29 janeiro, 2026

SAIA DA CAVERNA (Cacau Loureiro)

 

Eu lanço meu olhar de compaixão,

mas diante do reboliço das almas

tementes,

não vejo impulso de transformação.

 

Sofrer e ficar agarrado ao chicote

não me soa como lógica;

gritar,

espernear

não é tentativa de libertação...

 

Entender que cada vez

que fugimos de enxergar a realidade

é o mesmo que, dia a dia,

fabricar os próprios grilhões...

 

Os fantasmas do passado

continuarão arrastando correntes

nas noites solitárias,

visitarão ainda

nossas cabeceiras confusas.

 

Serão as mesmas histórias

narradas por contadores

que continuam a ajustar

as algemas

em nossas mãos.

 

É preciso abrir os olhos.

 

Parar de dormitar

no vazio das cavernas

e só ver as sombras

de uma solidão que

nos queima como fogo:

 

escolher os outros

ao invés de mandar

em nosso próprio coração,

é apertar

nos olhos

as vendas da não

absolvição.

 

Na vida que ainda nos chama

para um estado de consciência

e de clareza,

há espaço para a escolha

de caminhos —

tantos.

 

Lamentar dentro do cercadinho,

na redoma do eu não posso,

é de fato

ter um espírito impúbere...

claramente amordaçado.

 

Engatinhar sobre o próprio choro

é se penitenciar

ante muretas,

quando se pode saltar

sobre obstáculos insignificantes

que nós mesmos colocamos

como montanhas intransponíveis.

 

Para viver,

é preciso se jogar

com coragem,

porque só achamos

as clareiras

em pleno voo.

 

pois o mundo inerte

ainda clama

pelos covardes. 

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