LÍRICOS OLHARES

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"À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo" (Dom Quixote)

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“Seja qual for o país, capitalista ou socialista, o homem foi em todo o lado arrasado pela tecnologia, alienado do seu próprio trabalho, feito prisioneiro, forçado a um estado de estupidez.” (Simone de Beauvoir)





7 de março de 2010

OS MISERÁVEIS (Cacau Loureiro)


Incrível como a torpeza humana chegou ao nível do surreal. Isto não é questão de julgamento, é fato constatado cabalmente. A disponibilidade que o ser humano tem de subjugar-se ao outro por mesquinharia estarrece-me. Chegamos a um ponto que a nossa carência afetiva torna-nos manipuláveis e omissos; alcançamos um ponto tal de egoísmo que sequer percebemos as mãos que nos são estendidas nas “esquinas” das nossas convivências; fechamos os olhos e os ouvidos à nossa própria miséria interior. Chegamos num patamar de ambições que dispensamos relações de amor porque queremos ser “alguém”, almejamos o “sucesso”. O que será ser “alguém de sucesso” sem o verdadeiro amor partilhado?! Como será conviver com a escolha de não vivenciar o amor?! Já não sabemos mais dividir, sentir ou pressentir o outro como àquele que contribui para o nosso crescimento real, preferimos ouvir falsas ladainhas e elogios maquiados.
Contamos em rodas de amigos os nossos feitos profissionais, as nossas viagens excepcionais, as nossas capacidades criativas e fantásticas, falamos sobre os nossos conhecidos ilustres, mas não sabemos contar um conto de um verdadeiro amor vivido e de um afeto edificado. A humanidade prefere chorar amores esquecidos, jogados no fosso da indiferença, está e vive pobre de emoções. Não nos tocamos que para tocar a vida é preciso tocar os seres em suas verdadeiras dimensões.
Nós humanos tornamo-nos curtos, parcos, destituídos do sentido da divindade a cada dia mais mortificada em nós. Muitos vivem dentro de templos, igrejas e afins buscando restituir-se á vida, e não sabem que os seus assassinos diários estão ocultados, escondidos e protegidos em suas dissimulações interiores, alimentados vampirescamente por seus próprios sangues. Matamos o amor que vivifica quando as nossas ambições envenenam nossos caracteres, quando nosso orgulho torna-nos surdos para a súplica daqueles que nos amam; quando a nossa vaidade atropela os que nos estão próximos por esta estrada da vida.
Malogrado é aquele que ignora e dispensa a construção do amor pelos afetos passageiros e superficiais. Onde e quando foi que abandonamos o divino depositado em nós em tempos remotos, o sopro essencial que nos diferenciava em humanidade? Outrora fomos escravos submetidos ao esforço físico e á degradação moral, hoje arrastamos as correntes da indiferença que retalia o outro e que nos aliena e distancia cada vez mais de nossa identidade humanóide. Somos miseráveis quando jogamos fora a oportunidade de adquirirmos reais valores por um presente fútil, vazio, efêmero e perdemos o ensejo de construirmos um futuro rico em afetos verdadeiros, somos desgraçados quando nos negamos engendrar uma verdadeira humanidade projetada como exemplo para os anais da eternidade!

Um comentário:

ValériaC disse...

Cacau querida, você está certa... infelizmente muitos valorizam as ilusões...as superficialidades da vida e não percebem a importância e a riqueza que podemos compartilhar uns com os outros. Quando nos permitimos ir além e nos deixamos ser vistos na nossa verdade pelo o outro e temos também um verdadeiro interesse pelo outro,podemos ver o quanto isso pode ser maravilhoso.Porém, muito se perde quando não escolhemos viver "de verdade" sejam os relacionamentos humanos ou seja em nossa espiritualidade.
Beijos...