Havia uma solicitude inquietante naquela noite…
Sozinha, em casa, fazendo minhas orações,
eu não pedi por ninguém.
Pedi por mim.
Pedi aos céus que me arrancassem,
com mãos firmes e ternas,
os últimos vestígios de um sentir
que já não cabia na vida
que eu desejo viver.
Não pedi esquecimento —
pedi libertação.
De laços que não se sustentavam a dois,
de uma presença dividida,
de um silêncio cheio de conflitos
que eu já não queria mais traduzir.
Cansada de assistir às encenações
de um teatro de horrores sutis,
das não escolhas de seres
que preferem não se ver, nem se priorizar.
E, ainda assim,
carregar o mundo nos ombros
como se fosse virtude
se esquecer.
Eu não quis mais essa travessia,
de mãos dadas com abismos alheios.
Pedi por uma vida simples
no que é essencial:
duas presenças inteiras,
sem pesos alheios,
sem excessos que não nos pertencem,
sem amores que se perdem
tentando salvar tudo —
menos a si mesmos.
E naquela noite,
em silêncio,
eu me devolvi a mim.
Se algo ainda restava,
eu entreguei.
Se algo ainda me prendia,
eu soltei.
E hoje eu sei:
não foi sobre ir embora,
ou sobre partidas…
foi sobre o que nunca esteve.
Foi sobre eu, enfim,
não permanecer.
A vida, muitas vezes, não nos responde com pressa,
mas há momentos em que ela nos revela, sem suavizar.
E assim renasci, num domingo em que eu
comemorava a Páscoa.

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