SOBRE ESTE ESPAÇO

❦ LÍRICOS OLHARES ❦

Este é um espaço dedicado à poesia, à palavra e ao pensamento. Um lugar onde sentimentos, memórias, experiências e reflexões encontram na escrita uma forma de expressão e permanência.

Criado como um encontro entre a sensibilidade e a observação da vida, o blog reúne poemas e textos que percorrem os caminhos do humano: seus afetos, inquietações, descobertas, ausências, encontros e transformações.

Aqui, a palavra não é apenas escrita; é presença, diálogo e possibilidade de olhar para dentro e para fora. Cada texto nasce do desejo de compreender a complexidade da existência e de transformar vivências em versos, narrativas e reflexões.

Este olhar é um convite à pausa em meio à pressa cotidiana. Um espaço para quem acredita que a poesia ainda tem o poder de tocar, despertar sentidos e criar pontes entre histórias diferentes.

Entre palavras, silêncios e pensamentos, este blog permanece como uma travessia pela delicadeza da vida e pela infinita riqueza da experiência humana.


Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar, não para provar,
não para ser menos.
Iluminei para seguir inteira.

— Claudia Loureiro

24 setembro, 2026

O BUDA SENTADO (Cacau Loureiro)

Há dias em que o amor
quer resposta imediata,
explicação, presença,
um sinal de fumaça
a cada silêncio.

Há dias em que alguém
conta os minutos,
interpreta ausências,
inventa intenções
e chama de cuidado
aquilo que o medo sussurra.

Então eu me sento.

Não para fugir,
nem para punir o mundo
com o meu silêncio.

Apenas me sento.

Porque nem todo silêncio
é abandono.
Nem toda ausência
é desamor.
Nem toda demora
esconde uma intenção.

Às vezes,
a pessoa apenas chegou em casa,
tem uma vida para viver,
uma aula para assistir,
um alimento para comer
e alguns pensamentos
que precisam ficar longe do telefone.

E o Buda sentado
não corre para explicar.

Ele sabe
que há coisas que precisam
de espaço para existir
antes de receberem um nome.

Não pergunta
por que você não respondeu.
Não inventa uma vingança
onde havia apenas cansaço.

Não transforma algumas horas
numa sentença sobre o amor.

Ele permanece.

Sentado.

Enquanto o mundo
quer decidir tudo depressa.

E talvez amar seja também isso:

não preencher todos os silêncios,
não moldar o outro
à forma da nossa ansiedade,
não exigir que duas almas
tenham o mesmo relógio.

Porque há quem tenha pressa
de construir a casa
antes mesmo de conhecer
o tamanho das janelas.

E há quem prefira
sentar no chão,
olhar as paredes,
escutar o próprio silêncio
e perguntar:

— É aqui que quero morar?

O Buda continua sentado.

Imóvel.

Sereno?

Nem tanto.

Porque até Buda,
de vez em quando,
deve pensar:

foda-se, foda-se, foda-se.

E voltar a respirar.

Não porque tenha encontrado
o equilíbrio absoluto.
Mas porque descobriu
que não precisa estar em equilíbrio
para não sair correndo
atrás de respostas.

Há coisas que o tempo explica.

Há outras que ele apenas revela.

E há aquelas
que precisam permanecer
por algum tempo
sem explicação.

O Buda sentado sabe.

Eu também.

Só não prometo
ficar sentada para sempre.




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