LÍRICOS OLHARES

LÍRICOS OLHARES

PENSAMENTO DO DIA

"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

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REFLEXÃO

"Por mais que se mantêm em consideração as circunstâncias do tempo, do lugar, do gênio do povo, dos seus conhecimentos, de suas inclinações, falham os cálculos, desmoronam-se os edifícios, inutilizam-se os trabalhos e só se colhe o conhecimento de que não se acertou e que o coração do homem é um abismo insondável, e um mistério que se não pode entender". (Frei Caneca)




27 de setembro de 2013

ESTRIBILHO (Cacau Loureiro)


            















É o vento que ritma o meu relógio...

Não sei parar o pensamento, e pairo

nesta tarde fria que faz cair a noite

sobre mim...

Quero extrair poesia onde não há

estrofes e nem melodias; quero trazer

de volta a aurora que me tornou poetisa

e criou meus versos mais bonitos.

Quero prorromper em paz no fogo

que me consome, no burburinho

que não me desperta; quero ser o

sopro e a corda dos acordes que

habitam minha alma em diapasão.

Guerra e paz, sombra e luz,

frio e quente, amaro e mel,

águas mortas, águas vivas em

estribilho de mistificação.

Quero tocar em meu peito as canções

dos ventos que varreram os meus

caminhos como el niño de solidão!...

26 de setembro de 2013

APAGOGIA (Cacau Loureiro)


Queria decifrar os silêncios...
Silêncios dos que querem ser indecifráveis.
Máscara dos que temem a perda ou que já
perderam e não querem aceitar desvios.
Caminho na penumbra dos que tecem artifícios,
que mudam rumos, acham bifurcações. Mas, eu
quero os caminhos retos, daqueles que chegam
onde tem de chegar...
Hoje, ninguém tem futuro, o edificado no pó
também ao pó pode voltar.
As interseções são mecanismos dos desgastes,
eu quero a marcha dos que pisam o chão com
atitude para ir, lutar e vencer.
Volto-me aos momentos... à poesia onde rascunhei
minha alma, despida, nua... contudo, não mais me
acho, não mais me vejo, não mais me escrevo.
Não quero emudecer as palavras que emergem,
gritam onde nada ecoa, choram onde nada
ressente, dizem onde nada se entende.
Volto-me aos movimentos... ao ritmo que nos
mostrou a dança das nuvens, todavia não mais
me deito nos sonhos de papel onde o meu barquinho
seguia as ondas do infinito.
Volto-me à música que nos guiava pelos horizontes
de Pasárgada e que invadiu por completo acalentando
nossos espíritos pioneiros.
Volto-me ao passado edificado em claridade reluzente
de amor, à poesia primeira, ao verso pintado a quatro
mãos e que nos coloriu por inteiro, feito abdução
extraterrestre, em amplitude de um disco voador!...


13 de setembro de 2013

NÉCTAR (Cacau Loureiro)

Conhecer-te...
Em passado, em presente, em futuro.
Ter minhas mãos entrelaçadas nas tuas e
caminhar em retas e curvas, nessas ruas
profusas de nós... dos desejos nossos.
Relembrar-te no início, dos suspiros
primevos, entre abraços e beijos, pernas
fortes, ancas lisas, costas nuas, fortes laços.
E deitar em lençóis com o teu cheiro e tecer
os meus versos, nada em tons de cinza,
só filós e carmins... nossos corpos deixados
assim, amarrados em sussurros, em vermelho
dos lábios.
Retomar-te em dias a mil passados, tantas
horas, tontos jeitos, sem demoras ou marcos,
e remarcar o teu corpo, sem limites ou pedaços.
Descansar em teu peito, no teu doce jeito de
tocar os meus seios, os néctares da vida e da
alma em fruto aberto, bebida dos deuses em
pura arte de amar...
Revolver-te em paixão do ontem e do agora,
Do amor que doravante haverá de ser e já é
para sempre...

12 de setembro de 2013

TRENS DE FERRO (Cacau Loureiro)

















Nos trilhos em que corremos para o pão de

cada dia, eu tento extrair o sal da terra...

o ácido que nos alimenta a alma de fé por

melhores dias.

Pelos sonhos de meus antepassados que

me fizeram filha, mãe e me farão avó, eu

canto a liberdade e semeio a esperança.

Pois que se não fosse pelo caráter ferroso

dos que vêm ao mundo para a mudança já

teria desistido nestas estações abandonadas

onde as máquinas regem os Homens.

Não tive paradas... em minhas mochilas

carrego o peso de tantas lágrimas em

fornalhas de decepções; mas também de

tantos sorrisos, pontes de realizações.

Andei só em vagões lotados, andei repleta

em vagões vazios... Mas que voe a fumaça

porque pra matar minha sede... pouca gente,

pouca gente... Os Homens para onde seguem?!...

O momento é de andança e não de resignação!...

Sejamos como os astros que acompanham as

locomotivas, ascendamos todos os dias e alertas

permaneçamos todas as horas para aqueles que

nos seguem, mesmo que a orgia dos donos desta

terra nos escondam sob os escombros da mentira

ou na penumbra de suas mentes alienadas nos

paramente da destruição.

Que não desistamos porque os trilhos seguem,

e seguirão, e lá mais adiante tomarão nossos filhos

e netos pelas mãos; e para além eu farei, tu farás,

nós faremos desembarcarem nas estações onde

elas reconheçam a dignidade genuína, o lar que

pertence a todos nós.

Posto que a vida não é só café com pão; e para

tanto faremos muita força, muita força!...

E conosco levaremos muita gente, muita gente!...

E nos velhos trilhos do mundo as asas de nossa

indignação que seja também libertação... E vamos
 
depressa, e vamos correndo, e vamos na toda...

Como trens de ferro, trens de ferro!!