SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

06 outubro, 2023

QUERERES (Cacau Loureiro)

A tarde traz-me os ventos das promessas...

A noite se aproxima ofertando as estrelas,

e minhas mãos se erguem para colher as

luzes do astral em suas francas benesses.

Não existe escuridão para aquele que

descobriu a cintilação que desperta a alma.

Nestas sendas novas que o universo nos

abre para o bem viver, a liberdade desenha

flores, ah! Assim como o menino do dedo

verde eu disparei o néctar dos afetos...

Senti a chuva rápida que prepara os

arco-íris lá onde meus dedos tentam tocar,

mas, não existe o impossível para quem

sonha com o coração puro.

Minha verve honesta abriu-se para os

cânticos que ecoam em toda a natureza

onde as divindades nos ensinam o

sentido da criação... viver em evolução.

Há alegria e encantamento nos dias

em que acordo com os toques e rituais

para os quais me chamas... em belos

cerimoniais que me refazem para os dias

que haverão de vir.

Que os aborós e as aiabás no ensinem

a recriar os grandes quereres!...

04 outubro, 2023

VIVER A EMOÇÃO (Cacau Loureiro)



Dizem que a paixão tem vários
tons... talvez, sons.
Será o toque, o tremer de nossas
mãos, o roçar dos lábios que se
calam em busca da sedação?

Eu quero viver a emoção!...
Da boca seca, da tensa respiração,
do coração sufocado em busca da
sedução.

Dizem que a paixão tem vários rumos,
talvez, curvas.
Será o sofrer, a ilusão, a recusa ou a
aceitação?

Eu quero viver esta emoção!...
Dos olhos cegos, do êxtase da carne,
da fúria do tesão, da demente obsessão.

Dizem que a paixão tem várias rotas,
talvez, metas.
Será correta, seguirá certa, será sublime
calvário ou doentia compulsão?

Eu quero viver a emoção!...
Da não razão, da palavra que não
espera e que exaspera e sempre
está sob tensão.

Dizem que a paixão não tem virtudes...
E que só é conquista quando se mata o vencedor,
só é vitória quando os louros são do amor...
Eu quero viver toda esta emoção... de corpo,
alma e coração!

03 outubro, 2023

ORÁCULO (Cacau Loureiro)


Agó ilé!...
E eu cumprimento o sol que bate em minha janela,
revigorante saber que hoje este céu claro reina 
dentro de mim, exê babá!
Há a música que me move coração e nervos para 
a dança que me convidas e ela é delicada e suave
assim como seus gestos, assim como suas palavras...
Portanto, não há o que recear ante as mãos que
te estendo porque elas estão limpas assim como
o meu coração.
Eu lavei os olhos por muitas noites só para te
enxergar adiante e mais além... para te encontrar
nas passadas lentas do destino.
Doravante minha alma canta um hino, um salmo
de conciliação e de concórdia em xirê para a
evocação do melhor que há de vir...
Aboru, Aboye, Abosisé!
Dispo-me da djelaba para te ofertar o sagrado
que há em mim... em respeito e devoção ao 
que a mim tu consagras.
O grande Pai tem seus segredos, detentor é
do alfa e do ômega.
Neste ritual e iniciações eu entrego os meus
desejos a Opelé-ifá, pois, Orumilá é senhor
de todos os caminhos... Ona iré ó!

02 outubro, 2023

PRIVILÉGIO (Cacau Loureiro)

O chão encharcado também reflete o céu nublado...
Ah! Estas pequenas germinações em meu jardim são
tão frágeis e, no entanto, juntas, parecem ter uma força
vital que enfrentam quaisquer intempéries ou desafios.
Há um aroma limpo no ar que respiro nesta manhã
de início de outubro, e assim aspiro profundamente
essa aragem fresca que me renova pele e músculos.
E sou tão pequena neste mundo tão micro de tão
macros transformações!...
E há nesta tênue luz deste amanhecer ainda um brilho
de encantamento pela vida, um alegre sentimento de
ver as águas abrirem os caminhos e singrarem
os obstáculos enlodados pelos velhos conceitos de
pessoas fincadas no barro dos sentimentos empobrecidos,
na frieza do preconceito do eu sou... e eu, somente quero,
e eu somente almejo, e eu somente anseio...
E nas folhas das árvores há um viço úmido e em seus
caules um ato, um rito de agradecimento ao Criador
por tudo que advém nas naturais estações da Terra.
Assim, nós humanos deveríamos ser, valorizarmos
aqueles que nos cultivam em amor, em afeto, em
desvelos, pois que aprender pela dor faz todo sentido,
mas, aprender pelo amor, ah! Aprender através do amor,
é privilégio!...

29 setembro, 2023

ZARANDA (Cacau Loureiro)

Entre a meio aberta janela eu puxo o vento

forte para mais perto.

Quero aspirar o vital fluido de minhas horas

antes mortas, silenciosas...

Ouço a bela música que entoa este meu

coração encantado porque a canção

composta pelas cordas da alma tem sons

indelevelmente inenarráveis!

Nesta roda de cores que fez nascer em

mim o teu arco-íris, eu ensaio tua ritmada

dança... assim, atrevo-me a conhecer a

esfinge que me enreda em teu enigma de

propostas e de sabores.

Pelas vias em que sigo veloz para o futuro,

eu procuro suas mãos, eu perscruto seus

olhos que palmo a palmo avaliam os riscos

deste bailado envolvente e bonançoso,

medem em palavras os desejos quem sabe

agora pressurosos... As minhas letras soltas,

presunçosas, um tanto ao quanto generosas,

colocam-te no centro desta minha ciranda

das rosas vermelhas e das amarelas flores...

onde os cravos brancos também cheiram...

Minha poesia feito girassol imponente,

convida-te a este vislumbre de luzes, ao

sol do ritmo lúdico das batidas viciosas

dos amores!...

28 setembro, 2023

ESPELHO D'ÁGUA (Cacau Loureiro)

E caiu dos céus as águas dos enlevos...

Espelho d’água que revigora a alma...

Da soleira da porta vislumbro o caleidoscópio

em que se transformou o meu universo interior.

As águas e os ventos da regeneração invadiram

todos os meus canais de afeto trazendo o

movimento de tudo o que é novo...

Há um arco-íris a enfeitar estas esquinas da

vida, e em cada curva dá-se para admirar a

estrada, caminhos a serem traçados com

venturas, e, sem cansaços eu sigo demarcando

com as flores da poesia a quem me encontra.

Velozes são os olhares que não me veem, mas,

é lenta a lente com que os vejo neste rodopio

do autoconhecimento, moção do tocar e perceber.

E quero nestas águas tecer a rota dos afetos

primevos, porém, profundos, pois que, somente

no reentrante se pode moldar desejos reais.

Assim, lanço as sementes neste solo preparado

na autenticidade com a naturalidade dos que

tem o peito aberto para viver sem medo.

Nesta alegria que irrompeu da chuva brotou

a esperança... para muito se viver porque há

muito a se apreciar da vida... a vida que se fez

vida em mim... encontro! 

27 setembro, 2023

VEM NO VENTO (Cacau Loureiro)


O calor desceu abafadiço, intrigantemente luminoso...
Mas, há um refrigério nestes dias que me renascem 
de um setembro exuberantemente novo, pacífico.
Meus girassóis em pleno jardim de amarelo ouro
coloriram singularmente esta minha primavera 
esmaecida pelo desencanto de dias solitários, ah!
Tanta gente acinzentada!
Precipita-se dentro de mim a chuva fina que faz germinar
as mais vívidas flores de pétalas que jamais previ.
Existirá céu para os encantados? Salvação para
os encantadores? 
A profusão em que me encontrei em tão poucos
dias calcou-me o espírito de esperança, criou ritmos
cadenciados em minha alma, profícua inquietação
em meu âmago letárgico.
Há uma música que me embala docemente nestas
horas esparsas, há um bailado de dias intermináveis
causando vertigem em minhas lembranças...
Eu fecho os olhos para ouvir esta canção que vem no
vento do futuro, assim, os meus sentidos acuro para
dedilhar as cordas de erudita viola... sonata fascinante
provendo a vida que em mim transborda ao som das
paixões imprevisíveis!

24 setembro, 2023

SOL DE PRIMAVERA (Cacau Loureiro)

Ah! As flores da nova estação acordaram-me

o coração... Despertaram-me para os ciclos que

nos brindam todos os dias com a renovação!

E é tão belo ver a transformação do espírito na

confiança de que o sol da primavera nos seus

ventos vespertinos espalham as sementes de

uma jornada multicolorida... a existência pois, 

como um buquê de chegadas e partidas.

E os dias passam tranquilos na luz fulgurante

desse sol de primavera que aqueceu o meu peito

pródigo, e fez ressurgir a minha alma alegre.

Meus olhos úmidos e o meu sorriso largo cantam

as canções das flores raras... e abraçam as belezas

de um mundo novo e seguem os rumos das borboletas

e acompanham os caminhos dos pássaros.

Eu lavo minhas mãos para tocar em meu rosto

estático ante a dimensão das cores que me

tocam o âmago... e a vida é tão boa no rumo das águas,

e a vida é tão rara mesmo nos caminhos das pedras.

No cume dos anos eu descubro a livre criança 

a correr na clareira da eternidade, a refazer-se

no bosque da existência como gérmen de maior

poder, embrião de todo amor.

E eu enfrento o sol brincando ao derredor das

minhas interrogações adultas... e eu encaro o

céu ante as minhas infantis certezas.

Nos néctares onde os jardins se refazem e

eternizam a seiva da vida, eu vi nascer um

cravo em meu peito e rosas em minhas mãos!...