SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

16 outubro, 2013

AÇUCENA (Cacau Loureiro)


Doçura açucenal tem os teus lábios

capitosos...

Como não delibar supra bebida que

promana do teu peito ardoroso?!

És perfume preparado em primaveril

claridade, aconchego balsâmico para

todas as minhas dores,

Como posso abnegar tal sortilégio?

Destino caprichoso a encher-me a alma

farta com o doce dos teus olhos langorosos,

a mostrar-me estrada extensa nos teus braços

de premissas.

Quero repousar o meu olhar no teu... Poço

profundo de candidez inefável e infinita.

Quero me achar neste lirial de promessas

que tremula em minhas células rútilas e

que vibra em minha essência entusiasmada.

Flor rósea suavizante e perfumada que

germinou no meu jardim de deleites.

Hei de tocar-te o semblante como óleo essencial

que me desperta para a vida...

Esta bela face que se “acende em carminação

ardente dos frutos tropicais.”

Em mim és lírio gracioso... És açucena-branca...

Pois, que és todo o meu encantamento...

E nada mais!...

15 outubro, 2013

ALQUIMISTA (Cacau Loureiro)


















Não recrimines o meu jeito de ser, tu
não entenderias as razões...
Mas, não peço para ti entendimento,
compreensão, apenas desejo estes
pequenos momentos de ilusão...
... tua voz, a leve lembrança do teu
rosto. Queria eu poder sentir todo este 
gosto... tão mágico, misterioso, secreto.
Já te disse de toda esta comoção que 
me apossa o espírito, o coração.
Aguardo a hora certa da descoberta,
mas, o momento agora é do experimento.
Contudo, não me julgues a emoção, não
dilaceres os alicerces de minha invenção.
Formulo, busco, provo, crio...
Nesta alquimia que transcende o meu corpo,
também, o meu espírito, transformo-me em fogo,
em sangue, em aço, e em lágrimas desfaço-me.
Não quero compaixão, meus sentimentos são o
resultado da formula de amores, ódios, paixões.
Eu insisto, eu quero meu experimento, intenso,
denso, vivo, eu quero alcançar o meu objetivo:
mistificar-te em minhas andanças, caminhos.
Quiçá, encontrarei o quinto elemento que te
transformaria em água, terra, fogo e ouro,
na alquimia do meu abraço caloroso.

09 outubro, 2013

ONDA LIVRE (Cacau Loureiro)














Eu ouço música no ar...
Danço ao teu som melodioso e viajo
nas tuas ondas sonoras para te cifrar.
O teu receptivo sorriso, o teu afável
olhar... perderam-se em mim!...
Como agora ultrapassar a espera
sem me revelar em cada letra da
poesia viva que te principia em
meu âmago hoje carmim?!...
Viver no vão deste momento
extasiante e enlevado é descortinar
dia após dia o teu universo encantador.
Depois da dor a calmaria ao imergir
no teu mundo de águas tranqüilas...
Ao teu ritmo doce eu dispo-me das
tolas fatuidades.
Meu corpo, minha alma e o meu coração,
nas ondas livres da emoção, do desejo e
da paixão ao teu encontro vão!...

27 setembro, 2013

ESTRIBILHO (Cacau Loureiro)


           
















É o vento que ritma o meu relógio...
Não sei parar o pensamento, e pairo
nesta tarde fria que faz cair a noite
sobre mim...
Quero extrair poesia onde não há
estrofes e nem melodias; quero trazer
de volta a aurora que me tornou poetisa
e criou meus versos mais bonitos.
Quero prorromper em paz no fogo
que me consome, no burburinho
que não me desperta; quero ser o
sopro e a corda dos acordes que
habitam minha alma em diapasão.
Guerra e paz, sombra e luz,
frio e quente, amaro e mel,
águas mortas, águas vivas em
estribilho de mistificação.
Quero tocar em meu peito as canções
dos ventos que varreram os meus
caminhos como um el niño de solidão!...

26 setembro, 2013

APAGOGIA (Cacau Loureiro)

















Queria decifrar os silêncios...
Silêncios dos que querem ser indecifráveis.
Máscara dos que temem a perda ou que já
perderam e não querem aceitar desvios.
Caminho na penumbra dos que tecem artifícios,
que mudam rumos, acham bifurcações. Mas, eu
quero os caminhos retos, daqueles que chegam
onde tem de chegar...
Hoje, ninguém tem futuro, o edificado no pó
também ao pó pode voltar.
As interseções são mecanismos dos desgastes,
eu quero a marcha dos que pisam o chão com
atitude para ir, lutar e vencer.
Volto-me aos momentos... à poesia onde rascunhei
minha alma, despida, nua... contudo, não mais me
acho, não mais me vejo, não mais me escrevo.
Não quero emudecer as palavras que emergem,
gritam onde nada ecoa, choram onde nada
ressente, dizem onde nada se entende.
Volto-me aos movimentos... ao ritmo que nos
mostrou a dança das nuvens, todavia não mais
me deito nos sonhos de papel onde o meu barquinho
seguia as ondas do infinito.
Volto-me à música que nos guiava pelos horizontes
de Pasárgada e que invadiu por completo acalentando
nossos espíritos pioneiros.
Volto-me ao passado edificado em claridade reluzente
de amor, à poesia primeira, ao verso pintado a quatro
mãos e que nos coloriu por inteiro, feito abdução
extraterrestre, em amplitude de um disco voador!...


13 setembro, 2013

NÉCTAR (Cacau Loureiro)

Conhecer-te...
Em passado, em presente, em futuro.
Ter minhas mãos entrelaçadas nas tuas e
caminhar em retas e curvas, nessas ruas
profusas de nós... dos desejos nossos.
Relembrar-te no início, dos suspiros
primevos, entre abraços e beijos, pernas
fortes, ancas lisas, costas nuas, fortes laços.
E deitar em lençóis com o teu cheiro e tecer
os meus versos, nada em tons de cinza,
só filós e carmins... nossos corpos deixados
assim, amarrados em sussurros, em vermelho
dos lábios.
Retomar-te em dias a mil passados, tantas
horas, tontos jeitos, sem demoras ou marcos,
e remarcar o teu corpo, sem limites ou pedaços.
Descansar em teu peito, no teu doce jeito de
tocar os meus seios, os néctares da vida e da
alma em fruto aberto, bebida dos deuses em
pura arte de amar...
Revolver-te em paixão do ontem e do agora,
Do amor que doravante haverá de ser e já é
para sempre...

12 setembro, 2013

TRENS DE FERRO (Cacau Loureiro)














Nos trilhos em que corremos para o pão de
cada dia, eu tento extrair o sal da terra...
o ácido que nos alimenta a alma de fé por
melhores dias.
Pelos sonhos de meus antepassados que
me fizeram filha, mãe e me farão avó, eu
canto a liberdade e semeio a esperança.
Pois que se não fosse pelo caráter ferroso
dos que vêm ao mundo para a mudança já
teria desistido nestas estações abandonadas
onde as máquinas regem os Homens.
Não tive paradas... em minhas mochilas
carrego o peso de tantas lágrimas em
fornalhas de decepções; mas também de
tantos sorrisos, pontes de realizações.
Andei só em vagões lotados, andei repleta
em vagões vazios... Mas que voe a fumaça
porque pra matar minha sede... pouca gente,
pouca gente... Os Homens para onde seguem?!...
O momento é de andança e não de resignação!...
Sejamos como os astros que acompanham as
locomotivas, ascendamos todos os dias e alertas
permaneçamos todas as horas para aqueles que
nos seguem, mesmo que a orgia dos donos desta
terra nos escondam sob os escombros da mentira
ou na penumbra de suas mentes alienadas nos
paramente da destruição.
Que não desistamos porque os trilhos seguem,
e seguirão, e lá mais adiante tomarão nossos filhos
e netos pelas mãos; e para além eu farei, tu farás,
nós faremos desembarcarem nas estações onde
elas reconheçam a dignidade genuína, o lar que
pertence a todos nós.
Posto que a vida não é só café com pão; e para
tanto faremos muita força, muita força!...
E conosco levaremos muita gente, muita gente!...
E nos velhos trilhos do mundo as asas de nossa
indignação que seja também libertação... E vamos
depressa, e vamos correndo, e vamos na toda...
Como trens de ferro, trens de ferro!! 

21 agosto, 2013

VIRAÇÃO (Cacau Loureiro)


Jogo minhas rosas ao mar... não como um
rito, uma devoção, mas, com a convicção de
que o que lançamos como esperança pode
nos voltar como promessa.
E eu exorto a confiança para que ela seja
a âncora que me encoraja a seguir no mar
encapelado dos meus dias. Rogo também
pela calmaria, num silêncio que me chega a
ser imolação.
As vagas da incompreensão são como harpias,
rondam bombordo e estibordo de um navio
em profusão; sustam-me o ar, tiram-me os
pés do chão... tornam-me marinheiro ébrio na
proa de um navio e faz-me divagar em canções
de sirenas maviosas onde lágrimas e águas
misturam-se num roldão... chuva, vento, furacão!
Retomo a coragem de insigne descobridor
e fiel desbravador de tantas águas vastas para
seguir adiante com a bússola da inquietação a
me abrir os mares do espírito e a me extrair os
males do corpo que implora por ressurreição.
Eu almejo sonhadoramente descansar na areia
quente deste vasto continente que se chama amor!...