Eu saio às ruas, e parece que nada mudou...
O burburinho das calçadas agita meu peito,
por ora descansado dos desequilíbrios das
convivências... Andar sozinha me aproxima
de alguém que não conheço, mas que
sobremaneira me entende.
Sigo na paz, mas também na espera daquilo
que tenho cultivado no mais profundo do meu ser:
que as virações nos tragam as claridades que
vivificam espíritos já cansados de suas buscas
insanas, de seus vícios funestos.
Nestes tempos medievais, em que o ódio e as
dissensões se fazem trevas modernas, que sejam
apenas tempestades passageiras no espírito humano.
E que possamos alçar esse voo humanoide,
ainda presos às nossas engrenagens ocultas...
no sentido de sermos artífices da nossa própria
progressão — seja para gnósticos, seja para ateus.
Dogmatismo não salva ninguém. O que podemos
é nos despojar, neste mundo, das vaidades e do
orgulho, pois colocamos diante do outro aquilo
que nem mesmo conseguimos oferecer.
Somos presunçosos grãos de areia — e só nos
moveremos se for em conjunto, para merecermos
as emanações da Mãe Terra e os eflúvios dos Céus.
Quando fitarmos nossas mãos e virmos ali as
sementes esmagadas pelo nosso olhar obtuso
ante as dores alheias; quando abrirmos nossos
corações para soltar aquilo que, a cada dia,
nos mata um pouco mais...
as incompreensões.
E então, talvez — só então —
deixemos de sobreviver sobre nossas
próprias ruínas
e aprendamos, enfim,
a reciclar nossos próprios rejeitos.

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