SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

30 abril, 2010

SALMO VIGÉSIMO SEGUNDO (Cacau Loureiro)


Resguarda-me oh, Pai daqueles que porventura
ameacem a minha paz. Poupa-me daqueles que
na mansidão da fala tecem a discórdia entre os meus.
Lance a tua soberana luz sobre a face do farsante
para que todos possam conhecê-lo.
Ponha-me Deus meu sob a tua proteção para
que eu não perca de vista o verdadeiro objetivo
para com o dom da vida que me deste.
Que o fruto que me permitiste colher, possa ser
saboreado com humildade e sabedoria.
Fazei oh, Pai que os justos levantem-se para evitar
o mal que espreita o teu plano de caridade e amor.
Apartai com a tua vara os filisteus da ganância e da
corrupção. Posto que, os olhos do adverso vigiam os
contentes em tua graça, valei-nos Santíssimo com a
tua proteção e honra para os desviar de nossos
caminhos elevados.
À boca pequena os injustos professam e planejam
para envergonhar teus filhos dignos, repele-os com
tuas mãos dessa nossa empreitada para que a tua
paz seja edificada com louvor.
Senhor, marca a minha casa com o teu penhor de
misericórdia para que nela floresça homens de
bem e distinção.
Nunca me omiti da responsabilidade que me
deste oh, Altíssimo, valha-me, pois, com o
teu manto de justiça e de verdade.
O maléfico arquiteta suas tocaias com requinte,
mas os teus olhos, oh Santo, serão meus guias em
qualquer serviço em teu nome.
Sei que a tua espada oh, Bondoso é ágil e afiada,
cortai então, inapelavelmente, o mal pela raiz.
Todos os dias eu renovo a minha coragem pelo teu
Santo nome, porque só tu és força e poder.
A minha glória não será minha, será a Ti ofertada,
pois que o teu escudo protege o meu coração
das amarguras, do ódio e da vingança.
Jamais perdi a fé em tua magnitude oh, Eterno,
pois que humilde não é aquele que tão somente se
ajoelha, mas o que curva o espírito à tua soberana
vontade.
Bendito seja o teu nome oh, Supremo, que purifica,
redime e transforma o infame. Amém.

27 abril, 2010

VIRIDANTE


Mergulho fundo em teu aprendiz
universo, com a mesma fascinação
de quem abre um peito pródigo.
Em minha presciência poética eu
já supunha tua tenra e profusa
germinação virente.
Nas multicoloridas flores do teu
encantado jardim, eu ponteio os
meus dias de dourado. Já que
ensolarados são teus olhos em mim!...
Não há recato para viver a vida para
a qual me chamas, pois a ponte que
nos une transcende todos os aspectos
que envolvem coração e corpo.
A minha maravilhada alma, a tua alma
maravilhosa, levam-me ao teu condão
de entusiasmo imaculado, impermisto.
Não há o que apreender quando só o amor
edifica, só ele é capaz de transpor utopias,
preconceitos e todas as vãs filosofias.
Em meu dom clarividente o teu mundo
descerra-se... singelo, amante, corajoso,
Forte!

PERCURSO (Cacau Loureiro)


Sou eterna porque sou poeta, porque
o tempo é minha égide imortal.
As asas do autoconhecimento jamais
serão cerceadas pelos carcereiros do
mundo, tampouco, pelos traidores
da terra.
Eu não somatizo assombros... Eu
experimento alumbramentos.
Eu toco com a alma outras almas
tantas, pois que a palavra deu-me
o paraíso dos afetos e já não preciso
morrer para saber além desta vida.
A morte é uma quimera que não
me causa temor. Eu vejo com os
olhos do espírito e possuo a vida
em profusão.
Eu fito os olhos dos homens e conheço
seus segredos, porquanto os seus atos
materializam seus paleios.
Não há decepções permanentes, nem
mórbidas depressões, pois que todo

o poder humano é transitório e nós
somos meros passantes. O caminho

dos errantes na história fica para trás,
não altera a marcha do mundo, não
movimenta as pernas das eras.
Eu enxergo além da natureza humana,
pressinto bem mais que os seus atos
insanos.
Os ventos fortes que demarcam os
caminhos carregam as nuvens sombrias
para os vales desertos das pátrias
imateriais, morrem-me sem espanto.
Meus passos já não mais estacionam,
o verbo é o meu eixo e apoio, ah, os
cretinos da estrada não mais me
alteram a essência, não pesam mais
em meu bojo, são bagagens deixadas
nos trilhos do esquecimento...
E eu ainda vejo o céu azul sobre minha
testa, tenho o sol guiando os meus passos
e a chuva lava-me os medos.
Os carrascos cortam pescoços, e com isso
eles decepam suas próprias cabeças.
A obscuridade dos bosques reacende
a vontade indômita, o impulso descomunal
que me faz seguir adiante!...
Ouço música no alvorecer e alço vôo em
asas perfeitas, sobrevoo a eternidade, vou

de encontro a outro arrebol.
O meu futuro é logo ali, pois que ninguém
mais me detém a jornada. O progresso é

mais que esperança, para mim é verdade
sólida, para os covardes talvez seja insólita.
As causas dignas perduram altaneiras
e seguem os seus cursos provectos,
enquanto os hipócritas criam mofo com
vagareza.
O rio que represo é de águas abundantes,
cristalinas de manancial incomensurável,
correm em meio a natureza.
Amanheço como os pássaros, abro as
janelas do espírito, aspiro o mundo, porque
o mundo cabe em mim...

Todos os dias eu descubro maravilhada que
a vida é maravilhosa!...

26 abril, 2010

ANTAGONIA POÉTICA (Cacau Loureiro)


As feras famintas estão às soltas, ideologias reles
disfarçadas em transcendentes revelações, sonhos
sinistros pelas mãos da malta fatídica.
Na rotina dos mascarados sidéricos, a dança das
vaidades na ciranda das palavras em servis antologias.
Virtuais negociatas por baixo das escrivaninhas geram
dissensões entre os líricos numa sincronia funesta.
Os quadrúpedes que me perdoem, mas os falsos letristas
regurgitam hipocrisias entre parcas notas de Real.
O inferno como as igrejas estão cheios de boas intenções,
projetos mirabolantes a emanarem o cheiro fétido das
falsídias, lesa ilusão. Maltrapilhas inspirações...
Os bardos de hoje não são mais os mesmos de outrora,
velhos babões e chistosos Dom Juan’s travestidos de
boêmios exalam o mal cheiro das frívolas idéias legitimando
as traições.
Ah! Aedos dos tristes versos, das mendigas rimas não

versejam os prantos, porque não valem uma lágrima sentida,
ridículos fanfarrões fadados ao anonimato!
Quem dera se lhes restasse um pouco da digna poesia,
mas a mente fria e os calculados atos tecem os absurdos
sonetos; mas a alvorada há de lhes carcomer os ossos,
pois quem usa o parnaso como boi de piranha, como
mulher da vida, não é digno das ruelas, tampouco das
desérticas esquinas.
Não cito aqui os grandes nomes do patriótico romanceiro,
posto que estes edificaram a Flor do Lácio, e não há que se
misturar o sangue dos honrados com o vômito dos embusteiros.
Na sociedade dos poetas rotos a palavra veste andrajos,
pede esmolas, morre de tédio.
Neste mundo de historietas onde vivem tantos José’s e
moram tantas Maria’s a métrica pede socorro, os bêbedos
escondem as garrafas, os zumbis tapam os bolsos, o crime
é cousa barata.
Aquele que não dignifica as artes não sonha, que dirá profecia,
jamais será venerável nas cadeiras das vizinhas, nos banquinhos
dos parquinhos ou mesmo nos canteiros das pracinhas.
Feras famintas farejam as feridas abertas, sugam o pus dos
corrompidos, escarram no chão das estrelas, zombam da lua
mansa, têm sede de sangue e de louros, matam pelas insígnias.
Bestas travestidas de poetas, disfarçadas de Romeu’s,

à mesa dos imbecis, comem goiabada com queijo nas abas de
otários que usam bengalas e chapéus.
Os antigos trovadores tragavam cachimbos aromáticos,
hoje os plebeus da poética palitam os dentes amarelados
às portas de qualquer boteco.

Dantes o boêmio era ético, refinado, tampouco, era omisso,
muito menos resignado.
Ah, poeta jocoso, um tanto quanto presunçoso, até mesmo
asqueroso, imprime um texto chulo e diz-se o escriba
do amor, o comandante das artes. O namorado das musas,
o pulha apaixonado.
Hoje, a tropa dos poetas da mula ruça cavalgam
como porcos aos precipícios das telas, invadem as
terras alheias, poluem as ondas românticas, matam
as belas sereias, queimam as divindades eternas,
enterram o lirismo na lama, e nisto não são comedidos!
Os trovadores deslumbrados enfeitam suas próprias
lapelas com os seus desbotados retratos.
Os infiltrados da escrita vestem tantas camisas!...
Os borra-papéis decerto almejam os aplausos, também
a fita amarela, pleiteiam o choro e as velas, desejam
comer as donzelas.
Os poetas enganadores não se importam com plágios,
nem fingem sentir as dores, são eles os clones prodígios
que propagam a falsa poesia e alastram a partidária
idolatria aos santos de pau oco com inspiração quase broxa.
O covil está abarrotado de bestas feras, Orfeu’s loucos a
saírem pelo ladrão dos subterrâneos do mundo, muitos saem,
outros ficam, tantos entram porque a demanda é grande e
a permuta necessária.
Ah! Pseudopoetas! Psicopatas venais que na agonia da
ganância aspiram à ode virtual, praticam suas mazelas,
inflingem suas barbáries e covardemente promovem a
“antagonia poética”.

21 abril, 2010

ESTRO (Cacau Loureiro)


Procuro ponderar... impossível!
Perdi a conta da profusão de pétalas que
jogaste aos meus pés.
No meu peito ofegante, na minha alma
errante da saudade arrasto as correntes.
A inspiração que me fascina é lírica,
elegíaca, apaixonante, lúbrica.
Como não suprir a sofreguidão?
Como não suster a lamentação?
Eu vôo como pomba branca entre os sinos
e os cimos dos enlevos, dos relevos da tua
longínqua cidade natal; por sobre os teus
campos abertos, por sobre os teus rios doces,
eu cruzo a tua riqueza, espontânea, natural.
Não mais te vejo como tu te vês em teu espelho...
as nossas rimas rosas, o meu sangue quente,
as nossas auras gêmeas, o meu desejo vermelho.
Tudo me atrai em tua lira, a tua matreira alegria,
a tua esbelta figura, a tua persuasão frontal,
objetiva, segura.
Procuro ponderar... impossível!
Perdi a conta da abundância de frissons
que me perpassam a espinha!...


SALMO VIGÉSIMO PRIMEIRO (Cacau Loureiro)


Poderosíssimo Deus. Sei que a justiça que vem do alto
não falha. Sei que tu és o Deus que levanta e que também
abate. Valei-me, pois sei que o tempo do inimigo que se
exalta está findando-se.
Ciente estou que quem prospera tem que se preparar para

a batalha, guarda-me pois, no teu poder.
Vede oh, amado Pai que o egoísmo e a soberba alastram-se

como cipreste sobre as lápides da santa terra.
Há muito que vês eu levantar as torres de vigilância
pelo deserto para mostrar ao falto que Tu estás comigo
como a maior das sentinelas.
Permita-me que os teus anjos de guerra e os teus anjos
de poder instalem-se dentro dos meus portões e encham
o meu povo de coragem e vigor para enfrentar as contendas
engendradas pelas facções do mal.
Sei Digníssimo que quem se instrui através dos teus profetas
tem a vitória como garantia.
Grande Pai, eu deito o meu esforço aos teus pés, porque
meus rebanhos estão nos vales e tantos outros estão nos
montes graças à tua direção e pastoreio, portanto, não temo
a derrocada, estando a teu serviço cresço perante os homens
e isto atrai os maledicentes e malfeitores.
Diante do teu sagrado templo eu apascento o meu coração
e sossego o meu espírito; aspiro os teus incensos e purifico
os meus pensamentos, santifico-me em teu altar, porque sou
com presteza um humilde pescador no teu imenso mar bonançoso.
A ti dou graças Senhor, posto que mesmo de longe as minhas
vistas flagram o movimento do ladino e o meu coração não se
envenenou com a tirania, nem com a torpeza dos astuciosos.
O meu caminho nunca se desvirtuou na trilha incerta dos homens
decaídos.
Graças a Ti eu dou porque o tempo da depuração se aproxima
e os falaciosos terão que arrancar suas línguas e cobrir os seus
corpos por conta da vergonha e serão levados ao leprosário para
esconder as suas máculas.
E graças dou-te pois que me resguardo sob o teu poder e glória.
Amém.

20 abril, 2010

RÉQUIEM (Cacau Loureiro)


Não há paz em meu imo, no entanto, a
chuva lá fora encomenda um nobre hino...
miserere nobis,( tende piedade de nós).
Vozes ecoam em meu íntimo, todavia,
discursos não mais me comovem;
na roda do mundo, nas engrenagens da
vida, poucas coisas para frente se movem.
Meu espírito atirado, indisciplinado,
suspenso no espaço, recusa-se a mais
esta viagem profunda e fatigante.
Abjuro por instantes: Crer ou não crer?...
Partilhar o quê? Com quem? Para quê?
Vocações no meu ser represadas, há a
repugnância diante da perfídia que
sabota todos os atos de consciência, dá-lhes
misericórdia divina!...
Meus olhos de ver agora embotados, os
meus versos recolhidos, mas ainda minhas
mãos limpas. Enganam-se àqueles que acham
que me atraiçoam com mentiras!
Desta batalha bati em retirada, mas não
posso retroagir quando minha gema já
evoluída, experimentada sabe sobre todos
os fins escusos, das tentativas malogradas...
Por estradas sem canteiros locomovo-me,
não há flores no caminho, o ar seco esgota-me
as lágrimas, ressecam sementes em uma alma
há muito aprimorada. Lavro minha essência e
refreio o orgulho, insisto em banir o egoísmo;
neste mundo aviltado, maltratado pelo absurdo
dos seres, eu para frente prossigo.
Não há moeda que pague inspiração por longos
anos cultivada; não posso, não vou ficar muda
diante de falsas amabilidades trocadas, da
injustiça mascarada. Portanto, eu oro, faço
preces, "requiem aeternam dona eis, Domine..."
(Dá-lhes o eterno repouso, Senhor...)
para todos estes mortos vivos que falam!...

CAUSAS E CURAS PARA O FANATISMO (Voltaire)


O fanatismo é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que é a raiva para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que considera os sonhos como realidades e as imaginações como profecias é um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático. (...) O mais detestável exemplo de fanatismo é aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despedaçar, na noite de São Bartolomeu, os seus concidadãos que não iam à missa. Há fanáticos de sangue frio: são os juizes que condenam à morte aqueles cujo único crime é não pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um cérebro a doença é quase incurável. Eu vi convulsionários que, falando dos milagres de S. Páris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarniçavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religião não bastam contra a peste das almas; a religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.

(...) As leis são ainda muito impotentes contra tais acessos de raiva; é como se lêsseis um aresto do Conselho a um frenético. Essa gente está persuadida de que o espírito santo que os penetra está acima das leis e que o seu entusiasmo é a única lei a que devem obedecer. Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que, consequentemente, está certo de merecer o céu se vos degolar?
De ordinário, são os velhacos que conduzem os fanáticos e que lhes põem o punhal nas mãos: assemelham-se a esse Velho da Montanha que fazia - segundo se diz - imbecis gozarem as alegrias do paraíso e que lhes prometia uma eternidade desses prazeres que lhes havia feito provar com a condição de assassinarem todos aqueles que ele lhes apontasse. Só houve uma religião no mundo que não foi abalada pelo fanatismo, é a dos letrados da China. As seitas dos filósofos estavam não somente isentas dessa peste como constituíam o remédio para ela: pois o efeito da filosofia é tornar a alma tranquila e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Se a nossa santa religião tem sido frequentemente corrompida por esse furor infernal, é à loucura humana que se deve culpar.
(Voltaire, in "Dicionário Filosófico")