06 abril, 2026

RITO DOS RUDES (Cacau Loureiro)

Os silêncios de hoje me constituem,

não como ausência,

mas como matéria viva

do que ainda preciso compreender.


Os enfrentamentos por justiça,

tantas vezes por mim travados,

esbarraram em escolhas

que nunca foram minhas.


E então percebo:

o mundo que o outro escolheu viver

já não me define;

fala mais sobre ele

do que sobre mim.


Olho as individualidades tristes,

vestidas de autonomia,

mas acorrentadas

a uma pequenez quase mórbida.


Dizem que o homem não vive só,

que é animal social,

mas nos reunimos, muitas das vezes,

na partilha da incivilidade.


Grita-se ódios não transmutados,

afetos não elaborados, frustrações,

sentimentos dilacerados...

índoles que perderam

o calor do que é humano.


Individuar-se virou afastar-se,

olhar para si tornou-se negar o outro,

e o “eu” cresce desmedido

onde o “nós” já não encontra repouso.


Vivemos às margens do querer isolado:

é meu, sou eu, assim eu sou...

sem acordos, sem pontes,

fossos estagnados

sem travessias possíveis.


E as arenas ainda seguem vivas,

reinventadas nos dias atuais,

com leões postados nas portas,

guardando julgamentos ruminantes.


A vida se abre como rito dos rudes,

mas a queda também nos acompanha

desde o primeiro sopro

e poucos se dão conta disso,

nós pobres mortais.


Vejo tantos desejando mudança,

erguendo discursos de transformação

como afiadas espadas,

mas, ao ocuparem o anfiteatro da vida,

hesitam diante da própria verdade.


E quando o outro luta, sangra,

quando ousa permanecer de pé,

quantos ainda abaixam o polegar,

ansiosos pelo golpe final.


Talvez a maior coragem

não seja vencer na arena,

mas recusar-se a ser

quem celebra a queda de

quem ainda não sucumbiu.

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