"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram.
Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento.
O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias.
A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma.
Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."
REFLEXÃO
"Ao permanecer, iluminei.
Não para salvar,
não para provar,
não para ser menos.
Iluminei
para seguir inteira." Claudia Loureiro
agora, mas, a saudade, a sede da demora, fazem-me escrever sobre o mesmo tema, a mesma história... Teço em vermelho meus versos, pois são ardentes, abrasivos. Escrevo em negro em meu livro, pois estanque está a alegria, ferido está meu coração. Perigo! É o aviso que não leio, posto que prefiro escrever com os olhos da alma, com as mãos do espírito. Eis a minha sentença... Flagelo meus sentimentos e sei que tolhê-los é preciso. Bastou-me te ouvir, não me basta te conhecer, porque quero amigo, do fundo do meu peito, sentir-te.
amor que damos, e que mesmo assim não desaprendemos o amar. Só se comunica no amor aqueles que aprenderam o que são os laços dos afetos, porque quando o amor não se infunde e não se sente na alma como bálsamo regenerador, não há como se abrir ao aprendizado do ser, do estar para o outro. A caminhada solo do amor já é maravilhosa, belíssima canção transforma-se quando em duo podemos caminhar. Galgamos as altas esferas do sentimento maior quando sabemos do sacrifício e do despojamento que ele requer e não o tememos. Estás preparado, armado, consagrado para a batalha em que a alma e o corpo deverão ser égide e broquel? O coração de quem ama é uma águia, porque plana altaneiro, porque mais longe vê, porque mais a vida plena em amor lhe renova. Recolho-me como fênix no mais alto cume, entre poucas flores, entre muitas pedras, pois, descobri em meus longos voos que um amor qualquer nunca me fez melhor...
O meu amor forte foi ferro e fogo, inferno e céu foi a duetar na dança da vida em meio aos lobos... O meu brado ecoou como rara sinfonia que nunca temeu a morte, onde a tenacidade da minha verve nunca imergiu no lago dos esquecimentos humanos... Florescer em alegria ante as dores do mundo, é ter genes de gigante, é ser Davi a empunhar única arma para vencer o inimigo, é estar sempre sozinho. Feroz eu fui a defender-me, a defender-te ante as muralhas dos preconceitos, ante os teus muros de egoísmo... Mas, o amor não veio para os frágeis, no entanto, veio para os simples, pois que para os sencientes somando-se um e um nunca foi dois, porque para o amor só há um único caminho. A adaga da verdade divide os rumos, levanta os muros, apresenta os heróis da resistência e patenteia ao mundo a lei de que não se pode viver de insensatez, que não pode haver a pequenez de sentimentos.
Um seio miúdo não comporta a grandeza do amor pleno, não suporta a forja em que são temperadas as índoles dos cunhados a ouro para o maior laureamento, amar... Coroa e espada eu trago em punho, em meu manto acolho e guardo os meus raros diamantes... num mundo escasso de cavalheiros eu sou revel, obstinado, um vira-mundo errante!....
Expor visceralmente o amor é para os fortes. Ah! Estes modernos Quixotes!... Mas, ainda há aqueles que sabem e fingem não saber. A ferida aberta, o seio que clama... como estes sinais não reconhecer?! A ignorância da alma torna-nos bárbaros, cavaleiros andantes da inoperância. No espelho em que nos olhamos mentimo-nos, matamos sonhos, estagnamos esperanças. Moucos para o grito diário de nosso âmago, próximos sempre da invigilância. Esconder-se da vida é covardia, sufocar o amor que flui do outro, insanidade. Há os seres que dormitam para a existência e jamais saberão felicidade!...
Minha obliterada essência almeja a ressurreição!...
Há lágrimas em meu rosto sulcando-o em pranto universal... avisto paragens distantes entre a cortina nevoenta que se encerra em meu caminho. Vãs foram muitas das minhas lutas... infames batalhas. Séquitos escabrosos estagnaram os meus passos, estancaram meu voo libertário em vaidades e narcisismos hediondos. Meu espírito ainda combalido busca a cura para as feridas sangrentas que me rasgam as esperanças em mil pedaços. A vingança acena em minha fronte, assinala a vil inclemência de um peito agudamente ferido. Afogo as palavras ensandecidas e ferinas para que elas não tomem minha alma delirante. Os meus dias são duros ensinamentos e transcorrem devagar no afã de coisas mortas e fugidias. Vãos caminhos que se vão pelas sendas da memória... pelos trilhos das estações intermináveis e intermitentes... eu vibro em rebeldia entre dentes. Meus olhos não mais querem ver, meus ouvidos não mais querem ouvir... não há princípios nem ditames. É o fim! São os cânticos que reverberam em minha cabeça! Ando a esmo por entre os escombros humanos, tentando resgatar almas semimortas, semi-inteiras. O cansaço é açoite, pesado fardo a curvar-me o cerne irascível, empedernido... a dor lacera a minha têmpera corajosa e justiceira. Minhas mãos doem ... é aguda a flecha que penetra minha carne quente, conturbada. Ponho-me de joelhos ao léu, sou tudo e nada diante do excelso Criador: perdoe por favor reles criatura cambiante, desesperada!... A chuva cai abundante em campo árido, o horizonte relampeja em novas bênçãos... oro aos céus humildemente, dou-me em corpo e alma ao divino eterno e imortal. É doce a canção que vem no vento da equidade, soprando em minha boca toda virtude, penetra-me quinta-essência de santidade. O perdão brota como semente sã e de benignidade, minha gema em santificadas mãos se revigora. Em teu manto, oh Supremo de amor e bondade!... Sou recomeço, renascente luz em tua imensurável piedade!
Nestas horas que alongo os meus dias frios eu aqueço o esquecimento... O vento passa gélido e veloz através das folhagens de um outono morto num beijo de morte em futuro fruto maturado em vão. As mórbidas estações fendem o destino das almas, alteram as rotas das marés e os rumos dos trilhos. O sol que sempre brilhara no fim da estrada, apagou-se; não há apogeu para sentimentos parcos, para os frágeis laços tecidos em indiferença. Vestígios de belos gestos dissolveram-se na areia movediça das insanidades, sucumbiram ante as águas fartas dos extraviados amores. Faltou dizer, faltou fazer, faltou sentir, faltou saber, faltou olhar e perceber que um seio egoísta adoece e morre... Há partículas de homens suspensas no vento, num tempo que lhes despiu do amor em um mundo perdido em outono morto!...
Grandioso Pai, Senhor construtor deste maravilhoso universo, corrige-nos nossos corações magoados, aviltados pela miséria do espírito humano. Que Tu possas trabalhar em nossos âmagos a tolerância, mas, jamais nos permita a omissão e livre-nos da avareza dos afetos. Que em Teu nome poderoso, Tu possas direcionar-nos para o caminho do bem, para a confraternização com nossos irmãos de jornada, filhos teus, no solo do entusiasmo incessante. Que o teu amor possa achar morada em nosso íntimo, e que amar seja a verdadeira guerra a travarmos. Dirijo a Ti, oh Pai, a minha prece porque só em Ti a minha confiança. Somos errantes neste mundo, mais das vezes mal agradecidos, pois nosso entendimento está aquém de tuas eternas leis. Contudo, rogo-te que diante das dificuldades e angústias possamos crescer em aprendizado. O teu sopro Amantíssimo, quando te abrimos os nossos corações em sinceridade é como bálsamo a cicatrizar nossas feridas crônicas, pois que a raça humana fere e transgride. Agradecemos-te oh Eterno, pelos missionários teus neste mundo de horrores, porquanto, testemunhando-os reedificamos a esperança. Oferecemos-te Digníssimo, os nossos espíritos alquebrados para que neles possa edificar a fé que redime e que consola. Em tuas mãos nossas dores cessam, ante tuas leis os homens passam, não tememos os bípedes embrutecidos, tampouco as bestas humanas, porque antes de pisarmos neste mundo vão conhecemos a tua verdade, e só a tua verdade liberta-nos. Assim seja.
Num monumento vislumbro a liberdade, as asas que sequer sonho em voar; o cetim plúmbeo que encobre a aurora nova será breve, como breves serão nossas tristezas. Perdidos estamos em sonhos tantos... estradas... Por estes caminhos que não possuem sequer sinais, já é outono... e por estes lamaçais da vida, ainda há flores brotando.