SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

18 março, 2026

CARTOGRAFIA (Cacau Loureiro)


À beira do cais,

uma dama na noite,

à espera de um milagre...


As luzes da cidade

penetram seus olhos

como chuva que deságua na alma

em canções de espera.


O eco dos passos

acorda a aurora,

para que a esperança desperte

e sobreviva

ao sol escaldante dos exílios...


que não sacia a sede

da tua companhia copiosa,

feroz correnteza

que redesenhou destinos.


E então eu sou mar...


retemperando

os mergulhos profundos

de quem não compreende

as distâncias,


onde os portos

apagaram seus faróis

para sermos

náufragos de nós mesmos.


Sigo cega

nas noites abissais,

oceanos sombrios

feitos de tempestades e medo...


Águas altas, revoltas,

prontas a invadir o convés

dos sonhos,


engendrados como bússolas

de caminhos incertos,


de cartas à deriva

de uma cartografia extraviada.


Mas ancoro

na paisagem perplexa

dos silêncios,


e os rumores da noite

não me trazem sentido,

soam-me desconexos,


como vagas encobrindo a quilha,

golpeando o casco,

desestabilizando o lastro:


empuxos

que me afogam

em solidão.

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