SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

05 março, 2017

DESIDÉRIO (Cacau Loureiro)














Na penumbra dos conceitos desconcertados deste
novo mundo louco, eu me escondo sob a sombra
da poesia enroscada e emaranhada nos passos do
desiderato violento humano.
Temo pelo destino que nos espera quando nossa
esfera tão minuciosamente criada através dos
milênios reage compulsivamente ao nosso cruel
descaso e desengano.
Ante o inferno de Dante que nos espera...
O sulco da terra chora o nosso ostracismo,
lamenta a nossa paralisia, condena a nossa
covardia, omissão dos éticos valores.
Choraremos por muitas eras nas heras sobrepostas 
em nossos túmulos irrelevantes... 
Pois que nós humanos estamos longe de sermos
o mimo da criação. Porque presunçosos pensamos
que somos os eleitos quando abandonamos nos leitos
e ao relento as verves dos nossos gérmens, pais e mães...
Não somos dignos deste mundo, nós é que somos
vãos ante as dores de nossos irmãos, ante a crença
fanática àqueles que abraçam os podres poderes.
Matamo-nos em sede e molhamos nossos dedos
em águas que não deveriam nos deixar cair em
tentação, mas não nos livram do mal que causamos.
Nestes andares do tempo erectus que traçamos,
na evolução humana que nos mostra levantando
vejo as mentes habilis decaindo. Meu Deus! ...
Constato o homem monstro inescrupuloso que
nos tornamos...
A arte bela que hoje ainda envolve nossas bestiais feras
seria o prenúncio da salvação desta escatológica era! ...

15 janeiro, 2017

CAMINHO (Cacau Loureiro)
















Como posso manter em minhas mãos as lembranças?!...
Não há como mantê-las sob controle porque o coração
vai ao ritmo das marés... A nau do tempo segue adiante
pois que os portos da vida mudam de lugar.
Os lenços das alegrias e das tristezas acenaram em
muitos litorais, singraram desconhecidas terras,
abriram fendas nas almas navegantes.
Mil verões transpassaram meu peito no calor
insuportável das distâncias...
Mil trilhas marcaram os meus
pés na lacuna inconcebível dos corações amantes.
Por que as histórias dos homens são cultivadas sob lágrimas? ...
Por que o enredo dos amores são germinados por saudades? ...
Como posso manter em meu âmago as lembranças?!
Não há como mantê-las sob controle porque o espírito
vai ao ritmo do austral. A rosa dos ventos roda sem rumo
ante os sonhos impossíveis dos homens.
Os cânticos das tristezas e alegrias foram ouvidos para
além-mar, mudaram rotas, criaram raízes, fecundaram florestas...
Moveram montanhas... trouxeram-me caminhos...
Você!