SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

31 janeiro, 2013

MUNDO ANTIGO (Cacau Loureiro)

















Deixemos a poeira das cisões baixar,
o que não tem antídoto também não
tem remédio, remediado estará.
No rumo das palavras que perderam
o sentido dorme o verbo sem raiz, o
discurso radical não diz sim, não diz não.
Vorazes, contendamos com espíritos
semimortos; sangrentas espadas na
dimensão dos tempos atuais, num
cansaço que vai tomando a alma aos goles.
Na estação das armas perdemos a inocência...
e a paz que não vem!...
Há um futuro estacionado no presente,
ares que não purificam, paredes levantadas,
muros que dividem iguais, as grades que não
corrigem ninguém!
Não há verdade nos sons que adormecem
na garganta, posto que toda a verdade
malograda tem dois gumes, ou ela mata ou
ela fere.
Nos dias de hoje onde falta coragem, a
indignação também é um ato de amor!... 

29 janeiro, 2013

VOANTE (Cacau Loureiro)















Os caminhos que escolhi não

são os mais dolorosos, contudo,

também não os mais fáceis.

Rego minha sensibilidade em

profusas lágrimas porque a

felicidade precisa ser plena, real.
Permaneçamos no caminho, pois

o rumo dos que se reconhecem

não fica falto de sol.

Há que existir melodia no que

passamos ao que conosco

caminha... sentir a proteção

dos que carregam a clava forte

da verdade e da coragem porque

amar é mais que encontro, também

é despedida.
Enigmas são para os profetas,

santidade é para os utópicos,

amor para os humanos, assim disse

O Grande Mestre.

Eu quero a humanidade que liberta

onde aquele que amo me dê asas,

mas que também saiba voar...

22 janeiro, 2013

ESTIO (Cacau Loureiro)

Não para o mundo,
a chuva não para...
Tenho esperado o estio,
pelo verde das colheitas.
O meu caminho segue como
as estações dos homens,
inundadas pelas estações
do tempo.
Lágrimas a cultivar novas manhãs,
sonhos a contar estrelas!...
A flor na lapela finca em meu
peito o espinho... a rosa que
te dou... a mais bela.
Amar, amor...
As águas que não cessam,
a sede que não passa.
Passante sou, quisera eu
não mais ser...
Ser inteira e livre, ser cônscia
e leve como pluma no universo
que conspira na revoada da vida.
Um momento apenas no relógio do
tempo que não para... ser feliz!... 

16 janeiro, 2013

À MERCÊ (Cacau Loureiro)

 














Caminho de escarpas...

Por acreditar nos homens grassaram

em pedras as ervas daninhas.

Não posso crer que aqui terminam

os caminhos da luz!

Pela paz que busquei através dos atos

de minhas mãos, pela guerra que fiz ao

me direcionar para bem, não podem cessar

por aqui os caminhos...

O que fiz além de acreditar?!

Pergunto-me o que fazer diante das

montanhas que não movo, da chuva que

não vem molhar os meus desertos, do sol

que não vem iluminar minhas sombras?...

Onde estão os profetas deste mundo

caduco, as almas destes homens loucos?!

A insurreição dos meninos simples

quando advirá?!

Estou à mercê do Mestre da humildade porque

sei que “Ele” não veio para chamar os justos...

26 dezembro, 2012

DEZEMBROS (Cacau Loureiro)


 











Sinto o meu espírito alquebrado...
Queria fazer fluir a minha vida assim
como o sol se espalha sobre toda cidade.
Há dezembros intermináveis dentro de mim...
A força sobre humana que me movia adormecida
está nos atalhos tênues dos humanos afetos...
Revolvo pedaços de coragem como se incitasse
animal dos mais ferozes.
A rima cala-se e não há pranto, recolhe-se o verso
e não existe esperança.
A folha branca está morta, imóvel com a inanição
dos ventos que movem meus caminhos.
Os anos passam atropelados como quando aprendi
a contar em velha infância; há desordem na
memória que não revive os momentos há muito
desfalecidos de senso.
Busco razões que me façam transbordar as letras...
Em um coração que pulsa estrofes mortas!...


18 dezembro, 2012

PULSÃO (Cacau Loureiro)












Verão que em mim não cessa,
intermináveis noites!...
Vãos do tempo a impor o
descompasso do mundo.
Quando se dará o encontro
permanente?!
Explosão de estrelas, miríade
a avançar sob a pele extraindo
gostos, cheiros, profanando as
horas...
Ainda o grito permanece preso,
o nós a mais represa vontades,
apreende a poesia; o desejo só
pode ser inteiro, completo e cabal
ao compasso de quatro mãos, e
não mais.
A música de nossas vozes ainda se
expande no universo como promessa
a ser cumprida.
Longos os dias em que deixo de te
viver!...
Hoje não mais vivo... esperas...
Hoje não mais sonho... lembranças...
Hoje não mais falo... silêncios...
Hoje não mais concebo... entregas...  


04 dezembro, 2012

SAZÃO (Cacau Loureiro)




Há canções de liberdade nos ventos que
me abraçam...
Até quando esperarei pelo pleno verão?!
As rimas do novo tempo já se prenunciam,
mas, ainda não chegou a chuva que
purifica o que é mais do que sagrado.
Dores, lágrimas e júbilo nesta tempestade
oculta em meu peito prestes a irromper.
Até quando esperarei pelo pleno verão?!
Promessas represadas nas mãos de ardilosos...
incautos crucificados sem perdão.
Não sei esperar pelo tempo que não vem
porque chronos e kairós não se compreendem,
não se acertam em meu relógio que não para!...
A poesia adormece silenciosa em ritmo
monossílábico de lamentos, sacrifícios vãos...
Estradas me apontam belíssimos caminhos
mas, os trilhos dos sonhos empilhados compõem
agudo acorde para os meus ouvidos.
Não aprendi a esperar pelo tempo que não vem,
pois preciso alimentar a minha alma e
necessito ser a música duradoura...
Até quando esperarei pelo pleno verão?!...

29 outubro, 2012

ADVENTÍCIO (Cacau Loureiro)


Sinto-me um estrangeiro...

Na própria terra em que solidifiquei minhas
raízes, sinto-me um renegado.
Olho nas faces dos meus irmãos e não
os reconheço, olho nos olhos dos que
são sangue do meu sangue e não os
reconduzo a mim.
Profetas proliferam-se na terra que hoje
é de ninguém, e quem irá profetizar a paz,
professar a concórdia?!
Desertos homens desertores de si mesmos...
Alimento-me da renúncia, porque ser consciente
é abdicar do próprio solo que me consagrou.
Não venho de lugar algum, não sei para onde
irei... pois que ser humano é acreditar, é ter fé de
que a centelha divina habita em nós, e já
não importa para onde vou, dado que não será
pior do que de onde advim.
Portanto, eu sigo o curso dos ventos, o curso
dos rios, sem batismo ou salvação.
Minhas palavras são as parábolas do tempo,
o verbo que um dia há de ser sacrossanto porque
não levantou bandeiras de remissões.
Guardo o grito de um espírito livre, um forasteiro
das eras que sabe que o seu resgate está em
suas próprias mãos.