À beira do cais,
uma dama na noite,
à espera de um milagre...
As luzes da cidade
penetram seus olhos
como chuva que deságua na alma
em canções de espera.
O eco dos passos
acorda a aurora,
para que a esperança desperte
e sobreviva
ao sol escaldante dos exílios...
que não sacia a sede
da tua companhia copiosa,
feroz correnteza
que redesenhou destinos.
E então eu sou mar...
retemperando
os mergulhos profundos
de quem não compreende
as distâncias,
onde os portos
apagaram seus faróis
para sermos
náufragos de nós mesmos.
Sigo cega
nas noites abissais,
oceanos sombrios
feitos de tempestades e medo...
Águas altas, revoltas,
prontas a invadir o convés
dos sonhos,
engendrados como bússolas
de caminhos incertos,
de cartas à deriva
de uma cartografia extraviada.
Mas ancoro
na paisagem perplexa
dos silêncios,
e os rumores da noite
não me trazem sentido,
soam-me desconexos,
como vagas encobrindo a quilha,
golpeando o casco,
desestabilizando o lastro:
empuxos
que me afogam
em solidão.

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