23 fevereiro, 2026

TÚNEIS E ASAS (Cacau Loureiro)


O que permanece do homem...

Dentro dos túneis passamos velozes,

não haverá tempo... Após a travessia, a

luz me espanta os olhos; ainda há estradas

à frente. Os desertos são cansativos,

mas necessários.

 

O tempo escoa entre os dedos: não lava

as mãos, não arranca lembranças...

enche os olhos de areia

e faz dos calcanhares tacanhas pegadas.

 

A passos lentos jamais se alonga o tempo.

É preciso o movimento do espírito,

é necessária a ação dos pés;

forçoso é molhar os lábios

com o doce da esperança

nos manás do desabitado.

 

O ego trava as tristes trajetórias: toda

desistência é covarde, todo orgulho

é veste barata nos brechós das esquinas,

onde as almas se despem — despedem-se.

 

Despojo-me dos mantos que me encobrem

a face. Não há máscara que caiba em minhas

verdades. Tolos seguem trilhos

de conduções superficiais; bagagens

amarradas ao pescoço impedem

as aspirações de um futuro próspero.

 

A dor deveria libertar —

até porque eu criei asas...

Anelos, eu sei,

hão de me fazer voar...

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