SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

12 novembro, 2009

SEARA (Cacau Loureiro)

Em voo libertador eu pego em tuas mãos,
Somos como grãos de areia na montanha
Das promessas...
O altíssimo olha do cume as sementes que
Disseminamos, pois o chão recebe em graça,
Sequioso, os sonhos que engendramos.
Somos, entre muitos, os escolhidos na seara
Da bondade, talvez não sejamos dignos
Da responsabilidade que arcamos.
Nutrimos o entusiasmo, que é benção e
Dom supremo; rebrilha como auréola sobre
Nossas cabeças ilustradas.
Todavia, a força que vem do alto é soberana
E santíssima, está em nossa fronte como
Escudo e broquel.
Carregamos o destemor em nossos âmagos
Consagrados, não tememos o inimigo, pois
Que a fé nos abjugou...
Abjuramos os vãos sofismas, pois a equidade
É quem liberta, arrebenta os grilhões da
Falsa e torpe caridade.
Nossos olhos vêem as cenas tristes, nossos
Lábios calam muitos lamentos!...
Mas o impulso do Criador renova suas criaturas,
Fortalece eternos laços na seara da virtude.
Apascentamos nossos espíritos na força do
Supremo, circundando nossos chacras e
Criando novos mantras... Somos uno no
Princípio eterno, fluido batismal energizando
nossos corpos em policromas formas; em dons,
Em luz, em verdade que liberta!...

FORJANDO A ARMADURA (Rudolf Steiner)


Digo não a submeter-me ao medo
Que me tira a alegria de minha liberdade
Que não me deixa arriscar nada,
Que me torna pequeno e mesquinho,
Que me amarra,
Que não me deixa ser direto e franco,
Que me persegue,
Que ocupa negativamente a minha imaginação,
Que sempre pinta visões sombrias.
No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo.
Quero viver, não quero encarcerar-me.
Não quero ser amigável por ter medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro, não para encobrir meu medo.
E quando me calo, quero fazê-lo por amor, não por temer as conseqüências de minhas palavras.
Não quero acreditar em algo só pelo medo de não acreditar.
Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim;
Por medo de errar, não quero tornar-me inativo.
Não quero fugir de volta para o velho, para o inaceitável, por medo de não me sentir seguro novamente.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de ser, caso contrário, ignorado.
Por convicção e amor quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao Amor.
E quero crer no reino que existe em mim.

PORTAS DA VIDA (Içami Tiba)


Se você abre uma porta, você pode ou não entrar em uma nova sala.
Você pode não entrar e ficar observando a vida. Mas se você vence a dúvida, o temor, e entra, dá um grande passo: nesta sala vive-se! Mas, também, tem um preço... São inúmeras outras portas que você descobre.
O grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta. A vida não é rigorosa, ela propicia erros e acertos. Os erros podem ser transformados em acertos quando com eles se aprende. Não existe a segurança do acerto eterno.
A vida é generosa, a cada sala que se vive, descobrem-se tantas outras portas.
E a vida enriquece quem se arrisca a abrir novas portas.
Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosamente oferece afortunadas portas.
Mas a vida também pode ser dura e severa.
Se você não ultrapassar a porta, terá sempre a mesma porta pela frente.
É a repetição perante a criação, é a monotonia... A estagnação da vida.
Para a vida, as portas não são obstáculos, mas diferentes passagens!

E VAMOS SEGUINDO PELAS PORTAS DA VIDA!

10 novembro, 2009

A RÃ E O ESCORPIÃO (La Fontaine)

O fogo crepitava feroz e avassalador. Na margem do largo rio, que permeava a floresta, encontram-se a rã e o escorpião.

Lépida e faceira, a rã prepara-se para o salto nas águas salvadoras. O escorpião – que não sabe nadar – aterroriza-se ante a morte certa, ou estorricado pelas chamas ou impiedosamente tragado pelas águas revoltas.

Arguto, e num esforço derradeiro, implora o escorpião:

– Bela rã, leva-me nas tuas costas na travessia do rio!

– Não confio em ti! Teu ferrão é inclemente e mortal – responde a rã.

– Jamais tamanha ingratidão. Ademais, se eu te picar, morte certa para nós dois.

– É verdade, pensou candidamente o bondoso batráquio. En­­tão suba!

E lá se foram, irmanados e felizes. No entanto, no meio da travessia, a rã é atingida no dorso por uma impiedosa ferroada. Entremeando dor e revolta, trava o derradeiro diálogo:

– Quanta maldade! – exclama a rã, contorcendo-se. – Não vês que morreremos os dois?!

– Sim – responde o escorpião – Mas esta é a minha natureza!

MAIS OU MENOS (Chico Xavier)

A gente pode morar
numa casa mais ou menos,
numa rua mais ou menos,
numa cidade mais ou menos
e até ter um governo mais ou menos.

A gente pode dormir
numa cama mais ou menos,
comer um feijão mais ou menos,
ter um transporte mais ou menos
e até ser obrigado a acreditar
mais ou menos no futuro.

A gente pode olhar em volta e sentir
que tudo está mais ou menos,
tudo bem!

Mas o que a gente não pode mesmo,
nunca, de jeito nenhum:
É amar mais ou menos,
é sonhar mais ou menos,
é ser amigo mais ou menos,
é namorar mais ou menos,
é ter fé mais ou menos,
é acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o risco de se tornar
uma pessoa mais ou menos.

DISSIMULAÇÃO (Irineu Deliberalli)

Popularmente, o dissimulado é uma pessoa que propositadamente procura encobrir os seus sentimentos ou até atitudes, pois tem algum interesse em se manter assim, visando obter alguma vantagem da situação. Certamente, todos nós temos encontrado e convivido com diversas pessoas assim, que possuem uma falha tão forte de caráter que julgam os caracteres das outras pessoas pelas deformidades do seu pensar e, não é raro, estas pessoas se tornam mesquinhas, egoístas, exclusivistas. Mas não é só para obter vantagem, mas também por causa do medo que o outro o perceba e descubra que no seu interior, fervem sentimentos desajustados, inconseqüentes e, para muitos, incontroláveis. A dissimulação é um enorme mecanismo de defesa, pois o que tenho em mim, o que sinto dentro de mim ou minhas idéias e sentimentos são tão inconfessáveis, condenáveis ou egoístas, que eu não consigo dividir com ninguém o que vai no meu coração. Por que será que um ser humano se torna assim? Para explicar um pouco melhor vamos, em primeiro lugar, afirmar que a dissimulação é uma das maiores doenças do nosso ego, se não for a maior. Entendemos que ela deve ter surgido, pelo menos aqui no planeta Terra, para encobrir as emoções negativas que foram geradas entre as nossas diferenças. Num determinado momento da vida planetária, quando já estávamos vivendo a 3ª geração de seres ascensos aqui na terra, chegaram seres de outros espaços do universo e vieram habitar entre os terráqueos, trazendo seus vícios, seus costumes e maneiras diferenciadas de culturas. Encontraram aqui na Terra pessoas que viviam num ideal de elevação, todos trabalhando para o mesmo fim, vivendo experiências semelhantes e tinham no amor, sem o apego e com a participação coletiva, a grande força da população terrena. Aqui se vivia uma geração de homens que praticavam o amor. Os seres vindos de outras galáxias, bem mais experientes, com altíssima tecnologia, vieram para cá por não terem aprendido a vivenciar a experiência do amor. Os planos superiores do universo permitiram que estes seres viessem trazer um padrão novo ao planeta. Vir ajudar a implantar, no planeta, uma nova civilização que aliasse tecnologia, conhecimento e amor. Assim, na Mãe Terra, como biblioteca viva de experiências universais, seria implantada uma das civilizações mais especiais em termos de perfeição física e desenvolvimento de uma psiquê rica em conhecimentos e vivências. Tudo o que ocorreu depois foi conseqüência da maneira como entendemos estas diferenças e de como lidamos com os medos, culpas, ansiedades, inseguranças, que estas diferenças nos trouxeram. Tudo foi e ainda é uma grande fantasia. Eu fiquei com medo do outro, pois ele tinha um saber ou uma experiência diferente daquela que eu tinha e isto me provocou o surgimento de uma intensa necessidade de esconder meus sentimentos, daí desenvolvi a dissimulação. Moreno, fundador do Psicodrama, foi tirar do teatro grego as personas, ou seja, as máscaras; por volta de 1923 em Viena, Áustria, ao criar o teatro da espontaneidade, os personagens se baseavam nas experiências do teatro grego, onde os atores da Grécia antiga usavam máscaras na hora de representarem, e com Moreno, usavam as máscaras da própria personalidade, pois quando os atores das encenações públicas faziam no palco papéis semelhantes aos da sua vida real melhoravam de seus conflitos e praticamente mudavam seus comportamentos. Para se entender melhor, quando faço a catarse ou enfrento um sentimento tenho a chance de me libertar do seu domínio, sentir o alívio que esta libertação representa. Se quem dissimula soubesse que se enfrentasse a sua dificuldade e saísse da fantasia do medo de revelar suas reais intenções poderia viver muito melhor, seria mais livre e feliz. Bem, e eu, como fico com a dissimulação? Serei igual a esta pessoa descrita acima? Como meu caráter se relaciona com a dissimulação? Ao nível do senso comum, sem entrar na patologia da dissimulação, podemos dizer que a dissimulação está presente em todos nós. Certamente ela nos tira diversas oportunidades de crescimento pessoal, de enfrentamento de nossas realidades internas e de nossa verdade pessoal e universal. Quando dissimulamos, não enfrentamos nossa verdade e fugimos de nossa realidade. Aquela realidade de conteúdos nossos ou dos outros, que não queremos enxergar. Ver a nossa realidade, muitas vezes dói. Também me fragiliza ver as coisas que não gosto em mim e que não quero, ou não sei como mudar. E então me pergunto: Como mudar uma estrutura cristalizada, arraigada, atrás da qual me escondo, para que ninguém veja a realidade de sentimentos e de alma? Mexer com meu padrão mental e de vícios é uma coisa bastante difícil e poucas pessoas estão disponíveis para tal. Mexer dói, nos acovarda, nos diminui, nos afugenta de nós mesmos e aí a dissimulação entra para nos proteger, tentando manter a fantasia anteriormente estabelecida. Voltando à pergunta de como mudar: a experiência tem me mostrado que, em primeiro lugar, eu só mudo o que quero mudar. O segundo passo para a mudança é a intenção de mudar. É reconhecer que mudando serei melhor, que ganharei mais qualidade de vida. O terceiro passo é o comprometimento. Me comprometer com o objetivo da mudança, assumir responsabilidades, correr os riscos que qualquer mudança traz. E nada disso ocorrerá se antes da intenção e comprometimento, eu não resolver algo mais especial e importante que tudo: a paixão... A paixão pelo padrão adquirido. Preciso substituir a paixão por algo mais prazeroso do que ela. Você está disponível?

(Irineu Deliberalli É Psicólogo Tradicional e Transpessoal/Xamânico)

A ARANHA, O GAFANHOTO E O CAMALEÃO (La Fontaine)

A ARANHA, O GAFANHOTO E O CAMALEÃO (Fábula de Jean de La Fontaine)
A aranha, o gafanhoto e o camaleão habitavam o aprazível bosque da cidade. Conviviam a uma distância razoável, pois, reciprocamente, temiam as artimanhas que sempre eram recorrentes.
A aranha foi a primeira a urdir:
– Meu caro gafanhoto, sejamos previdentes e cuidadosos! O camaleão é o rei dos disfarces, muda de cor e a gente nem percebe.
– É mesmo! – completa o gafanhoto. Ele fica nos troncos das árvores com cara de “boi-sonso” e é só passar por perto que ele estica aquela língua imensa e... “crau!”.
– Sim, companheiro, sempre alerta! continua a aranha. – Eu passo o dia fiando, mas é um olho na teia, o outro no ca­­maleão. Você sabe, o seguro morreu de velho. Precaução e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, dizia a minha avó.
– Belos conselhos, Dona Ara­­nha. Esse camaleão é o mestre da desfaçatez, é o rei da dissimulação.
– Vá por mim! Dificilmente eu me engano! – E tem mais disse a aranha sussurrando. O camaleão tem uma armadilha mortal! Chegue mais perto, meu caro amigo gafanhoto, que eu lhe contarei.
Ingenuamente, o gafanhoto se aproxima e se enrosca todo na teia. Diante da morte certa, fica a pensar o quanto foi bobo em confiar na ardilosa aranha.

08 novembro, 2009

QUE REI SOU EU?! (Cacau Loureiro)


De súbito o portal abriu-se feito um clarão
e o insight guardado na arca do tempo
surgiu em minha memória tal qual trovão.
De repente todo o imaginário desejou ser realidade...
Adentrei o paralelo mundo e vislumbrei o encanto,
o contentamento supra-humano de um corpo
essencialmente mortal.
Nas vastas glebas, sementes perfumadas confiei nas
mãos de tirano carrasco vestido em seda colorida.
Depositei singular tesouro em castelo soberano,
mas, não há solo fértil para mãos envenenadas!...
Oráculos seculares na roda da vida ditaram a
minha história.
Meu espírito antigo no vórtice do tempo viajou
para encontrar várzeas floridas.
Há descaminho na trajetória de um ente que
recebeu divino sopro?!
Ouvi um eco no buraco do tempo:
És andrajo, és louco!!!
No espaço-tempo eu não previ a escassez
humana, o tão pouco.
Como guerreiro eu entreguei a minha adaga na
confiança da palavra dada, na suposta nobreza
das humanas índoles.
No entanto nas searas por onde andei mil
vozes gritavam-me: batalha, batalha!!
Onde existirão os nobres reis, as diáfanas donzelas,
pois que meu coração foi jogado aos leões ávidos.
Nas arenas onde travei tantos embates a besta fera
permaneceu no anfiteatro da espera.
Sangue e areia, carne exposta ao abutres testemunhei.
Nos aplausos que escutei... Será? Talvez?...
Cadê os príncipes, cadê os reis, damas da corte,
cavalheiros gentis?
Tragicomédia, burlesca fábula em que eu piamente
acreditei!...
Na seiva nobre derramada deste plebeu o golpe sujo
muito doeu.
Não tive exércitos, não tive méritos, não fui julgado
honestamente ante os tribunos à luz da lei.
Não tive cetro, não tive manto...
Minha coroa jogada aos cantos cunhada em ouro
e diamantes foi meu broquel, foi minha espada,
foi o meu pranto, foi a minha força, foi o meu
lamento, foi o meu código, foi a minha honra,
também minha sentença máxima e profana.
Que rei sou eu?!