SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

03 novembro, 2023

DIA BRANCO (Cacau Loureiro)

 


E o sol se levantou com a saudade, elevou-se

bem alto e permaneceu morando aqui em

meu peito...

Neste dia branco, seus raios coloridos

atravessam-me o corpo, transpassaram-me

a alma causando esse assomo que me

empurra às lembranças de nós.

Como retratos do passado eu tranco as

minhas dores em minha caixa de pandora,

liberto o que não serve mais ao futuro, 

crio figuras com as imagens da aurora de

hoje e estruturo as cenas do amanhã.

A esperança não mofou em meus porões

do medo e das decepções, pois, a claridade

que ergue os fortes nunca me abandonou,

e ela plasmou sonhos, teceu seara fecunda.

E o teu clarão brotou em meu caminho como

raízes que me fortificam para as grandes 

transformações, por mais que as sombras 

caminhem lado a lado, eu sei que a sua face

resplandece neste céu para o qual o meu eixo

se eleva.  E eu suspendo meu coração, meus

olhos, minha respiração para este dia claro

que compõe os caminhos dos amores frescos,

leves, novatos... surgidos claros, cristalinos como

feixes de luzes em mim!...


02 novembro, 2023

TERRAL (Cacau Loureiro)

 

Eu tento adocicar os meus dias em
tua doçura... em teu amplo amplexo
eu descanso minhas inquietudes...
Quero ser para ti o que jamais pude
ser... ou reconheci. Porque nada maior
e melhor do que estar assim nas vias
dos maiores enlevos... afã que constrói
os grandes amores.
Nas trilhas dessa nova jornada
tornar nossos dias amenos, dizer
das coisas do coração sem medos
ou rodeios, pois ser verdadeiro é
para o que são leais a si mesmos.
A música que agora me embala é
doce, terna, é revigorante...
Não sinto dores, há um apanágio
de aromas e sabores que me sana
incômodos, também o pretérito tempo
que agora se esvai.
Há a frente uma nova etapa, um novo
ciclo de flores e cores fascinantes que
o destino nos propiciou... em tua voz, em
teus olhos, em teus cheiros e paladares
eu provo o café das manhãs promissoras,
a hortelã dos hálitos divinos, o vento terral 
que toca a flor de laranjeira... colho a maçã
saborosa da alma... em teu encantamento,
eu, encantada estou!...

01 novembro, 2023

NÔMADE (Cacau Loureiro)


Há pressa nos dias que se apresentam, no entanto, o
que desejo se demora, parece-me que nunca chega...
Mas, eu tomo em tuas mãos a poção da paciência, das
coisas tranquilas que apascentam o coração e renovam
minha substância para o continuar.
Estou para ti como as leis naturais que movem a natureza,
contudo, humana sou e ainda mora em mim o espírito 
combativo que me fez chegar até aqui porque lutar foi
preciso, e agora eu quero a paz... 
Nas nascentes de um novo tempo eu mato a sede que
me fez caminhar pelos desertos humanos; não que as
caravanas solitárias ainda não cortem as areias rumo
aos ventos que transformam as dunas em obstáculos.
Eu sigo, entretanto, e eu olho adiante, muito além das 
miragens que tentaram me demover dos valores que
me eram intrínsecos... há o lenitivo no cenário que avisto,
esperança que move forças, ventos, vontades e fazem
as tempestades limparem e curarem as feridas acesas.
Não há temores, posto que as dores já me foram tão
íntimas e companheiras, também isto me tornou autêntica,
verdadeira seja nos ciclos das andanças da alma seja nos
labirintos dos voos da mente.
Sou nômade de dias escaldantes e das noites impiedosas.
E assim caminho como um ponto minúsculo na vastidão desse
contraditório mundo!... mas, nada me deixa mais forte do que
quando eu pego em tuas mãos!...

31 outubro, 2023

MENINA DO VENTO (Cacau Loureiro)


Eu toquei em nuvens para transformar as

intempéries... fiz brilhar um sol abrasador.

Mudei a direção do sudoeste para te trazer

para perto, rodopiei no redemoinho do

tempo, fiz-me menina do vento, e assim

aos teus alísios vou...

Arrastei papeis antigos e com eles poemas

passados, pois, agora só a tua poesia em

mim habita, se compõe e permanece.

Vem comigo varrer estes caminhos antigos,

ultrapassados em letras novas, em rimas

que dizem da tua raridade em ritmos que

me fazem dançar em tuas músicas originais.

Há uma trilha sonora a me guiar por ruas e

vielas da cidade, levantando a poeira e

fazendo-me dar a volta por cima.

Eu vi daqui admirada, tu levantares o voo,

abrir as asas e me convidar às tuas trilhas

de claridade e sapiência porque só quem

aprendeu o amor às avessas é sabedor da

vida e construtor de sonhos.

Eu dormi sossegada em tua companhia porque

tuas cobertas quentes e abundantes me acolheram,

ninaram-me em teu braço forte e coração lauto.

Em minhas letras, em minhas laudas há uma

nova canção, legítima, inspirada no curso para o

qual me levas... e eu menina do vento vou...

Ao mar... amor!...

30 outubro, 2023

MARÉS (Cacau Loureiro)


O grande mar bateu em minha alma...
Trouxe para perto os bons refluxos do tempo 
porque o momento presente se fez mais profícuo.
Finco os meus pés na areia para que as vagas da
vida não me desalentem o coração, pois, a viagem
dos arrimos me é tão preciosa, inaudita.
Eu sinto os ventos frescos deste verão que me
chegou precocemente e em mim permaneceu...
Há um horizonte imenso pela frente para
que as raras auroras renasçam, perdurem
como águas abundantes de um futuro bom.
Há um sol perene nestes caminhos que traço
onde mergulho extasiada em teu  profundo ser,
e aí eu sou, e assim estou.
Quero as tuas mãos como ponte para o que
de melhor advirá e não mais olhar para trás, não 
mais reter lamentos.
Eu hauro a aragem fresca que conheci em tua
boca, eu sinto todos os sabores que provei
em tua língua... assim eu beijo o teu corpo como
o sol toca as águas temperadas desta praia a
qual o meu espírito deslumbra neste hiato de
paz e sossego.
A claridade dos teus olhos me iluminou as frestas
obscuras, acendeu as luzes onde eu posso
descansar meus sonhos invulgares.
Este imenso arco luminoso invadiu todas as minhas
vias de afeto, apossou-se de sentimentos e sentidos
arrastou-me como as marés para a jornada do sempre.

28 outubro, 2023

LUZIDIO (Cacau Loureiro)

Eu corro pelas letras, por sobre as palavras...

Porque o tempo não para e eu tenho que te

encontrar...

Em minhas andanças, as montanhas do

egoísmo, as pedras do não entendimento.

Mas, nos céus há os desígnios inexplicáveis,

as sendas que podem nos levar além do

humano que somos porque a centelha

divina nós temos.

Eu carrego este fogo do etéreo como

estandarte dos valores que levamos porque

é preciso cultivar a preciosidade dos seres,

esculpir através do amor a pedra rara com

a qual fomos ungidos, abençoados.

Eu agradeço pela benção, portanto, por este dia

Iluminado com o qual fomos presenteados...

Há feixes de luzes sobre nossas cabeças, os

guardiães do tempo que o digam, sobre nós,

sobre todos aqueles bem amados, pois,

o poder amar é poderoso.

Nuvens movem-se na sutileza que brota

também do meu coração bem abalado... nas

minhas emoções benquistas, imoderadas.

As flores do amanhã foram espraiadas e suas

sementes germinam hoje em meio a raízes

fecundas, professam destinos bonitos, histórias

das existências bem narradas.

Eu voo sobre e com as letras, ainda, pelas palavras

que me brotam singelas e tão bonitas...

Pra te dizer que eu... que eu vejo flores em ti!

27 outubro, 2023

MORDIDA (Cacau Loureiro)

Existe uma vastidão em meu peito...

As águas do teu rio inundaram meus sentimentos.

E o céu desceu, e o chão subiu!

E eu não sei, mas entendo...

E eu não vejo, mas, eu sei que há.

E estas águas correm por entre meus dedos,

por entre meus seios, pelas margens da sede

que também invadiu minha boca e meus olhos.

Sigo o teu curso na direção dos amores desejados,

em preces, balbuciados nas longas noites de

espera... nos longos dias sombrios.

Eu despertei em plena primavera, aquela que

acordaste em minha alma esperançosa das

flores graciosas, dos gestos distintos.

Então, os meus olhos derramaram feixes de

luz em teu caminho, pois, é na luz que

reconhecemos as almas florescentes, os

corações prósperos... eu quero derramar

os meus olhos nos teus, abrir minha janela

para a tua... abrir as portas da dimensão etérea

que habita os seres na Terra!

A vida diz segue-me nos propondo o curso

dos rios agitados, mas, presenteia-nos com

os doces frutos das correntes dos afetos.

Eu provo o teu gosto em meus dedos, eu

entorno sabores em teu corpo... Eu degusto,

eu mordo em êxtase os frutos nascidos de nós.

Ah! As maçãs do amanhã, eu sei, serão saborosas!!...



26 outubro, 2023

OLHOS DIAMANTE (Cacau Loureiro)


Quem és tu mistério que acordou minhas

feras e que me despertou todos os bichos?!

Eu me joguei em teus abissais encantos,

assim descortinei precipícios...

Em teus olhos de preciosas joias mergulhei

em queda livre... virei mundo navegante.

Agora, eu senhor e escravo nestes mares

nunca antes navegados em busca do

farol luminoso nas águas das divindades.

Minha nau emproada ao sol, ao léu meus

pensamentos, minha cabeça no céu...

minhas emoções, oceano!...

Harpia e Quimera em enigma da Esfinge

nos grilhões contra correntes, nas galês

que remam rente ao cabo das tormentas.

Navio pirata cortando abundantes águas

traficando ouro e sedas... e a guia estrela,

Dalva luzidia, estrela da manhã inteira

agora serpenteia de luzes a minha rota,

caminhos das novas índias, nova era, terra

de promissões... cravos, rosas, perfumes,

especiarias, bocas, línguas, olhos... Raro

diamante!