LÍRICOS OLHARES

LÍRICOS OLHARES

PENSAMENTO DO DIA

"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

Seguidores

REFLEXÃO

"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




31 de janeiro de 2010

FELICIDADE REALISTA (Martha Medeiros)


De norte a sul, de leste a oeste, todo mundo quer ser feliz. Não é tarefa das mais fáceis. A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica, a bolsa Louis Vitton e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.

É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Por que só podemos ser felizes formando um par, e não como ímpares? Ter um parceiro constante não é sinônimo de felicidade, a não ser que seja a felicidade de estar correspondendo às expectativas da sociedade, mas isso é outro assunto. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com três parceiros, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um game onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.

27 de janeiro de 2010

SALMO QUINTO (Cacau Loureiro)

Eu louvo aos céus porque o Eterno não me abandona!
Ele faz-me enxergar os mortos vivos saírem das tumbas
para escarnecer os que possuem equidade.
Faz-me reconhecer os espíritos enganadores vestidos
em seda e assim eles não me logram, não burlam os que
tem bom ânimo, pois que a graça divina ronda minha casa
e a minha oração eu faço chegar ao Pai com sinceridade.
Exalto as alturas porque o Onipotente não me desampara,
Ele guia meus passos, Ele mostra-me o caminho da retidão.
Ele faz-me ver os bajuladores em suas túnicas de dissimulação
intentando contra os cingidos, e eles não me ludibriam, não
lançam sofismas na fé inabalável dos preferidos, pois que
o cajado do altíssimo é poderoso e as minhas súplicas eu
faço chegar ao Supremo com humildade.
Eu entoo aos céus meus cânticos de paz porque o altíssimo
não me renega!
Ele faz-me sentir a aproximação do inimigo, ele faz-me invisível
diante das lanças, ele faz-me forte diante da espada, ele faz-me
muitos diante das potestades do mal, ele faz-me acreditar no
triunfo da verdade, na soberania da justiça.
Eu lanço aos céus minha celebração, porque a minha taça
é transbordante e eu não me assento à mesa dos ímpios,
não compactuo com os ilegítimos, não ofereço banquete
aos aduladores.
Eu profiro meu rogo aos céus porque tenho certeza que o
olho do Espírito Santo de Deus me acompanha, protege-me,
enlaça-me em proteção contra os maledicentes, enaltece-me
ante as assembleias maléficas e lhos diz:
Este é meu filho muito amado e está sob minha guarda!

26 de janeiro de 2010

MATURAÇÃO (Cacau Loureiro)

Aos que buscam o amor, o amor...
Aos que buscam a paz, a paz...
Há seres que tateiam no escuro, na penumbra da dúvida,
na sombra dos medos vãos, na noite sem explicação e se
esquecem que é preciso manter acesa a chama da verdadeira claridade interior.
É preciso que saibamos exercitar a vontade, a brava vontade de mudar o que está velho e investir no novo.
Não quer dizer jogar fora o que é passado, mas de trazê-lo
para uma nova vestimenta, pois que é possível a renovação.
Ninguém perde sua verdadeira essência quando opta pela
real transformação, apenas faz ressurgir àquilo que
verdadeiramente se é.
Aos que não partilham o mesmo amor, o caminho...
Aos que não partilham a mesma fé, o futuro...
Portanto, a vida segue diante das dores terrenas,
o mundo gira perante as idas e vindas, a marcha do
tempo segue adiante nas partidas e nas chegadas.
O importante é que o vento não leve o que temos,
o que somos e que o passado não mutile os valores,
não nos roube a identidade.
Aos que temem a caminhada, a solidão...
Aos que temem a verdade, o erro...
Que jamais deixemos que nos deturpem as qualidades
que abarcamos pela existência, seja ela curta ou longa.
Não é digno de nós aquele que não nos valoriza, porque
o valorizar não é prata de troca, mas é moeda de valor
inestimável cunhada na dedicação e no sacrifício de nossas
gerações passadas.
Sublimar nossas experiências de vida não quer dizer
esquecê-las, arrancá-las, extirpá-las, quer dizer
processar as alegrias e tristezas e usá-las como reboco
em nossos espíritos ainda em edificação.
Decerto que há pessoas indiferentes que estão de
passagem e sequer admiram a paisagem que se
lhes apresenta, que dirá contribuem para as novas
gerações com algo positivo, que dirá valorizam
aqueles que sabem o que é dedicação e amor.
Aos que não enxergam, o sacrifício...
Aos que não ouvem, os gritos...
Portanto, prossiga em tua jornada, em tua labuta
de empenho verdadeiro ao que chamamos próximo.
Seres humanos são aqueles que sentem dor, mas cultivam
a esperança; decepcionam-se, mas seguem adiante;
choram, mas acreditam que o sol nasce todos os dias;
oram e tem certeza que alguém os ouve.
Aos omissos, o silêncio.
Aos covardes, a justiça.

25 de janeiro de 2010

SALMO QUARTO (Cacau Loureiro)


Há muito que colocas o véu no rosto e esconde-se.
Por que o homem se oculta do Senhor que o fez?
Como antifaz de crocodilo encobrimos nosso
semblante, enganamos o homem tolo, enganamos
mesmo o honrado, mas nossa página para o Senhor
está descoberta.
Transfiguramo-nos em monstros travestidos em pele
de cordeiro. Por que não olhamos face a face a criatura
que somos e arrancamos esse coração deteriorado?
Há desespero nas mãos que ocultam a faca;
nos olhos que ocultam a verdade há sofrimento.
Por que não levantas as vistas aos olhos do Criador
de todos os exércitos, ao que ciceroneia todas as almas?
Pois que sua lança alcança o malvado e o herege
esteja onde estiverem. Por que atiças o semelhante
no repúdio que fazes ao Único Deus da salvação,
posto que ele nunca te abandona, nunca dorme,
nunca se deixa na invigilância?
Eleva teu espírito ao Pai, entrega a ele suas vestes,
seus mantimentos, sua alvorada e seu entardecer.
O pergaminho que carregas nada é sem o consentimento
D’aquele que habita as luzes celestiais porque seu
braço é cruz e espada, é justiça e nada há que tenha
validade sem a Sua permissão.
Portanto, olhai as montanhas que enfeitam suas posses,
olhai os mares que sinalizam suas magníficas obras,
olhai os animais que habitam sua casa, nada há que
não tenha sua menção e vontade.
Por que ainda deixa a falsa aparência fazer arder sua
alma, deixa ainda a máscara queimar suas virtudes?
Só o soberano que é justo faz o julgamento do que
guardamos em nossos recônditos.
Somente o Justo dos Justos é capaz de ver e edificar
o homem que verdadeiramente possui o coração limpo!

24 de janeiro de 2010

POSSO SER SINCERO? (Márcia Tiburi)


Quem hoje em dia é capaz de perceber algo estranho na pergunta “quando posso ser sincero?”. Ela traz uma dúvida importante quanto ao sentido da permissão exposto no uso do verbo “posso”. A pergunta oculta outra pergunta bem simples de ponderar: por que eu “não poderia” ser sincero? As questões definem que há muito tempo nossa intenção de sinceridade se tornou um problema.

Quando os seres humanos inventaram a sinceridade? O que ela significa entre nós hoje? A sinceridade é uma intenção, uma ação ou mais que isso?

Dizer é fazer
Quando falamos em sinceridade sempre pensamos na ação de dizer algo desagradável a alguém. Iniciamos uma crítica muitas vezes com a expressão “sinceramente”. Inaugura-se com isto a exposição de uma opinião que não está disposta a ser falsa e se declara de antemão com a autoridade da verdade. Junto com ela encena-se certo ar de coragem, como se a sinceridade fosse alguma sorte de franqueza grosseira. O sincero lembra o “grosseiro”, porta-voz de uma verdade bruta – tanto assustadora quanto obrigatória -, como se o delicado fosse falso na exata medida de sua polidez. Com isto demarca-se a sinceridade como um esforço que, além de desagradável a todos, tanto para quem o pratica quanto para quem o recebe, pode ser tanto inútil quanto comprometedor.
Pensa-se, para escapar disso, a sinceridade como algo que não se deveria “praticar”. Algo que é, em si mesmo, ruim. Que só com muito cuidado deveria ser usada. A pergunta que precisamos fazer diante desta evitação da sinceridade é bem óbvia: por que a prática da exposição das opiniões não pode ser vista como uma coisa boa, algo que deveria ser exercido livremente? Que nos faria crescer ética e mesmo psicologicamente? Que ajudaria a descobrir boas experiências, de alegria, de satisfação na convivência com o outro, aquele a quem se dirige nossa sinceridade?

Falsa sinceridade?
A acepção atual da sinceridade que sustenta a idéia de um caráter que deveria ser escondido, por não fazer bem a ninguém, ou por não trazer vantagens numa sociedade organizada em relações de troca tanto objetivas quanto afetivas, é precária ao não revelar a riqueza do conceito.
Muitos pensam que, se sou sincero com alguém hoje, posso receber de volta a sinceridade amanhã e isso não define vantagem alguma. Ou posso ser punido por sua ressonância: perder uma oportunidade, um negócio, um emprego, porque sou sincero. A sinceridade parece ser algo que apenas se pode temer, que só estraga a vida, espécie de talismã ao contrário, moeda falsa. Seria a sinceridade aquilo que os gregos chamaram “Phármakon”, uma substância venenosa que apenas parcimoniosamente usada se tornaria curativa?
A história da questão mostra, porém, o significado valioso do conceito. Um dos momentos mais importantes na história da sinceridade são as Confissões de Jean Jacques Rousseau, obra que inicia pela explicação do autor de que mostrará aos seus semelhantes um homem em toda a verdade de sua natureza. Conforme suas palavras “este homem serei eu”. Rousseau opta pelo “desnudamento de si” em sentido filosófico: falar do homem universal, mas na diferença que ele, o próprio Rousseau, torna real em sua própria vida.

Uma confissão
Sinceridade é, portanto, sinônimo de confissão. Quem se confessa dá testemunho, ou seja, conta algo porque o viveu, porque presenciou um fato e pode narrá-lo. O olhar do sujeito sincero é essencial na elaboração do que ele pode dizer. A confissão religiosa é originariamente um ritual de autoconsciência que envolve um exame de si, uma análise da própria pessoa por conta própria. Aquele que se confessa, porém, deve ter a disposição para libertar-se de si mesmo. Ao mesmo tempo, este gesto implica entregar-se ao outro, seja aos seus olhos, aos seus ouvidos, ao seu cuidado ou, negativamente, ao seu poder.
Infelizmente o poder como dominação não abandona a vida comum. A confissão do outro, seja na religião, seja na política, pode ser usada como arma contra aquele que se confessa. A confissão tem um poder equivalente ao do segredo que lhe é contrário. Alguém apenas entrega o que lhe é íntimo como uma generosa dádiva, ou, ao contrário, sob pressão emocional ou ameaça. Se nas relações mais íntimas os segredos confessados são usados por um contra outro é o valor da sinceridade como o mais íntimo que se pode compartilhar que cai por terra. A sinceridade não pode ser confundida com a mera desculpa diante do que acaba por ser dito sem pensar. A violência verbal e a maledicência muitas vezes são aceitas sob a máscara de sinceridade.
É porque a sinceridade diz respeito ao universo próprio do que pode ser expresso por cada um em seus limites que ela jamais é absoluta, pois ninguém pode saber tudo de si, nem revelar tudo a outrem. O sujeito humano vive do conhecimento de si em tensão com o que, de si, não pode ser conhecido, com o que nele é mistério e silêncio. Aquele que pudesse ser totalmente sincero – falar absolutamente de si ou do seu ponto de vista - ou estaria mentindo ou teria banalizado o poder da sinceridade.

(Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia, é professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Mackenzie, colunista da Revista Cult e participante do programa Saia Justa, do canal GNT)
Site: http://www.marciatiburi.com.br/

22 de janeiro de 2010

SEMIDEUS (Cacau Loureiro)


A emoção como temporal alagou meus sentimentos...
Ah! Estas torrentes por onde não sei nadar!
O tempo fechou-se nas abundantes águas, e eu
desejando o sol, pois sem sua luz não há esperança.
Seco meus olhos, lanço meu olhar ao céu; lá onde
ainda vejo o azul eu descanso minha alma.
Ante as trovoadas eu fortaleço-me, ante os
relâmpagos reconheço-me, ante o silêncio
eu compreendo-me, ante as provocações
eu aprendo-me...
Como semideus ante os destroços da história
eu sigo empunhando minha espada, marcho
arregimentando meus soldados, prossigo
enterrando meus mortos...
Mas, não há tempo ruim para quem cultiva o
entusiasmo, para quem aprendeu a fortaleza.
Nesta cinzenta manhã eu descobri um arco-íris
e pintei meu coração com suas cores...
Apesar do corpo combalido, o meu espírito altivo
ainda sonha em migrar como os anjos, ainda deseja
cantar como os pássaros, deseja ainda voar como Ícaro,
Ainda deseja ser forte como um herói.

21 de janeiro de 2010

CORDIAL (Cacau Loureiro)


É belo o sol que se levanta contigo, posto
que já verão em meu peito incontrito.
Como flor do dia a clarear minha alma
insana eu dirijo a minha prece ao Pai.
Porque quero que todos os mantos de

bondade cubram-te de bênçãos e amor...
Eu olho o mar que se apresenta a minha
frente, e ele é vasto como o calor que
arde em mim.
O horizonte que se perde nele me faz
ir ao teu encontro, pois que já não quero
mais estar aqui...
E eu viajo nestas letras que se ajuntam em
minha essência destoante em música suave
e juvenil, danço em tua rima cálida, porém
terna que me faz vibrar em pele e músculos,
em alma e coração.
O meu corpo diz, eu quero; meu âmago diz,
eu preciso... E em todas estas necessidades
eu estendo a ti minhas mãos de afeto. Pois
que os laços se fazem no invisível e também
nas distâncias dos olhares, na extensão das
vias e dos trilhos desta belíssima viagem.
A estrada que meus olhos não alcançam é
infinita em sentimentos primevos, porque
tudo é novo e renovado em ti.
Meu ser em cânticos encantado está; o doce
som que vem aos meus ouvidos acalenta
meus sentidos primitivos, minha carne ardorosa.
Nesta aura misteriosa eu desfio meus versos
frágeis, meu espírito baldio, e ainda sim
desbravador de ti.
Fito as flores que o astro rei insiste em avivar,
são as belas rosas do caminho... aveludadas e
cheias de cor. Tenho o privilégio de assistir
ao milagre da vida reacendendo o meu estro
para o mais cordial amor!...

19 de janeiro de 2010

CORAÇÃO GENUÍNO (Cacau Loureiro)


Eu desponto novo céu, nova paisagem, em
luz, em calor, em comoção...
Como veleiro a singrar sem ansiedades em
mar de calmaria... Adentro este mundo
enigmático e promissor das estrelas perenes
do crescimento interior.
Sobrevoo campos verdejantes, sem fim, pois
que infinito pode ser o coração humano em
sabedoria, em amor.
Nas distâncias pouso teus olhos e adormeço sob
teus cílios espessos como virgem mata.
A estrada entre tu e eu é, ao mesmo tempo, tão
curta e tão larga.
A lira por onde te toco sensibiliza-me, posto que
hoje és a cifra mais bela de minha pauta outrora
esquecida no empoeirado tempo onde permaneço.
A tua melodia em meus ouvidos como o ar que respiro,
como o sol em minha pele, como o sorriso em minha
face faz-me oscilar ritmadamente em teus sons
aprazíveis, até oblíquos.
Eu enxugo meus olhos em tuas mãos benéficas, em
teus lenços macios e quentes.
Desperto em teu berço de montanhas altaneiras,
pois que há azeite em tuas metáforas, há néctar em
tuas palavras, há açucarado leite em teu impermisto
coração menino!...

SALMO TERCEIRO (Cacau Loureiro)

Para o ninho das serpentes não há legado,
Há o fogo consumidor que esteriliza tudo,
Pois a mão que toma o que não lhe pertence
É cortada implacavelmente.
Para o fanal que do céu provém não há riqueza que
O compre, não há olhos entravados que o possa
Ver, passa fome mesmo comendo o pão.
A noite baixa austera para o que rouba a coisa alheia
Porque nada foge a perspicácia do Criador.
A misericórdia do que habita o altíssimo é infinita,
Porém sua austeridade é para todo o sempre, ai
Daquele que ostenta sua vaidade no varal das iniquidades,
Pois que não haverá lençol suficiente para conter as suas
lágrimas.
O bem viceja a olhos vistos, contudo o mal se propaga
No subterrâneo, mas o justo dos justos revolve a
Terra e mostra sob a claridade os imundos desta
Aldeia e os seus prantos não O sensibiliza e a sua
Justiça é inexorável.
Homens retos preparem suas bocas para o alimento
Da renovação, fazei reverberar um cântico de
Fé e humildade, pois só aquele que ferve na fé
E na benevolência prova do mais doce fruto.
O eterno tudo vê, tudo sabe, tudo ouve, tudo
Dirige e com seu poder faz nova vida de árvore estéril,
Faz humilhado o que se levanta contra seu semelhante,
Faz calar a voz da do perverso e do detrator, abre
Caminho com suas poderosas mãos em plantio de
Ervas daninhas; cuidai das palavras insanas homens
De falsas aparências, as máscaras lhes serão arrancadas
A ferro e fogo. Posto que a voz do Senhor ressoa por
Todo O Universo fazendo pelo seu verbo sagrado a
Profunda transformação do maldizente leviano.

15 de janeiro de 2010

SOBRE AS MULHERES (Viviane Mosé)

O ser humano nasce pronto, mas incompleto. Essa incompletude se resolve na vida e nas relações sociais. Ser mulher, assim como ser homem, mais do que um fator biológico, é um fenômeno social. Não somente os papéis sociais, mas a própria subjetividade se compõe a partir de modelos que se fazem e desfazem de acordo com a época, a cultura, a idade, a necessidade.

O mal que a sociedade fez, a nós mulheres, assim como fez aos homens, foi a imposição de um único papel social, de um único modelo. Ao contrário dos gregos que, mesmo sendo bastante opressora com as mulheres, as representavam em papéis muito distintos, como a guerreira, a mãe, a esposa ciumenta, a mística, a sedutora, etc, nos foi dado um lugar restrito, confinado, sem opção, o lugar de santa, dona de casa, esposa casta, mãe. Mas e o lugar dos homens era um bom lugar?

O homem, mesmo ocupando o papel de opressor, também sofria a restrição de um papel social excessivamente rígido: homens não choram, são provedores da família, têm que ser viris, etc. E a luta das mulheres, ao contrário de ser contra os papéis sociais opressores, se tornou, em uma determinada perspectiva, contra os homens.

Ainda permanece nas lutas que travamos um ranço, uma reatividade, uma vingança, não somente contra os homens, mas contra a maternidade, os trabalhos domésticos, o cuidados com os filhos, a fragilidade, a sensibilidade, ou tudo que nos lembre aquilo que um dia fomos. E terminamos nos tornando um ser híbrido, que nasceu não de uma ação, mas de uma reação, um ser que nega a si mesmo, nega seu corpo, seus hormônios, suas lágrimas pré menstruais, e busca cada vez mais conquistar espaços sociais, honras, que nunca fizeram felizes aos homens e hoje oprime e apaga mulheres cada vez mais sozinhas e poderosas. Que percebem, tarde demais, devido ao limite de nosso relógio biológico, que não era nada daquilo que queriam.

Quem somos mulheres de hoje? Mulheres cada vez mais independentes, mas talvez excessivamente independentes, ou oprimidas pela independência. Por isso mulheres maravilhosas, incríveis, criativas, fantásticas, belas, mas sozinhas, aprisionadas por um plano, um projeto de vida construído em reação a opressão a que fomos submetidas. A hora agora nos exige um novo passo: não se trata mais de tomar um lugar, mas de criá-lo: qual o lugar de nossa diferença, qual o lugar que nos faz florescer? Precisamos construir um espaço que nos caiba e este espaço deve ser necessariamente complexo, como nosso corpo, nossa potencialidade. A mulher expande pra dentro, mas também explode pra fora em forma de broto, filho criação, invenção.
(Viviane Mosé é psicóloga, psicanalista e poeta)

SALMO SEGUNDO (Cacau Loureiro)

A espada chamejante da justiça corta e limpa
como fogo, arranca as penas da ave de rapina
e enfeita o ninho dos justos.
O Senhor vigia os caminhos por onde anda
o seu criado preferido, com seu cajado faz-lhe
arrimo, dá-lhe apoio.
Faz saltar a águia do seu peito para combater
sob seus céus e dirige seu vôo em silêncio;
afia as suas garras para não padecer perante
a sanha dos lobos esfaimados.
No coração do probo não há temor, não
habita a ameaça dos arruinadores, dos
arbitrários.
Fé e força o direcionam para o triunfo e não
há intempérie que o faça retroceder; não
se desvia, não se retrai, segue adiante no
propósito, pois que o laurel vem do alto como
dádiva, como oração que unge e revigora, como
batismo vivificante.
Não há sol escaldante que o flagele em deserto
espiritual, não há chuva copiosa que o assole em
rios de lágrimas. Porque o manto do Senhor é largo,
é afável, é doce, é azeite balsamizante nas horas aflitas.
A alma do íntegro é semente protegida e aquecida na mão
do Pai Maior para germinar fecunda para o mundo e dar
testemunho de todo seu poder e bondade.

14 de janeiro de 2010

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO (Érico Veríssimo)

Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro.
É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época.
Eles esquecem o que tem de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?
É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.
Há na Terra um grande trabalho a se realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços.
É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as armas do amor e da persuasão.
Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz, através do espírito de cooperação.
(Érico Veríssimo, Editora Globo, Porto alegre, adaptado)

13 de janeiro de 2010

ATITUDE (Bernardino N. Nascimento)

Ter atitude não significa ser bom ou ruim, ter atitude é ser autêntico, sincero, verdadeiro consigo mesmo e com o próximo; é usar a intuição no primeiro momento; é ter firmeza sobre o que diz e sobre o que vai fazer; é ser rápido no raciocínio e usar o coração nas decisões.
Muitas pessoas perdem oportunidade por falta de atitude, e muitas sofrem de depressão porque não tomaram atitude no momento certo. Ter atitude é ser positivo, é fazer o que tem que ser feito na hora certa, no agora, no momento presente. Quem tem atitude não deixa nada para amanhã. Há pessoas que pensam bem antes de tomar uma atitude; já deixou de ser atitude: quem pensa no amanhã não tem atitude e sim medo.
Existe a atitude planejada: aquela que você acorda planeja fazer alguma coisa e toma atitude para acontecer o planejado; caso não aconteça como imaginava, deve procurar tomar outra atitude para mudar a estratégia sem ferir o objetivo do planejado. Tomar atitude pode dar certo ou errado, mas uma coisa é certa: não ficou guardada, em seu subconsciente, uma decisão que você não tomou no agora.
Na verdade, toda atitude tomada é correta, desde que seja a sua atitude e de preferência tomada com o coração dentro da razão. Ter atitude é desejar alguma coisa e quando conseguir, saber que é apenas o começo de uma trajetória.
Tomar atitudes significa praticar a intuição sem medo de tomar a atitude. Ser intuitivo é estar presente no momento; é se entregar ao presente como se fosse o seu último momento, dando total atenção ao que está se passando à sua volta no agora; é colocar o planeta na palma de uma mão e com a outra irradiar amor, paz, compaixão; é estar presente, colocar a batida do coração com a pulsação do Universo, na mesma sintonia.
Quando se confia no que foi estudado, quando se confia no que foi aprendido, quando se confia em si mesmo, quando se confia em Deus, tem-se atitude. Quando se quer fazer alguma mudança interior, só se consegue com atitudes: parar de fumar depende mais de atitude do que de quaisquer outros métodos. Se desejar alguma coisa importante só vai conseguir se tomar atitude... que muitas vezes não é do seu agrado momentâneo, mas é importante para a trajetória que você escolheu.
Não devemos tomar atitude para agradar a todo o mundo... isso pode desagrada-lo mais tarde. Ninguém conseguiu tal êxito no planeta. Mas podemos tomar a atitude de compartilhar os mesmos agrados aos que estão à nossa volta.
Podemos ver que tudo em nossa vida depende de atitudes. Há gente que diz: você não fez isso ou aquilo por falta de atitude! Na verdade, não foi falta de atitude e sim a atitude de não fazer o que deveria ser feito.
Quando se acha que está sem atitude pode ser sinal de depressão: as atitudes são descontroladas e na sua maioria, provocam efeitos “para baixo”. As atitudes dos depressivos são sempre contra eles mesmos e procuram adiar tudo.
Tomei a atitude de escrever sobre a atitude e se você perceber posso passar dias, anos, escrevendo sobre a atitude, pois estarei tomado pela atitude de escrever sobre ela e como tudo depende de atitude, assunto não vai faltar. Quando eu não tiver mais a atitude de escrever sobre a atitude vou ter que tomar a atitude de parar.
Percebeu o quanto à atitude faz parte das nossas vidas? Mas, há as fortes atitudes: essas que você tem que tomar para mudar alguma coisa em si mesmo. Esta atitude de mudança de comportamento do nosso interior tem que ser agora e o seu coração têm que dar uma ordem para seu cérebro dizendo: “Estou mudando meu modo de ser para me sentir melhor, para ser uma pessoa melhor para mim mesmo, para minha família, para meus amigos, para o mundo”. É esta a atitude que você precisa tomar e deve ser agora. É esta atitude que todos esperam de você.
“Ah! Não preciso mudar!” Engano seu! Todos os dias podemos ser uma pessoa melhor e para isso temos que ter atitude.Uma atitude pode mudar sua vida para sempre, para melhor ou para pior depende de sua atitude. Se sua atitude for tomada pelo pensamento, tem que toma cuidado com os resultados, se for tomada pelo coração a possibilidade de ser a certa aumenta em muito.
“Não tem mais jeito; estou muito velho(a) para mudar!” Nada disso! Você não tem idade; o tempo é contado e inventado pelo homem. Para Deus você tem vidas e vidas... não existe o tempo... nunca é tarde para nada, assim como nunca é cedo para tomar qualquer atitude. Mas tudo tem sua hora certa! Não... para a atitude o amanhã não existe! E tudo tem que acontecer no agora. Não deixe de tomar qualquer atitude pelo sentimento de pena, quem traz o sentimento de pena é porque não tem a atitude verdadeira dentro de si e pena é um sentimento que não existe, quando se toma a atitude de fazer alguma coisa por alguém.
Então, não tenha medo de nada. Tome uma atitude agora. Se quer viajar, viaje... se quer amar, ame... se quer alguém, vá à luta... se quer estudar, estude... se não gosta mais do seu parceiro(a), fale agora, tome a atitude de falar sempre a verdade. Seja verdadeiro, tenha atitude verdadeira como deve ser o seu coração: verdadeiro.
Se gostar de alguém conte para ele(a); muitas as vezes, por falta de atitude, nem um lado nem o outro se pronuncia e aí pode deixar de acontecer um lindo romance. Tome a atitude de ser feliz vivendo somente no momento presente. Deixe o passado; ele não volta mais. O futuro é agora e o que você está plantando no agora. O futuro é sua atitude neste momento.
Pense, ou melhor, não pense: tome uma atitude agora para chegar perto da felicidade.

E-mail: bernardino.nascimento@promon.com.br

http://somostodosum.ig.com.br/p.asp?i=358

11 de janeiro de 2010

PLENITUDE (Cacau Loureiro)

Descerrei a janela dos meus sonhos, o sol cintilou
em meus olhos, iluminou-me a alma deveras triste...
E rasguei o peito à luta que sangra, mas que também liberta!
Arrebentei correntes pretéritas, enxerguei as pétalas das
esquecidas rosas em meu jardim outrora cheio de cor;
atestei atônita o quanto eram belas com suas cores vivas,
reais, sem mentiras...
Surpreendi-me com seus espinhos... alegrei-me.
Percebi que uma alma que na dor sorri está completa...
Eu olhei a rua em sua vastidão, vi quantos caminhos se
pode seguir, mas eu estou aqui, onde plantei meus pés,
depositei meu coração e descobri que ele voa sem sair
do lugar. Que podemos ser o que somos sem ter ninguém
pra seguir.
Eu entrevi que “as coisas tão mais lindas” podem estar
achadas dentro de mim.
Hoje rodopio sob um céu quarenta graus com a leveza
das brisas que refrigeram âmagos ardentes.
Em meu rosto, em meu semblante a minha natureza
desperta para a vida que há de vir, traduz-se esperança.
É alto verão em meu cunho castigado, mas a este astro
eu me entrego para me consolar... para me revelar, para
me lançar ao mundo sem ansiedades.
Ondas traiçoeiras jogaram-me ao mar das angústias, porém
meu espírito segue em direção ao fanal dos bons haveres.
Por isso nestas águas eu navego, eu arrosto, eu enfrento,
eu domino sem temores; revigoro-me, fortaleço-me, renovo-me.
Jamais morro!...
Não há mais dores, remorsos, desordens, tempestades;
a luz permanente do pôr do sol reaquece o horizonte que
vislumbro, pois que o futuro que queima meu peito também
se apresenta brando, suave...
A voz em meus ouvidos diz: Paz, sossega!...
Eu sei que ”as coisas tão mais lindas” hoje só as encontro em mim!...







9 de janeiro de 2010

SALMO PRIMEIRO (Cacau Loureiro)

Jamais ouvirão o meu lamento, aqueles
Que intentam contra mim, pois que não
edifiquei pedras, apenas castelos.
E o meu caminho é um rio caudaloso de
Benesses, jamais seca.
Não há profecia para aquele que anda na
Justa trilha, há promessas.
Não há lágrimas para aquele que plantou
Sorrisos, há justiça.
Todo o suor que banha meu rosto tempera
O meu espírito para o maná que advirá.
O meu templo é o meu corpo, a minha alma
Oração.
Não temerei o vento que uiva escondido atrás
Das tenebrosas colinas, posto que espero
Pacientemente a aurora.
Eu sigo sem medos ou preocupações porque
O meu coração não compactuou com os injustos.
Meus olhos contemplam os pastos verdejantes,
E ali plantei meu coração e rego-o com esperança.
Não há remorso maculando minhas mãos, não há
Véu sombreando as minhas vistas.
E eu enxergo feito á águia altaneira, fênix da fé
Inabalável na eterna vida. Eu sobrevôo as serpentes
Que não saem da terra infértil das mentiras.
Eu sou filha muito amada, eu sou serva, eu sou mãe
Laureada por àquele que morreu por mim na cruz.
As minhas sementes profícuas se espalham pela
Esfera dos cingidos pela espada da proteção,
Pelo broquel do espírito Santo de Deus através
De seus anjos da guarda.

A NECESSIDADE DE PRIVACIDADE (Osho)

O ser tem dois lados: o interior e o exterior. O exterior pode ser público, mas o interior não pode. Se você tornar o interior público, perderá a sua alma, perderá a sua face original. Então você viverá como se não tivesse um ser interior. A vida se torna monótona, fútil.

Isso acontece às pessoas que levam uma vida pública — políticos, astros de cinema. Eles se tornam públicos, perdem completamente o ser interior; eles não sabem quem são, a menos que o público fale sobre eles. Eles dependem da opinião dos outros, não têm o sentimento do próprio ser.

Uma das mais famosas atrizes, Marilyn Monroe, cometeu suicídio, e os psicanalistas têm meditado sobre os motivos para isso. Ela era uma das mulheres mais lindas que já existiram, uma das mais bem-sucedidas. Até mesmo o presidente dos Estados Unidos, Kennedy, estava apaixonado por ela, e milhões de pessoas a amavam. Não se pode pensar no que mais se possa ter. Ela tinha tudo.

Mas ela era pública e sabia disso. Até mesmo na alcova, quando o presidente Kennedy a visitava, ela costumava chamá-lo de "Sr. Presidente" — como se estivesse tendo relações não com um homem, mas com uma instituição.

Ela era uma instituição. Pouco a pouco, ela tomou consciência de que não tinha nada de privado. Uma vez alguém lhe perguntou — ela tinha acabado de posar nua para um calendário e alguém lhe perguntou:
— Mas você não tinha nada enquanto posava para o calendário?
— Bem... — respondeu ela. — Eu tinha... o rádio ligado.

Exposta, nua, nada seu em particular. Eu acho que ela cometeu suicídio porque essa era a única coisa que poderia ter feito em particular. Tudo era público; essa foi a única coisa que sobrou para fazer por conta própria, sozinha, algo absolutamente íntimo e secreto. As personagens públicas são sempre atraídas para o suicídio porque apenas por meio do suicídio elas podem ter um vislumbre de quem são.

Tudo o que é bonito é interior, e o interior significa privacidade. Você observou as mulheres fazendo amor? Elas sempre fecham os olhos. Elas sabem o que fazem. O homem continua fazendo amor com os olhos abertos; ele continua sendo um observador. Ele não está completamente entregue ao ato; não está totalmente nele.

Ele continua sendo um voyeur, como se outra pessoa estivesse fazendo amor e ele estivesse observando; como se o ato do amor estivesse numa tela de TV ou de cinema. Mas a mulher sabe mais porque ela está mais sutilmente sintonizada com o interior. Ela sempre fecha os olhos. Então o amor tem um perfume totalmente diferente.

Faça uma coisa: um dia, ao tomar banho, acenda e apague a luz. No escuro, você ouve melhor a água cair, o som é mais nítido. Quando a luz está acesa, o som não fica tão nítido. O que acontece no escuro? No escuro, tudo o mais desaparece, porque você não pode ver. Só você e o som estão lá.

É por isso que em todos os bons restaurantes evita-se a luz; a luz forte é evitada. Eles usam velas. Sempre que um restaurante está à luz de velas, o gosto é melhor — você come bem e o paladar é mais apurado. O encanto envolve você. Se houver muita iluminação, o paladar desaparece. Os olhos tornam tudo público.

Na primeira frase da sua Metafísica, Aristóteles diz que a visão é o sentido mais elevado do homem. Não é — na verdade, a visão tornou-se muito dominadora. Ela monopolizou todo o seu ser e destruiu todos os outros sentidos.

O mestre dele, o mestre de Aristóteles, Platão, diz que existe uma hierarquia entre os sentidos — a visão está no alto, o toque na base. Ele está completamente errado. Não existe hierarquia. Todos os sentidos estão no mesmo nível e não deve haver nenhuma hierarquia entre eles.

Mas você vive através dos olhos: oitenta por cento da sua vida depende dos olhos. Não deveria ser assim; o equilíbrio precisa ser restabelecido. Você também deve tocar, porque o toque tem algo que os olhos não podem dar.

Mas experimente, experimente tocar a mulher que você ama ou o homem que você ama em plena luz e, depois, tocar no escuro. No escuro o corpo se revela, no claro ele se esconde.

Você já viu as pinturas de corpos femininos de Renoir? Elas têm algo de milagroso. Muitos pintores pintaram o corpo feminino, mas não existe comparação com Renoir. Qual é a diferença? Todos os outros pintores pintaram o corpo feminino como ele aparece aos olhos. Renoir pintou como ele é sentido pelas mãos; assim, a pintura tem calor, proximidade, vivacidade.

Quando você toca, algo de muito íntimo acontece. Quando você vê, tudo fica distante. No escuro, em segredo, na privacidade, algo se revela que não pode ser revelado às claras, na rua. Outros estão vendo e observando: algo profundo dentro de você se encolhe, não pode desabrochar.

É como se você pusesse sementes no chão para todo mundo olhar. Elas nunca irão brotar. Elas precisam ser atiradas no fundo do útero da terra, na escuridão profunda onde ninguém possa vê-las, onde elas começam a brotar e então nasce uma grande árvore.

Assim como as sementes precisam do escuro e da privacidade, todos os relacionamentos que são profundos e íntimos permanecem no seu interior. Eles precisam de privacidade, precisam de um lugar onde apenas dois existam. Então chega um momento em que até mesmo os dois se dissolvem e apenas um existe.

Dois amantes profundamente afinados um com o outro se dissolvem. Apenas um existe. Eles respiram juntos, estão juntos, existe um companheirismo. Isso não seria possível se houvesse a presença de observadores. Eles nunca seriam capazes de relaxar se outros estivessem observando. Os próprios olhos se tornariam uma barreira. Assim, tudo o que é belo, tudo o que é profundo, acontece no escuro.

Nos relacionamentos humanos, a privacidade é necessária. O segredo tem suas próprias razões para existir. Lembre-se disso, e lembre-se sempre de que você vai se comportar muito tolamente na vida caso se torne totalmente público.

Seria como se alguém virasse os bolsos do avesso. Essa seria a sua forma, como bolsos virados do avesso. Não há nada de errado em ser voltado para fora; mas lembre-se de que isso é apenas parte da vida. Não deve se tornar a totalidade.

Eu não estou querendo dizer para entrar no escuro para sempre. A luz tem sua própria beleza e o seu próprio sentido. Se a semente permanecer no escuro para todo o sempre e nunca sair para receber o sol da manhã, ela morrerá.

Ela precisa entrar no escuro para brotar, para reunir forças, para tornar-se vital, para renascer, e depois tem de sair e encarar o mundo, a luz, a tempestade e as chuvas. Ela tem de aceitar o desafio do exterior. Mas esse desafio só pode ser aceito se você estiver profundamente enraizado interiormente.

Eu não estou dizendo para você se tornar escapista. Não estou dizendo para você fechar os olhos, se retrair e nunca mais sair. Estou dizendo simplesmente para você entrar de modo que possa sair com energia, com amor, com compaixão.

Entrar, de modo que, quando sair, você não seja mais mendigo, mas rei. Entrar, de modo que, quando sair, tenha algo a compartilhar — as flores, as folhas. Entrar de modo que a sua saída seja mais rica e não empobrecida. E sempre se lembre de que, toda vez que se sentir exaurido, a fonte de energia está no seu interior. Feche os olhos e entre.

Tenha relacionamentos externos, tenha relacionamentos internos também. É claro que é inevitável ter relacionamentos externos — você anda no mundo, os relacionamentos profissionais estão aí —, mas eles não devem ser tudo. Eles têm um papel a desempenhar, mas deve haver algo absolutamente secreto e privado, algo que você possa chamar de seu.

Foi isso que faltou a Marilyn Monroe. Ela era uma mulher pública, bem-sucedida, ainda que um completo fracasso. Quando estava no auge do sucesso e da fama, ela cometeu suicídio. Por que ela cometeu suicídio continua sendo um enigma. Ela tinha tudo por que viver; não se pode conceber mais fama, mais sucesso, mais carisma, mais beleza, mais saúde do que ela tinha. Estava tudo lá, não era preciso melhorar nada, e ainda assim faltava alguma coisa. O lado de dentro, o interior, estava vazio. Então, o suicídio foi o único caminho.

Pode ser que você não chegue ao ponto de cometer suicídio como Marilyn Monroe. Pode ser que você seja muito covarde e cometa suicídio muito lentamente — pode ser que você leve setenta anos para cometê-lo — mas ainda assim é suicídio.

A menos que tenha algo dentro de você, que não dependa de nada de fora, que seja apenas seu — um mundo, um espaço seu, onde possa fechar os olhos e andar, onde possa esquecer que tudo mais existe — você está cometendo suicídio.

A vida nasce dessa fonte interior e se espalha pelo céu afora. Tem de haver um equilíbrio; e estou sempre procurando o equilíbrio. Portanto, não vou dizer que a sua vida deva ser um livro aberto, não. Alguns capítulos abertos, tudo bem. E alguns capítulos completamente fechados, um completo mistério. Se você for apenas um livro aberto, você será uma prostituta, você simplesmente vai ficar esperando nu na rua, com o rádio ligado. Não, essa não.

Se todo o seu livro estiver aberto, você será apenas o dia sem noite, apenas o verão sem inverno. Onde você vai descansar, onde vai se centrar e onde vai buscar refúgio? Para onde você irá quando estiver cansado deste mundo? Para onde irá para orar e meditar? Não; meio a meio está perfeito. Deixe metade do seu livro aberto — aberto a todos, disponível a todos — e deixe que a outra metade do seu livro seja tão secreta que apenas raros convidados possam ter acesso a ela.

Apenas raramente alguém recebe a permissão para entrar no seu templo. É assim que deve ser. Se a multidão entrar e sair, então o templo não será mais um templo. Poderá ser o salão de espera de um aeroporto, mas não pode ser um templo.

Apenas raramente, muito raramente, você permite que alguém entre no seu eu. É isso que é o amor.


Osho, em "Intimidade: Como Confiar em Si Mesmo e nos Outros"

7 de janeiro de 2010

IDENTIDADE (Cacau Loureiro)

Surpreende-me a passividade das pessoas, a vida é movimento, seja físico, mental, emocional. Tudo vibra no ser que se sente vivo, nada aplaca o contágio de quem tem entusiasmo mesmo nas dificuldades.
Pensar, projetar é importante, mas lançar-se ao desafio é algo para alguns. Não é questão de impulsividade e nem de falta de responsabilidade, se queremos algo precisamos buscar, investir para perder ou ganhar, arriscar, dar além da conta, principalmente quando a situação parecer-nos que não tem saída. Penso que para tudo na vida dá-se um jeito.
As pessoas, principalmente o povo brasileiro projeta coisas para muito longe, “o futuro”, como se vivêssemos mil anos, e sabemos que a vida passa rápido e o amanhã está mais perto que pensamos ou dimensionamos. Viver não é ir à rua para dizer, está vendo, estou em movimento, correndo atrás, não!! Correr atrás é doutrinar o espírito para alcançar o objetivo. Empreender no que se quer independe de quaisquer obstáculos; não se deixa para depois o que se quer ardentemente, se pôde deixar para depois, se não foi prioridade não era o desejo mais profundo, aí vem a onda do tempo e arrasta tudo, e normalmente para o nada, para a estaca zero, para o vazio. Eu digo que projetos adiados, são projetos encruados, perde-se o sabor, perde-se o tesão da coisa.
Um exemplo, você se programa para mudar algumas coisas na tua vida, e dedica-se a isso diante de todos os problemas, dificuldades, falta de apoio, até mesmo perseguições, porque há isso na vida cotidiana das relações humanas. Então você vê pessoas se entregando a coisas banais, pequenas, não fazem o esforço. Fazer o esforço está muito além do que freqüentar as aulas todos os dias, isto é obrigação, assim como o trabalho, o cuidar de si, de sua casa, o que fazemos além disso, chama-se esforço.
Empreender em nossos sonhos é impulsionar mais que músculos e pensamentos, é realmente estar disposto a pagar o preço da busca. É mergulhar de cabeça naquilo em que se acredita, é ir de fato ao encontro de nossos reais anseios e desejos. Ouvi dizer: morrer é fácil o verdadeiro desafio está em viver! Pessoas há que se recusam a viver e fecham-se em seus mundinhos e se acovardam ante às situações, ao menor impedimento estacionam, voltam atrás. Contribuir com a vida é andar para frente, é dirigir-se para o alto, é olhar com amplidão, é não ser restrito de alma.
Há pessoas que acham que podem aprender com professores, padres, pastores, mestres, gurus, contudo, a vida é uma grande escola, já dizia o nosso “Profeta Gentileza”. Tenho certeza que livros trazem conhecimentos, bons conselhos também (não de qualquer um), também a escola, a cátedra, a leitura de grandes mestres e filósofos; mas, onde aprendemos de fato, é na carteira da vida, nesta somos alunos e professores e temos que ter a integridade de saber-nos julgar bem aplicados ou não, nesta hora é que sabemos quem é quem; aquele que tem caráter para dizer, preciso melhorar, aquele que tem consciência para admitir, sim, eu errei, aquele que tem coragem para reconhecer, sim, fui covarde, aquele que tem verdade para entender que precisa amadurecer para apreender que o seu direito termina onde começa o do outro.
É indispensável deixarmos de olhar nossos próprios umbigos, faz-se urgente largarmos as atitudes imaturas, faz-se necessário admitirmos nossa infantilidade perante a vida; é imprescindível assimilarmos urgentemente que palavra dada é compromisso assumido e que quando entramos na vida do outro assumimos um grande compromisso, uma grande responsabilidade que é de colaborar para sua felicidade. A isso que eu chamo, verdadeira ‘identidade”. Porque o resto é posicionamento mesquinho, é discurso hipócrita, é atitude covarde!!

6 de janeiro de 2010

NEM TUDO É FÁCIL (Cecília Meireles)


É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!!!

5 de janeiro de 2010

AMOR QUE MORRE (Florbela Espanca)

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!



ELES USAM BLACK TIE (Cacau Loureiro)


Que discursos são estes que sempre ouvi em meu trajeto?!
São os homens na balbúrdia e nos grilhões de seus egoísticos
projetos...

Seguem lentos, vivem a esmo... pedem donativos.
Por onde anda o que se chama integridade, discernimento?!
Os seres marcham e professam suas santidades; pisam as
cabeças, consomem o tempo; extinguem seus pulsos.
Os ventos que os trouxeram veem de esferas diminutas
à própria Terra.
A lama é o que tempera os seus bustos sempre ocos,
sempre estreitos, pois que no centro dos seus peitos
nunca existiu um coração, fundem-se ali a pedra e a fera.
A onda que os acompanha é feroz, mas passageira, posto
que o que não dignifica não permanece.
Eles professam a falsidade com suas falas mansas, seus
cabisbaixos olhares; seus gestos sutis são artifícios para
se servirem do vencedor.
Estas criaturas passeiam por todo lado, num ir e vir
de torturas e hipocrisias. Os seus escudos são as
dissimulações chorosas, constantes. Usam gravatas,
longos vestidos, bebem os óbulos em copos de
espumante escárnio na própria lapela.
Elas sabem chorar e vertem lágrimas, elas sabem
pedir, vivem de esmolas; elas sabem enganar,
também sorriem: elas sabem retórica, pois são
ventríloquos; elas sabem versar sobre liberdade e
vivem sendo manipuladas, por seus ouvidos são
constantemente emprenhadas...
Assim descobri estranhamente que o diabo veste black tie
e com certeza usa Prada!

PERFÍDIA (Cacau Loureiro)


Na hora em que o silêncio adormece a própria
noite, sei que ouvem a minha voz...
E as verdades mascaradas na mudez da omissão
batem ferozes no ritmo cardíaco das criaturas
desalmadas.
Vazias palavras com cores artificiais enfeitadas;
rosas malditas cujos espinhos cravaram-se em
minhas mãos espalmadas.
O deserto mundo dos covardes seres, os seus
discursos de indiferença fizeram-me perder em
mil miragens, foram-me mar morto na saudade.
O ébano e o marfim dissonaram ante as cifras
da mentira pautada em futuro jamais composto.
Há o gosto amargo, há o desgosto diante da
perfídia dos que vivem dos sonhos rasos, dos
que trilham os caminhos fúteis.
Os caracteres simples deveriam revestir-se de
fortaleza... Contudo, são impassíveis.
Há dinossauros em suas peles de cordeiro,
em seus instintos rapaces.
Imodéstia disfarçada em gentileza gera
demência e solidão; o grito desvairado
por independência também gera servidão.
As vozes das “pseudas” liberdades calaram
cruelmente a voz do meu coração!...

2 de janeiro de 2010

COITADINHOS (Marcelo Mello)


Quem são os coitadinhos do mundo? Sejamos honestos, quem nunca se fez de ou se sentiu de verdade um coitadinho, que atire a primeira pedra.

Todos nós passamos por isso na vida e não é uma fase não, é algo pontual e muito, muito relativo mesmo. Podemos nos sentir fortes em uma situação e numa outra parecida podemos nos sentir coitadinhos master.

Pois é, isso em situações normais da vida e como disse, situações pontuais. Quem é que nunca chora ou chorou à toa nessa vida. Por outro lado, existem aqueles outros coitadinhos, aqueles que passam a vida lamuriando, choramingando pelos cantos…

Esses são os coitadinhos por natureza, diria que quase viciados, além disso, ainda tem um “porém”: Não fazem absolutamente nada para mudar a situação. Nada mesmo. Sobretudo, eles parecem amar sofrer e sentir pena de si mesmos.

Claro, reclamar é mais fácil, achar que o mundo conspira contra eles é quase a desculpa perfeita. Confesso que já tive momentos desses em minha vida como todo mundo, mas vou falar uma coisa… Uma vez, num desses momentos, parei, pensei e disse a mim mesmo, lá na frente do espelho:

- Cara, você é idiota, imbecil ou o que? Não percebe que ficar se lamentando, choramingando e achando que o mundo está contra você, é uma espécie de sonhar ao contrário?

Fiquei com essa pergunta na cabeça, normalmente a Terapia do Espelho faz isso com a gente, nossa imagem joga uma pergunta meio descabida e, com medo, saímos da frente do espelho. Foi o que aconteceu comigo. Apaguei a luz e saí correndo. Mas a pergunta ficou me atormentando, eu precisava achar uma resposta para aquela indagação esdrúxula.

Como assim… Sonhar ao contrário? O que significa isso?

Todos nós estamos aqui na Terra acreditando cegamente que vamos realizar tudo o que sonhamos. Isso é um desejo inerente a nós, seres humanos. Temos desejos, sonhos e estamos sempre buscando realizá-los. Aí vem a realidade e mostra que “as coisas não serão tão fáceis assim”. Ok, acho que todo mundo sabe disso.

Mas somos mimados, ou melhor, queremos ser e, como não conseguimos tudo o que desejamos, ficamos contrariados. Por sermos mimados e ficarmos contrariados, nos tornamos coitadinhos, desejando assim, que passem a mão em nossas cabeças.

Ora, em essência, todos sonham com coisas boas, desejamos ser diferentes, os melhores em tudo, enfim, queremos ser acima da média, bem sucedidos, realizados. Esse é o sonho original: Sermos bons em tudo.

Como não é possível, algumas pessoas naquelas situações pontuais entendem que entrar no personagem “coitadinho” é bacana, afinal, nada como ter por perto pessoas para passar a mão nas cabeças. Isso alguns de nós. Outros “alguns” preferem viver integralmente os personagens coitadinhos e levar a vida nessa toada. Amam um chicotinho para se auto-flagelarem. Brinco que conheço gente que tem em casa um baú cheio deles.

Vivem se culpando e também aos outros por tudo o que dá errado, às vezes culpam até alguma conspiração cósmica, choramingam sem parar e, repito, não fazem nada para sair dessa espiral descendente. Arrumam justificativas e acham que a vida é apenas e tão somente uma porcaria. Bom, a vida não é grande coisa mesmo, mas é fato que ela tem momentos ótimos que, invariavelmente, são construídos por nós mesmos.

O pior de tudo é que se acostumam tanto com essa vida que fica parecendo que sonham com ela, acabam achando que o melhor lema é algo como… “Já que nada dá certo, serei coitadinho porque alguém sempre vai cuidar de mim”. Isso mesmo, sonham ao contrário, abrem mão de tentar buscar a felicidade e desejam ser bichinhos.

Sabe o que é mais triste? Acabam encontrando gente disposta a cuidar mesmo. Entregam suas vidas nas mãos de outros e em vez de resolverem o problema, trocam o comandante. Leiam de novo: Trocam o comandante da própria vida! E mais, não percebem que o sentimento que mais e melhor despertam é… dó.

E depois disso tudo, alguns têm a coragem e a ousadia de afirmar categoricamente que são seres “bem resolvidos”.

Então tá, me engana que eu gosto…

* Marcelo Mello é Escritor, palestrante, consultor processual

Site: http://egosistema.wordpress.com/