PENSAMENTO DO DIA

"A arte, meus amigos, não é um espelho do mundo, é sim, uma ferramenta para consertá-lo." (Vladimir Maiakovski)

REFLEXÃO

"Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata. (Drummond de Andrade)

25 de janeiro de 2026

BELA FLOR (Cacau Loureiro)


Não há que se cultivar medos porque

o temor pode fazer eclodir vulcões que 

por vias escusas do destino estiveram

estagnados.

Permita, antes de tudo, que eu possa

tocar o teu coração, a tua alma, pois

o restante seria apenas presente de

um mágico quando ele toca a cartola

do tempo e nos deixa nos olhos o

encontro com o indivisível.

Deixe o vento fresco da surpresa 

acariciar o teu rosto e te despertar

para a vida que há de vir, pois o

bonito e o precioso sempre emergiram

de almas livres...

As mais belas poesias do mundo se

originaram no feminino, porque o

feminino é Gaia, é a Mãe Terra, colo

que cheira a flor de laranjeira, solo

molhado de chuva preparando as

sementes das boas aventuranças.

Quero... sentir o perfume que emana

dos teus cabelos voantes, depois, 

esfregar as mãos sobre o papel

vermelho dos amores possíveis,

compor a poesia da alma porque

esta sim é capaz de revolucionar o

mundo. Esqueça o medo... a chuva

pode cair torrencial, mas ela carregará o

passado para o lugar que agora lhe cabe...

Olhando o céu que hoje se abriu ante meus

olhos esperançosos, pousou uma flor no

meu ombro... Flores bonitas sempre aparecem

depois das tempestades para lembrar que o

sol ainda brilha em algum recanto do mundo...

23 de janeiro de 2026

RITUAL DAS ÁGUAS (Cacau Loureiro)


A chuva fina desce como gametas a

fecundar a terra árida dos homens...

Um céu plúmbeo a nos chamar para os

poderes misteriosos da natureza que

nos incita a buscar as luzes da alma.

Abundantes águas a nos lavar o corpo

e o espírito num ritual que nos faz abrir

os olhos para as incertezas humanas.

É belo abraçar a todos em cuidado,

tão belo ainda é olhar o ser que está

ao nosso lado, e perceber aquele

que nos segue em devotamento.

A dádiva das companhias limpas e leais

nos é presente do sagrado, somente a

clareza do alto sabe ao certo o que

nos elabora como diretriz.

Abrir os olhos é abrir também o coração,

porque dormitar ante todas as possibilidades

de crescimento é tornar infértil a oblação

pelo fogo, crescer em entendimento é

envergar-se feito caniço de bambu, não

é ser serviçal, é estar a serviço.

Eu olho, vejo a chuva limpar o solo dos

intranquilos, preparando-os para espraiar

sementes novatas na corredeira das águas

abundantes, em vida nova que nalgum dia

há de despertar em nós...

21 de janeiro de 2026

ENTRE O QUE NÃO CABE (Cacau Loureiro)


Um fio se estende na noite…
Palavras tecidas em promessas.
O hábito da conversa é
confiança ainda em broto.
No gesto nascente,
o passado senta à mesa.
Não grita.
Não exige.
Apenas ocupa.
Basta para deslocar o encanto.
Não é um fato isolado.
É tempo.
É lugar.
É modo.
São águas passadas.
Hora exata que se pedia silêncio —
recebe narrativas.
Compreendo histórias duras.
Reconheço dores antigas.
Tenho empatia pelos lutos que não foram
enterrados.
Mas aprendi:
compaixão sem reciprocidade
vira abandono de si mesmo.
Sou abrigo...Mas...
Deitei em redes que balançaram.
Não me levaram ao descanso
e entonteceram o meu corpo.
Percebi que contemplar céu tenebroso
não cessa as tempestades.
Arrastei bagagens que não eram minhas,
monólogos onde ouvi demais e
esperei além do justo.
Quando da verdade colocada à mesa,
fui rebatida, acusada, preterida.
Agora, não.
Hoje, cuido do campo do encontro.
Não invado.
Não despejo entulhos.
Não trago fantasmas.
Intimidade nasce do cuidado.
Não há ruídos.
Quem caminha comigo
aprende a ocupar outro espaço.
Não por negação.
Mas por ordem.
Por simples prioridade.
Passado que permanece vivo demais
não cabe no futuro que almejo.
Sem julgamentos.
Apenas critério.
Não é frieza.
É ética afetiva.
Histórias terminam antes de começar.
Não por falta de interesse,
mas por lucidez e coerência.
E eu sigo.
De mãos livres.
Sem lixos emocionais.
Com espaço para quem chegar inteiro.
E em tempo...
De fazer o que nos cabe.

18 de janeiro de 2026

SEM VENDAS (Cacau Loureiro)


Sei bem...
Estradas longas se fazem no fim e o
pó do caminho muitas vezes levanta os
muros, como um ensaio de cegueira,
como cortinas de fumaça, véus obtusos
dos desenganos...
No labirinto confuso dos amores mal
traçados, as montanhas se erigem
para além do infinito onde lanço um
olhar de desesperança; como paredes
móveis e areias movediças, engolindo
sonhos, estreitando dores e desfazendo
os laços, farrapos das afeições rasas. 
Mas me habita uma canção, tocada na
gaita dos desígnios universais, porque
toda música composta na alma sensitiva,
sabe ao certo seu endereço... 
O meu ritmo segue no vento fresco das
tardes bonitas em que me olho, me enxergo
e me aceito, como o sol luminoso que vai
deitar-se no poente imperioso de seu dever
cumprido porque ainda há luz em todos os
para sempre dos homens.
E eu sigo essa jornada das belas melodias
que fulguram em meu sorriso novo, sem
vendas nos olhos depois dos vários ensaios
ante as minhas cegueiras da alma. 
Sei bem...

16 de janeiro de 2026

CANTARES DO TEMPO (Cacau Loureiro)


O sol aberto abraçou-me o caminho...

O poder das claridades nos impulsiona

adiante, como força motriz de ensinamentos.

Aspiro os novos ares de quem traz no peito

o contentamento dos justos, um cantar de

alma para os dias vindouros.

 

A caminhada nos lapida e nos aperfeiçoa

na certeza de que todo pôr de sol, prepara

as novas auroras para os voos das psiquês

revigoradas, não pela sorte que se acha

nas sendas dos homens, mas, pela

colheita daqueles que sempre, em estando

por aqui, vislumbraram um outro porvir.


Eu ouço os cantares do tempo, e eles

ressoam em meus ouvidos como os sons

de quem sopra na música da existência

as rimas da poesia que se compõe no

sorriso de quem achou a própria trajetória,

mudança de direção de quem cumpriu o que

era preciso, alquimias da humana natureza em

contemplação da própria luz do divino em si!...

15 de janeiro de 2026

TRAVESSIA (Cacau Loureiro)

 


Aos céus eu lancei as minhas súplicas,

o que está no alto, estará dentro de nós...

eu prossigo nessa estrada de fé, porque

o amor maior sempre velará por nós.

Meus caminhos como os rios, também

cheios de meandros, ensinam-me a

prosseguir como as águas, a limpar as

incertezas, porque aprendizado é liga,

edificação para os misteriosos desígnios

do divino, e assim, não temerei as sombras

que hora em vez se lançam sobre a minha

cabeça revolta e sobre o meu coração

conturbado nas noites traiçoeiras...

Há uma torrente forte a preencher a minha

alma do sal da terra, como tempero e

fermento a construir meu caráter de fibra

e a fomentar o meu espírito tenaz.

Que venham as correntes abruptas,

que venham os desafios doridos, 

que me sejam batismo, porque salvar-se

é entender que como ondas, hora estaremos 

em cima, hora estaremos embaixo, e vir à tona,

é exercício de transformação e saberes.

Levanto a minha fronte ao sol, como

girassol sedento de luz, pés fincados

no solo dos indiferentes, coração

plantado nos tesouros do espírito,

plena vida que me abraça como chuva

a varrer dissabores incultos, a 

transmudar minha alma em paz.

11 de janeiro de 2026

CIRANDAS IMPERFEITAS (Cacau Loureiro)


Havia um sorriso bonito a me chamar
para a tua ciranda de flores…

A cadência da música envolveu-me os sentidos,
enredou o espírito em canções
que acenderam a minha verve poética.

Então acolhi, em rimas raras,
o sonho
de pegar em tuas mãos
e compor a tua roda...
ritmos que me alçaram os braços,
que me levaram ao horizonte aberto,
esperança calma
a fincar-me os pés no chão
e a fazer-me crer
que o mundo ainda valeria a pena.

As fitas coloridas adentraram o meu peito,
enviesaram-me a alma
e me transfiguraram arco-íris,
celeste arco
levado ao outro lado
dos caminhos imperfeitos;
versos puxados à beira-mar,
jangadas enfeitadas,
floridas em amanheceres de sol,
em calor de gemas encantadas.

Mas no chão batido da vida,
na gira de quem dança sem compasso,
o círculo dos amores perdeu o andamento...
passo largo do destino
na voz de um supremo cantador.

Na ciranda desarrumada,
a pulsação alegre se desfez;
as cores, esmaecidas
pela poeira de um tempo absorto,
arrastadas no vai-e-vem
de ondas tempestivas,
não sustentaram o passo a passo.

Ainda assim, eu sei:
sorrirei.
E dançarei outras cirandas,
marcadas por pandeiros vivos,
ritmados,
vestido rodando
na evolução da zabumba grave
a marcar a batida do meu coração,
a dizer-me, em viva ancestralidade,
que a vida...
a vida ainda pulsa
na memória coletiva.

6 de janeiro de 2026

FANAL (Cacau Loureiro)


Na minha solidão,

eu ainda vejo luzirem as lanternas…

E, não há escuridão no fim do túnel,
pois, nas longas noites, eu encontrei companhia.

Quando murmurei palavras de bênçãos nas trevas
que desceram sobre meu dormitar vazio,
onde fechei meus olhos para apaziguar
as dores do corpo,
onde cantei para esvaziar
os incômodos da alma.

Assim, eu esperei pelo bálsamo
do encontro de mim mesma,
onde meus passos de criança
vieram ao meu encontro,
lá onde o meu coração menino
cantou comigo
as cantigas de roda
que me inebriavam os dias.

Onde meu amigo invisível
pulou corda,
ensinando-me a dança da vida;
quando brincamos de amarelinha,
intentando equilibrar o mundo nas mãos;
onde balançamos ao vento
das alegrias passageiras
e onde os sonhos eram tecidos
nas árvores,
nascedouros de tantos sabores.

Ah!
Eu vejo as luzes piscarem,
mesmo ao longe,
no cais — refúgio para os perdidos…

Lá onde o meu peito depositou esperanças;
lá onde o mar faz seu eterno vai e vem,
sob a infinitude do céu,
ante a finitude dos homens.

Porque sei que há um fanal
que resplandece de norte a sul,
de leste a oeste,
espraiando luz sobre aqueles
que se perderam no mar da vida
e empunham nas mãos
a lanterna

dos que foram pelo mundo, afogados…

5 de janeiro de 2026

PONTES QUEIMADAS (Cacau Loureiro)

Desenhei dezembro na fumaça, as cinzas
viajaram com os ventos da saudade, se foram
vãs, foram-se por caminhos incompletos, iníquos.
Quem amparará todos os sonhos que sonhei?!

Jamais derramei as águas do arrependimento,
porque minhas sementes foram férteis ante
o solo seco dos destinos endurecidos.

Há laços de mentiras para aqueles que vivem
na superficialidade; neles o amor é sem rosto,
sem fundamento — é terra abandonada no espírito
oco de pessoas mal amadas...

Nas fronteiras do tudo e do nada, eu vi as
escolhas vazias, fáceis deslindes; pois alicerces
verazes são ancorados na coragem sobre
o mar das escolhas altruístas.

É preciso ter cunhado na alma a moeda do
real valor para escolher o seu propósito,
para escrever a própria história,
para fazer-se abnegado.

Campo minado é para valentes soldados,
que levam em seus âmagos a luta pela
sobrevivência, mas também a fibra para
jamais desistirem do combate...

Diante daqueles que abdicaram de seguir
adiante, ou de marcharem comigo, as pontes
eu queimo e sigo!

3 de janeiro de 2026

NAUFRÁGIO (Cacau Loureiro)


Ele dizia que eu era profunda.

E às vezes confessava — quase em sussurro —
que isso o assustava;
que temia não estar à altura,
como quem olha o mar aberto
e calcula o próprio fôlego.

Demorei a compreender
que o medo não nascia da minha profundidade,
mas do ponto em que eu já estava pronta para descer
e ele ainda precisava da superfície.

Não era abismo o que eu oferecia.
Era presença inteira.

Mas nem todo amor
sabe habitar o fundo.

O fanal que acendi
nunca foi um chamado
para que alguém viesse.

Não era promessa de porto,
nem convite à travessia.

Era um sinal silencioso
para que eu não me perdesse de mim
enquanto o mar se erguia.

Houve amor, sim.
Houve travessia.
Houve mar alto
e noites longas.

Mas quando percebi
que a luz precisava ser diminuída
para que o outro não se ferisse,
entendi:
já não era encontro —
era naufrágio.

Então, permaneci.

E permanecer não foi ficar.

Foi sustentar a luz acesa
sem correr atrás de barcos.

Foi aceitar
que nem todo afogamento pede resgate,
e que algumas lanternas existem apenas
para lembrar
que ainda há terra firme
em quem ilumina.

Ao permanecer, iluminei.

Não para salvar,
não para provar,
não para ser menos.

Iluminei
para seguir inteira.