SOBRE ESTE ESPAÇO

"Este espaço reúne textos escritos ao longo dos anos, todos datados conforme o tempo em que nasceram. Não foram revisitados para correções de sentido ou intenção, pois cada palavra guarda a atmosfera emocional, espiritual e humana do seu próprio momento. O que aqui se apresenta não é uma narrativa linear, tampouco uma versão definitiva de quem escreve. É um percurso. Um registro sensível de atravessamentos, amadurecimentos, silêncios, afetos e travessias. A escrita que habita este lugar nasce do encontro entre poesia, espiritualidade e experiência vivida. Não pretende ensinar, convencer ou explicar — apenas partilhar estados de consciência, imagens e sentimentos que pediram forma. Quem lê é convidado a caminhar sem pressa, respeitando o tempo dos textos e o seu próprio. Algumas palavras são sementes, outras são espelhos. Cada leitura encontrará o que estiver pronta para encontrar."

REFLEXÃO

"Ao permanecer, iluminei. Não para salvar, não para provar, não para ser menos. Iluminei para seguir inteira." Claudia Loureiro

21 setembro, 2009

TECENDO A MANHÃ


Aguardo a aurora desta noite
hoje escura...
De um alvorecer de toques, de
beijos, de pétalas, de corpos nus.
De um sol ameno, embora abrasador
que aqueça os meus sentimentos
agora crus.
E quero acordar, assim, tranqüila
e calma, como a névoa da manhã...
Todavia, não abdicarei do afã dos
desejos, da sofreguidão dos teus
beijos, das promessas, no depois...
Eu teço os meus versos e assim
vou tecendo a manhã, os meus
sonhos, os meus carinhos.
Não escondo o que sou, o que
quero, o que espero, pois que no
meu silêncio intranqüilo eu a ti
me confesso...
No meu coração, no meu corpo,
apenas, desejo, paixão, afeto...

SILENTE


Não tem sentido olhar adiante
enquanto o teu coração está vazio.
Como poderei semear em um
solo que não está arado?!
Oro aos céus pela chuva, pelo
sol... cultivo tudo, até o mar
do teu desprezo.
Queria assim: você luz e eu
semente, mas não tem sentido
olhar adiante onde não te encontrarei,
pois que és sabedor daquilo
que me excita a pele, que me incita
à vida, que me exercita os dias.
Meu intento é descobrir o antídoto
para toda esta sensibilidade que
me aflora com um simples pensamento
em torno de ti.
Não queria que fosse assim, simplesmente...
Não tem sentido olhar adiante, mas
ainda sorvo vagarosamente teus
lábios, entrelaço ainda minhas mãos
por teus cabelos, e em tua língua
ainda salivo todo o meu desejo
imenso em ainda te ter.
São milhares as palavras que
invento, são centenas os rascunhos
dos meus versos, dezenas as estrofes
que não mereces.
Para ti não componho sequer mais um
soneto, é tudo! És todo o meu desassossego...
E ainda assim, tu feres todos os meus mais
nobres sentimentos com teu duro, frio e
indolente silêncio.

PRIMAVERA



 Esta brisa que sopra neste começo de tarde, faz-me doer até os ossos. É a lembrança que me faz doer o peito, faz-me tiritar em calafrios. Fixo os meus olhos na névoa triste, tentativa frustrada de ver-te ao longe. Meu ser em desafio persegue-te em recordações. Sigo neste afã para que não fujas de minha memória, posto que já te tenho em meu coração. És lício para todos os meus males, és o vício de todos os meus dias... Necessito redesenhar-te como uma escultura entre os meus dedos, preciso te ver, preciso te ter. Mais do que palavras, as quais escrevo, gostaria de compor uma canção, que falasse de tardes frias, mas, primaveris, de névoa triste, mas, de ser feliz... talvez, não conseguisse canta-la, com certeza, recita-la... e reescreveria com meus dedos, minhas mãos, meus lábios, toda a poesia dos teus traços... matizaria tua face, alegraria meu espírito, por um instante apenas que eu te fitasse. Contudo, guardo em meu coração a primavera desarraigada pela tua ausência, cultivo em algum recôndito do meu ser a voz da tua inocência; uma vontade louca, a própria indecência, de embalar-te nos meus versos, de apertar-te em meus braços... Primavera e uma canção...

DOIS (CANTA PAULO RICARDO)

CÍTARA


Tanjo as notas do esquecimento, como
não volver aos teus braços?
A canção adormecida em mim, talvez
não vibre mais em ti, porém, entôo-te
mesmo assim.
Quero florir de novo o meu caminho,
dedilhar novas canções em meu silêncio,
decerto, sem o teu carinho, todavia, a
saudade há de partir.
Eu olho para trás, não mais ressoarei
em ré, em meu coração eu arpejo sem dó
a falta que sinto por ti!...
Lá onde a lembrança ressoa triste, a
pesarosa ária não mais impedirá que eu
module a minha vida, que em meu próprio
ritmo eu prossiga.
Melancólicos sons ecoam no infinito remoto
de minha inspiração, pois que te aperto no
cravelhal que é o meu peito, comprimo-te
em meus desprezados trastos, afino a dor,
contudo, tu te expandes na rosácea da minha
alma aberta, melodia sem entonação...
Toco ainda as cordas do longevo tempo...
lá... si... existiu um sol... entretanto, não mais
propagarei teu nome nas cordas do meu coração.

19 setembro, 2009

RACA


Hoje o meu discurso é sobre a mediocridade. Por que ainda fico estarrecida com a índole de algumas pessoas, criaturas que eu penso foram criadas por Deus?
Fico ainda horrorizada como a religião é usada para mascarar seus caracteres dúbios. E confesso, fico indignada com os espíritos atrofiados pela falta de vontade de progredir, de melhorar as suas escolhas, pura ignorância, porque ela, sim, a ignorância explica todas as coisas e causas desses representantes da humanidade.
Muitos anos atrás optei pelo magistério na esperança de que pudesse contribuir de alguma forma na fomentação dos indivíduos, desisti bem rápido confesso, pois que alguns valores tem que vir de berço. Nós temos que ir em busca de uma verdade que nos liberte de fato.
Ontem vi o Globo Repórter, crianças que foram adotadas, muito dignificante, quero acreditar ainda que em algum canto existe este amor incondicional pelos seres. Ali vi poucos exemplos, será que isto um dia chegará a ser maioria?! Veja quem tem olhos para ver. Pois estou na estrada desta vida observando, e em alguns poucos momentos, admito, contribuindo.
Vejo muitas criaturas perdidas em si mesmas, em seus objetivos, confesso que é muito importante ter objetivos, direcionar nossas vidas para algo bom e melhor para a existência, para o presente, para o futuro, faz parte do contexto do viver.
O que me intriga e revolta é como as pessoas colocam antolhos e partem para a frente, isto porque elas pensam que andar para frente é quando não olhamos para os lados; e saem atropelando a multidão de pessoas que poderiam também contribuir para o progresso delas.
A falácia dos homens não está embutidade de autenticidade, sequer de verdade, colocamos nossas vidas a mercê de uma salvação palestrada por padres, pastores, bispos, mentores, gurus, etc, etc., mas não fazemos o exercício do que temos intrinsecamente guardado em nosso âmago, valores depositados pela própria divindade para que ao longo da vida fôssemos descobrindo, expondo, distribuindo, partilhando.
O mundo transformou-se numa máquina de fazer gente através de livros de auto-ajuda, poderes distribuidos por pseudos enviados de Deus para indivíduos que precisam apenas ser amados e assim aprender a amar. “Deus” está além dos mecanismos da usurpação dos dízimos, da deturpação das almas humanas.
Raca!... Esta é a palavra que eu proferiria hoje para designar, tratar elementos que usam de posturas estudadas, discursos mais do que batidos, estropiados por vãs filosofias, hipócritas teologias, por silogismos de conclusões tacanhas que só edificam sofismas na cabeça e na vida de pessoas já destroçadas pelas decepções e pelas misérias humanas.
Tenho visto de forma generalizada pessoas usarem da boa vontade das outras, consumirem a lealdade delas por interesses escusos, pela busca insana pelo poder material a qualquer preço, a qualquer custo.
Não me considero uma pessoa boazinha, e nem o quero ser, pois que também cansei disso, apenas tento me proteger para não corromper ainda mais o que fui, o que sou, o que nasci para ser.
Tenho nadado contra a correnteza, isto tem um custo alto. As pessoas se vestem para agradar, colocam uma armadura de “boas”, de “compreensivas”, de “amigas”, de “dóceis’, de Joanas D’arcs convictas de sua missão, de madres Tereza dispostas a abdicar de sua própria vida em detrimentos dos outros, tudo, tudo, tudo balela.
Há alguns anos parei para observar, e esta andança tem sido um calvário, admitir que o ser humano está muito aquém dos desígnios que Deus quer para o mundo, para o próprio homem, em algum lugar deste universo há de ter uma civilização à altura do nosso Criador para levar adiante esta obra maravilhosa que é a vida.
Pessoas passando outras para trás por qualquer ninharia, seres que não valem um tostão furado porque vendem suas almas para massagearem seus egos cheios de frustrações; exercitam seus egoísmos em nome de uma liberdade exclusiva e fútil, monstros que se devoram em ambições torpes, vendedores de ilusões; é a filosofia barata a grassar nas esquinas, nos cantos das praças, nos templos, na televisão, nas rádios e até mesmo nas salas de aula.
Do que nos omitidos em nome da individualidade?
Do que nos esquivamos em nome da privacidade?
Do que nos escondemos em nome da justiça?
Do que nos imbuímos em nome da ganância?
Do que nos fantasiamos em nome da bondade?
Do que nos disfarçamos em nome da caridade?
Do que nos revestimos em nome da ambição?
Do que nos protegemos em nome do silêncio?
Do que nos ocultamos em nome do amor?
É triste ver a mediocridade assumindo o poder!

17 setembro, 2009

ARRITMIA


No poente a brisa rompe o silêncio...
A aragem bate fria no rosto, enrijece
minha alma ora de vidro, ora de pedra.
Inflexivel ela quebra na toada de dias vagos,
dias extensos, escasseados de afeto...
Ir e vir de fúria, vir e ir de resignação que
estagna meus versos, que detem meus passos.
Em meu íntimo todos os sossegos recolhidos,
reprimidos no que um dia eu fora, no que agora
não me deixo ser.
Não há espectros a dispersar, a retirada é da
poesia numa continuada estrofe que não tem
efeito e nem assepsia a minha alma decepcionada.
O grito inibido no bater de cada hora que não
cessa o dia, que não traz a noite, que não muda
a história...
Não há pressa, não há demora, não há tempo,
não existe os dias, tudo em suspenso, há apenas
o espaço onde tudo se perdeu num fosso.
A cova das vaidades enterrou desejos, apagou
sonhos, sufocou anseios, ofuscou a esperança,
destruiu promessas.
Nos confins do mundo que me resta ouço os
ruídos das asas que outrora me foram escudos.
Ante as correntes que maculam meus pulsos eu
compreendo que a liberdade é desumanamente
maior que nós... e que não há liberdade sem amor,
e que não há amor sem os grilhões dos desvelos.
No turbilhão que me entontece diante dos nadas
em que diariamente mergulho, eu aprisiono todas
as melodias primorosas para que a dor seja menor...
Lá sol, aqui dó... tudo em mim... arritmia.

16 setembro, 2009

À MEIA-LUZ


Suscitas em mim
místico capricho,
encanto, feitiço
ao me possuir.
E por assim me ver,
perco-me em lençóis,
filós e cetins...
É como assim dizer
da capitosa vida que
como licor escorre-me
dos poros, sobe-me à cabeça.
À meia-luz de um quarto
de hora, eu esmero os
meus beijos e calo a tua boca.
Ao teu lado eu fico à meio
passo do eterno das horas.