SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

29 outubro, 2012

ADVENTÍCIO (Cacau Loureiro)


Sinto-me um estrangeiro...

Na própria terra em que solidifiquei minhas
raízes, sinto-me um renegado.
Olho nas faces dos meus irmãos e não
os reconheço, olho nos olhos dos que
são sangue do meu sangue e não os
reconduzo a mim.
Profetas proliferam-se na terra que hoje
é de ninguém, e quem irá profetizar a paz,
professar a concórdia?!
Desertos homens desertores de si mesmos...
Alimento-me da renúncia, porque ser consciente
é abdicar do próprio solo que me consagrou.
Não venho de lugar algum, não sei para onde
irei... pois que ser humano é acreditar, é ter fé de
que a centelha divina habita em nós, e já
não importa para onde vou, dado que não será
pior do que de onde advim.
Portanto, eu sigo o curso dos ventos, o curso
dos rios, sem batismo ou salvação.
Minhas palavras são as parábolas do tempo,
o verbo que um dia há de ser sacrossanto porque
não levantou bandeiras de remissões.
Guardo o grito de um espírito livre, um forasteiro
das eras que sabe que o seu resgate está em
suas próprias mãos.


21 agosto, 2012

HUMANA NATUREZA (Cacau Loureiro)


Grande Pai...

Tu sabes dos sentimentos que regem o meu

espírito. Apartai, pois, de mim qualquer mágoa,

ressentimento ou resquício do desejo de vingança.

Que aqueles que me acercam possam ver além dos

meus olhos que choram, algo de limpo em meu coração,

e também, a clareza de minha alma agora triste.

Que Tu possas amenizar o azedume e o amargor do

passado, porque hoje só quero seguir adiante.

Prosseguir através da tua mão.

E diante de ti ó Pai coloco o meu coração combalido,

cansado das contendas inglórias onde eu lutei pela paz,

e que o meu peito seja imune à discórdia, conquanto

não saibamos de perdão.

Amado Pai, esgotada estou pela solidão acompanhada

dos dias atuais, nós que olhamos e não enxergamos,

nós que sensibilizados pelos apelos do mundo, não

nos sensibilizamos. Que sejamos Pai, humanos com

humanidade, que sejamos próximos com proximidade

de corações.

Quando elevarmos a Ti nossas orações, saibamos

reconhecer o pouco que somos em nossa humana

natureza e o muito que temos que evoluir para o

engrandecimento da tua obra.

Que a cruz que Te elevou no calvário indelével,

aponte-nos verdadeiramente o céu dentro de nós.

Assim seja!...

14 agosto, 2012

EXTINGUÍVEL (Cacau Loureiro)


Ousei ser andarilho e caminhar mil anos,

pois sem conta combati em solidão...
As vias do coração são marginais,
somente os loucos as saberão.
Ousei ser poeta e narrar mil epopeias,
mas, jamais escrevi uma canção.
As rotas do mundo são desiguais,
somente os bardos as saberão.
Ousei ser profeta e secar mil prantos,
e mil vezes o meu choro cultivou o chão.
As jornadas de uma alma são míticas,
somente os filósofos as saberão.
Ousei ser peregrino e encontrar a paz,
desbravar montanhas em meio à multidão
e quebrar pedras com o coração...
E descobri perplexa que somente os
bravos perecerão...

19 julho, 2012

ILUMINADA (Cacau Loureiro)

Comungo da taça que me consagras…
e que Deus me poupe do cálice da indiferença.
Pobres filhos deste mundo órfão!
Que possamos descortinar a alma,
livrando-a dos véus da superficialidade.

Abramos nossos chacras
à energia essencial da vida, amor…

A luz que vem de ti reveste meu espírito,
prata clara que doura meus dias...
dias febris de nós.

Que os nós se desatem na aura perfumada
do teu colo,
na maciez de tuas mãos que ofertam,
no teu berço esplêndido de ternuras.

E que a prece que balbucio
entre os lábios secos
das noites mal dormidas,
quando teu amor me falta,
encontre anjos por sentinelas,
refaça-me inteira,
tanto quanto baste
ao teu apreço

pois é ao teu lado
que eu me sinto iluminada.

12 junho, 2012

SINTAGMA (Cacau Loureiro)


O amor é o ritmo dos sentidos, portanto, jamais
haveremos de esquecer o que somos...
Em ser...
No sentido do amor estejamos vivos, em instante
de paz contigo eu liberto, compreendo, vivifico.
Como dantes escrevo hoje, pois o amor que sempre
foi e tem sido... farol de minha alma porque tudo eu
tenho contigo! Posto que também há verdade na
coragem que rege o coração, mãos que juntas seguem,
pés que tecem caminhos.
Esculpo-te em poesia, canção que alimenta o mundo!
Delineio-te cinzelando mansamente a eternidade e
coloco-te no mundo sobre um pedestal de sabedoria,
já que saber é amar.
Sem ti não sei sobre vida, sobre vida sempre é amar
e sobretudo nos mover no amor; sobre o amor, doravante
ele permanecerá contigo, comigo, conosco, será nós...
Também que teremos que desatar.
Pois que a vida sem ti, não sei, não saberei o que
é amar!...

30 maio, 2012

GEOIDE (Cacau Loureiro)


Vislumbro os quadrantes do mundo e

sei que rondam as nossas tendas os
que buscam nos roubar a paz...
Não há silêncio algum em mim, embora
tantas vezes me cale.
Quando ouvirei as respostas da Terra,
quando acolherei os ecos dos homens?!
Meu universo diminuto e resoluto como
infinito quebra-cabeças não me deixa
fazer parte deste jogo; por isto eu choro
e também ouso.
Quanto mais eu penso, mais eu ponho-me
a pensar, assim também me desconheço.
Descobri de repente que a minha verdade
está em ser eu mesma, e, eu mesma sou...
Quando descobrirem o que vejo com os
meus olhos e o que sente o meu coração,
a dinâmica até hoje vivida será desconhecida.
A força dos meus braços é um milésimo da
força que promana do meu espírito, porque
palavras em fúria também as sou.
Tudo isto, isto tudo... é porque descobri
estupefata que a minha indignação é a
pulsão que me faz sobreviver...

22 maio, 2012

MILÊNIO (Cacau Loureiro)


Preciso entender a dureza dos que me acercam...

A insensatez dos egoístas, a cegueira ensaiada

no espelho das vaidades, vazios discursos.

Homens... humanoides na terra de ninguém?!

Quantos séculos precisaremos para aprendermos

a fazer os votos da sabedoria!...

Fé encubada nas torres dos templos profanados

pela soberba guiam os trilhos da modernidade.

Sigamos, pois, então velozes às estações de

lugar algum.

Haverão sinos para nos acordar?!

Tateio em derredor, entre os destroços os meus

dedos dedilham as notas pelas quais se vendem

os homens de Deus.

Vozes que nada me dizem ecoam em meus

ouvidos como zumbidos escarnecedores.

Desejoso meu espírito suplica pelos cânticos dos

dedicados guardiães das perdidas almas.

Eu quero entender...

O que me dói e me demora no peito não

sei dizer... pesa-me a vida em tantas vidas,

pesares. A vida presente eu sei, esta me dói...

26 abril, 2012

DO TANTO QUE TE AMO (Cacau Loureiro)


Do tanto que te amo eu tenho dormido em
estrelas, eu tenho sorvido o sol...
Na dinâmica do mundo veloz, só em ti há o
sossego, só a tua voz é vibração pulsante em mim.
Aprazível são teus braços a convidarem-me para os
deleites da alma, para os instintos do corpo, porque
em teu dorso nu eu inalo o cheiro dos afetos, aspiro
o aroma dos sonhos.
Todos os sons da tua lira movem meu universo,
posto que a tua paz são meus versos vigorosos,
rimas preciosas que dedilho em ti...
Em energia vital refaz-se o nosso encontro,
puro encanto de quem descobriu as minas das
raridades, olhos de diamante...
Valioso é o teu amor, minha visão primeira
nas belíssimas alvoradas; percepção única
dos meus sentidos ao fim do dia.
Não há fim para os tempos em que nos permitimos,
recomeços sem fim!...
Nada morre mais em mim quando contigo, pois que
revigorante é a tua afeição amante, amiga.
Do tanto que te amo... em ti eu sou!...