SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

30 maio, 2012

GEOIDE (Cacau Loureiro)


Vislumbro os quadrantes do mundo e

sei que rondam as nossas tendas os
que buscam nos roubar a paz...
Não há silêncio algum em mim, embora
tantas vezes me cale.
Quando ouvirei as respostas da Terra,
quando acolherei os ecos dos homens?!
Meu universo diminuto e resoluto como
infinito quebra-cabeças não me deixa
fazer parte deste jogo; por isto eu choro
e também ouso.
Quanto mais eu penso, mais eu ponho-me
a pensar, assim também me desconheço.
Descobri de repente que a minha verdade
está em ser eu mesma, e, eu mesma sou...
Quando descobrirem o que vejo com os
meus olhos e o que sente o meu coração,
a dinâmica até hoje vivida será desconhecida.
A força dos meus braços é um milésimo da
força que promana do meu espírito, porque
palavras em fúria também as sou.
Tudo isto, isto tudo... é porque descobri
estupefata que a minha indignação é a
pulsão que me faz sobreviver...

22 maio, 2012

MILÊNIO (Cacau Loureiro)


Preciso entender a dureza dos que me acercam...

A insensatez dos egoístas, a cegueira ensaiada

no espelho das vaidades, vazios discursos.

Homens... humanoides na terra de ninguém?!

Quantos séculos precisaremos para aprendermos

a fazer os votos da sabedoria!...

Fé encubada nas torres dos templos profanados

pela soberba guiam os trilhos da modernidade.

Sigamos, pois, então velozes às estações de

lugar algum.

Haverão sinos para nos acordar?!

Tateio em derredor, entre os destroços os meus

dedos dedilham as notas pelas quais se vendem

os homens de Deus.

Vozes que nada me dizem ecoam em meus

ouvidos como zumbidos escarnecedores.

Desejoso meu espírito suplica pelos cânticos dos

dedicados guardiães das perdidas almas.

Eu quero entender...

O que me dói e me demora no peito não

sei dizer... pesa-me a vida em tantas vidas,

pesares. A vida presente eu sei, esta me dói...

26 abril, 2012

DO TANTO QUE TE AMO (Cacau Loureiro)


Do tanto que te amo eu tenho dormido em
estrelas, eu tenho sorvido o sol...
Na dinâmica do mundo veloz, só em ti há o
sossego, só a tua voz é vibração pulsante em mim.
Aprazível são teus braços a convidarem-me para os
deleites da alma, para os instintos do corpo, porque
em teu dorso nu eu inalo o cheiro dos afetos, aspiro
o aroma dos sonhos.
Todos os sons da tua lira movem meu universo,
posto que a tua paz são meus versos vigorosos,
rimas preciosas que dedilho em ti...
Em energia vital refaz-se o nosso encontro,
puro encanto de quem descobriu as minas das
raridades, olhos de diamante...
Valioso é o teu amor, minha visão primeira
nas belíssimas alvoradas; percepção única
dos meus sentidos ao fim do dia.
Não há fim para os tempos em que nos permitimos,
recomeços sem fim!...
Nada morre mais em mim quando contigo, pois que
revigorante é a tua afeição amante, amiga.
Do tanto que te amo... em ti eu sou!...

18 abril, 2012

METAFÍSICO (Cacau Loureiro)

Eu sei que ainda as flores permeiam nossos
caminhos e suas cores ainda ressuscitam almas
semimortas...
O Deus que habita em mim sempre saudará o
Deus que existe em ti.
Supremo é o teu amor que através de tuas mãos
aquece o meu coração para uma nova vida.
Eu quero viver o inarrável contigo...
As pedras de hoje serão velhas lembranças no
amanhã porque acredito no que nos move...
coração, palavra e pensamento.
Assim como as águas dos generosos rios da terra
o amor correrá em nós para sempre e em suas
variáveis mutações, eu sei que caminhará
para o fértil.
A natureza é primorosa, e assim como ela é
transformadora, também nós nos reformaremos.
A promessa está feita, pois que, pelo amor que
transita entre os homens ela estará cumprida,
no verbo e na carne, no material e no astral.
A tua história belíssima nos diz de misericórdia,
ensina-me o maior dos afetos, por isto repouso
contigo em teu leito de carinho e de lenidade.
A escolha foi feita, como a melhor das colheitas
nos campos da humana mansidão.
Não desisti de sonhar, meus olhos físicos podem
não ver, mas com os olhos do espírito eu
descerro bela morada posto que o teu lar será
meu lar, tua luz será a minha luz.
Sementes de paz espargem-se nos jardins onde
encontro descanso, onde o colorido da vida
vive e perpetua-se no teu meigo olhar...

POR SEGUNDOS... (Cacau Loureiro)

Preciso de tempo para assimilar
todos os golpes, para aguentar
todos os assaltos...
O suor inunda os meus olhos, o
seu sal me queima a alma;
no sufoco eu reprimo a ira.
O inimigo diante das vistas, os
meus braços ao longo do corpo.
Os meus punhos doloridos, o meu
espírito exausto.
Em síndrome apoplética desfigura-se
minha postura atlética... estática,
atônita eu ainda golpeio a minha
face mais oculta. Recosto-me uma
vez mais nas cordas poéticas, pois,
quadrilátero é o ringue da vida!...
Teus lábios, lona fina fantasmagórica...
Não sei se desfaleço ou morro por
segundos... tecnicamente não me
entreguei ao nocaute.
Eu sei sobre o peso do mundo em
minhas costas, tuas mãos como
luvas não me libertam os dedos
da dor torturante, meus gemidos
não têm respostas, o meu rosto
no piso ondulante, ao longe o soar
do gongo; o ar, a água é como gole
abrasivo que a minha garganta resseca.
No último instante, ao derradeiro golpe,
eu desperto, um filete de esperança
subsiste, reveste-me.
Hauro o fio de vida que me resta, penso
no tênue laço que a esta terra nos prende...
levanto os olhos, alço para os céus minhas
mãos como asas...
Transponho as grossas cordas do medo,
vislumbro a multidão que grita...
Algo em meu peito se agita... estou de pé,
refeita, pronta novamente pra luta.

16 abril, 2012

ENDRÔMINA (Cacau Loureiro)



Há diamantes raríssimos incrustados nos
subterrâneos dos homens, contudo, muitos
são mineiros de uma só jornada... Posto que
há patrões da prata e do ouro, mesmo os ladrões
companheiros de príncipes.
Somente nos corredores escuros onde
amealhamos tesouros é que damos valor ao sol.
As pedras raras ora estão escondidas sob o véu
das alheias vaidades ora sob os mantos dos
pseudossantos bandidos.
Não faço aqui a apologia dos desencantados, mas,
na ciranda dos desafortunados espirituais nós é que
somos carrascos, nós é que pagamos o pato.
Ouso dizer que não há escravos na Terra, há
senhores de si mesmo porque onde depositas
o seu coração lá está o seu tesouro.
Na modernidade sem chibatas as vozes do
poder nos é açoite, pois no solo dos grilhões
a seara da labuta será sempre evolução.
Muitos há a usurparem as riquezas do mundo e
a mendigarem óbolos aos céus...
Quem de vós tem o poder, quem de vós tem
a verdade?
Eis que, verão os que têm olhos de ver, ouvirão
os que têm ouvidos de ouvir!

27 março, 2012

ROSICLER (Cacau Loureiro)


Tenho visto o tempo correr como um trem expresso,
dias, rostos, rotas, trilhos notórios... onde o pensamento
é relampejo de saudade...
Há nostalgia e compaixão pelos que se foram, pelo que
se foi num adeus que não se conjugou.
Caminhos retos, eternos e divisos cruzando-se com as
curvas do tempo que constroem tantos atalhos no
itinerário dos homens.
Diante dos meus olhos um álbum datado de pessoas...
encontros onde queiramos ou não a solidão impera.
Em algum lugar do hemisfério as cerejeiras florescem
em tons que alegram e enobrecem os recônditos da
terra, em semitons que nos preparam para as mudanças
alvissareiras.
A natureza renova-se... e como coabitantes do mundo,
cresçamos buscando a luz que vem do átomo divino.
O tempo voa e no entanto não existe pretérito, pois
que o passado e tarjado em nosso espírito como a joia
legítima do vivido momento, e eu digo que conheci raridades.
Ainda jogo as sementes pelo solo árido dos homens e desnudo
meu mundo oniricamente empírico.
Experimento a dor de ter sobrevivido às mudanças, posto que
primaveras vivem em mim como rosicler de esperança.

14 fevereiro, 2012

SONDA-ME (Cacau Loureiro)


Sonda-me a alma Senhor, porquanto a seta
dos ímpios corta minhas sendas.
Coloca, pois, tuas sentinelas ante minhas
janelas e portas para que eu preserve teu
santo nome perante os dissimulados, porque
eles não têm misericórdia.
Prepara ó Pai o meu banquete.
Faça-me teu soldado, revista-me de força
e coragem para que eu não permita que eles
tomem o meu coração de assalto.
A ignorância dos covardes é tremenda, mas,
a minha hora não é esta, uma vez que ainda
verei a tua espada resplandecer na justiça.
Valha-me ò Deus nesta batalha que ora me
parece interminável... Quando virá teu refrigério?!
Cessa-me o pranto ó Senhor de benignidade,
esconda-me sob tuas asas quando me espreitam
os iníquos.
Lava-me no sangue do Teu Cordeiro para que
a minha alma não pereça, desanuvia minhas vistas.
Que os olhos de brandura do Mestre Amado cicatrizem
minhas chagas, que as suas mãos milagrosas guiem
meus passos na certeza e meus atos na sabedoria.
Que a sua infinita misericórdia restaure minha fé
na tribulação que antevejo.
Que os anjos do Senhor guiem-me, amparem-me
para que este humilde filho não sucumba ante
os escarnecedores.
Depositei minha alma nos braços do Grande Pai
porque somente Ele é amor e poder eternos.
Amém!...