Ouço música pela noite inteira...
Há sons que elevam a alma
e trazem de volta o que de nós ficou
pelos pretéritos caminhos —
pedaços que insistimos em
alimentar as feras.
Pulsos enxutos, olhos secos:
não há mais choro
pelas ruelas escuras
que os falidos engendraram.
A maior dádiva é saber
que não permaneceremos caídos.
Fios invisíveis nos suspendem
pelos ombros
e, na vertical, enxergamos
os becos torpes
por onde nos levaram.
Mas toda estrada tem seus atalhos.
Vista firme — para não ceder
à ilusão de ótica
que tenta nos perder da saída.
Nada é para sempre,
muito menos a dor das traições,
lâminas a cortar
as dobras dos joelhos.
Espíritos persistentes
carregam em si a certeza
das colheitas — ante os passantes
renitentes, arquitetos do caos.
Terra azul, céu laranja —
este é o sumo da vida:
copo cheio dos alísios da sorte,
farta bandeja… pão e vinho,
todo o azeite do futuro
a retemperar o entusiasmo
para o banquete
dos que ainda sabem viver
entre o uivo e o sangue,
na dança com lobos.

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