SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

27 março, 2026

BARRAGENS (Cacau Loureiro)

Eu saio às ruas, e parece que nada mudou...

O burburinho das calçadas agita meu peito,

por ora descansado dos desequilíbrios das

convivências... Andar sozinha me aproxima

de alguém que não conheço, mas que

sobremaneira me entende.


Sigo na paz, mas também na espera daquilo

que tenho cultivado no mais profundo do meu ser:

que as virações nos tragam as claridades que

vivificam espíritos já cansados de suas buscas

insanas, de seus vícios funestos.


Nestes tempos medievais, em que o ódio e as

dissensões se fazem trevas modernas, que sejam

apenas tempestades passageiras no espírito humano.


E que possamos alçar esse voo humanoide,

ainda presos às nossas engrenagens ocultas...

no sentido de sermos artífices da nossa própria

progressão — seja para gnósticos, seja para ateus.


Dogmatismo não salva ninguém. O que podemos

é nos despojar, neste mundo, das vaidades e do

orgulho, pois colocamos diante do outro aquilo

que nem mesmo conseguimos oferecer.


Somos presunçosos grãos de areia — e só nos

moveremos se for em conjunto, para merecermos

as emanações da Mãe Terra e os eflúvios dos Céus.


Quando fitarmos nossas mãos e virmos ali as

sementes esmagadas pelo nosso olhar obtuso

ante as dores alheias; quando abrirmos nossos

corações para soltar aquilo que, a cada dia,

nos mata um pouco mais...


as incompreensões.


E então, talvez — só então —

deixemos de sobreviver sobre nossas

próprias ruínas

e aprendamos, enfim,

a reciclar nossos próprios rejeitos.

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