço das almas

tementes,

não vejo impulso de transformação.

 

Sofrer e ficar agarrado ao chicote

não me soa como lógica;

gritar,

espernear

não é tentativa de libertação...

 

Entender que cada vez

que fugimos de enxergar a realidade

é o mesmo que, dia a dia,

fabricar os próprios grilhões...

 

Os fantasmas do passado

continuarão arrastando correntes

nas noites solitárias,

visitarão ainda

nossas cabeceiras confusas.

 

Serão as mesmas histórias

narradas por contadores

que continuam a ajustar

as algemas

em nossas mãos.

 

É preciso abrir os olhos.

 

Parar de dormitar

no vazio das cavernas

e só ver as sombras

de uma solidão que

nos queima como fogo:

 

escolher os outros

ao invés de mandar

em nosso próprio coração,

é apertar

nos olhos

as vendas da não

absolvição.

 

Na vida que ainda nos chama

para um estado de consciência

e de clareza,

há espaço para a escolha

de caminhos —

tantos.

 

Lamentar dentro do cercadinho,

na redoma do eu não posso,

é de fato

ter um espírito impúbere...

claramente amordaçado.

 

Engatinhar sobre o próprio choro

é se penitenciar

ante muretas,

quando se pode saltar

sobre obstáculos insignificantes

que nós mesmos colocamos

como montanhas intransponíveis.

 

Para viver,

é preciso se jogar

com coragem,

porque só achamos

as clareiras

em pleno voo.

 

pois o mundo inerte

ainda clama

pelos covardes. 

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