Eu lanço meu olhar de compaixão,
mas diante do reboliço das almas
tementes,
não vejo impulso de transformação.
Sofrer e ficar agarrado ao chicote
não me soa como lógica;
gritar,
espernear
não é tentativa de libertação...
Entender que cada vez
que fugimos de enxergar a realidade
é o mesmo que, dia a dia,
fabricar os próprios grilhões...
Os fantasmas do passado
continuarão arrastando correntes
nas noites solitárias,
visitarão ainda
nossas cabeceiras confusas.
Serão as mesmas histórias
narradas por contadores
que continuam a ajustar
as algemas
em nossas mãos.
É preciso abrir os olhos.
Parar de dormitar
no vazio das cavernas
e só ver as sombras
de uma solidão que
nos queima como fogo:
escolher os outros
ao invés de mandar
em nosso próprio coração,
é apertar
nos olhos
as vendas da não
absolvição.
Na vida que ainda nos chama
para um estado de consciência
e de clareza,
há espaço para a escolha
de caminhos —
tantos.
Lamentar dentro do cercadinho,
na redoma do eu não posso,
é de fato
ter um espírito impúbere...
claramente amordaçado.
Engatinhar sobre o próprio choro
é se penitenciar
ante muretas,
quando se pode saltar
sobre obstáculos insignificantes
que nós mesmos colocamos
como montanhas intransponíveis.
Para viver,
é preciso se jogar
com coragem,
porque só achamos
as clareiras
em pleno voo.
pois o mundo inerte
ainda clama
pelos covardes.

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