23 março, 2026

SANGUE E AZEITE (Cacau Loureiro)

Ouço música pela noite inteira...


Há sons que elevam a alma

e trazem de volta o que de nós ficou

pelos pretéritos caminhos —

pedaços que insistimos em

alimentar as feras.


Pulsos enxutos, olhos secos:

não há mais choro

pelas ruelas escuras

que os falidos engendraram.


A maior dádiva é saber

que não permaneceremos caídos.

Fios invisíveis nos suspendem

pelos ombros

e, na vertical, enxergamos

os becos torpes

por onde nos levaram.


Mas toda estrada tem seus atalhos.

Vista firme — para não ceder

à ilusão de ótica

que tenta nos perder da saída.


Nada é para sempre,

muito menos a dor das traições,

lâminas a cortar

as dobras dos joelhos.


Espíritos persistentes

carregam em si a certeza

das colheitas — ante os passantes

renitentes, arquitetos do caos.


Terra azul, céu laranja —

este é o sumo da vida:

copo cheio dos alísios da sorte,

farta bandeja… pão e vinho,

todo o azeite do futuro

a retemperar o entusiasmo

para o banquete

dos que ainda sabem viver

entre o uivo e o sangue,

na dança com lobos.

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