LÍRICOS OLHARES

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"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

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"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




26 de abril de 2010

ANTAGONIA POÉTICA (Cacau Loureiro)


As feras famintas estão às soltas, ideologias reles
disfarçadas em transcendentes revelações, sonhos
sinistros pelas mãos da malta fatídica.
Na rotina dos mascarados sidéricos, a dança das
vaidades na ciranda das palavras em servis antologias.
Virtuais negociatas por baixo das escrivaninhas geram
dissensões entre os líricos numa sincronia funesta.
Os quadrúpedes que me perdoem, mas os falsos letristas
regurgitam hipocrisias entre parcas notas de Real.
O inferno como as igrejas estão cheios de boas intenções,
projetos mirabolantes a emanarem o cheiro fétido das
falsídias, lesa ilusão. Maltrapilhas inspirações...
Os bardos de hoje não são mais os mesmos de outrora,
velhos babões e chistosos Dom Juan’s travestidos de
boêmios exalam o mal cheiro das frívolas idéias legitimando
as traições.
Ah! Aedos dos tristes versos, das mendigas rimas não

versejam os prantos, porque não valem uma lágrima sentida,
ridículos fanfarrões fadados ao anonimato!
Quem dera se lhes restasse um pouco da digna poesia,
mas a mente fria e os calculados atos tecem os absurdos
sonetos; mas a alvorada há de lhes carcomer os ossos,
pois quem usa o parnaso como boi de piranha, como
mulher da vida, não é digno das ruelas, tampouco das
desérticas esquinas.
Não cito aqui os grandes nomes do patriótico romanceiro,
posto que estes edificaram a Flor do Lácio, e não há que se
misturar o sangue dos honrados com o vômito dos embusteiros.
Na sociedade dos poetas rotos a palavra veste andrajos,
pede esmolas, morre de tédio.
Neste mundo de historietas onde vivem tantos José’s e
moram tantas Maria’s a métrica pede socorro, os bêbedos
escondem as garrafas, os zumbis tapam os bolsos, o crime
é cousa barata.
Aquele que não dignifica as artes não sonha, que dirá profecia,
jamais será venerável nas cadeiras das vizinhas, nos banquinhos dos parquinhos ou mesmo nos canteiros das pracinhas.
Feras famintas farejam as feridas abertas, sugam o pus dos
corrompidos, escarram no chão das estrelas, zombam da lua
mansa, têm sede de sangue e de louros, matam pelas insígnias.
Bestas travestidas de poetas, disfarçadas de Romeu’s,

à mesa dos imbecis, comem goiabada com queijo nas abas de
otários que usam bengalas e chapéus.
Os antigos trovadores tragavam cachimbos aromáticos,
hoje os plebeus da poética palitam os dentes amarelados
às portas de qualquer boteco.

Dantes o boêmio era ético, refinado, tampouco, era omisso,
muito menos resignado.
Ah, poeta jocoso, um tanto quanto presunçoso, até mesmo
asqueroso, imprime um texto chulo e diz-se o escriba
do amor, o comandante das artes. O namorado das musas,
o pulha apaixonado.
Hoje, a tropa dos poetas da mula ruça cavalgam
como porcos aos precipícios das telas, invadem as
terras alheias, poluem as ondas românticas, matam
as belas sereias, queimam as divindades eternas,
enterram o lirismo na lama, e nisto não são comedidos!
Os trovadores deslumbrados enfeitam suas próprias
lapelas com os seus desbotados retratos.
Os infiltrados da escrita vestem tantas camisas!...
Os borra-papéis decerto almejam os aplausos, também
a fita amarela, pleiteiam o choro e as velas, desejam
comer as donzelas.
Os poetas enganadores não se importam com plágios,
nem fingem sentir as dores, são eles os clones prodígios
que propagam a falsa poesia e alastram a partidária
idolatria aos santos de pau oco com inspiração quase broxa.
O covil está abarrotado de bestas feras, Orfeu’s loucos a
saírem pelo ladrão dos subterrâneos do mundo, muitos saem,
outros ficam, tantos entram porque a demanda é grande e
a permuta necessária.
Ah! Pseudopoetas! Psicopatas venais que na agonia da
ganância aspiram à ode virtual, praticam suas mazelas,
inflingem suas barbáries e covardemente promovem a
“antagonia poética”.

Um comentário:

Andre Brasil disse...

Estou cada vez mais impressionado com sua capacidade para escrever.Não tenho inveja, mas gostaria de ter metade dessa capacidade. O BRasil precisa e muito de cultura.Parabéns! Ainda vou ler os outros tá. Bjs André Brasil