SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

26 agosto, 2015

ANJOS MODERNOS (Cacau Loureiro)













Erigem- se dentro desta selva de pedras

as sementes da benignidade, tímidas

quase extintas.

Por estas trilhas do mundo muitos se

perdem pois não há como recolher maná

quando a ambição assola sonhos e projetos.

Objetos da violência dissimulada nos

entregamos sem resistência.

Ignoramos os caminheiros da esperança

que conosco seguem... Ouvidos apurados

apenas para as falácias inócuas, falsa oração

dos hereges.

Ocos senhores dos contemporâneos engenhos...

A casa grande desarrumada... Os podres poderes

a engendrar a falência do povo.

Judas amealha suas almas!...

Vislumbro calvários de todos os tempos, arca

de torturas, arcabouço dos desenganos, calabouço

dos covardes silêncios.

Anjos caídos somos a espera de um milagre.

Diante das omissões a consciência ainda nos

fala pelas vias do absurdo.

O tempo é escasso e veloz, até quando

esperaremos?

Até quando mastigaremos as pedras desta

selva de injustiças?! Levanta-te nação!

23 agosto, 2015

TOLOS BÁRBAROS (Cacau Loureiro)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Todo o possível será feito quando o refazer

também for quase impossível.

Por que insistimos em não ver?!...

Deixar em nós o que de fato nos

impulsiona para a vida ao invés de

escolhermos pela superficialidade,

pelo descomprometimento das

coisas passageiras.

O dedo na ferida não basta e o silêncio

bastará para fazermos a mudança?!

Aprendamos ouvir, mas também constatar

as falácias, discursos empobrecidos daqueles

que andam vazios, espectros das ostentações.

Quem nos olhará com o mesmo olhar que

pousamos?

Quem nos falará com o mesmo tom que

refratamos?

Sei pouco sobre a vida pois já dizia o poeta

que a caminhada se constrói com o caminho

que trilhamos. Quem terá o cajado da verdade

e a dignidade da justiça?!

Os que mais se sentem injustiçados são os

que tingem de sangue inocente suas espadas.

Haverá perdão para os genocídios requintados?

Pois quem acredita que vivenciamos a nova

era é um tolo.

Aqueles que permitimos ser são os que mais

nos mutilam.

Ouso caminhar contra as correntes...

A barbárie humana não me fará ser

omisso, tampouco, covarde!
 

06 agosto, 2015

PODRE DIAMANTE (Cacau Loureiro)


Oro aos céus pelo não desencanto...
Deve haver um tesouro no final do arco-íris...
Esperança que não se desfaz.
Transeuntes, passantes... De onde vieram
alguns de nós bípedes?!
Desconheço quem é meu irmão nesta longa
empreitada.
Vejo invernos no olhar de homens crus onde a
cruz do sacrifício nunca valera nada.
Despontam nuvens como silos de provisões
barganhadas, num ir e vir sem sentido, ao vento,
ao léu, pobres seres humanos!
Ah! Animais indomáveis! Onde é farta a coleta
do que pertence a outrem. Pois o cultivo do
mal não pertence a ninguém?
Há sons e burburinhos vindos de todos os lados,
discursos vazios, silêncios da não transformação
que nos primitiva o espírito.
Digerimos o que um dia já fora intragável, onde
o fumo e a lama são meros instrumentos, pois
a grande avalanche está dentro de nós.
Oro aos céus pelo não desencanto...
Constato os guindastes que revolvem a terra e
erigem edifícios construindo o solo que não
pertence a ninguém.
A coragem enterrada sob a chuva de balas não
alegra as crianças, não eleva os homens, legado
de sangue não nos faz florescer para a dignidade;
religiões que não entoam um hino, não recriam canções,
não nos promete a terra nova que estaria por vir e
que já pertenceu a humana raça.
Os fatos, as fotos, imagens e mãos não nos inspiram
mais a esperança.
A violência e a fome, um corpo no trilho como
bagagem abandonada, a pedra esfumaçada dos
zumbis das cidades que vislumbram monumentos
nem de bronze, nem de ouro e nem de prata e
na lata o podre diamante da modernidade onde a
morte salta aos olhos e a vida adormece...

 


13 fevereiro, 2014

CHAMADO (Cacau Loureiro)





















Estive me debruçando sobre o tempo...
Entre as idas e vindas da eternidade
ainda o chamado material nos convida
ao esquecimento!
Mas, estaremos de pé pela fé que nos
firma e nos finca também os pés no chão.
Há música e poesia nos ventos que nos
movem ao futuro, tão perto do ontem,
tão surpresa do hoje.
Retenho as emoções em minha caixa de
cena, teatro da vida onde tantas histórias
se repetem...
Não aprendemos a lidar com a dor, com a
perda, com o não poderio humano sobre as
coisas celestes.
Escassez e bonança habitam o meu peito,
arca dos tempos onde arranco melodias de
minha triste pandora.
Aparo as arestas da alma para caber todos
os meus pesares...
Há no coração um silencioso hino, oração
para suprimir do âmago a dor, abrir nos portais
do tempo mais um dia de cânticos ao Pai Criador.

08 fevereiro, 2014

MOINHOS DE VENTO (Cacau Loureiro)














Quem dera a vida a dois fosse o mais belo
poema... onde a pena deslizasse sutil sobre
a página em branco, dossel acetinado,
tecendo as cifras de melodias suaves...
Coloridos versos do amanhã!
Ah... Virginais encantos, sensuais enleios!
Um mundo singular onde repousar os
teus enlevos, os meus desejos...
Haverá um espaço só nosso neste desmedido
universo das estrelas, das palavras?
Crer no que vejo também é alucinação! ...
Não mais quero ouvir teorias banais sobre
o futuro e a sorte, quem de nós é o mais
profético, débil dos impulsos, louco dos
sentimentos?! Ah! Cata-ventos sem direção!
Ao lado teu quero beber das águas dos oásis
mais bonitos, ver miragens de dunas brilhantes,
vislumbrar caminhos para os céus! ...

06 fevereiro, 2014

EM HD (Cacau Loureiro)













Caminhado tenho pela descrença que penso
serem os homens ocos, ou loucos... como for.
Ordenam-me conceituação quando levam
vida superficial e pragmática nos escaninhos
que dissimulam uma vida perfeita. Mas, sou
contraste, imagem com definição! ...
Avaliam o que sou por associação ou
corporativismo, pois hoje em dia, ter
amigos é ter partido, é congregação onde
se reza na mesma cartilha, onde se come a
carne alheia, onde se quebra o outro ao meio.
Os irracionais que me perdoem, vejo-os
animalescos e eventuais.
Mas, ainda o meu salmo é forte e o meu
tom enérgico e o meu canto alegre; ser
franco, é ser honesto, é ser inteiro e não
prisioneiro dos meandros e dos rodeios...
porque assim eu creio, um dia eu terei paz! ...
Doravante eu sigo com minhas meias vermelhas
pela estrada de tijolos amarelos...


CÂNTICO NEGRO (José Régio)


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

30 janeiro, 2014

DESNATURAR (Cacau Loureiro)



















Somente nós nos pertencemos, posto que

ninguém nos pertence. A viagem do encanto

é imediatista, só o amor é duradouro, obra de

arte edificada a quatro mãos...

O império decaído do homem ruirá se não

olhar para dentro de si mesmo e admitir que

não tem sido generoso, e cairemos um a um.

A turba exalta a materialidade e a beleza

efêmeras conquanto vivamos no mundo

material faz-se mister reagir a opressão que

nos apressa e nos arrasta ao primitivismo.

Trago um compêndio de desnaturezas...

desejos, paixões, mágoas, expectativas.

A vida é a troca do essencial... e ela fala, e

reage e nos bate de volta.

Não te vejo mais em mim... há uma palavra

que diz das distâncias... de estrelas que se

apagaram, preciso refulgir do amor para o amor.

Danço em baladas passadas, mas quero voltar...

Pego em tuas mãos para que não partas, já que

partiste o meu coração, pois que a dinâmica

da vida tem que ser mão e contramão, nunca

desencontro.

Guardo-te em afeição para não matar o amor...

Ternura que se refugiou na escuridão do não sei,

talvez lá onde eu ouça meu próprio grito! ...