SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

31 março, 2010

COLHENDO OUTONOS (Cacau Loureiro)

Doces frutos têm as árvores frondosas e que
dulcíssimos frutos possam ser ofertados em
nossas mesas. Convidemos o próximo ao
nosso banquete, vistamo-nos com nossos
melhores trajes, compareçamos com boa
vontade, sejamos, pois, como os trabalhadores
da última hora. Que sejamos escolhidos e
ouçamos o chamado.
Que o gólgota não seja símbolo de sacrifício,
mas que seja a renovação de nossos espíritos
para a luta que há de vir, que nos seja ampla
a libertação e a vitória na seara da bondade.
Que sejamos pão e vinho para as nossas crianças,
que sejamos verbo e caminho para as sementes
que plantamos, que o bem maior que colhermos
seja o que o Criador nos ensinou, o amor maior!

QUEM DERA (Cacau Loureiro)

Quem dera eu ser poeta
e rimar o meu pranto com
tua alegria, versejar nos
caminhos, os pés descalços
dos meninos nus que vagueiam
pela madrugada, através das
calçadas que refletem a lua.
Quem dera eu ser cantor
e na melodia quente amenizar
a dor que causa o ritmo lento
dessa humanidade desafinada,
onde não se repercute a fé.
Quem dera eu entender o
mundo e galgar no tempo
a minha juventude, sem pesar,
sem penar, sem esmorecer na
distância o que cultivei no peito.
Quem dera eu enxergar o que
não fui, o que sou... fitar além,
muito além do que os meus pés
alcançam, o começo de tudo.
Quem dera eu, meu Deus, por
tua justiça e por tua lei começar
tudo outra vez... e caminhar
através desse solo seco, mesmo
não tendo os dois pés no chão.

29 março, 2010

MALBARATO (Cacau Loureiro)


Na hora aguda quando se fez imprescindível a escolha,
a voz emudeceu. Não houve a sustentação do olhar e a
omissão pesou sobre a cabeça do parco; não é lutador
aquele que dobra a espinha para a derrota antes da batalha.
Ganha-se uma peleja com ossos e músculos, indispensável
a tenaz vontade.
Não respeito os que entram na arena da vida para
obterem meia vitória, pois que aprendi dignidade e
confiança ainda no ventre de minha mãe.
Dentre todas as bandeiras, eu estendo a da verdade,
dentre todos os escudos eu amparo-me na esperança.
Causa-me espanto os derrotados de plantão, os
miseráveis de instinto, porque pautam suas existências

no que sobra dos covardes, na sombra da submissão.
Para aquele que nunca expressou a disposição para o

brado da valentia eu ordeno o silêncio.
A paz, nós sabemos, só a tem aquele que verdadeiramente
litigou. Não tem minha deferência aquele que se debateu
no fosso das incoerências, onde os espíritos
asquerosos
fincam suas raízes e adormecem "ad aeternum".
Os louros que eu busco não estão nas mãos alheias,
pois que jamais chamei à raia um fraco, não há

justificativa quando vencemos um indolente.
O mundo está cheio de idealistas estáticos, acorrentados

por seus próprios grilhões de medo, desfalecidos no
desprezo e na indiferença que causam ao mundo.
Num relance eu trago à tona todo o passado, reviso os

fatos, não vejo os rastros dos companheiros, o vento e a
poeira deram-me as mãos, contudo não carrego os ecos
do remoto tempo e nem os remorsos dos que nada fizeram,
estou inteira, absoluta e absolvida.
Jamais edificarei meus sonhos na lama dos inconfessos,
tampouco semeio no lodo dos renegados.
Eu aprendi a ter caráter no seio de minha geratriz, porque
ali nutri minha alma não o meu corpo.
A luta não me ensinou a ser sábia, fez-me valente, pois o

sangue dos inocentes fez-me humana, não impassível.
A flecha que me atravessa o peito faz-me digna de minha

história, não mais me dói. Estou aquém dos deuses e muito
além dos homens e das criaturas arrancadas donde não sei.
Os gritos que ouvi empunhando a minha espada não eram dos

inimigos cruéis, eram os meus...
Para aquele que me viu ser atraiçoada e não me defendeu eu

deixo a suprema lei e a minha repulsa silenciosa.

27 março, 2010

ARAUTO (Cacau Loureiro)


Teçamos outros caminhos sabendo que o itinerário
não tem volta, porque o outrora traçado já deixou
seu ensinamento.
É hora de seguir a direção dos bons ventos, o curso
das águas claras; não mais dar braços ao passado ou
ouvidos aos indiferentes.
É hora de vivenciarmos a profunda comutação que
se opera em nós apesar dos abalos do mundo.
Não aprendamos, apesar dos muitos “profitentes”,
o sermos banais, omissos, pois alguns só são felizes
lustrando suas próprias imagens no espelho das
insígnias que os cercam.
Não nos ocupemos dos que trazem a discórdia nas
mãos como se fosse a bandeira da paz.
Não nos apiedemos dos rastejantes de espírito, não
nos toquemos com os vazios de alma, não nos incitemos
com os falaciosos oradores e nem com os bonzinhos demais;
ignoremos os demagogos de plantão, dispensemos os
falsos idealistas, não levantemos os pendões que matam
a esperança e proliferam a guerra, não percamos mais
tempo com os pusilânimes.
Usemos nossos talentos e sensibilidade para sermos os
arautos de um novo tempo de ideologias sinceras com
o real cunho da transformação que na verdade deverá
começar em nós mesmos!...

24 março, 2010

SALMO DÉCIMO SÉTIMO (Cacau Loureiro)


Aquele que articula suas mazelas para engodar o
firme, jamais se levantará!...
Que caiam por terra os que dão ouvidos a fraude
sem buscar o fato fidedigno.
Pai Poderoso, aguardo em Ti o que é de direito,
posto que os devassos continuam a espalhar
o cinismo por sobre a tua aldeia larga.
Dilata, Santíssimo, as minhas vistas para que eu
possa ver os prepotentes, estenda oh Pai, o meu
entendimento para que eu livre-me dos males
que os sórdidos apregoam.
Abriguei-me Senhor sob o teu telhado para que
eu pudesse apreender os teus ensinamentos e andar
firme depois da tempestade. Por isto, eu limpo o
meu coração dos detritos humanos para receber
os teus conselhos em harmonia, em paz.
Aparta oh Pai, os traidores e os impostores do
meu caminho, pois que já não mais cultivo a
paciência conclamada por teus escritos longevos.
Nenhum humano está isento dos teus provérbios
de equidade e eu prostro-me ao que para mim está
designado, não tenho medo.
Mas, eu sei que o teu látego é vigoroso e enérgico,
ponho nele a minha crença e confiança.
Poupa-me Deus meu da corruptela que obstrui
o caminho dos que seguem com integridade.
E que aqueles que são contaminados pelas palavras
capciosas e embrenham-se no ardil dos ordinários
possam conhecer o teu cinzel de retidão e probidade.
Afasta Senhor, poupa-me dos velhacos que transformam
esta passagem terrena em atos de politicagem e ingratidão.
Redime o Pai aqueles que adulteram e dissimulam as tuas
palavras santas e conspurcam as tuas libações de santidade.
Em teu cálice honroso eu quero beber à tua aliança e que eu
possa pelo sangue do teu filho predileto ser purificado,
convertendo-me num ser virtuoso, honrado e corajoso. Amém.

21 março, 2010

DELÍRIO (Cacau Loureiro)


Quando nossos olhos cruzam-se e tu foges
da minha petição, fica ainda o perfume das
acácias a pairar no ar, assim como permanece
o meu desejo.
Por que com selvagem instinto refugas e
trotas o chão ariscamente?!
O meu diálogo eu teço caprichosamente no
pequeno instante em que se sondam nossos
olhos, e digo-te tanto falando tão pouco...
A multidão cerca-nos, mas o meu mundo
fechou-se já em ti.
E as palavras ainda diminutas dizem-nos
de tal maneira; e os olhares furtivos falam
tão alto!...
Estou pedindo permissão e sei que já tenho
licença, contudo o jogo da sedução inebria
como vinho, é carmim como o fogo que me
alimenta os sentidos.
O sol que vai alto passa despercebido ante
a metafísica que nos envolve, pois que a tua
rara beleza, esbelta e jovial dança ao derredor
movimentando sorrisos.
Alguém dedilha o violão, a canção que ouço já
tomei para nós, toca profundamente em mim.
Há o flerte no corpo, na boca, no doce da tua voz.
O que dizes é música aos meus ouvidos, porque
não há constrangimentos e já não tenho pressa,
posto que o encontro aconteceu.
Não te desnudo, porquanto tua arquitetura
mais que muito eu domino.
Há uma luz que adentra a minha porta como
abrasador clarão...
Ah! Quando eu pegar a tua mão, ah! quando eu
pegar a tua mão... faremos a mais linda viagem!...

SALMO DÉCIMO SEXTO (Cacau Loureiro)


Pai de infinita bondade, é desalentador crer nos homens,
embora, sido feitos a tua semelhança não demonstremos
a mesma face.
O gérmen da discórdia está arraigado em suas entranhas e degenera suas virtudes postas por ti em nós como a carne
imersa em tonel de álcool.
Enquanto não levantarmos nossos olhos e não alçarmos
nossos corações aos céus, a sombra dos desencontros
nos alcançará.
Um coração de pedra meu Deus, é fácil de ser quebrado
e pedaços não se multiplicam para criar o todo proveitoso.
A contenda ainda impera em nossas arenas, e nós como
abutres, não largamos as vísceras fétidas dos interesses
mundanos.
Senhor, as águas, quando aparentam placidez é porque
no subterrâneo movem-se os infortúnios dos que professam
os males, pois que suas raízes são profanas e atormentadas.
Valei-nos oh, Justíssimo!
Ajuda-nos oh, Eterno a botar fora o azeite estagnado que
represamos em nossos cântaros envelhecidos pelo
desencanto e pela desilusão.
Raspai oh, Pai a futilidade que como crosta aderiu em
nossas peles e tornou nossos espíritos ásperos.
O cordeiro que vivia em nós, há muito foi supliciado
e não mais lhe permitimos a ressurreição.
A morte em vida nos ceifa a esperança, e sem este
galardão não se prepara futuro algum.
Extirpa-nos oh, Brando o fel que contamina nossas
almas da presunção e da petulância, com teu zéfiro
afasta de nós a fraude e a injúria.
Tira Deus meu o poder dos tiranos, pois que não há nada mais
fugaz do que o poder terreno diante da tua potestade divina.
Abre-nos as cortinas e apresenta-nos os teus castiçais de iluminada sabedoria e queima grande Pai o véu que nos estorva a visão.
Por misericórdia Deus meu, arrancai de nós o espírito imundo e
lava-o com tuas próprias mãos e devolva-nos retorcidos como
roupa lavada sobre pedras dos teus rios de águas correntes, mas,
devolva-nos limpos.
Amansa oh, Senhor, a fúria das palavras que nos remetem
feito feras sobre nossos irmãos indefesos.
Retém oh Senhor, nossos atos de destruição que como terremoto balança o chão dos que desconhecem as tuas palavras e o teu sacrifício.
Intercede oh Digníssimo, ponha a tua mão que tudo
alcança e aplaca a ira dos usurpadores, ponha a salvo
todo aquele que justifica a tua soberana vontade.
Dá-nos Senhor, humildade e mansidão e afasta de nós a omissão e a ganância, porque o que se diz dono de tudo
não é digno de ser filho do dono deste mundo .
Pai de amor e também de austeridade, faça a tua justiça como
te convém, mostre-nos de uma vez que só tu és tremendo!

18 março, 2010

SALMO DÉCIMO QUINTO (Cacau Loureiro)


Pai de infinita bondade, ponho-me diante
de ti em reverência para que possas sagrar
o meu ânimo com coragem.
Os homens vivem afeitos à ganância dos
bens materiais. Faça-me Senhor, simples
para que eu aprenda a viver com o necessário.
O homem débil anda as cegas em busca desenfreada
pelo futuro e esquece-se de plantar o seu melhor
no hoje. Faça-me Senhor agradecido para cultivar
o presente como a tua melhor graça.
Os teus campos sobejam em trigo e em flores,
por que o homem fecha-se a partilha?!
A cegueira grassa por este mundo de muitos
donos, pois que os pretensiosos renegam que
só Tu és Senhor de todas as coisas e causas.
Ouça a minha prece oh Pai de Ilimitada benignidade
para que o teu fanal de luz derreta seus corações
de pedra. O chicote daqueles que pisam a tua
seara não transforma e nem corrige, antes humilha
e degrada. Venha com a tua santidade marcar um
novo tempo no espírito dos teus filhos brutos.
Alargai oh pai a tua eira e faça pesar a tua charrua
em nossas mãos para que valorizemos as tuas sementes
e o teu eterno labor para a nossa real transformação.
Deitou-se em omissão a humanidade, até quando
descansaremos no impróprio?!
As correntes que nos prendem já não fazem tanto
alarde, à surdina escraviza-nos e corrompe-nos,
porque a perdição é sorrateira como a serpente.
O sangue do teu Primogênito não fora o bastante?!
Continuamos a assistir estáticos a crucificação dos
teus bons filhos; não esboçamos quaisquer reações
e ocultamos a tua justiça atrás de nossa torpeza.
O homem manipula, mente e entrega seu irmão à
miséria, sucumbe aos caprichos mundanos da carne.
O amor como nos ensinastes está perdido no verbo
da difamação e na estratégia dos blefes.
Desça sobre nós oh Pai a tua verdade como luz

que liberta e desvenda o oculto.
Limpe com o teu bordão os nossos pés que com

desgraça calçamos.
Os líderes da tua nação andam cabisbaixos, pois
que a cobiça e a cupidez viraram o adorno de suas
frontes, que o teu ungido com a jóia de lótus, oh

Grandioso, traga-nos a verdadeira iluminação.
Assim seja.