SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

09 janeiro, 2010

SALMO PRIMEIRO (Cacau Loureiro)

Jamais ouvirão o meu lamento, aqueles
Que intentam contra mim, pois que não
edifiquei pedras, apenas castelos.
E o meu caminho é um rio caudaloso de
Benesses, jamais seca.
Não há profecia para aquele que anda na
Justa trilha, há promessas.
Não há lágrimas para aquele que plantou
Sorrisos, há justiça.
Todo o suor que banha meu rosto tempera
O meu espírito para o maná que advirá.
O meu templo é o meu corpo, a minha alma
Oração.
Não temerei o vento que uiva escondido atrás
Das tenebrosas colinas, posto que espero
Pacientemente a aurora.
Eu sigo sem medos ou preocupações porque
O meu coração não compactuou com os injustos.
Meus olhos contemplam os pastos verdejantes,
E ali plantei meu coração e rego-o com esperança.
Não há remorso maculando minhas mãos, não há
Véu sombreando as minhas vistas.
E eu enxergo feito á águia altaneira, fênix da fé
Inabalável na eterna vida. Eu sobrevôo as serpentes
Que não saem da terra infértil das mentiras.
Eu sou filha muito amada, eu sou serva, eu sou mãe
Laureada por àquele que morreu por mim na cruz.
As minhas sementes profícuas se espalham pela
Esfera dos cingidos pela espada da proteção,
Pelo broquel do espírito Santo de Deus através
De seus anjos da guarda.

A NECESSIDADE DE PRIVACIDADE (Osho)









O ser tem dois lados: o interior e o exterior. O exterior pode ser público, mas o interior não pode. Se você tornar o interior público, perderá a sua alma, perderá a sua face original. Então você viverá como se não tivesse um ser interior. A vida se torna monótona, fútil.

Isso acontece às pessoas que levam uma vida pública — políticos, astros de cinema. Eles se tornam públicos, perdem completamente o ser interior; eles não sabem quem são, a menos que o público fale sobre eles. Eles dependem da opinião dos outros, não têm o sentimento do próprio ser.

Uma das mais famosas atrizes, Marilyn Monroe, cometeu suicídio, e os psicanalistas têm meditado sobre os motivos para isso. Ela era uma das mulheres mais lindas que já existiram, uma das mais bem-sucedidas. Até mesmo o presidente dos Estados Unidos, Kennedy, estava apaixonado por ela, e milhões de pessoas a amavam. Não se pode pensar no que mais se possa ter. Ela tinha tudo.

Mas ela era pública e sabia disso. Até mesmo na alcova, quando o presidente Kennedy a visitava, ela costumava chamá-lo de "Sr. Presidente" — como se estivesse tendo relações não com um homem, mas com uma instituição.

Ela era uma instituição. Pouco a pouco, ela tomou consciência de que não tinha nada de privado. Uma vez alguém lhe perguntou — ela tinha acabado de posar nua para um calendário e alguém lhe perguntou:
— Mas você não tinha nada enquanto posava para o calendário?
— Bem... — respondeu ela. — Eu tinha... o rádio ligado.

Exposta, nua, nada seu em particular. Eu acho que ela cometeu suicídio porque essa era a única coisa que poderia ter feito em particular. Tudo era público; essa foi a única coisa que sobrou para fazer por conta própria, sozinha, algo absolutamente íntimo e secreto. As personagens públicas são sempre atraídas para o suicídio porque apenas por meio do suicídio elas podem ter um vislumbre de quem são.

Tudo o que é bonito é interior, e o interior significa privacidade. Você observou as mulheres fazendo amor? Elas sempre fecham os olhos. Elas sabem o que fazem. O homem continua fazendo amor com os olhos abertos; ele continua sendo um observador. Ele não está completamente entregue ao ato; não está totalmente nele.

Ele continua sendo um voyeur, como se outra pessoa estivesse fazendo amor e ele estivesse observando; como se o ato do amor estivesse numa tela de TV ou de cinema. Mas a mulher sabe mais porque ela está mais sutilmente sintonizada com o interior. Ela sempre fecha os olhos. Então o amor tem um perfume totalmente diferente.

Faça uma coisa: um dia, ao tomar banho, acenda e apague a luz. No escuro, você ouve melhor a água cair, o som é mais nítido. Quando a luz está acesa, o som não fica tão nítido. O que acontece no escuro? No escuro, tudo o mais desaparece, porque você não pode ver. Só você e o som estão lá.

É por isso que em todos os bons restaurantes evita-se a luz; a luz forte é evitada. Eles usam velas. Sempre que um restaurante está à luz de velas, o gosto é melhor — você come bem e o paladar é mais apurado. O encanto envolve você. Se houver muita iluminação, o paladar desaparece. Os olhos tornam tudo público.

Na primeira frase da sua Metafísica, Aristóteles diz que a visão é o sentido mais elevado do homem. Não é — na verdade, a visão tornou-se muito dominadora. Ela monopolizou todo o seu ser e destruiu todos os outros sentidos.

O mestre dele, o mestre de Aristóteles, Platão, diz que existe uma hierarquia entre os sentidos — a visão está no alto, o toque na base. Ele está completamente errado. Não existe hierarquia. Todos os sentidos estão no mesmo nível e não deve haver nenhuma hierarquia entre eles.

Mas você vive através dos olhos: oitenta por cento da sua vida depende dos olhos. Não deveria ser assim; o equilíbrio precisa ser restabelecido. Você também deve tocar, porque o toque tem algo que os olhos não podem dar.

Mas experimente, experimente tocar a mulher que você ama ou o homem que você ama em plena luz e, depois, tocar no escuro. No escuro o corpo se revela, no claro ele se esconde.

Você já viu as pinturas de corpos femininos de Renoir? Elas têm algo de milagroso. Muitos pintores pintaram o corpo feminino, mas não existe comparação com Renoir. Qual é a diferença? Todos os outros pintores pintaram o corpo feminino como ele aparece aos olhos. Renoir pintou como ele é sentido pelas mãos; assim, a pintura tem calor, proximidade, vivacidade.

Quando você toca, algo de muito íntimo acontece. Quando você vê, tudo fica distante. No escuro, em segredo, na privacidade, algo se revela que não pode ser revelado às claras, na rua. Outros estão vendo e observando: algo profundo dentro de você se encolhe, não pode desabrochar.

É como se você pusesse sementes no chão para todo mundo olhar. Elas nunca irão brotar. Elas precisam ser atiradas no fundo do útero da terra, na escuridão profunda onde ninguém possa vê-las, onde elas começam a brotar e então nasce uma grande árvore.

Assim como as sementes precisam do escuro e da privacidade, todos os relacionamentos que são profundos e íntimos permanecem no seu interior. Eles precisam de privacidade, precisam de um lugar onde apenas dois existam. Então chega um momento em que até mesmo os dois se dissolvem e apenas um existe.

Dois amantes profundamente afinados um com o outro se dissolvem. Apenas um existe. Eles respiram juntos, estão juntos, existe um companheirismo. Isso não seria possível se houvesse a presença de observadores. Eles nunca seriam capazes de relaxar se outros estivessem observando. Os próprios olhos se tornariam uma barreira. Assim, tudo o que é belo, tudo o que é profundo, acontece no escuro.

Nos relacionamentos humanos, a privacidade é necessária. O segredo tem suas próprias razões para existir. Lembre-se disso, e lembre-se sempre de que você vai se comportar muito tolamente na vida caso se torne totalmente público.

Seria como se alguém virasse os bolsos do avesso. Essa seria a sua forma, como bolsos virados do avesso. Não há nada de errado em ser voltado para fora; mas lembre-se de que isso é apenas parte da vida. Não deve se tornar a totalidade.

Eu não estou querendo dizer para entrar no escuro para sempre. A luz tem sua própria beleza e o seu próprio sentido. Se a semente permanecer no escuro para todo o sempre e nunca sair para receber o sol da manhã, ela morrerá.

Ela precisa entrar no escuro para brotar, para reunir forças, para tornar-se vital, para renascer, e depois tem de sair e encarar o mundo, a luz, a tempestade e as chuvas. Ela tem de aceitar o desafio do exterior. Mas esse desafio só pode ser aceito se você estiver profundamente enraizado interiormente.

Eu não estou dizendo para você se tornar escapista. Não estou dizendo para você fechar os olhos, se retrair e nunca mais sair. Estou dizendo simplesmente para você entrar de modo que possa sair com energia, com amor, com compaixão.

Entrar, de modo que, quando sair, você não seja mais mendigo, mas rei. Entrar, de modo que, quando sair, tenha algo a compartilhar — as flores, as folhas. Entrar de modo que a sua saída seja mais rica e não empobrecida. E sempre se lembre de que, toda vez que se sentir exaurido, a fonte de energia está no seu interior. Feche os olhos e entre.

Tenha relacionamentos externos, tenha relacionamentos internos também. É claro que é inevitável ter relacionamentos externos — você anda no mundo, os relacionamentos profissionais estão aí —, mas eles não devem ser tudo. Eles têm um papel a desempenhar, mas deve haver algo absolutamente secreto e privado, algo que você possa chamar de seu.

Foi isso que faltou a Marilyn Monroe. Ela era uma mulher pública, bem-sucedida, ainda que um completo fracasso. Quando estava no auge do sucesso e da fama, ela cometeu suicídio. Por que ela cometeu suicídio continua sendo um enigma. Ela tinha tudo por que viver; não se pode conceber mais fama, mais sucesso, mais carisma, mais beleza, mais saúde do que ela tinha. Estava tudo lá, não era preciso melhorar nada, e ainda assim faltava alguma coisa. O lado de dentro, o interior, estava vazio. Então, o suicídio foi o único caminho.

Pode ser que você não chegue ao ponto de cometer suicídio como Marilyn Monroe. Pode ser que você seja muito covarde e cometa suicídio muito lentamente — pode ser que você leve setenta anos para cometê-lo — mas ainda assim é suicídio.

A menos que tenha algo dentro de você, que não dependa de nada de fora, que seja apenas seu — um mundo, um espaço seu, onde possa fechar os olhos e andar, onde possa esquecer que tudo mais existe — você está cometendo suicídio.

A vida nasce dessa fonte interior e se espalha pelo céu afora. Tem de haver um equilíbrio; e estou sempre procurando o equilíbrio. Portanto, não vou dizer que a sua vida deva ser um livro aberto, não. Alguns capítulos abertos, tudo bem. E alguns capítulos completamente fechados, um completo mistério. Se você for apenas um livro aberto, você será uma prostituta, você simplesmente vai ficar esperando nu na rua, com o rádio ligado. Não, essa não.

Se todo o seu livro estiver aberto, você será apenas o dia sem noite, apenas o verão sem inverno. Onde você vai descansar, onde vai se centrar e onde vai buscar refúgio? Para onde você irá quando estiver cansado deste mundo? Para onde irá para orar e meditar? Não; meio a meio está perfeito. Deixe metade do seu livro aberto — aberto a todos, disponível a todos — e deixe que a outra metade do seu livro seja tão secreta que apenas raros convidados possam ter acesso a ela.

Apenas raramente alguém recebe a permissão para entrar no seu templo. É assim que deve ser. Se a multidão entrar e sair, então o templo não será mais um templo. Poderá ser o salão de espera de um aeroporto, mas não pode ser um templo.

Apenas raramente, muito raramente, você permite que alguém entre no seu eu. É isso que é o amor.

Osho, em "Intimidade: Como Confiar em Si Mesmo e nos Outros"

07 janeiro, 2010

IDENTIDADE (Cacau Loureiro)

Surpreende-me a passividade das pessoas, a vida é movimento, seja físico, mental, emocional. Tudo vibra no ser que se sente vivo, nada aplaca o contágio de quem tem entusiasmo mesmo nas dificuldades.
Pensar, projetar é importante, mas lançar-se ao desafio é algo para alguns. Não é questão de impulsividade e nem de falta de responsabilidade, se queremos algo precisamos buscar, investir para perder ou ganhar, arriscar, dar além da conta, principalmente quando a situação parecer-nos que não tem saída. Penso que para tudo na vida dá-se um jeito.
As pessoas, principalmente o povo brasileiro projeta coisas para muito longe, “o futuro”, como se vivêssemos mil anos, e sabemos que a vida passa rápido e o amanhã está mais perto que pensamos ou dimensionamos. Viver não é ir à rua para dizer, está vendo, estou em movimento, correndo atrás, não!! Correr atrás é doutrinar o espírito para alcançar o objetivo. Empreender no que se quer independe de quaisquer obstáculos; não se deixa para depois o que se quer ardentemente, se pôde deixar para depois, se não foi prioridade não era o desejo mais profundo, aí vem a onda do tempo e arrasta tudo, e normalmente para o nada, para a estaca zero, para o vazio. Eu digo que projetos adiados, são projetos encruados, perde-se o sabor, perde-se o tesão da coisa.
Um exemplo, você se programa para mudar algumas coisas na tua vida, e dedica-se a isso diante de todos os problemas, dificuldades, falta de apoio, até mesmo perseguições, porque há isso na vida cotidiana das relações humanas. Então você vê pessoas se entregando a coisas banais, pequenas, não fazem o esforço. Fazer o esforço está muito além do que freqüentar as aulas todos os dias, isto é obrigação, assim como o trabalho, o cuidar de si, de sua casa, o que fazemos além disso, chama-se esforço.
Empreender em nossos sonhos é impulsionar mais que músculos e pensamentos, é realmente estar disposto a pagar o preço da busca. É mergulhar de cabeça naquilo em que se acredita, é ir de fato ao encontro de nossos reais anseios e desejos. Ouvi dizer: morrer é fácil o verdadeiro desafio está em viver! Pessoas há que se recusam a viver e fecham-se em seus mundinhos e se acovardam ante às situações, ao menor impedimento estacionam, voltam atrás. Contribuir com a vida é andar para frente, é dirigir-se para o alto, é olhar com amplidão, é não ser restrito de alma.
Há pessoas que acham que podem aprender com professores, padres, pastores, mestres, gurus, contudo, a vida é uma grande escola, já dizia o nosso “Profeta Gentileza”. Tenho certeza que livros trazem conhecimentos, bons conselhos também (não de qualquer um), também a escola, a cátedra, a leitura de grandes mestres e filósofos; mas, onde aprendemos de fato, é na carteira da vida, nesta somos alunos e professores e temos que ter a integridade de saber-nos julgar bem aplicados ou não, nesta hora é que sabemos quem é quem; aquele que tem caráter para dizer, preciso melhorar, aquele que tem consciência para admitir, sim, eu errei, aquele que tem coragem para reconhecer, sim, fui covarde, aquele que tem verdade para entender que precisa amadurecer para apreender que o seu direito termina onde começa o do outro.
É indispensável deixarmos de olhar nossos próprios umbigos, faz-se urgente largarmos as atitudes imaturas, faz-se necessário admitirmos nossa infantilidade perante a vida; é imprescindível assimilarmos urgentemente que palavra dada é compromisso assumido e que quando entramos na vida do outro assumimos um grande compromisso, uma grande responsabilidade que é de colaborar para sua felicidade. A isso que eu chamo, verdadeira ‘identidade”. Porque o resto é posicionamento mesquinho, é discurso hipócrita, é atitude covarde!!

06 janeiro, 2010

NEM TUDO É FÁCIL (Cecília Meireles)


É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!!!

05 janeiro, 2010

AMOR QUE MORRE (Florbela Espanca)

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!



ELES USAM BLACK TIE (Cacau Loureiro)


Que discursos são estes que sempre ouvi em meu trajeto?!
São os homens na balbúrdia e nos grilhões de seus egoísticos
projetos...

Seguem lentos, vivem a esmo... pedem donativos.
Por onde anda o que se chama integridade, discernimento?!
Os seres marcham e professam suas santidades; pisam as
cabeças, consomem o tempo; extinguem seus pulsos.
Os ventos que os trouxeram veem de esferas diminutas
à própria Terra.
A lama é o que tempera os seus bustos sempre ocos,
sempre estreitos, pois que no centro dos seus peitos
nunca existiu um coração, fundem-se ali a pedra e a fera.
A onda que os acompanha é feroz, mas passageira, posto
que o que não dignifica não permanece.
Eles professam a falsidade com suas falas mansas, seus
cabisbaixos olhares; seus gestos sutis são artifícios para
se servirem do vencedor.
Estas criaturas passeiam por todo lado, num ir e vir
de torturas e hipocrisias. Os seus escudos são as
dissimulações chorosas, constantes. Usam gravatas,
longos vestidos, bebem os óbulos em copos de
espumante escárnio na própria lapela.
Elas sabem chorar e vertem lágrimas, elas sabem
pedir, vivem de esmolas; elas sabem enganar,
também sorriem: elas sabem retórica, pois são
ventríloquos; elas sabem versar sobre liberdade e
vivem sendo manipuladas, por seus ouvidos são
constantemente emprenhadas...
Assim descobri estranhamente que o diabo veste black tie
e com certeza usa Prada!

PERFÍDIA (Cacau Loureiro)


Na hora em que o silêncio adormece a própria
noite, sei que ouvem a minha voz...
E as verdades mascaradas na mudez da omissão
batem ferozes no ritmo cardíaco das criaturas
desalmadas.
Vazias palavras com cores artificiais enfeitadas;
rosas malditas cujos espinhos cravaram-se em
minhas mãos espalmadas.
O deserto mundo dos covardes seres, os seus
discursos de indiferença fizeram-me perder em
mil miragens, foram-me mar morto na saudade.
O ébano e o marfim dissonaram ante as cifras
da mentira pautada em futuro jamais composto.
Há o gosto amargo, há o desgosto diante da
perfídia dos que vivem dos sonhos rasos, dos
que trilham os caminhos fúteis.
Os caracteres simples deveriam revestir-se de
fortaleza... Contudo, são impassíveis.
Há dinossauros em suas peles de cordeiro,
em seus instintos rapaces.
Imodéstia disfarçada em gentileza gera
demência e solidão; o grito desvairado
por independência também gera servidão.
As vozes da pseudoliberdade calaram
cruelmente a voz do meu coração!...

02 janeiro, 2010

COITADINHOS (Marcelo Mello)


Quem são os coitadinhos do mundo? Sejamos honestos, quem nunca se fez de ou se sentiu de verdade um coitadinho, que atire a primeira pedra.

Todos nós passamos por isso na vida e não é uma fase não, é algo pontual e muito, muito relativo mesmo. Podemos nos sentir fortes em uma situação e numa outra parecida podemos nos sentir coitadinhos master.

Pois é, isso em situações normais da vida e como disse, situações pontuais. Quem é que nunca chora ou chorou à toa nessa vida. Por outro lado, existem aqueles outros coitadinhos, aqueles que passam a vida lamuriando, choramingando pelos cantos…

Esses são os coitadinhos por natureza, diria que quase viciados, além disso, ainda tem um “porém”: Não fazem absolutamente nada para mudar a situação. Nada mesmo. Sobretudo, eles parecem amar sofrer e sentir pena de si mesmos.

Claro, reclamar é mais fácil, achar que o mundo conspira contra eles é quase a desculpa perfeita. Confesso que já tive momentos desses em minha vida como todo mundo, mas vou falar uma coisa… Uma vez, num desses momentos, parei, pensei e disse a mim mesmo, lá na frente do espelho:

- Cara, você é idiota, imbecil ou o que? Não percebe que ficar se lamentando, choramingando e achando que o mundo está contra você, é uma espécie de sonhar ao contrário?

Fiquei com essa pergunta na cabeça, normalmente a Terapia do Espelho faz isso com a gente, nossa imagem joga uma pergunta meio descabida e, com medo, saímos da frente do espelho. Foi o que aconteceu comigo. Apaguei a luz e saí correndo. Mas a pergunta ficou me atormentando, eu precisava achar uma resposta para aquela indagação esdrúxula.

Como assim… Sonhar ao contrário? O que significa isso?

Todos nós estamos aqui na Terra acreditando cegamente que vamos realizar tudo o que sonhamos. Isso é um desejo inerente a nós, seres humanos. Temos desejos, sonhos e estamos sempre buscando realizá-los. Aí vem a realidade e mostra que “as coisas não serão tão fáceis assim”. Ok, acho que todo mundo sabe disso.

Mas somos mimados, ou melhor, queremos ser e, como não conseguimos tudo o que desejamos, ficamos contrariados. Por sermos mimados e ficarmos contrariados, nos tornamos coitadinhos, desejando assim, que passem a mão em nossas cabeças.

Ora, em essência, todos sonham com coisas boas, desejamos ser diferentes, os melhores em tudo, enfim, queremos ser acima da média, bem sucedidos, realizados. Esse é o sonho original: Sermos bons em tudo.

Como não é possível, algumas pessoas naquelas situações pontuais entendem que entrar no personagem “coitadinho” é bacana, afinal, nada como ter por perto pessoas para passar a mão nas cabeças. Isso alguns de nós. Outros “alguns” preferem viver integralmente os personagens coitadinhos e levar a vida nessa toada. Amam um chicotinho para se auto-flagelarem. Brinco que conheço gente que tem em casa um baú cheio deles.

Vivem se culpando e também aos outros por tudo o que dá errado, às vezes culpam até alguma conspiração cósmica, choramingam sem parar e, repito, não fazem nada para sair dessa espiral descendente. Arrumam justificativas e acham que a vida é apenas e tão somente uma porcaria. Bom, a vida não é grande coisa mesmo, mas é fato que ela tem momentos ótimos que, invariavelmente, são construídos por nós mesmos.

O pior de tudo é que se acostumam tanto com essa vida que fica parecendo que sonham com ela, acabam achando que o melhor lema é algo como… “Já que nada dá certo, serei coitadinho porque alguém sempre vai cuidar de mim”. Isso mesmo, sonham ao contrário, abrem mão de tentar buscar a felicidade e desejam ser bichinhos.

Sabe o que é mais triste? Acabam encontrando gente disposta a cuidar mesmo. Entregam suas vidas nas mãos de outros e em vez de resolverem o problema, trocam o comandante. Leiam de novo: Trocam o comandante da própria vida! E mais, não percebem que o sentimento que mais e melhor despertam é… dó.

E depois disso tudo, alguns têm a coragem e a ousadia de afirmar categoricamente que são seres “bem resolvidos”.

Então tá, me engana que eu gosto…

* Marcelo Mello é Escritor, palestrante, consultor processual

Site: http://egosistema.wordpress.com/