02 fevereiro, 2010

"CAIO FERNANDO ABREU"

"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você. Ah, se ousássemos."

3 comentários:

  1. Claudia
    folhas amarelas
    Outono bonito

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  2. Rasgou vontade!
    Bela ousadia...
    Parabéns.

    Obrigado pela visita ao blogue.
    Boa semana.

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  3. Aí meu coração covarde apanha apanha e nunca reage

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