SOBRE ESTE ESPAÇO

❦ LÍRICOS OLHARES ❦

Este é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Este olhar é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.


Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira.

— Claudia Loureiro

10 abril, 2026

DESLINDES (Cacau Loureiro)

Havia uma solicitude inquietante naquela noite…

Sozinha, em casa, fazendo minhas orações,

eu não pedi por ninguém.


Pedi por mim.


Pedi aos céus que me arrancassem,

com mãos firmes e ternas,

os últimos vestígios de um sentir

que já não cabia na vida

que eu desejo viver.


Não pedi esquecimento —

pedi libertação.


De laços que não se sustentavam a dois,

de uma presença dividida,

de um silêncio cheio de conflitos

que eu já não queria mais traduzir.


Cansada de assistir às encenações

de um teatro de horrores sutis,

das não escolhas de seres

que preferem não se ver, nem se priorizar.


E, ainda assim,

carregar o mundo nos ombros

como se fosse virtude

se esquecer.


Eu não quis mais essa travessia,

de mãos dadas com abismos alheios.


Pedi por uma vida simples

no que é essencial:

duas presenças inteiras,

sem pesos alheios,

sem excessos que não nos pertencem,

sem amores que se perdem

tentando salvar tudo —

menos a si mesmos.


E naquela noite,

em silêncio,

eu me devolvi a mim.


Se algo ainda restava,

eu entreguei.


Se algo ainda me prendia,

eu soltei.


E hoje eu sei:

não foi sobre ir embora,

ou sobre partidas…

foi sobre o que nunca esteve.


Foi sobre eu, enfim,

não permanecer.


A vida, muitas vezes, não nos responde com pressa,

mas há momentos em que ela nos revela, sem suavizar.


E assim renasci, num domingo em que eu

comemorava a Páscoa.

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