SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

20 maio, 2018

AZORRAGUE (Cacau Loureiro)

















Calarei minhas inquirições, pois ante a
sua inquisição queimarei as cinzas que
nos restam...
Banho as feridas no sal do passado, a dor
faz tremer minhas entranhas porque
a cura depende de simbioses, da
transmudação da água em vinho.
Correm-me suor pelas mãos e meus
olhos não querem mais acreditar no
que vem de ti.
Gélida e oca eu sinto a minha alma,
deverá haver um bálsamo, um apanágio
para a distorção dos seres, para as confusões
do espírito e para o paradoxo dos torpes.
Eu quero como um nômade sedento ter visões
de oásis, de ilhas redentoras, sentir na pele
os ventos refrescantes.
Quadros que pintei... arco-íris, libações poéticas,
 a natureza morta da indiferença que me
mancha os sonhos e me escarnece o corpo
doem-me como os sacrifícios que elevei a ti.
Arranquei as vestes, entrego o sagrado que
cultivei na têmpera da coragem em nudez
aos açoites de seus conceitos arraigados
em bases idiossincráticas vazias.


05 março, 2017

DESIDÉRIO (Cacau Loureiro)














Na penumbra dos conceitos desconcertados deste
novo mundo louco, eu me escondo sob a sombra
da poesia enroscada e emaranhada nos passos do
desiderato violento humano.
Temo pelo destino que nos espera quando nossa
esfera tão minuciosamente criada através dos
milênios reage compulsivamente ao nosso cruel
descaso e desengano.
Ante o inferno de Dante que nos espera...
O sulco da terra chora o nosso ostracismo,
lamenta a nossa paralisia, condena a nossa
covardia, omissão dos éticos valores.
Choraremos por muitas eras nas heras sobrepostas 
em nossos túmulos irrelevantes... 
Pois que nós humanos estamos longe de sermos
o mimo da criação. Porque presunçosos pensamos
que somos os eleitos quando abandonamos nos leitos
e ao relento as verves dos nossos gérmens, pais e mães...
Não somos dignos deste mundo, nós é que somos
vãos ante as dores de nossos irmãos, ante a crença
fanática àqueles que abraçam os podres poderes.
Matamo-nos em sede e molhamos nossos dedos
em águas que não deveriam nos deixar cair em
tentação, mas não nos livram do mal que causamos.
Nestes andares do tempo erectus que traçamos,
na evolução humana que nos mostra levantando
vejo as mentes habilis decaindo. Meu Deus! ...
Constato o homem monstro inescrupuloso que
nos tornamos...
A arte bela que hoje ainda envolve nossas bestiais feras
seria o prenúncio da salvação desta escatológica era! ...

15 janeiro, 2017

CAMINHO (Cacau Loureiro)
















Como posso manter em minhas mãos as lembranças?!...
Não há como mantê-las sob controle porque o coração
vai ao ritmo das marés... A nau do tempo segue adiante
pois que os portos da vida mudam de lugar.
Os lenços das alegrias e das tristezas acenaram em
muitos litorais, singraram desconhecidas terras,
abriram fendas nas almas navegantes.
Mil verões transpassaram meu peito no calor
insuportável das distâncias...
Mil trilhas marcaram os meus
pés na lacuna inconcebível dos corações amantes.
Por que as histórias dos homens são cultivadas sob lágrimas? ...
Por que o enredo dos amores são germinados por saudades? ...
Como posso manter em meu âmago as lembranças?!
Não há como mantê-las sob controle porque o espírito
vai ao ritmo do austral. A rosa dos ventos roda sem rumo
ante os sonhos impossíveis dos homens.
Os cânticos das tristezas e alegrias foram ouvidos para
além-mar, mudaram rotas, criaram raízes, fecundaram florestas...
Moveram montanhas... trouxeram-me caminhos...
Você!


25 novembro, 2016

FLOR DO SOL (Cacau Loureiro)


Se só me enxergas através dos outros nunca
seremos nós...
O teu universo fascinante abarcou muitas
dimensões, e já não temos mais como nos
olharmos em face do microcosmo que sustenta
tantas esferas.
Lembranças... as músicas, as frases, os poemas,
nos exercícios diários de manter o sentimento...
São reminiscências...
Ainda cultivo o achado da paixão, ainda vivo
a descoberta do amor... Pois que suas nascentes
realmente vivem em mim! ...
Constato que podemos desejar tudo de melhor
aos outros, mas, se não o desejamos a nós mesmos
a vida torna-se vazia... tornamo-nos evasivos.
E desatentos à vida morremos vagarosamente,
e destemidos ante a morte, de fato não vivemos.
Se não tememos as perdas nos transformamos
em robôs resignados aos comandos do mundo.
Eu preciso da envergadura dos girassóis em que
o único lugar a que se dirigem forçosamente
é para o sol! ... 

30 junho, 2016

BASTA!? (Cacau Loureiro)


 
Nem sempre o que aspiramos na vida

quando aparece a nossa frente, e não é

a melhor hora para decidir, nós nos

defrontamos... Por que nós não topamos

a parada?!

Pois que decidir o tanto, o quanto, o tudo que

queremos (na hora que diria, seria a errada)

é "feito" para as têmperas corajosas.

Nossos conceitos tão arraigados, esfacelam-se

ante as incertezas, e nós melindrados pelas

dúvidas recuamos, queremos a dilação do

tempo que não espera; e o bonito, a poesia que

deveria ser consonância para a transformação

do nós, vira dissonância, pois que se perdeu

a época e a hora.

Não creio no Homem ante suas próprias mazelas! ...

Ele se acovarda para continuar no marasmo que

já conhece porque o desconhecido lhe apavora.

Sair-se de dentro de si, é um ato de abandono,

mas também de reencontro consigo mesmo, e

isto é para as intrépidas almas.

Temos que estar amarrados como quando

Primitivos como o cachorro à linguiça?!

Prisioneiros de nós mesmos não nos deixamos florir,

nem para a vida, nem para o outro e nem para si.

Nem mesmo para a palavra que liberta que

seja a do não ou do sim.

Não queira agradecer-se por não ter se

empenhado em nada, nem no fio do bigode

e nem no fio da navalha.

A vida ela não apenas deve ser bonita, mas deve

me convencer de que o mundo para uma jornada

só, não basta!? ...

23 junho, 2016

NANO (Cacau Loureiro)

















Transito entre homens e máquinas...
Confundo-me quem é quem!...
Paro para pensar o que fez com que
nós nos perdêssemos no caminho
da civilidade.
Na ditadura das cidades somos nós
nos transformando em cimento e pedra.
Paralelos de paralelepípedos, somos
bípedes arqueados no nano cérebro em
que nos transmudamos todos os dias.
Encapsulados em nossos egoísmos e vaidades
somos robôs que “não ficamos felizes em
servir”. Mas, servis prosseguimos nesta
sociedade de comandos silenciosos,
ardilosos, incivilizados, corruptos.
Poder e bondade nunca antes num país
como o nosso caminharam tão distantes.
E nos sentimos distintos, equidistantes do
céu. E nos potencializamos cultos por
manejarmos tecnologias tão diferenciadas.
A que jornada nos propomos?!
Que objetivos perseguimos?!
Apenas sobreviver não basta, embora as
balas nos rondem as cabeças e o peito
outrora tão aberto esfacelado está pelas
violências, injustiças, perseguições, e
soluçam por quem partiu tão cedo e
percebemos tão tarde.
Conheça-te, conheça-me, predisposição
que só o amor constrói!

23 março, 2016

EUCARÍSTICO (Cacau Loureiro)












Elevo meu cálice ao Teu Santo Nome...
Miragem no infinito que me inflama em fé.
Rememoro os tempos idos... e no entanto, tão
presentes em mim ainda hoje nesta humanidade
em desencanto.
Em teu semblante de paz, destituído de ódios,
o perdão é tua face mais bonita.
Em libações o teu poder me enche de esperança
e entusiasmo.
Abro-te meus braços, pois exercito receber-te
todos os dias e para sempre em sangue
santo, em suor bendito, transfigurados
em salvação em teus dolosos tormentos.
Mas a tua vitória estava de todos os tempos
escrita, patenteada pelo Altíssimo.
Somos diante de ti o grão de mostarda,
a árvore infértil buscando tocar em
teu manto de acolhimento e benignidade.
E quando nós tão bárbaros e pequeninos diante da
cruz, tu derramaste sobre nossas cabeças tanto amor.
Removam-se, pois as montanhas...
Removam-se, pois os pecados...
Removam-se, pois as potestades do mal
que habitam toda a face da terra...
Volta-nos Senhor teu semblante misericordioso
porque clamamos o teu perdão ante a desesperança
que habita nossos atuais dias.
Derrama sobre nós tua sabedoria imensa, tua
irmandade que nos fez teus filhos e também
teus irmãos.
Conta-nos suas parábolas para que possamos
renascer do ímpio trilhar de nossos pés, porquanto
não somos nada sem tuas inspirações benditas.
Elevo o meu cálice ao teu santo nome em memória
da tua eucaristia quando da divisão do pão e do vinho
jamais me abandonaste!...

02 outubro, 2015

VERGÔNTEA (Cacau Loureiro)













Imagens perpassam meus olhos...

O passado como filme habita minhas
lembranças e ágeis e velozes os momentos
transpassam meu espírito, indeléveis...
A paixão fez de nós o que bem quis! ...
Ainda a caneta compulsiva te escreve
em minhas retinas, grava-te em meu
coração na própria poesia que em mim
se fez.
As estrofes que em mim crias e recrias todos
os dias, não tem fim, pois que princípio
és em todas as alvoradas novedias.
Há sol em tua aura, em tua calma que
me acalma fazes luz...
Seguir o coração é ensejar felicidade,
há voos insólitos nos versos que te seguem,
há estrelas eternas nas rimas que me fazes.
Teus ritos e rituais curam-me, apanágio
das benesses ancestrais.
Há benção em tuas mãos, sortilégio em
teus dedos, toca-me, pois, com tua
unção de paz, apazígua meu ânimo.
Em teus lábios a doçura das palavras
lavradas em doces águas, abundantes
rios de amor que sufragaram meu coração.
Mata-me a sede, sacia-me a fome,
reviva-me como rebento novo a se
erigir ao céu! ...