SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

14 julho, 2010

SENTENÇA (Cacau Loureiro)


Gostaria de dizer algo diferente
agora, mas, a saudade, a sede
da demora, fazem-me escrever
sobre o mesmo tema, a mesma
história...
Teço em vermelho meus versos,
pois são ardentes, abrasivos.
Escrevo em negro em meu livro,
pois estanque está a alegria,
ferido está meu coração.
Perigo! É o aviso que não leio,
posto que prefiro escrever com
os olhos da alma, com as mãos
do espírito. Eis a minha sentença...
Flagelo meus sentimentos e sei
que tolhê-los é preciso.
Bastou-me te ouvir, não me basta
te conhecer, porque quero amigo,
do fundo do meu peito, sentir-te.

12 julho, 2010

PHOENIX (Cacau Loureiro)

Aprendi que nem sempre teremos o
amor que damos, e que mesmo assim
não desaprendemos o amar.
Só se comunica no amor aqueles
que aprenderam o que são os laços
dos afetos, porque quando o amor não
se infunde e não se sente na alma
como bálsamo regenerador, não há
como se abrir ao aprendizado do ser,
do estar para o outro.
A caminhada solo do amor já é maravilhosa,
belíssima canção transforma-se quando em
duo podemos caminhar.
Galgamos as altas esferas do sentimento
maior quando sabemos do sacrifício e do
despojamento que ele requer e não o tememos.
Estás preparado, armado, consagrado para a
batalha em que a alma e o corpo deverão ser
égide e broquel?
O coração de quem ama é uma águia, porque
plana altaneiro, porque mais longe vê, porque
mais a vida plena em amor lhe renova.
Recolho-me como fênix no mais alto cume,
entre poucas flores, entre muitas pedras,
pois, descobri em meus longos voos que
um amor qualquer nunca me fez melhor...

09 julho, 2010

VIRA-MUNDO (Cacau Loureiro)

O meu amor forte foi ferro e fogo,
inferno e céu foi a duetar na dança
da vida em meio aos lobos...
O meu brado ecoou como rara
sinfonia que nunca temeu a morte,
onde a tenacidade da minha verve nunca
imergiu no lago dos esquecimentos humanos...
Florescer em alegria ante as dores
do mundo, é ter genes de gigante,
é ser Davi a empunhar única arma
para vencer o inimigo, é estar sempre sozinho.
Feroz eu fui a defender-me, a defender-te
ante as muralhas dos preconceitos, ante os
teus muros de egoísmo...
Mas, o amor não veio para os frágeis, no
entanto, veio para os simples, pois que
para os sencientes somando-se um e um nunca
foi dois, porque para o amor só há um único caminho.
A adaga da verdade divide os rumos, levanta
os muros, apresenta os heróis da resistência e
patenteia ao mundo a lei de que não se pode viver
de insensatez, que não pode haver a pequenez de
sentimentos.
Um seio miúdo não comporta a grandeza do
amor pleno, não suporta a forja em que são
temperadas as índoles dos cunhados a ouro
para o maior laureamento, amar...
Coroa e espada eu trago em punho, em
meu manto acolho e guardo os meus raros
diamantes... num mundo escasso de cavalheiros
eu sou revel, obstinado, um vira-mundo errante!....

07 julho, 2010

QUIXOTESCO (Cacau Loureiro)

Expor visceralmente o amor é para os fortes.
Ah! Estes modernos Quixotes!...
Mas, ainda há aqueles que sabem e fingem
não saber.
A ferida aberta, o seio que clama... como estes
sinais não reconhecer?!
A ignorância da alma torna-nos bárbaros,
cavaleiros andantes da inoperância.
No espelho em que nos olhamos mentimo-nos,
matamos sonhos, estagnamos esperanças.
Moucos para o grito diário de nosso âmago,
próximos sempre da invigilância.
Esconder-se da vida é covardia, sufocar o
amor que flui do outro, insanidade.
Há os seres que dormitam para a existência e
jamais saberão felicidade!...

05 julho, 2010

RESSURREIÇÃO (Cacau Loureiro)

Minha obliterada essência almeja a ressurreição!...
Há lágrimas em meu rosto sulcando-o em
pranto universal... avisto paragens distantes
entre a cortina nevoenta que se encerra em meu caminho.
Vãs foram muitas das minhas lutas... infames batalhas.
Séquitos escabrosos estagnaram os meus passos,
estancaram meu voo libertário em vaidades e
narcisismos hediondos.
Meu espírito ainda combalido busca a cura
para as feridas sangrentas que me rasgam
as esperanças em mil pedaços.
A vingança acena em minha fronte, assinala
a vil inclemência de um peito agudamente ferido.
Afogo as palavras ensandecidas e ferinas para
que elas não tomem minha alma delirante.
Os meus dias são duros ensinamentos e
transcorrem devagar no afã de coisas mortas e
fugidias. Vãos caminhos que se vão pelas sendas da
memória... pelos trilhos das estações intermináveis e
intermitentes... eu vibro em rebeldia entre dentes.
Meus olhos não mais querem ver, meus ouvidos
não mais querem ouvir... não há princípios nem ditames.
É o fim! São os cânticos que reverberam em minha cabeça!
Ando a esmo por entre os escombros humanos,
tentando resgatar almas semimortas, semi-inteiras.
O cansaço é açoite, pesado fardo a curvar-me o cerne
irascível, empedernido... a dor lacera a minha têmpera
corajosa e justiceira.
Minhas mãos doem ... é aguda a flecha que penetra
minha carne quente, conturbada.
Ponho-me de joelhos ao léu, sou tudo e nada diante
do excelso Criador: perdoe por favor reles criatura
cambiante, desesperada!...
A chuva cai abundante em campo árido, o horizonte
relampeja em novas bênçãos... oro aos céus humildemente,
dou-me em corpo e alma ao divino eterno e imortal.
É doce a canção que vem no vento da equidade,
soprando em minha boca toda virtude,
penetra-me quinta-essência de santidade.
O perdão brota como semente sã e de benignidade,
minha gema em santificadas mãos se revigora.
Em teu manto, oh Supremo de amor e bondade!...
Sou recomeço, renascente luz em tua imensurável piedade!

30 junho, 2010

OUTONO MORTO (Cacau Loureiro)


Nestas horas que alongo os meus dias frios
eu aqueço o esquecimento...
O vento passa gélido e veloz através das
folhagens de um outono morto num beijo de

morte em futuro fruto maturado em vão.
As mórbidas estações fendem o destino das almas,
alteram as rotas das marés e os rumos dos trilhos.
O sol que sempre brilhara no fim da estrada,
apagou-se; não há apogeu para sentimentos parcos,

para os frágeis laços tecidos em indiferença.
Vestígios de belos gestos dissolveram-se na areia
movediça das insanidades, sucumbiram ante as
águas fartas dos extraviados amores.
Faltou dizer, faltou fazer, faltou sentir, faltou saber,
faltou olhar e perceber que um seio egoísta adoece e

morre...
Há partículas de homens suspensas no vento, num
tempo que lhes despiu do amor em um mundo perdido
em outono morto!...

22 junho, 2010

SALMO VIGÉSIMO QUARTO (Cacau Loureiro)


Grandioso Pai, Senhor construtor deste maravilhoso
universo, corrige-nos nossos corações magoados,
aviltados pela miséria do espírito humano.
Que Tu possas trabalhar em nossos âmagos a tolerância,
mas, jamais nos permita a omissão e livre-nos da avareza
dos afetos.
Que em Teu nome poderoso, Tu possas direcionar-nos para
o caminho do bem, para a confraternização com nossos
irmãos de jornada, filhos teus, no solo do entusiasmo incessante.
Que o teu amor possa achar morada em nosso íntimo, e que amar
seja a verdadeira guerra a travarmos.
Dirijo a Ti, oh Pai, a minha prece porque só em Ti a minha
confiança. Somos errantes neste mundo, mais das vezes mal
agradecidos, pois nosso entendimento está aquém de tuas
eternas leis. Contudo, rogo-te que diante das dificuldades
e angústias possamos crescer em aprendizado.
O teu sopro Amantíssimo, quando te abrimos os nossos
corações em sinceridade é como bálsamo a cicatrizar nossas
feridas crônicas, pois que a raça humana fere e transgride.
Agradecemos-te oh Eterno, pelos missionários teus neste
mundo de horrores, porquanto, testemunhando-os reedificamos
a esperança.
Oferecemos-te Digníssimo, os nossos espíritos alquebrados
para que neles possa edificar a fé que redime e que consola.
Em tuas mãos nossas dores cessam, ante tuas leis os homens
passam, não tememos os bípedes embrutecidos, tampouco as bestas
humanas, porque antes de pisarmos neste mundo vão conhecemos
a tua verdade, e só a tua verdade liberta-nos. Assim seja.

16 junho, 2010

OUTONAL (Cacau Loureiro)


Num monumento
vislumbro a liberdade,
as asas que sequer
sonho em voar; o
cetim plúmbeo que
encobre a aurora
nova será breve,
como breves serão
nossas tristezas.
Perdidos estamos
em sonhos tantos...
estradas...
Por estes caminhos
que não possuem
sequer sinais, já é
outono... e por estes
lamaçais da vida, ainda
há flores brotando.