SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

27 setembro, 2010

O MEU PARTIDO É UM CORAÇÃO PARTIDO (Cacau Loureiro)

Sem empunhar armas, bandeiras ou militar em partidos eu sigo a minha trajetória pacífica, mas não antropofágico-cristã a ponto de deixar-me devorar pelos leões da ignorância e passividade nas arenas da política brasileira. Porque não acredito na transformação por estatutos, eu tenho fé na revolução interior que virá pouco a pouco do âmago de cada um de nós que assiste a este espetáculo dantesco.
Não creio em sindicatos e ong’s como estruturadores de caracteres, ponho fé na vontade indômita de mudar este estado de coisas através da ética, pela comunhão do espírito com o mundo e o seu criador, pelo compromisso de deixarmos algo melhor para a posteridade da raça humana.
Num país em que alguns subnutridos do proletariado sobressaem-se e angariam medalhas e recebem telegramas paradoxais do nosso chefe maior com congratulações, quando o governo só investe naquilo que dá voto como retorno, eu ainda confio que o dogma maior a seguir é o “persistir, é o lutar, tenazmente pela mudança em cada pequeno gesto de respeito e preocupação com o próximo”.
Difícil e indigesto e ouvir e ver pessoas de ação nas comunidades discursarem sobre suas verdades e percepções individuais, insanamente ideológicas e irreais tentando dirigir e direcionar os que supostamente não têm direção, quando eles mesmos dirigem-se para lugar algum neste antro de urubus que atacam, corroem e carcomem nossas esperanças de um país melhor para se viver.
O que me deixa atônita é que o povo cansado e indignado com a política vá descansar na praia cego, surdo, mudo e alheio para os noticiários de corrupção e impunidades. Assim a população dorme em seu berço esplêndido com balas a sobrevoar suas cabeças, pouco se importando com os lobos que nos devorarão dia a dia através de nosso sistema de saúde precário, de nossas escolas falidas, com futuro de nossos filhos e netos já comprometidos por décadas.
Neste mundo nada mais me assusta, só me indigna, quando todos nós voltamos nossos olhos para nossos próprios umbigos sem perceber as necessidades alheias, a necessidade real de mudarmos de postura, de atitude diante dos políticos que nos representam.
Nesta terra de loucos e bêbados pelo poder, nós somos equilibristas na corda bamba da política hipócrita, elitista, alicerçada em nepotismos, ameaças veladas, cpi’s e mensalões que são um espetáculo circense da mais baixa qualidade.
Estamos prisioneiros no labirinto das instituições estilizadas e travestidas de “ação social” que só visam lucros e projeção político partidária que transformam com suas caras-de-pau os nossos sonhos em cera e que na verdade deveriam ter como objetivo principal e diretriz o esforço mútuo de grupos para alterar este estado de coisas.
Companheiros, fazendo aqui analogia quixotesca ao chavão de nosso presidente, aquele que nunca vê, nunca toma partido, que não assume, que não se mexe, que não se manifesta e que não pára no país para ver o que realmente vivemos. Neste chão em que se plantando tudo dá, não nascem pessoas honestas, comprometidas com o que prometem, somente fanfarrões?!
O governo quer fazer cortesia com o chapéu alheio, assim diz um amigo referindo-se aos impostos pesados que recaem sobre nós.
Possuímos sim uma tropa de elite, manipulando bodes expiatórios e exterminando qualquer tentativa de progresso legislativo. Lobos maus escondidos atrás das cortinas dos teatros de Brasília, na espreita para devorar a dignidade de nossos idosos, seja nas filas dos bancos, nas roletas dos ônibus, nas emergências dos hospitais, lobos disfarçados de benfeitores das famílias, com suas bolsas, tíquetes e restaurantes que nos enchem de miséria humana, doados como cala boca a uma gente faminta não só de pão, mas de educação e dignidade.
Aos sem partidos, assim exorta um amigo jornalista, eu vos convoco à mudança pela indignação pacífica, mas ativa, sem partidos ou bandeiras, porque “o meu partido hoje é um coração partido”, pois, “os meus inimigos estão no poder...”

20 setembro, 2010

GAIA (Cacau Loureiro)

Fugidios traços na escuridão escoam
por entre os dedos do tempo, por meio
das sarjetas da distância, em meio ao mar
das humanas tolices...
Se conseguisses olhar-me como um
dia eu te olhei, as vertentes do destino
teriam convergido para o centro das
almas elevadas, para o cerne do amor
sem fronteiras...
Mas para alguns é preciso que haja os
dedos que apontam a direção para seus pés,
como cegos no castelo da vida, como mortos
no cemitério dos homens.
Eu escolhi a luz que jorra sobre a cabeça dos
que acreditam na existência transformada,
que diz não aos indiferentes teleguiados, que
dá um basta aos estáticos de espírito.
O meu caminho é um rio longo, eu sei, doravante
só desaguo no mar das essências generosas...

09 setembro, 2010

MARCIAL (Cacau Loureiro)

Deslizo minhas mãos sobre as águas
do passado, nelas eu sei, já não mais
posso abrir caminhos.
Eu vi as ondas do destino traçarem
seu percurso, propagando pelos ventos
partículas da partida, diluindo pelo
tempo o pó da história que jamais
será reescrita.
A página amarelada de minha poesia
não tem lábios ou voz, seu rosto é uma
penumbra semimorta, no entanto, as
reminiscências evocam-me a seguir em
frente, obriga-me a prosseguir como
lei marcial resoluta as minhas escolhas.
Eu sigo sim minha própria jornada, pois
há ainda os que sentem a vida vociferar-lhes
nas veias, cortar-lhes o espírito culto como
espada afiada, outros há que há muito
venderam suas almas baratas...

31 agosto, 2010

FLORES NA JANELA (Cacau Loureiro)

Enquanto colocava minhas flores na janela,
lembrei-me de que um dia disseram-me algo assim:
“que as pessoas que passam por nós não vão sós,
deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”
Nessa melancólica recordação reavivo tantos
pedaços, muitos laços que ainda não desatei,
tantos lapsos do que vivi. Amargas lembranças?!
Não, ainda não sei, ainda não me desfiz das
coisas com as quais me encantei.
Amarguei despedidas, vontades tolhidas,
misturei o fel e o mel, gosto peculiar das coisas
que eu não provei.
Vociferei meus versos audazes em papeis rosas
de amor. Silenciei versos fugazes em rimas doídas.
Palavras... palavras... todas, tolas, dardos tantos
de dor.
E assim me refugiei em Bandeira, evadi-me em
Clarice, mas, sou alma, sou corpo e sou pele,
somente na sonhadora Meireles.
O que serão meus versos... verdades?! Tolices?!
O meu suposto perfil minha alma desmente,
sou profusa no todo que escrevo... sou autêntica
naquilo que quero. Meu sonho itinerante, romântico,
é réu confesso.
Vou voando em firmamentos múltiplos, lenços muitos,
nenhum documento, valsas lindas de despedidas dos
portos que jamais me retirei... Se sofri? Não, ainda não
sei...! Ainda acredito na lenda do final do arco-íris, no
mito da caixa de Pandora, no nascer de novas auroras...
Cinderelas, príncipes e reis...
Fui mulher, menina, perdida; fui melhor um dia, talvez...
Aguardo o final desta guerra, pois ninguém sabe dos
embates que já travei, das batalhas as quais sobrevivi,
das lutas que perdi, das lutas que ganhei; e que ninguém
duvide, dos inimigos que não matei.
De tudo nesta vida, do amargo ao doce eu provei; vou
singrando os mares da alma, emergindo dos pantanais;
meus males, amigo, ainda infindos, como os versos que
rimei. O pranto deu gosto aos meus dias e o sal desta
terra eu provei... minhas mágoas irrigaram-me o espírito,
deram-me versos que jamais tecerei...
Nos espinhos eu vislumbrei as flores, tantas flores...
Flores tantas, de cores que jamais me deparei...
Dou-te as flores da esperança, colhidas por mãos de
criança, nos campos por onde te esperei...

26 agosto, 2010

SALMO VIGÉSIMO SEXTO (Cacau Loureiro)


Clamemos ao Deus vivo, porque só o sangue
de seu cordeiro é transformador.
Por isto deito a minha alma em seu sangue redentor
para purificar meu coração desapontado.
Não há refúgio mais seguro do que nos altos
montes do Senhor, não há dossel mais quente
do que nas tendas do Senhor.
O homem que é surdo e cego aos ensinamentos
do Pai, torna suas próprias mãos injustas, o seu
peito abatido, suas palavras venenosas e a sua
alma insensata.
Nas paragens do Senhor eu irrigo minha esperança
e colho minha fé como fruto saboroso jamais na
terra cultivado, porque acima do Eterno, ninguém!
Cresçamos diante do inimigo com a arma poderosa
da pureza, pois que justiça e a paz tornam o homem
laborioso e devotado, porque para o justo não existe
infinda noite nem sofrimento eterno.
Não foge do baraço do Portentoso o que causa malefício
ao probo, porque o homem legitimado perante os céus
é feixe luminoso na luz eterna da verdade.
O que labora na boa seara não cruza os braços diante
da pesada charrua, rasga a leiva sob cânticos de alegria.
O Grande Justo convida-nos à Sua mesa, e por Ele será
saciado em pão e azeite, porque o amor não deverá ser
retido como água estagnada.
No coração de cada filho ele pôs um pequeníssimo grão
de mostarda que nalgum dia romperá com toda força
do Divino. O filho amado, o mestre e irmão quebrará
todas as correntes que aprisionam seus filhos pródigos,
rasgará os livros da humana escravidão, queimará as redes
onde nos tocaiam os inimigos, silenciará das praças as
querelas mentirosas, trará a justiça como uma erupção.
Aguardo com paciência no Senhor, por que somente a Ele
eu prometi o meu destino.
Confio Naquele que aponta do mais alto cume da Terra
as pastagens das ovelhas desgarradas e nos promete a
Sua eterna Salvação. Assim seja!

23 agosto, 2010

ERRÁTICO (Cacau Loureiro)

O silêncio das palavras permanece nos lábios,
como um grito selado pela ausência...
Não há retorno para os caminhos ultrapassados,
nem saída para os becos onde vivem os encolhidos
de alma.
É preciso expandir o coração para o universo
incomensurável do divino e não apenas abrir
os olhos para o mundo dos homens restritos.
O meu voo dá-me mais que dois olhos aguçados,
há um arco-íris que brota do meu peito que ainda
acredita num amanhã de flores perfumadas.
Eu vi no espelho do mundo horrendas imagens,
e eu olhei para mim mesma com o ímpeto da
transformação que liberta.
Toda mudança é lento e doloroso processo, porém,
não mais do que para aqueles que a assiste.
Sou reles mortal neste absurdo mundo, mas, para
os que não edificaram em minha vida, eu vou
rompendo os laços, eu vou deixando ao léu, eu
esqueço à beira do caminho...

19 agosto, 2010

VATE (Cacau Loureiro)


Busco em tua imagem distante
a inspiração nestes dias de mim
tão ausente.
A tarde é morna e nebulosa;
a tarde é longa e exasperante...
Intrigante é aspirar teus ares,
voar em tuas asas de aedo.
Em meu imenso azul és solitário
pássaro a planar sob as nuvens
de minha alma itinerante.
Calada, permaneço, quando minha
verve é distintamente loquaz,
entusiasta, versada.
Não sei sobre tudo, mas, ora sei
que não me bastam as palavras.
Quero permitir-me em tuas mãos,
revigorar-me em teus lábios
ardentes, aquecer-te com minha
pele calorosa, tocar-te agudamente
o espírito persistente, onisciente.
Há urgência em meu corpo...
O meu instinto ariano grita combativo,
contundente.
Conto amargamente o tempo lento,
irritante.
Sim, eu quero... deitar-me calma em
teu leito e repartir singularmente o
que sobeja em meu sequioso peito.

15 agosto, 2010

FILIGRANA (Cacau Loureiro)

PARA CLÁUDIO
Tarjei meu amor no
tempo, no espaço,
como nos versos que
deveras escrevo.
Em minhas mãos,
em nossas vidas,
a efígie do afeto,
determinismo, destino.
Unidos como peças de
encaixe, alcançamos os
mais precioso desejos.
Em nossas mãos, em
nossas almas, a mais
delicada obra, o mais
refinado timbre,
filigrana feita de
amor e paz.