SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

10 abril, 2026

DESLINDES (Cacau Loureiro)

Havia uma solicitude inquietante naquela noite…

Sozinha, em casa, fazendo minhas orações,

eu não pedi por ninguém.


Pedi por mim.


Pedi aos céus que me arrancassem,

com mãos firmes e ternas,

os últimos vestígios de um sentir

que já não cabia na vida

que eu desejo viver.


Não pedi esquecimento —

pedi libertação.


De laços que não se sustentavam a dois,

de uma presença dividida,

de um silêncio cheio de conflitos

que eu já não queria mais traduzir.


Cansada de assistir às encenações

de um teatro de horrores sutis,

das não escolhas de seres

que preferem não se ver, nem se priorizar.


E, ainda assim,

carregar o mundo nos ombros

como se fosse virtude

se esquecer.


Eu não quis mais essa travessia,

de mãos dadas com abismos alheios.


Pedi por uma vida simples

no que é essencial:

duas presenças inteiras,

sem pesos alheios,

sem excessos que não nos pertencem,

sem amores que se perdem

tentando salvar tudo —

menos a si mesmos.


E naquela noite,

em silêncio,

eu me devolvi a mim.


Se algo ainda restava,

eu entreguei.


Se algo ainda me prendia,

eu soltei.


E hoje eu sei:

não foi sobre ir embora,

ou sobre partidas…

foi sobre o que nunca esteve.


Foi sobre eu, enfim,

não permanecer.


A vida, muitas vezes, não nos responde com pressa,

mas há momentos em que ela nos revela, sem suavizar.


E assim renasci, num domingo em que eu

comemorava a Páscoa.

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