SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

14 novembro, 2018

DIVERGENTE (Cacau Loureiro)

















No profundo silêncio dos quadrantes da sala...
o meu silêncio é o maior.
No meu ultra-interior muitas vozes se confundem
promovendo ecos de indignação.
Tento articular as palavras ante a contumácia
das tuas palavras desconexas, ante o seu discurso
divergente.
Perante o amor complacente, há também os sentimentos
estagnados, areias que se movem em dunas mas que
os ventos dispersam e enchem meus olhos de lágrimas,
e enchem meus dias de angústia.
Quero seguir sem destino porque o ficar não me traz
movimento, não me promove a mudança, não me
promete transformação... deixar como estar também
é deixar partir.
Na dinâmica da vida sinto o mundo em suspenso,
tento acelerar os ponteiros do meu relógio antigo
que busca o passado e chora o presente.
Eu brigo pelo traço diferente, batalho pela diferença
que nos aproximou e que nos plasmou um mundo novo.
Eu te chamo para a luta em que me debato a sós e
desperto para a chama que precisa permanecer acesa
em nós, pois minha alma desperta precisa viver!...

04 novembro, 2018

A NOITE DOS BOÇAIS (Cacau Loureiro)






















Há um correr nas ruas... um correr silencioso dos
que creem muito e o correr dos que creem em nada.
Olha para o alto ante o tormento da desesperança,
os céus falam... gritam para a terra degradada
que é preciso lutar, resistir...
Que sejamos, pois, a resistência na desesperança!
Os seres estagnados ainda não foram degredados,
a ordem imperiosa do progresso humano é partir.
Boçais nos perpetram a infâmia, a fome nos circunda
com a vingança nas veias, a ira varre as casas
edificadas no suor dos trabalhadores da última hora,
famílias edificadas no amor vêem-se em dissensões,
laços que se propunham eternos se equilibram no fio
tênue do ódio e do desentendimento, a liberdade que
nos fora cantos de paz hoje é chamativo para a guerra.
A irmandade dos homens presa no coto umbilical
dos que nasceram das armas, dos que perpetram o
mal como a chama da purificação aguardam pelo
holocausto em efeito dominó.
A bíblia queimada no egoísmo torpe dos detentores
da pseudo verdade sobrevive como palavra não como
ação, impulsão da passagem do Cristo pela terra como
a grande revolução.
Profetas de aduladores tecem os discursos sintetizados
nas redes onde os pescadores sangram suas mãos...
os arames farpados das guerrilhas disfarçadas de lei e
de ordem nas periferias edificadas pelo terror do
poder nos envolvem o pescoço como intimação.
Em derredor os grilhões dos falsos moralistas instilam
a separação.
O poder que nos cerca é podre, o poder que nos cerca é
cínico, o poder que nos cerca e sequestrador de almas,
é imoral, desnatural, tão boçal quanto aqueles que o instituiu.
A vitória embalada com tiros na noite escura prenunciaram
a morte do amor, a morte da liberdade, a morte do homem
pelo homem... porque o Brasil partido virou o país fascista.