23 janeiro, 2026

RITUAL DAS ÁGUAS (Cacau Loureiro)


A chuva fina desce como gametas a

fecundar a terra árida dos homens...

Um céu plúmbeo a nos chamar para os

poderes misteriosos da natureza que

nos incita a buscar as luzes da alma.

Abundantes águas a nos lavar o corpo

e o espírito num ritual que nos faz abrir

os olhos para as incertezas humanas.

É belo abraçar a todos em cuidado,

tão belo ainda é olhar o ser que está

ao nosso lado, e perceber aquele

que nos segue em devotamento.

A dádiva das companhias limpas e leais

nos é presente do sagrado, somente a

clareza do alto sabe ao certo o que

nos elabora como diretriz.

Abrir os olhos é abrir também o coração,

porque dormitar ante todas as possibilidades

de crescimento é tornar infértil a oblação

pelo fogo, crescer em entendimento é

envergar-se feito caniço de bambu, não

é ser serviçal, é estar a serviço.

Eu olho, vejo a chuva limpar o solo dos

intranquilos, preparando-os para espraiar

sementes novatas na corredeira das águas

abundantes, em vida nova que nalgum dia

há de despertar em nós...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Este é um espaço de criação e partilha literária.
Comentários são acolhidos quando dialogam com o texto e com a experiência de leitura.

Todas as mensagens passam por mediação.
Conteúdos de natureza pessoal ou relativos à vida privada não são publicados aqui — para preservar a delicadeza entre obra e intimidade.

Gratidão pela leitura sensível.