SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

23 março, 2026

SANGUE E AZEITE (Cacau Loureiro)

Ouço música pela noite inteira...


Há sons que elevam a alma

e trazem de volta o que de nós ficou

pelos pretéritos caminhos —

pedaços que insistimos em

alimentar as feras.


Pulsos enxutos, olhos secos:

não há mais choro

pelas ruelas escuras

que os falidos engendraram.


A maior dádiva é saber

que não permaneceremos caídos.

Fios invisíveis nos suspendem

pelos ombros

e, na vertical, enxergamos

os becos torpes

por onde nos levaram.


Mas toda estrada tem seus atalhos.

Vista firme — para não ceder

à ilusão de ótica

que tenta nos perder da saída.


Nada é para sempre,

muito menos a dor das traições,

lâminas a cortar

as dobras dos joelhos.


Espíritos persistentes

carregam em si a certeza

das colheitas — ante os passantes

renitentes, arquitetos do caos.


Terra azul, céu laranja —

este é o sumo da vida:

copo cheio dos alísios da sorte,

farta bandeja… pão e vinho,

todo o azeite do futuro

a retemperar o entusiasmo

para o banquete

dos que ainda sabem viver

entre o uivo e o sangue,

na dança com lobos.

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